Dark Wood Circus
3 As jaulas
Notas iniciais
Pra infelicidade de Meiko a pequena fenda da tenda não levava ao palco, na verdade ela não sabia que parte do circo era aquela... Nunca havia visto nada parecido com aquilo... Somente em zoológicos.
O lugar estava escuro a única luz vinha de dois lampiões: um em uma mesinha do lado da entrada e outro em outra mesinha perto da fenda por onde Meiko espiava. O local tinha uma forma retangular como um grande e largo corredor e em cada lado dele havia fileiras de... Jaulas? Sim, jaulas!
Mas, por que teriam jaulas em um circo... Talvez para guardar os animais, pensou Meiko. Então ela ouviu um choro, um baixo choro. Vinha de algumas das jaulas.
_Não, não, não...
Repetia a voz chorosa, então Meiko ouviu outra voz, conhecida:
_Não precisa se preocupar com isso. Foi... Só um... Machucadinho.
_Fale por você, foi horrível.
_Rin, ela já está assustada o suficiente!
_Len, seu idiota! Vai ficar quanto tempo consolando essa diva?! Não foi ela quem foi queimada com acido!
Era Rin e Len! Eles estavam dentro de uma das jaulas! O que eles estavam fazendo lá?
Aos poucos os olhos de Meiko foram se acostumando ao local escuro e ela conseguiu enxergar melhor as jaulas e o conteúdo delas.
A primeira jaula do lado esquerdo estava vazia, mas a segunda estava ocupada. A primeira coisa que Meiko percebeu foi verde e branco. Havia metros de cabelos lisos e verdes e também metros de tecido brilhante e branco. Entre esses tecidos havia uma cabeça humana e um par de estranhas pernas similares a de um bode.
O que era aquilo?
Era a mesma pessoa?
Não, com certeza não.
Como pode existir um corpo com uma cabeça normal e pernas como aquelas?
As coxas eram redondas e o resto da perna muito fina, perto do calcanhar o osso se dobrava a um ângulo estranho pra traz, e o pé era esticado e na vertical. Não há palavras para descrever o quão estranho era aquele par de pernas, chegava a ser medonho. Dava medo.
A... Coisa começou a chorar mais alto.
_Me perdoe Rin e Len... Vocês devem estar sentindo uma dor terrível.
_Não foi culpa sua... Não teve nada a ver com você_ Disse Len
Na jaula atrás da Diva Deformada (nome que Meiko resolveu dar) estavam Rin e Len, ou Rin com Len. Os dois estavam agachados perto da junção com a jaula da Diva. Parecia normais, então qual foi a punição que receberam?
_A culpa foi daquela ratinha vermelha idiota!
_Quando você vai me ouvir? Eu disse para não trazermos a Meiko pra cá!
“O que eu fiz¿ Não fui eu que obriguei vocês a saírem do circo!” Pensou Meiko.
_Eu adoraria estrangular aquele pescoçinho quando a encontrar de novo... Ah é mesmo! Alguém vai fazer isso por mim!
_ O que?_ perguntou a Diva
_Rin...
_O que foi Len? Você ouviu o mestre, ele gostou da menina... Logo, logo, vai levá-la ao laboratório... Espero que ela volte bem diferente.
_O que? Pro laboratório? Aquela menininha?
A diva começou a chorar desesperadamente:
_Acalmasse Miku_ disse Len_ Ela... Ela vai ficar bem. Viu o que você fez Rin?
_ Qual é o problema de vocês? Quanto mais gente tiver aqui, menos apresentações nós vamos fazer! Sem contar que foi culpa dela que ISSO aconteceu conosco.
Rin virou a cabeça e apontou para seu rosto. Naquela posição Meiko finalmente pode ver o castigo que o dono do circo aplicou nos siameses. Uma parte de seus rostos estava completamente deformada... O ácido!
Meiko ficou espantada, por que haviam feito aquilo com aquelas crianças? Isso deve ter duído tanto!
O choro da Diva ficou mais alto:
_Pobrezinha. Pobrezinha... Ela vai ver aquele quarto, o quarto vermelho... Não...
_Nos poupe princesa, todos nós enfrentamos o quarto vermelho, o que tem se ela enfrentar ele também?
Uma pessoa riu no recinto:
_Vocês são muito previsíveis.
Meiko olhou para a fileira de jaulas da esquerda, o riso veio na terceira jaula que ficava de frente para Rin e Len. Diferente das outras jaulas aquela tinha uma mesa e uma cadeira de madeira. Uma pessoa estava sentada na mesa. Não dava pra saber se era homem ou mulher somente pela aparência, seu corpo estava completamente envolto em cintos, fivelas, cadeados e correntes. Estava completamente preso na cadeira e a única coisa que podia mover era a cabeça e o pescoço que também estava preso a uma coleira de cachorro com espinhos preso a uma corrente com um grande cadeado. Tinha cabelos curtos lisos e azuis e olhos esbugalhados e negros.
_ O que você quer Kaito? Os que ainda têm um pouco de humanidade estão conversando!
Disse Rin. Bom, ele era um homem. Kaito riu e disse:
_Humanidade... Por que eu iria querer isso? Vocês tem humanidade e vivem sofrendo aqui, eu não tenho humanidade e acho esse lugar maravilhoso.
_Claro que acha, eles te dão comida_ disse Len
Kaito sorriu e inclinou sua cabeça na direção da mesa. Meiko não percebeu, mas havia um prato cheio na mesa... Cheio de... Mãos?! E braços?!
Meiko ficou espantada. Kaito devorava aqueles braços como se fosse o melhor quitute de todos os tempos. Quando ele se levantou havia um filete de sangue escorrendo pela sua boca.
Então, alguém entrou rudemente na sala. Era o dono do circo e ele carregava um sorriso diabólico no rosto e disse:
_ Podem se preparar! A casa está cheia hoje. Deformada! Um amigo meu está na cidade e eu prometi que você seria sua apresentação particular, então se prepare ouviu¿
Depois disso ele saiu.
O choro da Diva (Meiko simplesmente não conseguia chama-la de Miku) ficou ainda mais alto, começava a incomodar:
_Eu quero morrer! Como alguém pode viver assim! Eu só quero sair daqui!
Len colocou uma mão em seu ombro e tentava reconforta-la, mas ele nada poderia fazer. Não havia jeito de resolver aquela situação. Kaito voltou a devorar a sua refeição com gosto e Rin olhava seu reflexo na tigela de água que havia na jaula e tentava dar um jeito na sua cara derretida com ácido.
Não era assim que Meiko recordava dos circos. Pra ela os circos eram alegres e divertidos... Não assim.
Ela tirou o olho da fenda e olhou para o chão, não deveria ter seguido Rin e Len. E agora como voltaria pra casa? Queria muito ver a sua mãe.
_Algum problema pequena?
Perguntou alguém, Meiko levantou a cabeça e viu que era o dono do circo. Na hora ela se afastou dele até que ficasse encurralada na tenda:
_E-e-eu.
Ele sorriu, parecia amigável, mas Meiko conseguia ver a crueldade por traz daqueles pequenos olhos redondos:
_Você estava olhando os outros integrantes da trupe?
_S-sim, q-quer dizer não. Eu... Eu só quero ir pra casa.
_Ah sim, eu a levarei para casa. Mas, por que você não vê o espetáculo de hoje?
_E-eu adoraria, mas... A minha mãe esta me esperando e já está tarde.
_Tenho certeza que ela não vai se incomodar se você se atrasar só mais um pouquinho.
Ele segurou no ombro de Meiko e a guiou até o interior da tenda.
Lá dentro Meiko viu as mais abomináveis coisas e sua mente sofreu um trauma muito grande. O dono do circo aproveitou a mente frágil e confusa da jovem Meiko e resolveu modificar um pouco o que ela pensava do mundo e das pessoas que viviam naquele circo.
Meiko mudou depois daquele dia...
Ela nunca mais foi a garotinha inocente e ingênua que sempre foi...
Ela aprendeu como era a vida no circo...
E o que tinha que fazer lá para não sofrer.
Fale com o autor