Dark End Of The Street
8 Insônia
Horas mais tarde, andou de um lado a outro pela calçada já às escuras devido à noite alta enquanto esperava que a porta fosse aberta. A noite estava fria, percebeu escondendo as mãos dentro dos bolsos, mas se encontrava mais distraído do que qualquer outra coisa para pensar muito sobre o assunto, embora vestisse somente uma calça de flanela preta, camiseta com mangas curtas e um par de tênis mais do que desgastado pela corrida até ali.
A rua sem saída era escura àquela hora da noite, mas parecia ser um bairro ou, ao menos, uma viela bucólica e chique, com prédios novos de poucos andares e recepções de portas fechadas e pouco iluminadas. É claro que estariam, afinal ninguém deveria tocar a campainha às duas da manhã, mas lá estava Barry tentando controlar a respiração pela milésima vez apenas depois de acordar suado e perturbado após um daqueles sonhos. Dessa vez, não teve qualquer coisa a ver com o bar remoto ou a mulher em si, mas com Bartholomew, o bebê com quem passeava calmamente pelo jardim de uma bonita e grande casa de subúrbio.
— Acho que você vai ter mesmo os olhos da sua mãe, Bart.
Analisou rapidamente os dois orbes de um castanho claro, que o encaravam com atenção. Agora, Bart se encontrava mais firme em seus braços e suas feições menos parecidas com a de um recém-nascido. O bebê gordinho, de bochechas rosadas possuía uma faceta mais familiar, tanto quanto animada. Ele estava sempre de bom humor, o que era um alívio para os pais de primeira viagem.
— Eu não me importo, porque os olhos dela são os mais bonitos e brilhantes, que já vi em toda a minha vida. – O menino gorgolejou, levando as mãos à sua barba por fazer. – Talvez já tenha notado, porque eles sempre brilham quando olham para você.
Deu a volta do jardim, ajeitando o menino nos braços, sentindo a grama fria e verde contra os pés descalços, assim como a brisa calma. Pelo silêncio, pôde notar que a cidade ainda dormia na manhã de domingo, embora Bartholomew houvesse acordado cedo, como era de seu costume. Então, mirou a espaçosa casa branca até a janela larga do segundo andar, onde podia ver as cortinas de seu quarto seguindo a brisa sem pressa. Queria que todos os dias pudessem ser desacelerados daquela forma.
— Mas há algo que não sabe e logo vai descobrir, Bartholomew. – Sorriu para o menino e encostou sua testa na dele, sentindo o característico e bem-vindo cheiro suave de bebê. – É uma honra quando ela olha assim para alguém.
Suspirou pesadamente, sentando-se a um dos degraus, que levaria à porta fechada, bagunçando os cabelos sem piedade. Não aguentava mais estar nesses sonhos e nessas imagens ao mesmo tempo em que vivia sua própria realidade, sem saber o que realmente acontecia quando sonhava com essa mulher ou com esse bebê. Seu peito doía em sua respiração pesada e, detestava admitir, mas começava a sentir falta de alguém que nunca conhecera e sequer era real.
— Barry? – A porta se abriu atrás dele, iluminando-o pela luz do hall de entrada do prédio. Levantou-se rapidamente para encarar Caitlin, seis degraus acima dele, cruzando os braços pelo frio da madrugada, enquanto encarava-o em estranhamento. – O que está fazendo aqui? Não está com frio?
— Preciso falar com você, é urgente. – Engoliu em seco, ignorando a pergunta sobre o clima, vendo-a franzir o cenho.
— Okay, quer entrar?
— Não, não, eu... – Respirou fundo, subindo alguns degraus para se aproximar. Coçou a testa, gaguejando, porque o perfume dela era idêntico ao da mulher e seria estranho demais se começasse a pensar sobre isso naquele momento. – Eu preciso dormir, Cait. Não consigo pregar os olhos e, quando acontece, acordo duas horas depois sonhando...
— Com o quê? – A médica perguntou claramente preocupada quando Barry se interrompeu de maneira abrupta. – Com o quê anda sonhando?
Uma mulher, um bebê e uma família que não é a minha, elaborou sarcasticamente para si mesmo, notando que, de qualquer ângulo, isso pareceria ruim. Então, fechou a boca e engoliu em seco.
— Eu apenas... – Levou as mãos aos olhos, pois os sentia injetados e ardentes de sono, provavelmente inchados e avermelhados, até voltar a encará-la seriamente. – Estou esgotado. Não consigo dormir, mas faz quarenta e uma horas, que não prego os olhos. Minha mente está uma loucura, mal consegui correr até aqui. Eu preciso, realmente preciso, de algo que me faça pegar no sonho pra valer. Que me derrube para dormir sem sonhos, sem divagações, sem... Tudo isso caindo sobre mim sem que eu peça, porque está acabando comigo!
Percebeu que despejou as palavras sem qualquer cuidado, indignado e irritado e esperava muito que Caitlin soubesse que não tinha a ver com ela, mas com toda a situação em si. A viu expirar também e soltar os braços ao descer até ele com o cenho franzido, ainda em silêncio, ainda analisando, ainda tentando compreender. Obviamente, a doutora não tinha ideia de como estava.
— Pensei que estivesse indo ao Dr. Halford. – Ela disse em tom baixo.
— Eu estou, mas... Sempre que falo sobre isso, ele me diz que preciso encarar o que quer que esteja querendo “sair”. – Grunhiu irritado. – Uma dessas besteiras sobre encarar demônios e coisa do tipo.
— Barry, eu... – Ela o encarou em tom de desculpas. – Não posso prescrever um remédio se o seu médico acha que ainda não é hora. Não sou especialista em psiquiatria nem nada na área.
Bufou irritado dando as costas a doutora, ainda incrédulo, que ela nem estivesse disposta a tentar, pois não lhe parecia com a Caitlin que conhecia. Caitlin sempre tinha uma ideia para consertá-lo, sempre estava ao seu lado, se se quebrasse. Porquê ela não podia fazer isso agora?
— Você não entende. – Voltou a encará-la, mantendo o sorriso cansado e amargo fora do rosto. – Não posso voltar a ser eu mesmo, se não consigo nem dormir. Se não consigo parar de sonhar com coisas que não deveria. Sem isso, sequer posso tentar ter minha família de volta.
— Barry...
— Por favor. – Com cuidado, aproximou-se novamente, tentando não demonstrar certo desespero, embora não houvesse sido muito bem sucedido. Estava nas mãos trêmulas que agora seguravam as dela, surpreendentemente mais quentes que as dele. – Cait, por favor, não há mais ninguém que possa me ajudar com isso.
Notou a maneira resignada com que ela o encarou e depois olhou para o céu e para os lados, pela rua escura, como se buscasse paciência. Então, Caitlin molhou os lábios e o fitou novamente, aquela mesma característica de quando estava errado em todos os gestos dela.
— Ainda que pudesse ajudá-lo, não há nada a ser feito a essa hora ou tão rápido quanto espera.
Barry deixou cair os ombros e as mãos dela, desolado. Ainda sentia o olhar, claramente preocupado e imaginou que Cisco deveria ter contado a ela e Ralph sobre como estava, mas nada chegava aos pés de vê-lo cair, pessoalmente.
— Tudo nem, eu... – Encarou a rua escura, um pouco perdido. – Eu tenho que ir.
— Não vai fazer nenhuma besteira, certo? – Não fez questão de responder e, em silêncio, voltou a descer os degraus até o nível da calçada, agora sem pressa. Não iria dormir, se fosse para a casa, e não tinha aonde ir realmente, só precisava se distrair, pensar em uma maneira de dar um fim àqueles sonhos estranhos. – Barry? Você nem vai voltar para o apartamento de Cisco agora, não é?
— Só o deixaria ainda mais preocupado comigo. – Encarou os pés, de maneira pensativa, as mãos já nos bolsos. – Ele nota melhor do que ninguém esses picos de altos e baixos, nos últimos dias.
— Está errado. Todos nós notamos. – Caitlin desceu as escadas e segurou um de ombros com firmeza até que se voltasse a ela, menor em alguns centímetros fora dos saltos cotidianos, com o rosto limpo e os cabelos presos em um coque mal feito completamente atípico. – Fique aqui essa noite e amanhã iremos ao laboratório para que eu faça todos os exames possíveis em você.
— Em minha cabeça. – Corrigiu, no que ela sorriu de forma pequena.
— Sim. – A mão dela se fechou em seu cotovelo e, de forma sutil, começou a puxá-lo escada acima novamente. – Podemos ver um filme até que pegue no sono.
— Eu não vou...
— Apenas confie em mim, okay? – Cait o encarou com convicção e voltou-se para abrir a porta do hall iluminado em amarelo somente por um abajur. – Vou preparar um chá calmante que costumo tomar.
— Sinto que chá não é exatamente o que preciso.
Murmurou subindo as escadas largas de madeira. Era a cara de Caitlin morar em um prédio chique e privado como aquele, com paredes claras, alguns quadros nas paredes que seguiam os degraus e plantas grandes e decorativas em corredores espaçosos. Foi tudo que sua mente registrou antes de chegarem ao apartamento dela, de número seis, na última porta do segundo andar.
— Eu sei, mas é tudo que posso fazer por você hoje.
O ambiente estava bem mais quente em comparação à madrugada lá fora e tinha uma sala espaçosa e confortável, onde havia uma mesa de jantar quadrada sob um lustre e uma cozinha planejada logo depois de uma ilha de mármore claro, para onde ela seguiu acendendo as luzes, pois antes a iluminação era somente a de um abajur luxuoso próximo ao sofá.
Então, enquanto Caitlin se mexia habilmente pela cozinha, colocando água para esquentar e pegando objetos nos armários, sentou-se em uma das poltronas à frente da comprida janela que dava para a rua, tirando os sapatos e abraçando os joelhos. Não se esforçou em manter qualquer diálogo, uma vez que sua mente estava cansada demais para elaborar um assunto que fizesse sentido, e agradeceu que a doutora também não continuou a interrogá-lo. Caitlin mantinha esse instinto constante sobre quando deveria manter a distância ou pressioná-lo.
— Aqui. – Ela lhe entregou uma xícara quente e Barry tomou o líquido com uma careta.
— É uma droga.
— Eu sei, mas realmente ajuda. – Ela sorriu um pouco, afastando-se. – Agora, eu instalei a televisão no quarto quando mudei. Você pode ficar lá, se conseguir dormir, e eu vou para o quarto de hóspedes para não ter que acordá-lo, okay?
Caitlin explicou tranquilamente enquanto ajeitava as coisas na cozinha e agradeceu que a doutora estivesse longe, assim não o veria repentinamente tenso. Tirou os olhos da janela, passando-os pela sala à meia luz para descobrir que realmente não havia TV ali. Caitlin apagou as luzes da cozinha e aproximou-se.
— Er... Isso não é necessário, Cait. – Levantou-se, colocando a xícara de chá sobre uma mesinha com um vaso de flores frescas. – É o seu quarto, sua privacidade e... Não acho que seja...
Apropriado, quis dizer de uma vez, sentindo-se repentinamente culpado, pois Caitlin não sabia que ele andava associando seu perfume ao da mulher com quem estava sonhando, o que, por tabela, fazia com que fosse desonesto também com ela, além de Iris. Estavam apenas dando um tempo, isso era tudo, e tinha certeza que ela não estava se deitando na cama de outras pessoas.
— Barry, somos nós. Faço por você o mesmo que faria por Cisco e Ralph. – Ela riu como se estivesse sendo estúpido e seguiu pelo corredor à direita da cozinha. – O quarto de hóspedes está sempre pronto, conhece minha mania de arrumação, e não é como se eu fosse dormir tão rápido de novo.
Com um suspiro resignado, tomou um novo gole do chá e a acompanhou até encontrar a porta branca, que levava à espaçosa suíte. Caitlin tirava algumas coisas, que se encontravam sobre o edredom do lado de direito, onde supôs que ninguém dormia pela configuração da enorme cama. Então, ela colocou o notebook, a extensão de fios e três livros sobre um sofá próximo à uma porta de correr larga e clara, que devia levar ao banheiro e closet.
— Seu quarto é bonito.
Disse quando ela o encarou, ainda estacado próximo à porta, sem realmente se aproximar. Não estava mentindo, pois podia perceber o bom gosto por toda a casa, decorada em tons claros e com objetos de luxo. Exatamente no meio, havia um lustre elegante sobre a cama e luzes acompanhavam a parede atrás da mesma, onde também aquela onde ficava a janela, que dava para a rua.
A cabeceira era alta e tão larga quanto a cama, ladeada por dois abajures em tons escuros, para contrastar com todas as demais coisas em tons neutros, inclusive a combinação de tapetes. De frente para a cama, na parede, havia uma enorme TV, logo acima de um longo aparador de estilo vintage, sobre o qual diversos itens se encontravam dispostos, inclusive porta-retratos com fotos de todo o time.
— Olha, se não estiver à vontade... Eu entenderei, okay?
Caitlin elaborou de forma lenta, fazendo-o sentir-se culpado novamente, pois ela, definitivamente, não era responsável por nada que estivesse se passando com ele e, além disso, tudo que poderia estar pensando era fruto, exclusivamente, de sua mente. Apesar de lê-lo com facilidade e bastante frequência, a mulher estava alheia àquela confusão em específico. Não havia nada de malicioso nela ou em qualquer de seus atos, somente em sua cabeça. Barry precisava tanto dormir.
— Vamos assistir algo leve ou com muita violência?
— Você ainda pergunta...
Ela sorriu novamente e ligou a TV, sentando-se do lado esquerdo com as pernas cruzadas e deixando implícito que fizesse o mesmo enquanto procurava por algo com bastante sangue e morte. Isso foi algo que o surpreendeu quando passou a conhecê-la direito, logo no início de tudo, pois Caitlin se mostrava sempre tão racional, responsável e delicada, que era praticamente impossível associar qualquer entretenimento violento a ela. No entanto, ação, terror e suspense eram seus gêneros favoritos para filmes, séries e livros.
Então, encaminhou-se até a cama e sentou-se, tirando os sapatos e acomodando-se sob os edredons quentes. Surpreendeu-se que o perfume não estivesse tão forte nos travesseiros às suas costas e manteve a xícara grande de chá nas mãos enquanto um filme qualquer começava a passar. Ela desligou todas as luzes e minutos depois a tensão o deixou, pois estar ali, apenas vendo um filme como costumavam fazer com Cisco nos tempos de paz, era familiar. Logo discutiam avidamente, discordando e confabulando teorias, afinal era um bom filme e, pela primeira vez em dias, sentia-se um pouco mais como ele mesmo, sem exigir muito de si.
Percebeu que começara a cochilar quando seu corpo entrara em estado de alerta rapidamente, fazendo-o acordar e encarar o quarto ao seu redor. Já estava amanhecendo, pode notar pelas frestas da cortina, e o segundo filme que escolheram ainda passava na TV. Caitlin assistia com atenção, meio deitada, de braços cruzados, mas o encarou assim que notou a movimentação atípica.
— Pode dormir, Barry. Não precisa se preocupar. – Ainda encarou o filme, sem realmente assimilar o que passava enquanto se ajeitava na cama macia buscando uma posição confortável.
— Me conta o final do filme depois? – Questionou sentindo os olhos pesarem de sono, sem que pudesse contê-los.
— Não, nós vamos revê-lo quando estiver bem.
Ouviu a voz dela prometendo enquanto os dedos calmos apertavam seu braço em uma tentativa de reconfortá-lo, mas logo estava alheio a tudo e, finalmente, mergulhava em um sono pesado.
*
Barry notou que dormiu por horas quando acordou lentamente revirando-se na cama sentindo o corpo realmente descansado pela primeira vez em dias. Sem pressa, encarou o teto do quarto de Caitlin calculando que deveria ser muito tarde, a julgar pela claridade que invadia o ambiente, muito diferente da escuridão da madrugada. Virando-se para o lado esquerdo, notou que ela não estava ali e que, provavelmente, dormira no quarto de hóspedes, como garantiu que faria, para deixá-lo dormir.
Ainda desfrutando da cama muito confortável e da nova sensação de paz, colocou-se de bruços, fechando os olhos novamente, tentado retomar o sono. No entanto, ao fazê-lo aproximou-se dos travesseiros que deveriam ser os dela, constatando que dali vinha o cheiro diferente, o perfume que a mulher dos sonhos sempre usava, não importasse o momento. O perfume sobre o qual estava bastante ciente nos últimos dias, ainda que não fosse sua intenção.
Franzindo o cenho, alcançou e abraçou um por alguns minutos, deixando-se levar tanto pelo perfume quanto pelo irremediável sono. Acordara sozinho dessa vez, sem sonhos perturbadores, e estava até surpreso que aquele perfume não trouxesse imagens inadequadas à sua mente naquele instante, mas devia ser algo sobre estar ali. Não seria nada correto começar a pensar sobre a mulher que usava a mesma fragrância de Caitlin estando na casa dela.
Fantasiar, havia dito o Dr. Halford.
Soltou o travesseiro no mesmo instante e sentou-se, coçando os olhos e bagunçando os cabelos. O relógio digital sobre o móvel de cabeceira indicava que passava das três da tarde, o que era muito tarde mesmo para seus padrões, mas ao menos algumas horas de sono haviam sido recuperadas. Notou a porta do banheiro um pouco aberta, mas decidiu procurar por um no corredor, pois já havia invadido demais a privacidade de Caitlin. Então, quando finalmente sentiu-se acordado o suficiente, saiu para encontrá-la na cozinha, guardando as compras de várias sacolas.
— Ei! – Ela lhe sorriu abrindo a geladeira e guardando alguns produtos ali. – Dormiu bem?
— Mais que bem. Fazia muito tempo que não dormia assim. – Percebeu sua voz pastosa e rouca pela falta de uso.
— Tecnicamente, só assistimos um filme para que relaxasse. – A doutora apontou a lata de azeitonas que iria guardar em sua direção. – Você mal tocou naquele chá, não pense que eu não vi.
— Agradeço pela intenção do chá, mas precisa urgentemente encontrar remédios melhores.
— Remédios são feitos para serem eficientes, não saborosos. – Resmungou em descrença e sentou-se à ilha de mármore quando ela disse que não precisava de ajuda para guardar as compras. – Seu celular tocou algumas vezes. Estava na mesinha de cabeceira, mas eu peguei para que não acordasse. Ah, e também avisei Cisco que estava aqui e em segurança, ele ficou realmente preocupado quando acordou e não te encontrou.
Pegou o celular de um dos aparadores e gemeu em desgosto ao verificar todas as ligações perdidas da corretora de imóveis, além de Cisco, Joe, Cecile e até Ralph. Franziu o cenho, buscando na memória se havia marcado qualquer coisa com os últimos, mas não conseguia lembrar de nada.
— Acho que tenho vacilado demais com todos. – Ela não respondeu rapidamente, terminando de guardar todas as coisas e se voltando a ele, tirando algumas marmitas do micro-ondas e colocando logo à sua frente.
— Eu guardei almoço. – Sorriu rapidamente, vendo-a dar a volta ao redor da ilha e passar por ele para sair da cozinha, mas segurou sua mão rapidamente, impedindo-a de continuar seu caminho.
— Cait, obrigada. – Encarou seus dedos juntos, apertando os mais finos e quentes entre os seus. Era estranho que a médica tivesse uma dupla personalidade gelada e os dedos tão constantemente quentes. – Você não precisava ter feito o que fez essa noite.
— Sou sua amiga antes de ser sua médica, acredite ou não. – Ela sorriu, calma e compreensiva, levando uma das mãos ao seu ombro. – Amigos estão um pelo outro quando precisam, certo?
Concordou em silêncio, novamente sem deixar que ela se afastasse e a abraçou. Franziu o cenho rapidamente, notando como Caitlin também hesitou antes de passar os braços ao redor dele, porque fazia algum tempo que não tinham esse contato. O cheiro vindo dos cabelos dela, tão próximo, chegou até ele rapidamente e tudo que fez foi encaixar seu queixo na curva do pescoço alvo.
— Sinto muito por ocupar sua cama essa noite.
— Oh, tenho um ótimo quarto de hóspedes. – A doutora afastou-se para lhe sorrir com segurança em garantia e finalmente teve de soltá-la. Franziu o cenho rapidamente e voltou-se para a comida, enquanto ela buscava o I-pad e continuava a falar. – Eu fiz minhas pesquisas e falei com algumas pessoas sobre o seu problema. Quer dizer, não exatamente o seu... Enfim, tentei aplicar o que descobri ao seu caso em específico.
— E o que descobriu?
— Nada de muito concreto. – A observou se sentar ao seu lado na ilha e começar a explicar em seu jeito característico e cheio de gestos. – Pensamos que poderia estar sofrendo de estresse pós-traumático tardio, devido a tudo que passou durante a Crise, mas isso seria muito... Simples, considerando tudo o que aconteceu nesse período. Então, me lembrei que esteve mais ligado do que o comum à Força de Aceleração naquele momento. Quando viu várias possibilidades de futuro, pode ter se conectado a outros velocistas e por isso anda sendo... Perturbado, de alguma maneira.
— Como se alguma ligação houvesse restado, ainda que eu tenha feito uma escolha? – Ela concordou, no que ele franziu o cenho. – Acha que os espectros da Força de Aceleração têm algo a ver com isso? Seria tipo.... Uma punição por não deixar a história acontecer como deveria?
— Talvez, é um palpite arriscado. É a única coisa que consigo pensar com os sintomas que aparentou nos últimos dias. – Ela colocou o I-pad de lado e o encarou com seriedade. – Mas, primeiramente, precisamos pensar em uma forma de descobrir se essa ligação realmente existe. Sabemos que existem diversos de nós, mas nossas consciências e nossas personalidades divergem quando juntas, ao mesmo tempo em que algumas similaridades se sobressaem, como o Flash sendo um herói. Você disse que tem esses sonhos... Com o quê?
Então, Barry se viu hesitando, pois contar a ela seria como materializar aquilo que estava apenas em sua mente. Não queria revelar que vinha sonhando, fantasiando, com uma mulher que não fosse Iris, com uma família que não era a sua e, pior, sentindo falta de um bebê que não se tratava de Nora, mas de um menino. Pigarreou, desviando o olhar do costumeiro analisador da doutora, e se levantou torcendo as mãos.
— Com que objetivo a Força de Aceleração poderia estar jogando comigo novamente?
Desconversou, sem realmente comprometer a conversa. Pela primeira vez poderia estar encontrando os caminhos certos para descobrir o que se passava com ele, depois de tanto tempo sentindo haver algo fora de lugar. Vinha pensando sobre a Força de Aceleração, mas nada havia sido tão elaborando quanto àquilo, pois estava mais ocupado em desvendar aquelas imagens estranhas.
— Não há como descobrirmos sozinhos ou sem conhecer todos os fatos. – O tom dela foi de aviso, afinal não queria falar sobre o que sonhava e isso não passara despercebido. – Mas, Barry, ao menos para mim é muito claro que a Força de Aceleração vem influenciando sua oscilação de comportamento. Temos de descobrir o motivo, além de uma forma de fazê-la parar. Cisco e eu podemos desenvolver algo que capte suas vibrações nos momentos em que se sente mais vulnerável e os materialize de forma a podermos descobrir como a Força de Aceleração está te manipulando.
Pensou em como usariam os poderes de Cisco para materializar tudo que estava em sua mente sem que fosse fruto dela, originariamente, mas logo a ideia de ter aqueles sonhos e imagens abertos para todos soou incômoda demais. Como se estivessem prestes a descobrir uma parte de sua vida muito íntimo e muito, muito, errada. Barry tinha a vida que queria depois de tudo, entretanto, não parecia ser suficiente, pois havia aquela família irreal, que habitava sua mente da forma mais trivial e cotidiana possível como se fosse parte dele.
— Talvez... Fosse melhor não envolver Cisco agora.
— Barry, eu entendo que não queira falar sobre o que quer que esteja sonhando, mas...
Caitlin foi interrompida pelo toque de seu celular tocando no bolso da calça. Rapidamente, o alcançou e atendeu, sem fazer questão de parecer muito culpado, pois a doutora saberia que não estava. Começava a evitar formas viáveis de solucionar o problema para não se expor e mostrar o que, realmente, se passava em sua cabeça. Precisava de uma maneira mais objetiva do que essa, de qualquer forma.
— Boa tarde, Sr. Allen! – A mulher do outro lado da linha desejou animadamente. Prendeu a respiração enquanto observava Caitlin cruzar os braços e aguardar, sem muita paciência. – Não sei se viu minhas mensagens, mas posso acompanhá-lo para ver os apartamentos pelo resto da tarde, já que perdeu o horário que havíamos marcado para essa manhã.
— Sério?
Estranhou ao verificar que já passava em muito das três da tarde de um sábado, mas supôs que corretores estivessem muito mais interessados no dinheiro do que em horários fechados de expediente. Eles sempre lhe davam certa alergia, de qualquer forma.
— Sim, é claro, sei como policiais podem ser ocupados.
— Tudo bem, então... – Franziu o cenho rapidamente. – Estarei livre em meia hora, pode me mandar o endereço?
Ouviu a mulher concordar rapidamente e desligou, ainda estranhando toda a solicitude. É claro que queria encontrar um flat o mais rápido possível, mas não esperava que a Corretora também estivesse tão empenhada. Então, levantou os olhos para encarar Caitlin, que somente aguardava com aquele ar prepotente de quem o conhecia perfeitamente bem.
— Sei o que está fazendo, Barry Allen.
— Quer ir ver apartamentos?
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