Dark Eyes
8 What the fuck was that?
Notas iniciais
Capítulo VII
“What the fuck was that?”

P.O.V. Kimberly
Estava explicada a razão daquela mudança climática. O sol e a neve nunca se misturam. Nunca. Após ele desencostar seus lábios de minha mão, a primeira coisa que fiz foi retirá-lo de perto do território do meu chalé. Ares foi atrás de mim. Apolo riu quando chegamos uns quatro passos depois do território do chalé de Quione. Eu estava com uma cara amarrada. Ele sorriu com aqueles dentes brancos brilhantes e encantadores.
–Nunca se aproxime do chalé sem a minha permissão. – Falei seriamente.
–Sim, senhora. – Ele respondeu.
–Você tem noção da merda que poderia ter feito? – Questionei.
–Desculpe-me. Acho que não começamos bem. — Respondeu.
–Você acha? – Questionei e respirei fundo. – Kimberly. – Apresentei-me.
–É um prazer vê-la, Kim. – O deus do sol falou e sorriu para mim.
–Não sei se posso dizer o mesmo. –Ares riu baixo e Apolo fechou a cara. – Sol e neve não combinam. Nunca.
–Quem sabe? – Ele deu os ombros. –Dizem que os opostos se atraem e muitas vezes eles estão destinados a ficarem juntos. – Ele disse com tanta convecção.
Não entendi o porque daquelas palavras, porém Ares parecia ter entendido tudo. Tanto que fechou seu punho.
–Ignore-o. – Ares disse no meu ouvido e colocou uma mecha do meu cabelo para trás da orelha.
–Já está nesse nível de aproximação, irmão? – Apolo questionou.
–O que? – Virei-me para o deus da guerra. – Do que ele está falando?- Questionei.
–Conte, Ares. Diga a verdade pelo menos para ela. – Apolo disse para Ares.
–Contar o que? – Perguntei, já estava irritada.
–Nada. – Ouvi a voz de Quíron e me virei para o centauro. – Apolo, venha comigo agora. – O centauro o chamou.
–Até breve, filha de Quione. – O deus fez um reverencia e eu ri.
Apolo foi caminhando com Quiron enquanto eu esperava Ares responder minha pergunta. Ele notou que eu estava esperando e bufou. Fitei seu olhar e fingi uma tosse. O deus da guerra me encarou pensando em algo.
–Não era nada. Apolo tem problemas. – Ares falou e a concha soou anunciando o jantar.
–Me deve uma resposta, Ares. – Disse e virei-me andando para outro caminho.
–Não vem comer? – Ele questionou e eu me virei.
–Perdi a fome. – Falei olhando para ele.
–Quer companhia? – Perguntou.
–Vou ver uns amigos. – Falei. – Tchau, Ares. –Despedi-me e caminhei até ao chalé onze.
O chalé de Hermes era tão simples que passei despercebida por ele umas duas vezes. A estrutura dele tinha mudado depois da guerra contra Cronos, mas seus detalhes permaneceram. Bati na porta e Travis veio me atender. Sua cara de sono dava vontade de rir. O filho de Hermes abriu um sorriso a me ver.
–Lady snow! – Ele me abraçou. – Relembrou dos amigos, é?
–Como se eu pudesse me esquecer de “um mala” que nem você. – Disse.
–Outch! – Connor pronunciou. – Podia dormir sem essa. – Falou para o irmão.
–Entra ai, baixinha. – Travis disse e eu entrei no chalé.
Ao entrar no chalé onze, vi cofres no lugar de armários, seis beliches a cama e vários colchões espalhados pelo chão de madeira. Era bagunçado até demais. Sentei-me na cama de Travis assim como eles. O chalé estava vazio, afinal todos estavam no pavilhão jantando.
–Se escreveram para alguma coisa no festival? – Perguntei e Travis deitou no meu colo. – Folgado. – Falei para ele e o meu amigo murmurou um “shiu”.
–Eu vou ser juiz na patinação infantil. – Connor falou.
–E eu fui obrigado a organizar o evento de hóquei. Chalé de Ares VS. Chalé de Apolo. – Travis comentou.
–Isso não vai prestar. – Comentei.
–Por que diz isso? – Connor perguntou,
–Ares e Apolo parecem ter algum problema. – Baguncei os cabelos de Travis.
–Podemos não falar dos deuses? – Travis pediu. – Não gostei da sua aproximação com eles.
–Como sabe disso? – Questionei.
–Ta no blog da Afrodite. – Connor respondeu.
–Desde quando a purpurinada mãe tem um blog? –Perguntei.
–Veja você mesma. – Travis falou e pegou o ipad.
Esses filhos de Hermes nunca aprendem.
Olhei para a tela do ipad e visualizei o blog da deusa do amor. Na primeira página tinha uma foto minha com Ares e junto dela a seguinte legenda: “O novo casal do Olimpo?”. Eu comecei a rir muito alto e os gêmeos Stoll me encararam sem entender nada. Até parece que eu, uma filha da deusa da neve, iria me apaixonar por um deus galinha.
–Ah. – Parei de rir. –Vou ignorar isso que é o melhor que eu faço. – Falei e entrei o ipad para Connor.
–Ok. – Travis falou e sorriu.
–Amaria passar o dia todo com vocês fazendo algumas pegadinhas, mas tenho que começar a fazer minha coreografia. – Falei.
–Fica. – Travis pediu.
–Você sabe que daqui a pouco a concha vai soar. – Disse.
–Vem cá. – Ele me levou até o lado de fora do chalé. – Por que você tava com aquela cara quando chegou? — Perguntou preocupado.
–Problemas. – Falei e o abracei. –Muitos problemas e mentiras.
–Ei, não ouse chorar. – Ele disse e eu ri. –Sabe que eu to sempre aqui né?
–Sim. – Respondi. –Tenho que ir, Travis. -Dei um tchau com a mão e fui embora.
Saí andando em direção ao chalé da deusa da neve. Era um caminho um pouco longo e eu estava morrendo de preguiça. Encontrei com Clarisse La Rue no meio do caminho. Ela estava com Chris e uns amigos. Dei um “oi” para eles e continuei andando, porém Clarisse gritou meu nome e pediu para que eu fosse até lá.
– O que foi? – Questionei.
–Esses são meus amigos. – Ela falou e apontou.
–Lauren, filha de Hécate. – A garota se apresentou. – Sim, sua mãe e a minha são meio que amigas. – Ela me abraçou.
–Augustus, filho de Hefesto. – Um garoto bonito para ser filho do deus se apresentou.
–E para finalizar, eu. –Um garoto meio scene se apresentou. – Bryan, filho de Ares. – Ele sorriu.
–Legal conhecer vocês. – Falei. – Meu nome é Kimberly, mas podem me chamar de Kim. Sou filha de Quione. – Apresentei-me e bati um papo com eles.
Chegando no chalé, taquei-me no sofá e cochilei. Fui acordada por Kaya e Naomi. Resolvi deixar o ensaio para o dia seguinte já que estava tarde demais. Fui para meu quarto, peguei meu pijama, troquei-me no vestiário e conversei com Dimitri. Ah, esqueci de mencionar que ele era gay. Quando as harpias começaram a vistoriar o acampamento, estávamos todos na cama. Eu logo peguei no sono.
Durante a noite, fui acordada por uma pequena mão branquinha me cutucando. Abri os olhos assustada e vi que era Kaya, minha irmãzinha. Olhei para o relógio e vi que ainda era uma hora da manhã. Sentei-me na cama e olhei para ela.
–O que houve? – Perguntei baixinho.
–Não consigo dormir. – Ela falou. – Posso dormir com você?- Ela pediu e eu assenti com a cabeça.
–O que não te deixa dormir? – Disse e a cobri com o edredom.
–Pesadelos e to com saudades da mamãe. – Ela falou e me abraçou de lado. – Ainda bem que você ta aqui.
–Oh, meu anjinho. – Falei e mexi nos seus cabelos ondulados. – Eu to aqui agora e não vou deixar você. – Ela se acalmou e logo pegou no sono.
(...)
Acordei dez minutos antes do horário. Ainda bocejando, levantei-me da cama e acariciei os pelos de Naomi. Andei – lê-se me arrastei- até ao vestiário e tomei banho. Enrolada na toalha, eu peguei uma roupa qualquer que estava no meu armário branco. Vesti-me rapidamente e penteei meu cabelo. Ele tinha resolvido ficar enrolado. Bufei e deixei-o daquele jeito mesmo; não estava com a menor paciência de ajeitá-lo. Minhas irmãs terminaram de se arrumar enquanto eu colocava a ração de Naomi. Íamos todos juntos até ao pavilhão como fazíamos todas as manhãs. Éramos unidos apesar da personalidade e temperamento de cada um. Sorri ao pensar nisso. Eu era a última a sair quando Kirsty puxou meu prazo.
–Precisamos conversar. – Ela falou e eu assenti, fechando a porta do chalé.
–Depois. – Respondi seca.
Tomamos café-da-manhã rindo e conversando animadamente. No final da refeição, Quíron soou a concha e todos os campistas, sátiros e ninfas se calaram para ouvir o centauro. Paralisei-me ao ver Apolo e Ares ao seu lado. Ambos sorriram em minha direção. Isso estava começando a ficar estranho.
–Meio-sangues, tenho umas notícias para dar. – Quíron falou. – A primeira é que Apolo participará do festival de inverno. – O chalé de Quione ficou sério. Era quase uma ofensa. –Então, não estranhem se o virem pelo acampamento. – O chalé de Apolo vibrou. –A segunda é que hoje começam os ensaios para o festival de inverno. – Alguns vibraram e outros, como eu, ignoraram.
Após o anuncio, eu fui embora para o chalé sem esperar ninguém. Chegando ao chalé, troquei de roupa, peguei meus patins e afiei as lâminas. Prendi meus cabelos e assoviei para Naomi caminhar comigo até ao lado de fora do chalé. Deixei minha loba brincando enquanto calçava os patins. Coloquei uma música (*Skinny love — Birdy) para tocar no ipod — que peguei com o Connor — e deslizei no gelo tentando me lembrar de como se fazia uma coreografia. Não fazia uma há dez anos.
No fim, apena deixei a batida calma da música me levar. Dei triplos e saltos que nunca pensei que conseguiria fazer. Durante o meu giro, eu vi dois olhos me encarando e eu caí em cima do dono deles. Ares me segurou antes que eu caísse no gelo. Encarei os olhos do deus da guerra selvagem e senti minhas pernas trêmulas.
–Acho que você gosta de esbarrar em mim. -Ele me lembrou do outro dia. — Cuidado! — Ares sussurrou quando eu deslizei meus patins brancos no gelo e quase caí.
O deus da guerra selvagem segurou meus braços me trazendo para perto. Perto demais e isso não era nada bom. Não quando eu estava com as pernas bambas ao sentir o calor da sua pele e daquele olhar. Elevei minha cabeça e encarei seus olhos. Ele roçou seu nariz no meu. Por um impulso, afastei-me e patinei de costas dando uma certa distância.
–Kimberly ... — Chamou-me com aquela voz rouca.
–O que diabos foi isso? — Questionei.
–Desculpe-me. — Ele pediu.
–Se isso foi uma das suas tentativas toscas de levar qualquer uma para a cama, não vai funcionar. — Disse, irritada.
–Não foi. — Ele pegou em minha mão.
–Então, por quê? — Perguntei e soltei minha mão da dele.
–Porque eu queria beijar você! -Exclamou e eu arregalei os olhos. -Satisfeita?- Caminhamos até ao banco de gelo.
–Eu não vou ser mais uma da sua lista, Ares. — Disse, retirando os patins e sentindo minha meia entrar em contado com o gelo.
–E não vai. — Ele afirmou e eu queria acreditar nas suas palavras.
–Não minta para mim. Nunca. — Falei, levantando-me do banco. — Você é o deus mais galinha do Olimpo, por que eu acreditaria em você? — Ele não respondeu minha pergunta.
–Pensei que não julgasse as pessoas pelos seus rótulos. — Ele me olhou um pouco desapontado.
–Pensei que fosse me dar uma resposta melhor. — Disse.
Peguei meus patins e andei até ao chalé de Quione quando ouvi sua voz me chamar. Ignorei. Abri ligeiramente a porta do chalé — que por sorte estava vazio-, senti o focinho de Naomi roçar na minha perna e dei espaço para que ela entrasse no chalé. Em seguida, eu entrei e fechei a porta sem olhar para trás. Taquei meus patins brancos na entrada do chalé junto com os outros. Suspirei e sentei no chão gelado.
Naomi, minha loba querida, veio até ao meu colo e ficou me encarando com aqueles olhos negros. Eu abracei minha bola de pelo e ela começou a se mexer muito. Quando vi, Naomi tinha soltado três bolas de pelo em cima da minha blusa preta. Obrigada pela prova de amor. Eu e minha ironia. Olhei para o relógio branco vintage na parede do chalé. Pelo horário poderia muito bem dormir. No fundo, era tudo que eu precisava naquele momento.
Levantei-me do chão da sala e caminhei até ao quarto. Abri a porta que estava cheia de flocos de neve que Kaya tinha feito para decorar. Taquei-me na minha cama de casal e Naomi veio atrás de mim. Respirei fundo revivendo aquele momento na minha cabeça diversas vezes. O que tinha sido aquilo? Se não fosse pelo impulso, eu teria o deixado me beijar? Levei minhas mãos ao rosto numa tentativa falha de tirar aquele olhar da minha cabeça. Que merda estava acontecendo comigo?
Eu só sabia de uma coisa que, por mais que eu quisesse, não podia negar. O deus da guerra estava despertando emoções boas e tanto confusas em mim. Emoções que uma filha da deusa da neve jamais pensaria que poderia sentir. E, no fundo, eu sabia que eu iria me machucar por causa delas.
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