Dark Long Night
1 One-shot
Notas iniciais
Por muito tempo, eu vivi como se tudo a minha volta não fosse mais do que um sonho... Eu passava pelos dias como se eles fossem feitos de sonho e fumaça, como se nada que eu visse fosse real... Era uma noite longa e sem fim... Uma longa noite escura em que eu caminhava sem ver nada... Era como se eu estivesse presa, vendo o mesmo sonho repetidamente, sem encontrar a saída, sem encontrar uma luz...
“Às vezes, parece que posso ver além das coisas...”
Eu tinha a sensação de que aquilo nunca teria fim, de que viver era apenas colocar um dia diante do outro, como peças de dominó e, quando colocássemos a última peça, ela derrubaria todas as anteriores e morreríamos... Era esse tipo de sonho que minha vida era, um sonho que não era capaz de me dar nenhum tipo de esperança ou conforto... Era mais como um estupor e eu estava imersa naquela vida sem nenhum tipo de sensação, um inconsciente que parava a dor e todo o resto... E eu estava afundando nela a cada dia... E afundava e afundava e afundava e afundava...
“Às vezes, parece que posso ver além das coisas...”
Não era algo que me deixasse feliz, carregar aquela noite dentro de mim... Era pesado, sufocante, assustador. Ela me fazia me afastar de tudo o que eu amava, de todos que eu gostava, de qualquer felicidade que eu pudesse encontrar. Mas não era uma cela da qual se podia escapar, um dia em que seu carcereiro se distraísse ou dormisse durante a vigília... Não. Eu era o carcereiro. Eu era aquela prisão. Como fugir de mim mesma? E como não fugir?
“Às vezes, parece que posso ver além...”
A noite era intrigante porque, por mais que ela engolisse todas as coisas, nela ainda havia luz... O que seria aquela luz? Esperança, talvez? Salvação? A Verdade? A própria Vida? Era a resposta que eu buscava, durante o sonho e durante o torpor do sono, tateado no escuro, caminhando com as mãos nas paredes que eu não via, deslizando os pés no chão para antever algum obstáculo...
“Às vezes, parece que posso ver além...”
As pessoas passam a vida toda se perguntando por que estamos todos nos pendurando na borda do abismo... Eu acreditava que a resposta devia ser óbvia: porque não queremos morrer... Mas eu estava errada. O que nos mantém segurando ao longo da vida não é a vontade de viver ou o medo de morrer. Não. Nós nos seguramos com a esperança de que um dia nos puxarão de lá, algum dia, nós seremos tirados do abismo! Foi naquele mesmo dia que a longa noite terminou para mim: no dia que eu descobri que não carregaria mais o peso sozinha...
No dia em que conheci Yutaka e ele me tirou de meu abismo. Que fez nascer o Sol na minha noite...
“Às vezes, parece até que posso ver...”
Quando conheci Yutaka foi como se pudesse ver além de tudo... Foi como se eu pudesse enxergar pela primeira vez! Um cego, que caminhou por entre as sombras e acordou com todas as cores e luzes a sua volta! Ele foi como se eu finalmente entendesse tudo o que tinha buscado!
“Às vezes, parece até que posso ver...”
— Ainda decifro o enigma dos seus olhos – essa foi a primeira coisa que ele me disse, quando conversamos. E ele ainda me dizia, me prendendo forte em seus braços, com seu jeito carinhoso, antes de me beijar. – Esses lindos grandes olhos de brilho roxo e sensual.
— Baka! – puxei-o para nosso quarto e o empurrei deitado na cama.
“Às vezes, parece que posso...”
Eu amava deitar em seus braços, ouvir seu coração batendo sob meu ouvido, sentir sua pele quente na minha, seus lábios nos meus... Sentir como era tudo tão real e mágico e tão diferente do sonho em que eu tinha me perdido por tantos anos... Eu amava saber que ele estava ali de verdade e que não iria desaparecer com o raiar do sol...
— É tão fácil ficar aqui com você! – ele disse, sussurrando contra meus cabelos, beijando o topo de minha cabeça.
— E você esperava que fosse difícil? – eu brinquei, me virando para ver seu lindo rosto contorcido numa careta engraçada.
— O que eu quis dizer – ele usou aquele tom de voz meigo como se explicasse algo muito complexo para uma criança – é que ficar com você é a coisa que eu mais gosto no mundo!
“Às vezes, parece que posso...”
— Ah! – fiz uma expressão estúpida de entendimento e ele riu. – Você devia ser claro quando quer dizer coisas bonitas, koi!
— O amor nunca é claro, koi... Na verdade, nós dois sabemos que todos andamos às cegas em meia à escuridão pelo amor... – e sabíamos mesmo.
“Às vezes, parece que...”
— E o que você esperava encontrar enquanto andava no escuro? – eu acariciei seu rosto lentamente, acompanhando seus lindos contornos.
— O que as pessoas esperam encontrar enquanto caminham por uma longa noite escura? Eu buscava pelo brilho da Lua – ele sorriu seu sorriso de covinhas encantador e me beijou. – Tudo o que eu sempre esperei encontrar era minha Tsuki!
“Às vezes, parece que...”
Eu me inclinei e uni nossos lábios apaixonadamente.
— Eu cheguei a pensar que caminharia a vida toda na escuridão antes de conhecer você, Yuk! Mas, quando escutei você pela primeira vez, sua bateria batia tão forte junto ao meu coração que parecia que você estava ouvindo-o! Como se você o conhecesse!
“Às vezes, parece...”
— A primeira vez que olhei em seus olhos, eu soube que tinha me perdido nesse labirinto sem fim e que eu nunca mais ia querer sair de dentro deles! – seus braços me apertaram ainda mais forte contra seu peito e eu retribuí ao seu abraço.
— Obrigada por acabar com a minha noite, Yuk!
— Obrigado por ser a minha Luz, Mari!
“Às vezes, parece que acordamos...”
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