Dark Inside Of Us.
2 Capítulo 2
Notas iniciais
As vantagens de ter crescido em uma cidade pequena como Great Falls, é conhecer vários caminhos pra se chegar ao mesmo lugar. Atrás do ponto de ônibus havia alguns quilometros de bosque, e se você souber como andar por ali, você estaria próximo ao prédio da escola em cerca de quinze minutos. Eu estaria atrazado da mesma forma, mas seria mais rápido do que ir pelo caminho normal. Great Falls é bem próxima de algumas reservas animais, e é por isso que meu pai odeie que eu ande por ali. Tem medo que eu cruze com algum animal selvagem, ou coisa parecida. Mesmo com toda essa preocupação da dele, quando minha mãe era viva ensinára eu e Tyler a andar por essas florestas sem se perder. E foi exatamente isso que eu fiz. Não importava se meu pai iria ficar ainda mais bravo comigo. Se eu chegasse atrasado a ponte de ter que ficar depois da aula, eu perderia o treino e o turno na loja de ferragens. Isso sim o deixaria furioso.
Segui caminho pelo estreito caminho de árvores até que elas se expandissem em uma pequena clareira. Era outono, o que significava várias folhas secas espalhadas pelo solo, e árvores feias, como aquelas de filmes de terror, o que teria deixado qualquer novato aterrorizado. Mas isso não me assustava em nada. Por alguma razão, andar por aqueles bosques me trazia uma incrível sensação de paz, como se eu estivesse completamente seguro. Além de me trazer lembranças incríveis da minha infância. Uma vez minha mãe trouxe Tyler e eu exatamente nesse lugar. Ela nos contava velhas histórias de quando ela era criança e brincava por aqui. Nascida e criada em Great Falls, ela conhecia a cidade toda como a palma de sua mão. Ela dizia que enquanto nos mantivéssemos por aqui, seja cidade ou floresta, os espíritos guardiões iriam nos proteger.
Tyler já estava com dez anos nessa época, então não ligava muito para esse tipo de coisa. Mas eu tinha por volta dos meus cinco anos, eu ficava completamente maravilhado com aquelas histórias. Lembro de perguntar a ela quais eram os espíritos guardiões que existiam naquela floresta, e ela dizia "São os lobos Sam. Eles são os grandes guardiões, não só do bosque, mas da cidade toda. São eles que nos protegem dos males que tentam nos assombrar". É claro que eu havia parado de acreditar naquelas lendas há muitos anos. Principalmente depois do acidente. Afinal, se os espíritos dos lobos nos protegiam de tudo, como é que eles deixaram a minha mãe morrer? Foi o que eu pensei na época. Não fazia sentido pra um garoto de onze anos ver sua mãe morrer e os supostos espíritos não fazerem absolutamente nada pra ajudar. Com o tempo esqueci dessas histórias, eram apenas lendas de qualquer forma. Mas uma coisa era certa, toda vez que eu andava por este lugar eu sentia como se estivessem me observando. Os quinze minutos se passaram e pude avistar a escola, e como eu pensei o ônibus já havia chegado. Alguns alunos ainda estavam entrando, então resolvi me apressar. Talvez minha aula ainda não tivesse começado. Talvez o senhor Burnes tivesse se atrasado por alguma razão. Achava pouco provável, mas eu tinha que acreditar em alguma coisa.
Passei correndo pelas portas e pelos corredores, subindo rápidamente as escadas , para o segundo andar. Quando avistei minha sala, ela já estava com a porta fechada. Isso não era bom. Parei há alguns passos da porta e suspirei. O Senhor Burnes já estava na sala. Agora eu estava contando com a sorte. Bati na porta e adentrei a sala, já esperando pelo pior. Alguns alunos me esboçaram seus sorrisos mais maliciosos, enquanto outros apenas mantiveram-se concentrados em suas anotações. Burnes, por sua vez, parou de escrever na lousa e me lançou um olhar de reprovação.
- Bom dia senhor Roberts. Vejo que o senhor resolveu se juntar a nós.
- Me desculpe senhor Burnes, eu tive alguns contratempos nessa manhã e acabei me atrasando. Eu poderia assistir a aula? — Engoli em seco e torci para que ele estivesse de bom humor.
- Bem... Sente-se senhor Roberts, e abra o livro na página 50. — Com a mão, ele fez sinal para que eu prosseguisse para sua aula.
Eu assenti e me sentei em uma das poucas cadeiras que estavam vagas. Terceira fileira, no penúltimo assento. Quando estava retirando o livro de minha mochila o professor disse.
- Senhor Roberts. Acredito que não precisarei te encaminhá-lo para detenção. Afinal o senhor não vai tornar disso um hábito não é mesmo?
Eu engoli em seco. Pude ouvir algumas risadinhas mas não dei muita importância. Ao invés disso respondi ao professor. — Não senhor. — Foi a única coisa que consegui dizer.
- Ótimo. Se me permite gostaria de voltar a minha aula. — Ele não esperou uma resposta. Simplesmente voltou-se para o quadro-negro e continuou a escrever.
Tirei meu caderno e meu estôjo da mochila, abri o livro na respectiva página que o professor havia mandado, e comecei fazer algumas anotações. No momento seguinte senti meu celular vibrar em meu bolso. Agradeci mentalmente o fato de o ter mantido no silencioso. No visor tinha uma mensagem de Alex dizendo: "Por que demorou tanto?". Olhei em volta até finalmente conseguir achar meu amigo magricelo. Ele estava sentado em minha diagonal, duas fileiras para esquerda. Sem que o professor me visse digitei uma breve mensagem dizendo: "Longa história, depois eu explico.", em seguida o enviei e guardei o celular dentro de minha mochila. A última coisa que eu precisava era que o senhor Burnes arrumasse um outro motivo para que eu fosse para a detenção.
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Eu estava tão atento a aula, que dei um pulo do assento quando o sinal indicou o final do segundo período. Os alunos saíram depressa da sala, eu por outro lado arrumei meu material calmamente. Quando me levantei, procurei por Alex, mas ele já não estava mais lá. Passei pelo professor e acenei, em um gesto de agradecimento. Ele retribuiu. Fui em direção ao meu armário para poder organizar algumas coisas. Minha próxima aula era de matemática, e eu precisava trocar os livros e pegar minha calculadora. Assim que fechei meu armário, Alex debrusou-se no armário ao lado e sorriu pra mim.
- E então, vai me dizer por que se atrasou?
- Tive uma discussão com meu pai essa manhã. Isso somado ao sonho esquisito que eu tive me deixaram um pouco atordoado. — Respondi, arrumando a mala e dando de ombros.
- O que foi dessa vez? — Esse era Alex Cooper, nós dois somos amigos desde...Sempre.
- Ela estava na floresta, e me disse para relaxar, e que em pouco tempo tudo iria se esclarecer.
- Tem alguma noção sobre o que ela está falando? — Disse ele, arrumando os óculos grandes e fundos em seu rosto magricelo. Alex tinha esse jeito meio detetive, sempre estava buscando uma razão, um objetivo pra tudo. Eu já não me esforçava tanto.
- Claro Al, sempre fico me perguntando o porque do espírito de minha mãe vir falar comigo, toda noite no último um mês. — Fiz questão de enfatizar o sarcasmo. — Provavelmente é a maneira que meu subconsciente encontrou de me lembrar do aniversário dela amanha. Como se eu pudesse esquecer.
Alex me fez uma careta e então continuou. — Acho pouco provável. Em todos esses anos que somos amigos você sonhou pouquissimas vezes com sua mãe. E não foi nada como isso que você tem descrito nos últimos dias. Eram mais como lembranças, e não como avisos, e nunca eram constantes. Você não está se atentando aos fatos.
Revirei os olhos. Ele tinha essa mania irritante de transformar tudo em pesquisa, ou uma análise de dados. Até mesmo sonhos, que eram evidências não palpaveis, ele os colocava como se fossem... Provas de um crime, ou sei lá o que. — De qualquer forma, isso logo estará acabado. Estou com esse pressentimento. — Dei de ombros.
- Ainda acho que se analisarmos os fatos com uma melhor precisã... — Eu tive de interrompe-lo. Aquele assunto já estava me cançando.
-AL! — Elevei minha voz, para que pudesse sobrepor a dele. — Já chega. Deixe isso pra lá. — Bufei.
- Desculpe. Não está mais aqui quem falou. — Disse ele levantando as mãos, em um gesto de redenção. — E sobre o que foi a discussão com seu pai?
- O de sempre. Ele reclamando, e me forçando a trabalhar na loja. Enquanto Tyler fica vagabundeando por aí. Uma típica segunda-feira.
- Talvez ele esteja meio sensível, meio irritado. Sabe pelo fato do aniversário de morte de sua mãe ser amanha.
- Pode ser, qualquer coisa que venha do meu pai ultimamente não vai me surpreender. Infelizmente não consegui argumentar com ele. Vou ter de trabalhar na loja depois do treino de basquete. Ótimo.
- Que dureza em cara, eu até te chamar pra ir lá pra casa depois do treino, mas acho que não vai rolar, não é. — Ele fez uma cara de decepção.
- Desculpe Al, vou ficar te devendo essa. Queria me mostrar alguma coisa em especial?
- Baixei um novo programa. Ele instala modo noturno em vários modelos de câmeras. Estava pensando em instalar nas nossas e depois sair pelo bosque e ver o que pod... — Ele se interrompeu. Seu olhar ficou completamente perdido, e derrepente, ele começou a esboçar um sorriso. Só então percebi que ele olhava para algo atrás de onde eu estava. Me virei, bem a tempo de vê-las sorrir, e por um breve momento eu sorri também. As duas garotas que estavam conversando no final do corredor. Eu comecei a me distrair com sua beleza, quando a voz de Alex me trouxe de volta para a realidade.
- Ela está cada dia mais bonita não é! — Virei me para encará-lo, ele parecia um cachorrinho esperando alguém para buscá-lo na vitrine de um pet shop. Não pude deixar de rir. Ele estava falando de Alicia Hunt, a garota que estava de costas para nós. Seus cabelos negros e cacheados estendiam-se até a cintura. Ela usava a roupa das líderes de torcida, um conjunto de camiseta e saia nas cores azul e amarelo.
Ela começou a rir e sua risada ecoou por todo o corredor, era algo contagiante. Alicia era uma linda garota, mas a minha atenção não estava nela, e sim na outra garota, a loira que estava encostada no armário, virada para mim. Ela estava de frente para mim, e enquanto falava com Alicia, ela sorriu um sorriso delicado e terno. Sua pele era clara como a neve. Seu cabelo era perfeitamente liso e cobria um pouco de seu rosto. Estava usando uma blusa azul, uma calça jeans bastante justa e uma pequena bota de salto, preta. Em seu pescoço estava o colar dourado, com um pingente de coração e nele tinha a foto dos seus pais. Ela levava aquilo pra onde quer que ela fosse.
Por um breve momento ela olhou em minha direção e nossos olhares se encotraram, novamente, não pude deixar de sorrir. Ela ,por sua vez,, esboçou o sorriso leve e me fez um asceno com a cabeça. Alicia pareceu estar muito entretida no que estava dizendo, então pareceu não perceber o leve gesto de sua amiga. A única coisa de que eu tinha certeza naquele momento, era que Jane Marshall me fazia uma falta absurda.
Eu estava tão distraído, que não notei a tempo de me defender. Em um minuto eu e Alex estávamos simplesmente parados no corredor, e no outro momento nossos ombros estavam se chocando contra os armários, e no minuto seguinte estávamos no chão. Minha visão ficou um pouco turva, mas não demorou em se fixar novamente. Parado em minha frente estava parado o capitão do nosso time de basquete. Seu sorriso presunçoso, e sua arrogancia me enojavam. Ele me encarava com um olhar malicioso.
- Ai Roberts, quantas vezes eu tenho que te dizer que não quero você olhando com essa cara pra minha garota? — Ele manteve aquele estupido sorriso e estralou os dedos das mãos. — E além do mais, você tem que ficar sempre atento. Dentro e fora da quadra. — Meus outros companheiros de time se reuniram a volta dele e riram de sua piada infame.
- Bom Dia Joe. É bom ver que começou sua manhã importunando os mais novos. — Alex foi o primeiro a falar, eu ainda estava engolindo e digerindo a raiva. Eu comecei a me levantar e ajudei Alex a fazer o mesmo.
- Calado nerd, não estou falando com você. Apesar de você estar de olho na minha irmã, tenho certeza de que você não representa perigo nenhum. — Debochou ele. Sua gargalhada ecoou pelos corredores da mesma forma que de Alicia, só que a dele era com um tom de sarcasmo.
- É melhor tomar cuidado Joe, ou eu vou parar de monstar a estatísticas dos jogos e dessa forma você não vai poder ganhar, e nem continuar sendo popular não é mesmo. — Foi a vez de Alex debochar. Esse lance de basquete era algo para fazermos juntos, então ambos nos inscrevemos para fazer os testes. Eu tinha uma boa jogabilidade e então acabei entrando no time como reserva, mas Alex não teve a mesma sorte. Por sorte seu intelecto é brilhante e ele foi contratado pelo treinador pra montar as estatisticas que usaríamos na quadra. Íncrivel ele ter tido coragem de usar isso contra joe.
- Cuidado com a língua magrelo. — Joe empurrou Alex deixando com as costas no armário, e em seguida o avançou.
Como instinto, posicionei minha mão no peito de Joe e o empurrei de volta para seus amigos, me colocando entre ele e Alex. — Pra trás Hunt. — Gritei.
- Então você tem língua não é fedelho. Ótimo, vou adorar arrancá-la. — Ele me segurou pelo colarinho da camiseta, e eu imitei o gesto. Infelizmente, Joe era bem mais forte do que eu, então ele começou a me erguer do chão com facilidade. Ele fechou o punho e o inclinou para trás. Felizmente ele foi interrompido.
- Já Chega Joe! — A mão de Jane envolveu o punho de Joe, enquanto Alicia o forçava a me abaixar. — Que droga por que você tem que ser tão briguento?
- Só estava te protegendo gata. — A forma como ele disse aquela frase, como se ela fosse um objeto de valor que ele possuía meu encheu ainda mais de raiva.
- E quem disse que eu preciso de proteção? Você é meu namorado, e não me guarda costas. Ponha ele no chão. — Nunca vi Jane tão séria.
- Você a ouviu Joie, coloque o garoto no chão. — Foi a vez de Alicia falar.
Ele esperou um pouco e viu que da forma que estava, não conseguiria nada. Ele me colocou de volta ao chão, depois se inclinou e sussurou ao meu ouvido. — Terminamos isso aqui na quadra pirralho.
Dessa vez eu não pensei duas vezes antes de retrucar. — Pode vir... Velhote. — Ele me lançou um sorriso maldoso e então me soltou. O clima de tensão ainda estava pesado no ar. O silêncio reinava por todo o corredor, até que o barulho do sinal para o próximo tempo invadisse todo o colégio.
- Vamos maninho não vá se atrasar pra próxima aula. Você ouviu o que os nossos pais disseram sobre você se atrasar. — Disse Alicia puxando o braço do irmão.
- Dá um tempo Aly. Eu já sei disso você não tem que ficar me lembrando. Vamos em bora galera. — Ele arrumou a mala nas costas e começou a andar. As pessoas que estavam em nossa volta abriram caminho pra ele e o resto do time passar. Quando a multidão já tinha se dissipado quase por completa Jane ainda estava lá. De pé, bem ali na minha frente. Ela olhou pra mim e pra Alex com cara de culpa. Por fim, disse.
- Sinto muito Sam. Eu nunca pedi pra que o Joe fizesse nada contra você. Eu... — Interrompi.
- Está tudo bem. Mesmo, eu posso lidar com ele de outras maneiras. Vai Jane, ou você vai acabar se atrasando pra aula. — Eu não queria que ela sentisse pena de mim, apenas gostaria que as coisas pudessem voltar ao normal.
- Desculpe. — Foi a última coisa que ela disse antes de desaparecer pelo outro lado do corredor.
Peguei minha mala que estava no chão e coloquei sobre o ombro.
Enquanto Alex recolhia seus livros e cadernos. — Você está bem? — Perguntei.
- Já estive melhor, e você?
- Na mesma.
- Desculpa cara, eu não queria que você comprasse briga por minha causa.
- Al, você é meu melhor amigo. Não pensaria duas vezes antes de comprar uma briga por você.
- Obrigado Sam, de verdade. Mas eu fiz com que seu dia ficasse pior.
- Não se preocupe, o pior ainda não passou.
- Como assim?
- Temos treino depois das aulas.
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