Notas iniciais
Espero que gostem.

03/02/2005

O Inverno russo é conhecido por ser um dos mais rígidos do mundo, sendo lembrado por ser o fator decisivo para a vitória dos Aliados na segunda guerra. Era possível ouvir o canto de corujas a essa hora da madrugada, e a névoa impedia a visão de qualquer homem, mas isso não era um problema para o esquadrão de Ivanov. Nikolai Ivanov era um homem forte e carrancudo, líder de um dos melhores esquadrões do serviço secreto Russo.

Ivanov e seu grupo estavam em uma floresta desconhecida nos arredores da Rússia em uma missão simples. Encontrar um alvo e o eliminar. Nas últimas semanas houveram muitos relatos de desaparecimento nessa área. A maior parte deles sem deixar rastros mas nos últimos dias foram encontrados os restos de grande parte dos desaparecidos. Somente ossos e carne em decomposição foram encontrados. Órgãos internos completamente retirados e todos empilhados ao lado de uma clareira. Haviam vilarejos naquela área, não pequenas cidades e sim vilarejos, muitos sem nem mesmo eletricidade. Seja lá o quem ou o que que estava por trás destes homicídios, estava conseguindo suas presas destas comunidades. Ivanov foi mandado com seu esquadrão para eliminar quem estava por trás disso mas já haviam se passado cinco dias desde sua chegada na floresta e a única coisa que haviam encontrado foram os restos mortais dos sequestrados.

— Tenente, acabei de voltar da patrulha noturna, nada a ser reportado na floresta, os vilarejos do norte também estão bem.

— Muito bom soldado. — Disse Ivanov. Apesar de jovem ele era respeitado por todos, inclusive os veteranos de seu esquadrão.

— O que o senhor acha que está causando estes assassinatos? — Perguntou o soldado se sentando perto da fogueira.

— Eu não sei mas, não parece ser humano… — Ivanov disse olhando para o fogo mas ao mesmo tempo olhando para o nada, seus olhos estavam vazios, perdidos em pensamentos.

— Como assim Tenente? — Perguntou Yuri. Yuri Bortnik era um soldado recém aceito na unidade de Ivanov. Continha um respeito imenso por Nikolai, tão grande era este que o próprio Nikolai supervisionou o treinamento de Yuri.

— Haviam marcas de garras na carne, e muitos dos ossos tinham fraturas tão grandes que pareciam estar quebrados. Além do fato da carne não ter sido arrancada ou cortada, e sim dilacerada. Isso não é normal.

— Pode ser somente um animal selvagem.

— Poderia, mas nós já mandamos os melhores caçadores para captura-lo. Nada adiantou. As autoridades também não conseguiram. Policiais, detetives e até mesmo soldados do exército vieram. Nada encontraram além do que já havia sido visto. Isso me deixou preocupado. Não acho que estejamos lidando com uma fera, e se for, não é uma fera qualquer. — Nikolai disse sério, agora encarando o soldado. Ele percebeu que Yuri estava tenso. Ele podia ser um membro do serviço secreto mas também era um jovem em sua primeira missão. — Acho que podemos acabar por aqui. — Disse o Tenente, batendo palmas alto e assobiando. Os outros soldados saíram de suas tendas para ouvir o que seu superior tinha a dizer. — Certo homens, vamos seguir caminho. Estamos a quatro 4 dias aqui e não encontramos nada. Vamos seguir pela floresta a sudoeste. São exatamente 3:37 da madrugada. Tenham tudo pronto até 3:45 para que possamos usar o resto de escuridão para não sermos vistos. Iremos pelo rio. Dispensados. — E assim o fez. Seus homens, exatamente às 3:45 estavam todos a postos para começarem a longa caminhada para o próximo ponto marcado no mapa.

Como um bom serviço secreto, eles sabiam se mover em silêncio e sem ser vistos. Andavam pela floresta como se tivessem nascido ali, mesmo sem nunca ter pisado nela antes. Eram todos exímios atiradores, e haviam horas de treino corpo a corpo.

Eram 4:43 quando todos pararam para examinar o terreno.

— Não estamos longe do ponto de acampamento, precisaremos andar por mais 20 minutos após atravessarmos o rio e… — Nikolai se deteve por um instante. Não sabia se seus sentidos haviam lhe pregado uma peça ou se realmente ouviu algo, mas vinha de trás deles, da mata densa.

— Tenente? — Perguntou um dos soldados. — Está tudo bem?

— Sim, só achei ter ouvido algo. Fiquem atentos. Continuando, após passarmos o rio iremos acampar próximos a… — Nikolai se deteve novamente. Tinha certeza desta vez, ele ouviu algo, e estava mais próximo que antes. — Peguem suas armas homens. — Em uma fração de segundo todos estavam armados, preparados para qualquer situação, ou era o que eles pensavam.

A neblina da noite iria se dissipar uma vez que amanhecesse mas até lá eles não enxergavam nada, e estar no meio da mata só dificultava as coisas. O barulho, antes só ouvido por Nikolai, ficava mais alto, até que todos do grupo puderam ouvir. As vezes da esquerda, as vezes da direita. Não dava para saber de onde vinha, ou se era só um, mas Nikolai tinha certeza de algo, definitivamente não era humano.

O primeiro ataque foi rápido como um raio quando um arbusto explodiu e algo pulou em cima de um dos soldados. Quando seus companheiros apontaram a lanterna para ele não havia nada além de sua jugular cortada e sangue pelo chão. Seus olhos mortos encaravam os companheiros, que estavam em um misto de pavor e surpresa. Atiraram no nada, em vários arbustos por entre a área, mas nada acertando.

— Recomponham-se homens. Devemos honrar a morte de Dimitri caçando esta fera. — Disse o Tenente, abaixando-se e fechando os olhos do companheiro. Só isso foi suficiente para levantar o moral da equipe, porém não por muito tempo, pois a criatura já estava de volta, e não demoraria para ela lançar o próximo ataque. — Merda. Corram para fora da floresta homens! Estamos em desvantagem aqui!

E assim o fizeram, correndo pela trilha do inimigo invisível. Seja lá o que fosse que tivesse os perseguindo, era rápido, uma vez que ele chegou por trás de um dos soldados e o agarrou pela cabeça. Todos se viraram após ouvir o grito de desespero deste, grito este que foi cessado com um leve movimento das garras da criatura, que eram visíveis com a luz da lanterna. Eram negra, e longas. Realmente um animal.

Apesar dos gritos, todos sabiam que era tarde demais, seu pescoço havia sido quebrado e o som foi alto suficiente para todos ouvirem. A corrida recomeçou.

— Não olhem para trás. Continuem a correr. Nossas vidas dependem disso. Não parem! — E assim o fizeram. Não sabiam onde estava a criatura, não a ouviam mais mas não podiam arriscar. É então que um dos homens tropeça em algo. Estava escuro, a floresta é traiçoeira, é fácil derrapar ou pisar em falso. Um de seus companheiros parou para o ajudar, o maior erro de toda sua vida. Ou deveria dizer o último. Com um baque surdo o corpo do soldado cai no chão, bem em frente ao que caiu. Com a lanterna ele viu que tropeçou em uma raiz. Após apontar a lanterna para o corpo a sua frente percebeu que estava sem cabeça. Ele solta um grito agudo antes deste ser cessado. Não era mais possível ver ninguém.

Os soldados restantes corriam, quase alcançando a saída da floresta. De 7 soldados, só restaram 3. Ao verem a luz da lua iluminar a clareira a sua frente uma luz de esperança é acesa.

— Estamos quase lá! — Disse Nikolai a frente. Yuri estava em segundo e atrás dos 3 estava um outro soldado. Não era uma distância grande, mas era suficiente para que a criatura definisse a próxima presa. Nikolai é o primeiro a sair, seguido por Yuri mas o terceiro soldado não teve tanta sorte, tendo caído bem em frente a clareira. Seu corpo estava para fora mas suas pernas não. Nikolai então realizou, ele não caiu, ele foi derrubado. Seu corpo rapidamente foi puxado para dentro da floresta. Tentou atirar no que estava o puxando mas não adiantou, nada parava aquilo. Somente um grito pode ser ouvido. — Não pare Yuri! — Gritou Nikolai. Eles não estavam longe de um dos vilarejos próximos.

Corriam pela clareira, não se importando em olhar para trás. De caçadores, se tornaram a caça. Foi então que ouviram passos atrás de si. Não sabiam o que era, mas era rápido, muito rápido. Nikolai pegou uma granada de luz e a jogou para o alto. Quando ela caiu um clarão de luz se formou por um segundo. Como estavam correndo na direção contrária da luz não foram afetados mas os passos cessaram.

— Yuri, eu ganhei tempo para você! Leve isso a aldeia mais próximo e volte para Moscou!

— Ganhou tempo para mim? Como assim tenente?

— Você entendeu muito bem. Se continuar neste ritmo ambos seremos mortos. Isso é um relatório de tudo que vimos enquanto estávamos aqui e tudo que aconteceu até agora em áudio! — Ivanov jogou um caderno e logo depois um gravador ao seu companheiro.

— Mas Tenente! — Ivanov fechou a cara e parou de correr na hora.

— Isso é uma ordem direta do seu superior. Não olhe para trás. Agora vai! Ou quer que todas as mortes aqui sejam em vão!?

— Yuri derramou lágrimas, mas obedeceu sem questionar. — Sim senhor.

— Boa sorte garoto. Foi bom tê-lo treinado. — E com isso Yuri recomeçou a corrida desenfreada, deixando o tenente Ivanov para trás, com sua última visão sendo dele pegando seu machete e levantando sua arma. Agora face a face com a criatura ele via perfeitamente suas feições. Uma cauda negra gigantesca. A criatura com quase dois metros de altura e seu pelo, coberto de pêlos negros e oleosos. A criatura parecia se divertir com a coragem de Ivanov, o único que a encarou frente a frente. Queria ter tempo de acender um último cigarro mas sabia ser impossível. — Repugnante. — Ele disse, encarando aqueles olhos avermelhados.

Foi possível ouvir os tiros ao longe por um tempo. Ivanov era um homem habilidoso mas quando os tiros cessaram Yuri sabia o que significava. As lágrimas escorreram mas ele não diminuiu. Não se passou muito tempo e já pôde ouvir passos atrás de si. Ele não queria morrer, queria cumprir a missão que o Tenente lhe dera mas sabia que era quase impossível.

Ao amanhecer o vilarejo disse que ouviu tiros na madrugada mas que ninguém nunca chegou nele. Após varreduras na floresta os corpos dos soldados nunca foram encontrados. Aquele caso continuaria um mistério, pois a criatura nunca mais havia sido vista naquela região e relatos ao redor do mundo também cessaram.

Notas finais
Isso foi só o prólogo, um acontecimento só para dar um gostinho.