Dark Dawn

33 Capítulo Extra: Sonho Vívido


Notas iniciais
Como prometido, trazendo o capítulo extra pra vocês. Boa leitura!

Capítulo Extra:

Sonho Vívido

○♦○

A CONSCIÊNCIA VOLTOU A ELE aos poucos, de forma gradual. Sentia-se entorpecido, desorientado, e havia um latejar persistente na lateral da sua cabeça, irradiando por todo o seu crânio a partir do olho direito: o olho do seu Sharingan.

O fato de haver claridade no cômodo lhe feria as pálpebras ainda que estas estivessem cerradas; a luz permeava-as como se não passassem de papel fino e atingia os olhos sensíveis, desabituados à luminosidade excessiva devido às longas horas a que estiveram expostos ao escuro absoluto.

Sasuke se sentou com um solavanco na cama. Os olhos bem abertos examinaram com atenção e cautela o recinto. Não deveria haver luz no quarto. Não deveria haver luz em parte alguma. Seu esconderijo localizava-se nas profundezas de uma caverna, oculta por um labirinto de túneis de rocha sólida. Ali, nas entranhas de uma montanha, ele passara os últimos dois anos, isolado do restante do mundo como se o seu covil estivesse à parte de todo o restante.

Agora, contudo, a luz do sol atravessava desimpedida as vidraças das grandes janelas atrás da espaçosa cama de casal que ele ocupava, incidindo sobre o assoalho escuro e sobre a mobília clara. Sasuke tocou os lençóis sob o seu corpo; sentiu uma leve fragrância floral na fronha do travesseiro ao lado do seu. Mexeu o braço esquerdo e então se deu conta da ausência do membro.

Embasbacado, ergueu a manga comprida da blusa para revelar o cotoco no qual o seu braço esquerdo terminava, um pouco acima da linha do cotovelo. O ferimento era antigo, a pele estava muito bem cicatrizada. Talvez tivesse acontecido há anos, cerca de uma década ou mais.

Abaixando a manga outra vez para ocultá-lo, tentou prestar atenção no entorno. Uma das janelas estava entreaberta, permitindo que uma brisa morna circulasse pelo cômodo. Sasuke ouviu-a nos ramos de uma árvore próxima, sussurrando nas folhas verdes. Também ouviu o som de passos atrás da porta cerrada e se colocou de pé num momento fluído.

Silencioso e veloz como um relâmpago, posicionou-se ao lado da porta e aguardou, contando os batimentos do próprio coração, enquanto os passos se tornavam mais próximos. E mais próximos. A maçaneta girou e a porta se abriu. Alguém entrou no cômodo.

Os instintos de Sasuke apelaram a ele para que agisse — e Sasuke agiu. O seu corpo se moveu, empurrando-o adiante em direção ao intruso antes que os seus olhos sequer tivessem tempo de recair sobre ele e atingi-lo em cheio com o reconhecimento. A sua mão estendeu-se, encontrando os lábios e tapando-os antes que o intruso tivesse a chance de gritar. Tudo aconteceu num único segundo.

Então uma fragrância familiar acertou-o quando ele inspirou o ar numa lufada profunda, despertando memórias adormecidas do seu passado. Ele conhecia aquele perfume, mais especificamente o cheiro que costumava impregnar os cabelos cor-de-rosa pálidos de Sakura. E cor-de-rosa pálido foi a tonalidade a lhe preencher todo o campo de visão quando Sasuke encostou-se ao corpo do intruso. O único som que ecoou por todo o recinto foi um arfar surpreso e indiscutivelmente feminino antes que Sasuke pressionasse a palma da mão contra aqueles lábios, silenciando-os.

Silêncio seguiu-se, e por um longo momento. O coração de Sasuke retumbava no peito e um suor frio porejava a sua testa sob a franja comprida. Ele paralisou assim que madeixas cor-de-rosa encheram o seu campo de visão. O perfume dela pairava entre ambos como uma névoa de toxina, entorpecia-o. Sasuke jamais achou que sentiria aquele perfume outra vez.

Com calma — e nem um pouco tensa pela forma como foi abordada —, Sakura tocou a mão dele que lhe cobria os lábios e a afastou, virando o rosto e um pouco do corpo a fim de fitá-lo. Sasuke continuou imóvel, uma perfeita estátua de mármore. Os olhos claros de Sakura fitaram-no não com medo ou com repudia, mas com aturdimento.

— Anata, o que você está fazendo?

O tom afetuoso com o qual se referiu a ele despertou-o do estado momentâneo de torpor apenas para lançá-lo em outro, desta vez de confusão. Sasuke afastou-se dela como se houvesse levado um choque, os pés recuando até que tivesse as costas pressionadas contra a parede do quarto. Respirava aos arquejos, os pulmões comprimidos exigindo cada vez mais oxigênio que ele não era capaz de proporcionar na medida e velocidade adequadas.

Sakura piscou os belos olhos verdes, o semblante confuso tornando-se rapidamente num de preocupação. Com sutileza, aproximou-se dele, uma aura inofensiva cercava-a, e as mãos que o tocaram fizeram-no com o único propósito de examiná-lo, sentindo a temperatura da pele do seu rosto nas palmas. A voz soou tão aflita quanto terna.

— Anata, o que foi? Você está pálido. Respire mais devagar, por favor. Está sentindo algum mal-estar?

Sasuke tentou resistir, mas o toque dela na sua pele era afetuoso demais, delicado demais. E sem que pretendesse ele relaxou, o coração se acalmando ao som da voz dela. Tão dolorosamente familiar. Chamando-o de querido, e aquilo sim era uma novidade interessante. Onde diabos ele estava?, perguntava-se.

Descerrando os dentes, baixou os olhos para o rosto amável de Sakura. O toque dela fazia-o se sentir letárgico, confortável, em paz, em casa. Como há muitos anos não era capaz de sentir. Penetrava as suas defesas, independentemente da sua vontade, e o acalentava.

— Você... — ele começou, a voz mal passando de um sussurro. — Você está aqui.

A reação dela surpreendeu-o. Sakura riu.

— É claro que eu estou aqui. Por que não estaria?

A mão dela afastou carinhosamente a franja dos seus olhos. O sorriso que ela lhe abriu era mais radiante do que qualquer estrela e aqueceu o coração calejado de Sasuke com uma ânsia latente que ele vinha combatendo há tempo demais. Estava cansado de lutar contra aquilo, percebeu atônito, estava cansado da solidão, cansado da miséria e de sentir aquele peso no peito. Portanto, rendeu-se. Passou o braço ao redor da cintura de Sakura e a trouxe para perto de novo, encaixando o rosto no pescoço dela. A pele ali era delicada e quente, e a fragrância da qual se recordava se tornava ainda mais intensa quando esfregava a ponta do nariz na região.

Sakura voltou a rir, envolvendo-o pelos ombros num abraço carinhoso.

— O que foi que deu em você hoje? Está agindo estranho... Está mesmo tudo bem?

Sasuke curvou os lábios num pequeno sorriso contra a pele dela.

— Sim. — E pela primeira vez em muito tempo, sentia que, de fato, estava mesmo tudo bem.

Sakura desfez o abraço, afastando-se o suficiente para olhá-lo. Ela ainda sorria.

— Muito bem, então tome um banho. O café da manhã está pronto. Vim aqui para te avisar para que descesse.

Ela se desvencilhou de Sasuke e se virou na direção da porta. Sasuke estava convencido de que estava sonhando. Nada daquilo poderia ser real. Talvez estivesse preso a genjutsu. Não importa, decidiu. Sonho ou ilusão, não queria ter de acordar sozinho no escuro nunca mais.

— Não demore no banho! — Sakura ralhou, balançando o dedo indicador para ele. — Ou vai se atrasar para se encontrar com o Naruto.

A mera menção do nome de Naruto fez Sasuke estagnar no lugar, paralisado outra vez. Um suor frio escorreu pela sua espinha e seu corpo não o obedecia mais de repente.

— Naruto? — ele ecoou, mortificado.

Sakura cruzou os braços.

— Sim, o Naruto! O Nanadaime Hokage! Nosso companheiro de time, bastante tapado por sinal. Lembra-se dele? — Ela estalou os dedos diante da face lívida de Sasuke, os olhos antes horrorizados retornando ao rosto dela. — Eu acho que você está agindo muito estranho, Anata.

Sakura voltou a tocá-lo, pressionando as costas das mãos contra as faces e o pescoço dele a fim de sentir a sua temperatura.

— Você não tem febre. — Afastou-se, ponderando. — Que estranho... Não teria relação com o ataque você sofreu ontem à noite?

Sasuke voltou-se para ela ainda mais confuso.

— Que ataque?

Sakura franziu o cenho pela primeira vez desde que entrara no quarto, um lampejo de desconfiança atravessando o seu rosto só por um instante. Sasuke percebeu-o mesmo assim, e também percebeu que cometera um erro grave ao exibir a sua ignorância tão abertamente.

— Você realmente não está bem. — Ela suspirou. — Tome um banho e desça para tomar o café da manhã. Eu tenho afazeres para cuidar e sou esperada no hospital em uma hora. Diga-me se sentir algum sintoma estranho.

E dizendo isso saiu do cômodo, deixando Sasuke sozinho. Ele esperou até que os passos dela se afastassem o bastante pelo corredor para só depois investigar o quarto mais a fundo. Começou pelas gavetas de uma cômoda. Havia roupas femininas em algumas — indiscutivelmente de Sakura —, e masculinas noutras — provavelmente dele. Todas tinham o símbolo do clã Uchiha bordado às costas das vestimentas.

Sasuke se moveu com cuidado até o banheiro contíguo ao quarto, entrou e também investigou o seu interior. Revirou armários e se encarou no espelho sobre a pia pela primeira vez. Seu rosto permanecia o mesmo. Ainda era ele. O que estava havendo? Por que acordara naquele lugar? Naquela casa? Uma casa que dividia com Sakura, de todas as pessoas.

A fim de despistá-la e não atrair mais suspeitas, ele abriu o registro do chuveiro e deixou a água quente escorrer pelo ralo. Uma bruma de vapor logo tomou conta do banheiro. Aproveitou que o som da água corrente abafaria um pouco dos seus ruídos e se deu mais liberdade para explorar o recinto, mas depois de não encontrar nada potencialmente perigoso, retornou ao banheiro, tirou as roupas e tomou um banho rápido.

As roupas limpas que pegou na cômoda lhe serviram perfeitamente. A ausência de um membro retardou-o um pouco, contudo. Não estava habituado a poder contar com um único braço. Ainda assim, quinze minutos exatos depois de Sakura sair do quarto, Sasuke pisou no corredor da casa, reparando em toda a mobília e decorando todas as saídas e rotas de fuga possíveis.

Também notou que a casa era espaçosa e confortável, mesclando tradição e modernidade de um jeito harmonioso e elegante. Em quase todos os cômodos, viu quadros com o símbolo Uchiha pendurados em paredes ou adornando cerâmicas finas nas estantes.

Sasuke chegou à cozinha atraído pelo cheiro de comida. Lá, encontrou Sakura outra vez. Ela se movia por trás de uma bancada que fazia a divisa entre a sala de jantar e a cozinha, terminando de colocar o desjejum à mesa de cedro escuro. O cheiro fez o estômago de Sasuke roncar e ele se aproximou mais, decidindo aparentar uma postura relaxada e descansada.

Antes que chegasse à mesa, contudo — enquanto passava por um móvel —, a visão de uma fotografia o deteve. Seu braço se estendeu e ele a apanhou antes que percebesse o que estava fazendo. Era uma fotografia de família num porta-retratos de moldura prateada. Sakura e ele apareciam nela, junto de uma garotinha de aproximadamente doze ou treze anos. Uma garotinha que usava um par de óculos de armação vermelha e tinha os cabelos, e os olhos da cor dos dele. Além do formato do rosto. Ela ainda usava um vestido vermelho parecido com o que Sakura usara na adolescência. Era linda.

— Ah, você está aí. — A voz de Sakura arrancou Sasuke de um devaneio. Ele recolocou o porta-retratos no lugar depressa, passando os olhos pelas demais fotografias: mais fotos da garotinha de cabelos e olhos negros, mas numa versão mais jovem. Uma foto dela e de Sakura num quimono bonito no que parecia ser a cerimônia de entrada na Academia; a foto de um bebê de bochechas rosadas e olhos redondos olhando para a câmera estava em outro porta-retratos.

Sasuke se sentou à mesa com naturalidade. Olhou para a fartura de comida e para as três tigelas dispostas em lugares diferentes. Seu coração se apertou. Ouviu passos. Alguém vinha vindo, e corria. Uma menina desceu as escadas, a menina da fotografia. Trazia, contudo, na testa um hitaiate vermelho da Vila da Folha. A semelhança com ele e Sakura era espantosa; uma mescla perfeita de ambos.

Sasuke averteu os olhos quando percebeu que a estivera fitando por tempo demais e muito intensamente. Sakura olhava-o de viés, atenta a cada gesto dele.

— Bom dia, mamãe! Bom dia, papai! — ela saudou-os e se acomodou à mesa, ocupando o assento ao lado de Sasuke, que enrijeceu.

— Vai se atrasar para encontrar o seu time, Sarada — Sakura ralhou.

— Eu sei, mamãe, mas não deu para evitar. Não dormi muito na noite passada. — Ela suspirou e em seguida ergueu os familiares olhos negros escondidos por trás das lentes dos óculos para Sasuke. — Está tudo bem, papai?

Sakura se aproximou com as mãos nos quadris.

— Seu pai está agindo estranho hoje, Sarada.

Ela riu e se serviu numa tigela de uma pequena porção de arroz, separando os hashis para comer.

— Mais estranho do que o comum, mamãe?

Sasuke a fitou desconcertado por perceber que estavam caçoando dele. Engoliu a seco e pegou os hashis, servindo-se e começando a comer. A comida não lhe caiu bem no estômago, contudo. Por mais que quisesse, não conseguia digerir aquela novidade de que era pai. E de uma menina de doze anos. Onde eu estou?, perguntava-se incessantemente dentro da própria cabeça ao mesmo tempo em que o seu coração se aquecia com a ideia de ele ter uma família outra vez.

Conforme continuava a mastigar e engolir de modo mecânico, prestava cada vez mais atenção à conversa de Sakura e da menina — cujo nome era Sarada —, que riam e faziam perguntas a ele de vez em quando. Sasuke não se lembrava da última vez em que tomou café da manhã com pessoas ao seu redor. Sua mão que segurava o hashi tremeu e uma ardência nos olhos obrigou-o a abaixar a fronte a fim de escondê-los. Por sorte, nem Sakura nem Sarada notaram o comportamento insólito.

Sarada foi a primeira a se retirar, para o desapontamento dele que queria saber mais sobre ela. Sentia-se ávido por detalhes — por menores que fossem — da vida da menina. Mas então ela se despediu de ambos com um aceno e um sorriso, correu até o desnível para calçar as sandálias e saiu pela porta, batendo-a ao fechá-la.

Sakura suspirou e começou a recolher a louça. Sasuke percebeu a oportunidade e passou a ajudá-la, empilhando as tigelas e os copos e levando-os até a pia. Abriu a torneira e deixou que a água encobrisse a pilha de louça suja. Acompanhou Sakura com os olhos enquanto ela se movia pela cozinha.

— Você agiu estranho durante todo o café da manhã — ela observou, virando-se para ele com as mãos nos quadris. — Talvez devesse tirar o dia de folga e partir para a missão amanhã.

Sasuke não tinha a menor ideia de que missão ela se referia, mas achou melhor disfarçar, mais uma vez, a sua ignorância a respeito do assunto. Sakura já estava desconfiada das atitudes dele.

— Talvez você tenha razão — concordou, esperançando aplacá-la.

— Tem certeza de que está se sentindo bem? Agora pouco quando olhou para a Sarada pude jurar que estava vendo o rosto dela pela primeira vez...

— Eu só estou cansado — ele desconversou, passando por ela.

— Hmm — Sakura não pareceu ter sido convencida, ainda assim suspirou. — Pois então descanse. Posso pedir a alguém que avise o Naruto no caminho para o hospital que você acordou indisposto hoje.

Sasuke aquiesceu, sem objeções. Sakura se aproximou de súbito, o perfume suave dela encheu-lhe as narinas; uma fragrância inebriante. Ela ergueu-se na ponta dos pés a fim de alcançar seu rosto e pressionou um beijo carinhoso na sua bochecha direita, tocando a outra sob o cabelo que lhe cobria metade da face.

— Cuide-se, tudo bem? Eu já vou indo — anunciou e, sem esperar por uma réplica por parte dele, partiu, saindo pela porta da frente.

Uma vez sozinho, Sasuke se pegou olhando fixamente para o nada, a mente vazia. Tinha de ver o restante da vila, decidiu. Então, sem demora, rumou até o vestíbulo, parou para calçar as botas ninjas masculinas deixadas no desnível — supondo que seriam suas — e também saiu pela porta da frente.

Deparou-se com uma rua tranquila, margeada por árvores frondosas e pouquíssimas residências erguidas nas proximidades. Sasuke cobriu os olhos, protegendo-os do sol. Olhou para o céu azul e para as nuvens brancas que flutuavam ao longo da sua extensão. Inspirou o ar dali, sentindo-se verdadeiramente livre e desintoxicado em muito tempo.

Apressou-se pela rua em direção à parte mais movimentada da aldeia. Olhava para os edifícios, para coisas estranhas que ele jamais vira antes, novidades tão excitantes quanto misteriosas, e pegou-se imaginando que Konoha era aquela. O mais impressionante eram os moradores não lhe dirigirem olhares atravessados nem se desviarem para evitá-lo, rechaçando-o.

Sasuke percorreu rua atrás de rua, admirando-se em cada esquina. Quando chegou a uma rua particularmente apinhada, olhou para cima e deparou-se com o Monumento dos Hokages, as faces esculpidas na rocha coroando os telhados dos prédios mais altos. Sete ao todo.

Num impulso, correu até lá, saltando de telhado em telhado até se encontrar no terraço da Torre do Hokage, olhando fixamente para o sétimo rosto esculpido na ravina: o rosto de Naruto, não havia engano. Engoliu com dificuldade, sentindo um aperto no peito enquanto fitava aquele rosto tão dolorosamente familiar.

Naruto, seu melhor amigo. Naruto, aquele que lhe chamava de irmão. Naruto, aquele que lutou para trazê-lo de volta da escuridão. Naruto, aquele que ele matou.

Uma rajada de vento abrupta varreu o topo do prédio onde Sasuke estava, avultando folhas aos seus pés e fazendo-as rodopiar à sua volta. Então, uma voz soou:

— Ei, o que ‘tá fazendo aqui?

Sasuke se virou com um sobressalto, encontrando a silhueta de ninguém menos do que Naruto vindo à sua direção. Sasuke estacou, paralisado, olhando para o rosto amadurecido de Naruto, o cabelo loiro cortado mais curto, os olhos azuis mais sábios, as marcas de expressão na pele bronzeada. Era ele. Seu melhor amigo. A quem ele traiu da forma mais hedionda imaginável.

— Naruto — chamou-o, percebendo como a voz tornou-se embargada.

Naruto sorriu. Usava um manto branco com chamas vermelhas bordadas na barra ao redor dos ombros. Um manto de Hokage. Sasuke averteu os olhos para o chão, tantos sentimentos assaltavam-no de uma só vez, o maior deles, que o consumia, era culpa.

— Um dos subordinados da Sakura-chan acabou de me avisar que você não tinha acordado disposto hoje. ‘Tá tudo bem? Espero que não tenha relação com o ataque que você sofreu ontem à noite. Nós conseguimos rastrear a Kunoichi de Chigakure até uns dois quilômetros ao sul, depois os rastros desapareceram. Mas eu ainda pretendo enviar mais grupos para localizá-la. Talvez o Kiba esteja desocupado e possa liderar o esquadrão — ele ponderou, tocando o queixo com o punho enfaixado. — Se puder emprestar uma peça de roupa que ela sujou de sangue ontem...

Sasuke ouviu tudo de forma distante, sentia como se estivesse embaixo d’água. Todos os sons estavam abafados, como se houvesse uma barreira divisando-o de todo o restante. Não se sentia parte daquele lugar, ainda que ansiasse por isso com todo o seu coração.

Naruto pareceu perceber isso, pois se aproximou de repente. Quando se deu conta, a mão do amigo tocava seu ombro, os olhos azuis sondavam-no com preocupação.

— Ei, você ‘tá bem, Sasuke? Parece que não ouviu uma palavra do que eu disse.

Sasuke piscou, recuperando-se do aturdimento que o tomava.

— O que você disse?

Naruto suspirou e tirou a mão do seu ombro.

— Eu disse que a sua partida pode ser adiada. Não precisa correr atrás do Chikage por enquanto. Eu vou relatar o que aconteceu ontem à noite aos outros Kages primeiro. Sério, descansa um pouco. Você ‘tá muito estranho, ‘ttebayo! — resmungou com uma careta.

Sasuke se virou para a aldeia, dando as costas a Naruto e olhou para os prédios mais uma vez, olhou para as pessoas que a povoavam. Outra rajada de vento abrupta fez as folhas secas estalarem aos seus pés. A pequena dúvida dentro dele tornou-se uma certeza, tão clara quanto o céu azul que coroava a vila da Folha.

Aquele não era o seu mundo. De algum modo, fora parar ali. Não tinha ideia de por onde começaria a investigar, mas pretendia descobrir quem havia sido o responsável por aquilo. E o faria pagar pela ousadia. Talvez pudesse começar a investigar a partir desse sujeito intitulado “Chikage”.

— Não posso ficar aqui — percebeu, sussurrando as palavras que o seu coração se recusava a reconhecer.

Fechou os olhos e aceitou aquela verdade amarga. Aquele não era o seu mundo, por mais que desejasse o contrário. Por mais que desejasse que os seus erros pudesse ser desfeitos daquela maneira e ele pudesse ser feliz naquele lugar com Sakura, Naruto e com a menina que se chamava Sarada.

Nenhum deles lhe pertencia. Nenhum deles lhe dizia respeito.

Então, decidiu-se, por mais dolorosa que fosse aquela nova resolução: tinha de voltar para casa. Tinha de voltar para o seu mundo. De alguma forma.

Tinha de ir embora.

Notas finais
Fim do capítulo extra! Nos veremos de novo em Dawn Rising! Até lá! xoxo
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!