Dark Dawn

29 Capítulo 29: Viajante de Mil Mundos


Notas iniciais
Vigésimo nono capítulo Boa leitura!

Capítulo 29:

Viajante de Mil Mundos

○♦○

A NEVE TINHA VOLTADO A CAIR no país do Ferro. Flocos felpudos e brancos constantemente varridos por um vento frio impetuoso. No topo achatado de uma curiosa formação rochosa, três montanhas gêmeas se encontravam, cada qual apontando para uma direção diferente. A neve forrava-as como um cobertor gelado, e o gelo a decorava com gigantescos pingentes que pendiam dos seus cumes denteados de forma a se assemelharem às mandíbulas de três feras raivosas. Por isso, eram chamadas de Montanhas Três Lobos.

E era este o cenário de uma batalha de vida e morte, uma batalha de proporções devastadoras. De um lado, havia o Chikage, quem havia guiado nos últimos anos todo o país do Sangue numa sangrenta empreitada que buscava tanto libertação quanto vingança, além daqueles que o seguiriam lealmente até o fim, sacrificando-se em nome da ambição que o regia.

Do outro, havia dois Kages, líderes militares de duas grandes nações — Fogo e Água —, e dois Shinobis leais de Konohagakure, dentre eles o homem mais inteligente. Mas, à frente deles, havia uma figura solitária, um homem de olhos desiguais, feições elegantes e harmoniosas e uma determinação pétrea regendo-o: a de voltar para o lugar ao qual pertencia e para as pessoas que amava.

Nada ficaria no seu caminho, Sasuke já se decidira muito antes de haver empunhado aquela espada contra o Chikage pela primeira vez. Haveria de derrotá-lo nem que para isso tivesse de recorrer a todo o seu poder.

No crepúsculo invernal, de um céu escuro e nuvioso, seus olhos queimavam de fúria ao encararem o seu adversário. Do outro lado do campo de batalha, Kazuma bradou acima do vento:

— Continua prepotente mesmo depois de ter visto um pouco do meu poder.

— Não há prepotência quando se constata o óbvio — Sasuke replicou com naturalidade. — Você está longe de representar a maior ameaça que já enfrentei, nesta vida ou em outras, neste mundo ou em outros. Você não é tão poderoso quanto imagina, é apenas um covarde com um poder de interferir na vida de outras pessoas.

Kazuma disfarçou o orgulho ferido com um torcer dos lábios, avertendo o olhar.

— Terei você de joelhos e implorando por misericórdia ao final dessa batalha, Uchiha Sasuke.

Sasuke desdenhou com um meio sorriso, seu olhar não vacilava.

— Hm. Então venha! — desafiou-o.

Kazuma empunhou duas kunais, ignorou as advertências de Hatori e dos gêmeos, e lançou-se num ataque impensado contra Sasuke, movido apenas pela sua fúria e por sua vontade de derrotá-lo a qualquer custo. Sasuke também não desperdiçou mais tempo: correu de encontro a ele de espada em riste, pronto para confrontá-lo.

Eles colidiram no centro do cume, as armas cruzadas, os pés afundados na neve. Colocavam força nos braços a fim de tentar empurrar o adversário e ganhar terreno por menor que fosse. Kazuma podia estar com raiva devido aos insultos que ouvira, mas Sasuke era o mais motivado dos dois — além do mais veloz. Não foi surpresa quando Sasuke apartou os golpes das kunais de Kazuma com a sua espada, volteou-o numa finta e baixou o braço num golpe perfeito contra as costas dele, rasgando tecido e pele num corte diagonal que ia desde a lombar até as omoplatas do homem.

Kazuma tropeçou momentaneamente desequilibrado, um gemido de dor preso nos lábios pelo corte profundo que Sasuke abrira nas suas costas.

— Chikage-sama! — Hatori gritou pelo seu líder e agiu imediatamente.

Suas mãos formaram selos depressa, o chakra dele se expandiu e então algo estranho aconteceu bem diante dos olhos de Sasuke: o ferimento nas costas de Kazuma desapareceu num piscar de olhos. Mas Hatori curvou-se na neve, por pouco não conseguindo segurar o gemido de dor que lhe escapou da boca.

Sasuke se virou, aturdido. Os gêmeos decidiram que era hora de agir depois disso. Moveram-se em sincronia pelo campo de batalha, copiando os passos um do outro. Correram na direção de Sasuke, mas foram impedidos de se aproximar pelo jorro abundante de um líquido espesso e claro que caiu sobre a neve e a derreteu de imediato.

Os irmãos se assustaram, detendo-se no mesmo instante. Sasuke olhou para cima e encontrou o olhar cúmplice de Sakura. O cabelo dela esvoaçava ao vento e formava um halo rosa pálido ao redor do seu rosto alvo. O jorro de ácido de Katsuyu dividiu o campo de batalha, corroendo a neve e chegando ao solo rochoso que havia por baixo; fumaça branca erguia-se do líquido espesso e corrosivo, uma clara advertência para os gêmeos se manterem afastados de Sasuke.

Os demais Shinobis de Chigakure também se moveram, avançando todos de uma vez contra o pequeno grupo em cima da cabeça gigante da lesma. Sakura saltou dela para o solo, pousando como uma felina diante dos gêmeos. O Mizukage imitou-a, pegando no cabo duplo de sua espada e erguendo-a diante do corpo em seguida.

— Lembrem-se disso — Sakura advertiu-os: — Ele não está sozinho nessa batalha.

Sasuke não conteve o meio sorriso ao ouvir as palavras dela.

— Mizukage-sama — ela convocou seu aliado —, por favor, fique ao meu lado!

— Hai, Hokage-sama! — ele anuiu prestativamente.

— Chouji, Shikamaru! — Daquela vez, ela chamou pela dupla, que saltou de cima da cabeça da lesma para pousar em meio à neve tal como fizera antes. — Por favor, cuidem do terceiro membro da Guarda Escarlate. Pelo que estou vendo — Sakura estreitou os olhos —, será crucial que o derrotemos primeiro para que Sasuke-kun obtenha uma vitória sobre o Chikage.

— Não precisa nem pedir por isso, Hokage-sama — Shikamaru murmurou.

— Ótimo, o Mizukage-sama e eu cuidaremos dos gêmeos — ela determinou.

Em resposta a isso, os irmãos se entreolharam e avançaram alguns poucos passos cuidadosamente. O vento soprou intempestivo no cume das montanhas, varreu a neve aos pés de Sakura, erguendo-a num torvelinho alvo. Os adversários estudaram-se, tentando antecipar quais movimentos fariam e quem os faria primeiro. O tempo correu mais devagar para eles, até mesmo chegou a paralisar-se por alguns instantes, momentos antes que os quatro avançassem ao mesmo tempo, correndo na direção uns dos outros.

Os gêmeos realizaram selos de mãos e reuniram seus chakras para a técnica que executariam.

— Mizukage-sama! — Sakura alertou seu aliado para a iminência do ataque.

— Hai! — ele respondeu mecanicamente, tão preparado quanto ela para o ataque.

Quando os gêmeos finalizaram os selos de mãos, conclamaram o jutsu simultaneamente, numa só voz:

Hyōton: Hissatsu Hyōsō!

Imensas estacas de gelo brotaram do solo, emergindo da neve como lanças azuis diamantinas. Sakura e o Mizukage esquivaram-se, alterando as suas trajetórias para correr em ziguezague.

— Temos de separá-los! Eles são mais fortes quando estão unidos! — ela concluiu por ambos, precipitando-se ao lançar-se num ataque direto, que foi imediatamente bloqueado por uma lança de gelo que se interpôs no seu caminho e forçou-a a jogar o corpo para o lado a fim de esquivar.

— Tem algum plano, Hokage-sama? — o Mizukage quebrou uma lança gigante com a sua espada, fatiando-a em duas num corte perfeito.

Sakura contorceu os lábios num sorriso sem dentes.

— Só um. Katsuyu-sama! — chamou pela lesma gigante, que respondeu de imediato com outro jorro abundante e corrosivo de ácido, atirando-o contra os irmãos.

Contra o ácido de Katusyu, mesmo a redoma de gelo deles cederia.

— Miyuki, recue! — Yuki declarou ao observar o jato de líquido claro ser atirado na sua direção, subindo tão alto quanto seria possível.

— Hai, aniki! — a garota anuiu.

Os dois seguiram em direções opostas, afastando-se no último segundo da chuva de ácido que caiu sobre a neve, derretendo tudo o que tocasse. Uma suave fumaça ergueu-se do local agora vazio onde o ácido aterrissou.

Sakura seguiu no encalço do homem, perseguindo-o implacavelmente e não permitindo que ele se reunisse à irmã outra vez. Juntos, os dois eram poderosos demais, uma força da natureza que combinava poder e disciplina. Mas separados eles cairiam mais depressa.

— Mizukage-sama, deixo a garota com você! — ela declarou ao seu aliado, que anuiu.

— Deixa comigo, Hokage-sama!

Sakura voltou-se para o seu oponente, seguindo no encalço deste através do terreno gelado. O homem girou sobre os próprios calcanhares de repente, arrastando os pés sobre a neve, realizou selos de mão e reuniu chakra para a sua técnica.

Hyōton: Rekku Suigeki!

Yuki escancarou a boca a fim de expelir inúmeros dardos de gelo afiados e letais como dezenas de agulhas. Sakura desviou-se deles sem dificuldades, evadindo ao jogar seu corpo para longe da trajetória dos dardos congelados. Preparou seu punho para um ataque direto. Yuki agiu depressa ao construir uma grossa parede de gelo entre eles. Seu soco poderoso estilhaçou-a num milhar de pedaços, mas deu tempo suficiente ao homem para se recuperar e ganhar distância.

Sakura reconheceu que ele era astuto; sabia que tinha de evitar os punhos dela e que receber um único golpe significaria ser ferido gravemente ou mesmo perder a vida.

— Não pode evadir os meus golpes para sempre — ela garantiu.

O homem respondeu com um som de desdenho, e nada mais. Ela insistiu.

— Sabe que eu só preciso te acertar uma vez para acabar com essa luta.

— Vai ter que me acertar primeiro para me tirar do jogo, Hokage-sama.

Sakura franziu a testa, a postura imponente, os grandes olhos verdes queimando sob uma fúria controlada, um fogo que os enchia de vida e de furor, e os tornava duas gemas líquidas e ardentes.

— Muito bem então.

E dizendo isso avançou contra o inimigo outra vez, lançando-se num ataque franco que não escondia as suas verdadeiras intenções. Yuki mostrou os dentes num sorriso bizarro, mas também avançou.

○♦○

Não muito longe dali, Sasuke travava a sua própria batalha contra o Chikage. E travava outra batalha contra o sentimento de frustração que começava a tomá-lo, ensombrecendo ainda mais o seu humor. Não importava quantas vezes ele ferisse Kazuma, quantas vezes a lâmina da sua espada atravessasse ou cortasse a carne do homem, Hatori estava lá para — através de algum jutsu desconhecido — transferir os ferimentos para o seu próprio corpo e curar-se quase no mesmo momento.

Shikamaru e Chouji estavam ocupados, lutando contra um esquadrão de Shinobis de Chigakure que não permitia que eles chegassem até Hatori e interrompessem a técnica. Sasuke podia ler a forma como o jutsu de Hatori trabalhava no corpo de Kazuma, seu Sharingan lhe permitia ler isso. Ainda assim, não conseguia colocar um fim naquela luta e isso estava o enervando cada vez mais.

Num dado momento, ele fartou-se de tentar usar seu Chidori ou seus jutsus com fogo para ferir fatalmente o Chikage, e decidiu que era o momento de recorrer a uma técnica mais agressiva. Então, queimou chakra no seu direito, focou o Sharingan em Kazuma e invocou as chamas negras do sol:

Enton: Kagutsuchi!

Sasuke balançou a sua espada com um movimento do braço, lançando projéteis de fogo negro na direção de Kazuma. Algo estranho aconteceu em seguida: seu adversário queimou uma grande quantidade de chakra nos olhos e, num segundo, as chamas escuras que deveriam atingir apenas o Chikage desviaram-se da trajetória como se batessem numa parede invisível que o envolvia e foram todas atiradas para cima dos outros Shinobis, inclusive Shikamaru e Chouji. O fogo negro atingiu alguns ninjas leais de Chigakure, grudando-se a eles e espalhando-se a partir dos seus corpos como se estivessem vivos e famintos.

Sasuke travou o maxilar e concentrou-se em apagar todos os focos de fogo. O Chikage havia utilizado seu jutsu de Distorção de Mundos outra vez, apenas isso explicaria o fato de os projéteis de fogo terem errado seu alvo e acertado outros no lugar. E enquanto ele lutava para extinguir as chamas e salvar as vidas dos ninjas leais à Chigakure, Sakura mesmo ocupada com o seu próprio adversário percebeu que ele estava em apuros e ordenou que a sua invocação interferisse:

— Katsuyu-sama, acuda os shinobis de Chigakure!

A lesma gigante anuiu e imediatamente começou a se dividir em inúmeras partes menores, que caíram sobre os Shinobis em agonia, que gritavam devido às queimaduras causadas pelo fogo negro. Salvaram-nos do apuro e grudaram-se aos seus corpos, curando-os das mais graves queimaduras causadas pelas chamas do Amaterasu. Também os salvaram do infortúnio de uma morte dolorosa e agonizante, homens e mulheres desabaram na neve, ainda um pouco feridos, mas vivos.

Sasuke continuou a agir ainda assim, apagando depressa os últimos focos de incêndio de fogo negro. Para a surpresa de Sasuke, as lesmas de Sakura eram extremamente resistentes e não sofreram dano algum das chamas ardentes do seu jutsu. Mas o Chikage sorria friamente ao fim.

— Tenha cuidado com a técnica que usará contra mim — advertiu-o com um inclinar irônico da cabeça —, afinal, nunca se sabe quem sairá ferido no fim.

Sasuke virou-se para ele com ainda mais raiva do que antes.

— Você vai se arrepender disso — prometeu e limpou o sangue da lâmina da sua espada com um sacudir da espada.

— Então venha! — Kazuma intimou-o, os olhos esbugalhados e maníacos, fixos em Sasuke, e apenas em Sasuke, que disparou como um raio na direção do inimigo.

De espada em riste, ele se preparou para atacar o Chikage mais uma vez. Não importava quantas vezes ele pudesse se curar valendo-se do jutsu do seu subordinado, Sasuke estaria disposto a voltar a feri-lo. Uma hora ou outra, Hatori ficaria sem chakra e, portanto, sem meios de curar o líder.

Alcançou o Chikage em pouco tempo graças à sua velocidade superior, encurtando a distância que os separava com uma investida relâmpago. A luz do Chidori correu pela lâmina da sua espada, eletrificando-a. Se perfurasse o coração de Kazuma, não haveria como ele se recuperar. A luta estaria terminada.

Sasuke atacou-o diretamente, mirando-o com o seu olho do Rinnegan, queimando chakra para a técnica. Kazuma reuniu chakra e realizou alguns selos. Sasuke preparou-se para acertá-lo no peito, erguendo a espada envolta pelo chidorigatana, e sem mais hesitação cravou-a, perfurando-o. Quando a lâmina atravessou o corpo de Kazuma, os olhos escarlates do homem fitaram-no insanos.

— Te peguei! — anunciou no momento em que o corpo que Sasuke perfurou explodiu numa chuva de sangue e o encharcou, revelando tratar-se apenas de um clone de sangue.

Com o sangue cobrindo suas roupas, cabelo e pele, Sasuke preparou-se para ser sugado mais uma vez pelo jutsu de Kazuma. E foi exatamente o que aconteceu quando, um segundo depois, ele se viu despencando de cabeça dentro da escuridão, o chão desaparecendo de debaixo dos seus pés e um abismo de trevas engolindo a sua mente, enredando-a e puxando-a para o seu interior.

○♦○

Daquela vez, não houve luz ofuscante no fim do túnel escuro. Não houve sequer um mundo para recepcioná-lo ou um lugar onde ele pudesse pousar. Sasuke continuou a cair dentro do abismo, indo cada vez mais rápido. Foi como no sonho que tivera na noite em que foi jogado noutra realidade. Sua queda acelerou, e acelerou ainda mais.

Luzes vermelhas piscavam intensamente ao fundo, tão distantes quanto estrelas. Sasuke se perguntou se cada uma delas representava um mundo diferente, uma realidade que não a dele. Eram dezenas, talvez centenas. Com o seu Sharingan, ele vasculhou cada uma delas, à procura daquela a qual pertencia.

— Procurando pela sua casa? — Uma voz maliciosa soou de algum lugar das trevas que o cercavam.

E no mesmo instante em que isso aconteceu, Sasuke alcançou o ponto mais profundo do abismo, pousando sobre as águas tépidas que cobriam a sua fundura. Kazuma estava lá, à espera dele, de pé e incólume. Ele ergueu os braços e gesticulou para os pontos de luzes que brilhavam acima e à volta deles.

— São muitas, não é mesmo? Tantas realidades, tantos mundos para se descobrir... Nem mesmo eu fui capaz de acessar todos eles ainda — admitiu. — Mas fique à vontade para tentar procurar por aquele que você tanto anseia.

Sasuke ergueu os olhos para os pontos brilhantes que emitiam tanta luz. À primeira vista, todos pareciam iguais, mas se prestasse mais atenção ele veria como diferiam em tonalidade e intensidade. Aglutinadas daquela forma, elas lembravam uma nebulosa escarlate, uma faixa sangrenta e luminosa que fatiava a escuridão daquele abismo.

— Estamos na fenda entre mundos outra vez — ele concluiu.

Kazuma aquiesceu.

— Sim.

— Por que me trouxe para cá de novo? — indagou. — Sabendo que esta seria a chance perfeita para que eu me aproxime do meu objetivo de voltar para casa.

O Chikage deu de ombros.

— O que posso te dizer? Sou um homem justo. Quero lhe oferecer a oportunidade de tentar retornar para o seu lar.

Os olhos de Kazuma brilhavam tanto ou ainda mais do que os pontos luminosos em meio a todo aquele negrume. Lembravam Sasuke de duas gemas feitas de sangue. E o seu sorriso demoníaco perturbava Sasuke.

— Veja, Sasuke... — Kazuma indicou para um dos pontos luminosos, um dos mais brilhantes. — Aquela é a sua realidade. Aquele é o seu mundo. Posso te enviar de volta para lá agora mesmo.

— Acha mesmo que vou acreditar no que está me dizendo? — Sasuke retrucou friamente. — Não sou nenhum tolo de tomar a sua palavra como verdade.

Kazuma riu baixo.

— Não tenho motivos para mentir para você agora. Vá até lá, escolha voltar para o seu mundo e para as pessoas que você ama. Não tentarei te impedir. Isso tampouco se trata de um truque, eu garanto.

Sasuke não se moveu um único centímetro.

— Está propondo que eu abandone a luta e volte para o meu mundo. Assim, você fica livre para assassinar os Kages e dominar todo o mundo Shinobi. Sou um empecilho para você, afinal de contas.

Kazuma deu de ombros outra vez, soava quase desinteressado.

— Não é o seu mundo, Uchiha Sasuke. Nada do que aconteça nele te diz respeito. Por que se importar com uma realidade que esteve fadada a destruição desde a morte de Uzumaki Naruto? Abandone esse esforço vazio de tentar reparar algo que não pode ser reparado e volte para a sua casa. — O sorriso de Kazuma ampliou-se.

Sasuke ergueu a espada, colocando-a entre ele e o Chikage.

— Você pode estar certo quanto a não ser o meu mundo, ainda assim isso não significa que eu vá abandoná-lo para que você possa fazer com ele o que bem entender. É verdade que, na minha realidade, eu fui detido a tempo, enxerguei, antes que fosse tarde demais, que o mundo que eu criaria a partir do ódio e da dor jamais alcançaria a paz. Mas isso não significa que eu precise fechar os meus olhos para o sofrimentos de outros — Sasuke concluiu sereno. — Mesmo que pouco, percebi que posso fazer algo para ajudar as pessoas que sofreram devido às minhas decisões equivocadas. E eu quero ajudá-las. Assim como, um dia, fui ajudado.

Kazuma riu, daquela vez mais alto e mais abertamente.

— Muito bem então. Você teve a sua chance. Agora, não terei mais misericórdia. É hora de terminar essa luta — Kazuma finalizou com uma expressão sombria.

Sasuke, contudo, sorriu sem os dentes para o homem, um meio sorriso que exalava confiança.

— Nisso concordamos — disse, ainda sorrindo e confundindo Kazuma por um momento.

Pelo menos até que o homem esbugalhasse os olhos e abrisse a boca para cuspir uma golfada de sangue que lhe escorreu pelo queixo e pela garganta, respingando na água à sua volta. Kazuma agarrou imediatamente o próprio peito, abaixou os olhos e viu a laceração profunda no lado direito, que não estivera ali antes. Sangue vertia da ferida aberta, empapando as suas roupas. Ele tornou a erguer os olhos para Sasuke, aturdido.

— Quando você...?

— Estava me perguntando quando você perceberia — ele respondeu com uma expressão neutra no rosto, embora os olhos cintilassem, um vermelho e o outro lilás, na escuridão. — O meu genjutsu.

— Genjutsu?! — Kazuma ecoou, lívido e ultrajado.

Sasuke anuiu.

— No momento em que te ataquei, te coloquei sob o meu genjutsu. Você estava tão concentrado em me atingir com o seu sangue e me trazer de volta para cá que nem mesmo percebeu quando eu te enganei. Fingi que optaria por um ataque letal, mirando no seu coração, enquanto estava realmente mirando no seu pulmão direito. Um milésimo de segundo antes de você conseguir realizar os selos para o clone de sangue, eu me antecipei e atravessei o lado direito do seu peito com a minha espada. Mas você não percebeu até o último momento porque acreditou que o meu ataque certeiro havia falhado.

Sasuke entrecerrou os olhos, mirando a ferida ainda aberta no peito de Kazuma.

— E a julgar pelo fato de que o ferimento não está se fechando, presumo que Shikamaru e Chouji tenham feito a sua parte e neutralizado o seu subordinado. Eles estão caindo um a um. Você também caiu.

Kazuma silvou através dos dentes cerrados.

— Você é um desgraçado — ele murmurou num fio de voz, mas, então, surpreendeu Sasuke ao atirar a cabeça para trás de repente para gargalhar alto, seu riso macabro ecoando através de toda a escuridão que os cercava.

Sasuke retesou-se, colocando-se numa posição ofensiva, mas Kazuma não se moveu, cessando o riso descontrolado apenas quando as forças lhe faltaram. Sua mão apertou mais forte a ferida no peito, o sangue encharcando os seus dedos e deixando-os escorregadios.

— Muito inteligente. Parece que você me pegou no fim das contas — admitiu. — Exatamente o que eu esperava do famoso Uchiha Sasuke, o único sobrevivente do massacre do clã Uchiha.

— Está finalmente pronto para admitir a sua derrota?

Kazuma engoliu com dificuldade, o rosto pendendo e ocultando de Sasuke a expressão que o marcava. Pensou ter visto um sorriso despontar na boca dele, mas com toda aquela escuridão seria difícil afirmar.

— Sabe, há algo que eu preciso te dizer antes que tudo acabe.

Kazuma ergueu a mão livre e a arrastou através da face, afastando o cabelo vermelho dos olhos também vermelhos. Olhos que de repente brilharam ainda mais intensamente, reunindo um chakra sinistro que Sasuke podia ver se avolumar com seu Sharingan.

— Sobre como eu sou amaldiçoado — Kazuma prosseguiu enquanto as sombras à volta dele pareciam se mover, espiralando e dançando, adensando-se e convergindo todas para ele, até que elas esconderam os pontos luminosos que os encimavam.

Sasuke antecipou-se ao Chikage, lançando-se contra ele como uma flecha disparada de um arco muito antes que o homem tivesse tempo de concluir a sua última e desesperada investida. A sua espada reluziu na escuridão quando o chidori correu pela lâmina esguia mais uma vez, afastando as sombras quando ele a atravessou em Kazuma, daquela vez no estômago.

— Talvez por que eu seja o único capaz de acessar todos esses mundos — Kazuma continuou enquanto o chakra no seu olho se expandia cada vez mais, mesmo com o ferimento que Sasuke lhe infligiu. Ele ainda riu baixo, os ombros se sacudindo com o riso. — O meu destino jamais muda — revelou a um Sasuke estupefato. — Em todos os mundos, eu sempre tenho o mesmo destino... Perco a minha família para um massacre, sobrevivo e desperto esse poder amaldiçoado. Consegue imaginar a minha agonia, Uchiha Sasuke? Em nenhum mundo há paz ou felicidade para mim, apenas ódio e destruição.

Sasuke apertou os olhos para o homem, em seguida reuniu chakra no olho direito.

— Então vou por um fim à sua agonia — anunciou antes de liberar o chakra, bem como a técnica: — Amaterasu.

As chamas negras envolveram Kazuma num abraço escaldante instantaneamente. E quando os seus gritos preencheram o silêncio e a escuridão se dissolveu, Sasuke se preparou para ser catapultado de volta à outra realidade. O que aconteceu mais cedo do que previu quando o chão desapareceu sob os seus pés e ele voltou a despencar em direção ao vazio.

○♦○

Sasuke voltou a si abruptamente, como da outra vez. Houve o aturdimento, a letargia e a desorientação, como da outra vez. Preparara-se para aquele momento, contudo. Tanto que, assim que se viu de volta, apertou os dedos em torno do cabo da sua espada e a empurrou ainda mais contra o corpo de Kazuma.

O genjutsu estava desfeito, a lâmina de Sasuke empalava-o, perfurando o seu pulmão direito. Kazuma olhava-o nos olhos, uma expressão de resignação na face; parecia haver aceitado tanto a derrota quanto a iminência da morte.

Sasuke vasculhou depressa os arredores. Numa rápida inspeção, descobriu que Shikamaru e Chouji tinham trabalhado em equipe para neutralizar Hatori, impedindo-o de continuar curando o Chikage; o homem jazia de bruços na neve, talvez morto, talvez apenas inconsciente. Shikamaru e Chouji assomavam, de pé na neve alva, sobre o Shinobi caído.

Ele olhou em outra direção, varrendo o campo de batalha até se deparar com Sakura e o Mizukage ainda enfrentando os Dragões Gêmeos de Gelo. Os irmãos haviam sido separados, contudo. E, ele percebeu, a batalha estava ganha no momento em que o Mizukage, aproveitando-se de uma brecha na defesa da Kunoichi chamada Miyuki, investiu levando consigo a sua pesada espada de cuja larga lâmina emanava uma grande quantia de chakra.

Miyuki fez erguer do chão uma série de obstáculos de gelo, que foram todos cortados pela espada Hiramekarei quando esta se expandiu, o chakra sendo modelado até assumir a forma de uma foice gigante, uma lâmina imaterial, porém afiada que cortou tudo o que se colocasse entre Chōjurō e a sua adversária.

Acuada entre o Mizukage e uma grande rocha, Miyuki ergueu uma espessa parede de gelo na vã tentativa de se proteger do golpe que viria. O Mizukage antecipou-a ao remodelar a sua espada num instante, transformando-a num martelo gigante daquela vez, que colidiu com a parede da Kunoichi da forma mais desastrosa possível.

O muro cedeu com o impacto da Hiramekarei, voou em lascas cintilantes em todas as direções, forçando Miyuki a proteger o rosto da explosão de gelo. Mas a Hiramekarei ainda não havia se detido, e a superfície achatada da arma conectou-se com o corpo da Kunoichi numa segunda explosão de puro poder, arremessando-a de encontro à rocha e prensando-a até que a Kunoichi cuspisse sangue, os ossos e os órgãos vitais do corpo esmagados num segundo enquanto ela sufocava um grito e perdia a consciência.

Seu corpo pendeu inerte sobre a cabeça do martelo; a vitória pertencia a Chōjurō.

— Miyuki! — seu irmão gritou por ela, desviando-se da luta acirrada que travava com Sakura por um momento.

Quando viu que a irmã não o responderia, ele fez alguns selos e liberou uma grande quantia de chakra.

— Vão me pagar por isso! — ameaçou, os dentes cerrados e os olhos exalando fúria ao focar em Sakura. Depois, liberou um jutsu destruidor: — Hyōton: Souryuu Bōfuusetsu!

Sasuke viu o momento em que dois grandes dragões gêmeos gigantescos se ergueram do chão, negros como carvão, os olhos como relâmpagos num céu tempestuoso, e se fundiram num único, assumindo a forma de um vórtice de gelo negro.

O tornado negro gravitou através do solo, arrebatando corpos de Shinobis inconscientes e destroçando-os assim que os lançavam para cima, a muitos metros de altura. O tornado girou mais depressa sobre o eixo afunilado, acelerando e se tornando mais destrutivo e potente a cada segundo. Ele devastaria tudo no seu caminho

Sakura percebeu isso e se antecipou. Desviou-se da trajetória do gigantesco tornado de gelo e vento e correu em outra direção. Parou por tempo suficiente para erguer uma rocha imensa do solo e arremessá-la contra Yuki, que se jogou para o lado a fim de evadi-la. A rocha caiu com um estrondo no solo, atirando neve em todas as direções. Sakura estava à espera de Yuki quando este se desviou da trajetória da rocha, um punho explodindo de chakra pronto para atingi-lo.

Yuki esperava por isso, contudo. Ao ver que Sakura vinha na sua direção, ele realizou mais selos, fazendo com que lanças gigantes de gelo se erguessem do chão. Sakura evadiu a maior parte delas, mas eram muitas e o campo de batalha afunilara-se no fim de modo que ela não viu outra saída que não fosse abrir o selo na sua testa e se deixar ser atingida pelas últimas lanças. Nada a deteve. E a expressão de Yuki tornou-se numa de pânico quando a última lança perfurou-a no braço, mas Sakura nem mesmo tremeu devido a isso. Os selos negros espalhados ao longo do corpo dela tratavam de curar os ferimentos e de garantir que nenhum ataque dele a pararia.

Sakura aumentou a velocidade nos últimos metros que ainda restavam, deslizou pela neve quase indetectável e, por fim, o punho dela carregado com chakra conectou-se ao peito maciço de Yuki, explodindo poder quando a força do impacto o impulsionou para cima, tirando os seus pés do chão.

O homem perdeu todo o fôlego e cuspiu sangue quando o punho de Sakura descarregou toda a potência da sua força bruta, danificando todos os órgãos e quebrando todos os ossos com os quais entrou em contato. Seu corpo foi lançado para cima, a gravidade deixando de agir sobre ele por um momento. Mas Sakura ainda não havia terminado.

Ela o seguiu, saltando e interceptando-o com outro golpe: uma cotovelada também no peito, que o enviou para baixo de novo; seu corpo caiu sobre o chão da montanha com o impacto de um pequeno meteoro. Qualquer força que pudesse haver restado nele depois do primeiro golpe foi erradicada com o segundo. Os olhos azuis de Yuki fixaram-se no céu escuro, vazios, vidrados.

Sakura pousou ao seu lado enquanto os selos no seu corpo terminavam de reparar os últimos danos, e então retrocederam, retornando à forma original no centro da sua testa. Ela inspecionou o corpo de Yuki com certa indiferença, ergueu os olhos e deparou-se com o Mizukage a alguns metros dali, a espada mais uma vez presa às suas costas e o corpo de Miyuki inerte na neve.

Eles anuíram um para o outro, mas então todas as atenções se voltaram para o embate cujo desfecho ainda não acontecera: Sasuke e o Chikage estavam próximos um do outro, a espada de Sasuke atravessada no peito do outro; sangue vertia da laceração profunda.

Por toda a parte, Shinobis caídos de Chigakure jaziam sobre a neve. A batalha estava prestes a se encerrar. Sasuke, devagar, removeu a espada do corpo de Kazuma, recuando a lâmina até tê-la livre e ensanguentada em sua mão outra vez.

— Acabou, Kazuma — ele declarou de forma monocórdia, porém não inclemente; uma constatação do óbvio para o caso de o Chikage ainda tentar resistir e estender aquela luta.

— Eu sei reconhecer quando sou derrotado, Uchiha Sasuke — ele retrucou; os olhos perdendo o brilho, a pele perdendo o calor. — Nessa realidade, o meu tormento terminou, ao menos. — Um riso eclodiu da garganta dele, o som similar a um gorgolejo. — Parece que te subestimei. Subestimei os Kages. Subestimei os Shinobis de Konohagakure no Sato.

Kazuma cuspiu sangue na neve, tingindo a alvura de um rubro obsceno.

— Você me venceu, conquistou o direito de voltar para o seu mundo.

Os olhos escarlates esbugalharam-se e o mesmo chakra de antes se aglutinou nos globos oculares, correndo através dos nervos ópticos. O Sharingan de Sasuke captou tudo, não deixou escapar nada. Ao término, Kazuma esboçou um sorriso.

— Eu acabei de te mostrar o caminho para a sua casa. O seu Sharingan fará o restante — declarou, deixando de apertar o ferimento no peito. — Talvez nos vejamos de novo em outra realidade, talvez nos encontremos num mundo além deste. Quem sabe?

Kazuma fechou os olhos e expirou no ar gélido. Por fim, as suas últimas forças o abandonaram todas de uma vez e o seu corpo tombou em meio à neve. A nevada aumentou depois disso, como uma resposta da natureza ao evento. Flocos felpudos e alvos depositaram-se sobre o corpo de Kazuma, o sangue dele tingia-os todos de rubro.

Sasuke fechou os olhos e suspirou. Estava acabado. Ele ouviu passos e se virou para ver Sakura se aproximar. Ela olhava para o corpo do Chikage com um vinco entre as sobrancelhas.

— Está acabado — ele reforçou, e em resposta ela anuiu e lhe mostrou um pequeno sorriso.

— Então volte para casa, Sasuke-kun. Volte para o seu mundo e para a sua família.

Sasuke estava prestes a abrir a boca para respondê-la quando a aproximação simultânea de vários chakras colocou-o em alerta. Três Kages pousaram na neve à sua volta, encurralando tanto ele quanto Sakura.

Todos os três encaravam-no com ódio, fulminando-o:

— Aonde você pensa que vai, Uchiha Sasuke? — Foi a Kazekage quem o inquiriu, os olhos verdes ardendo em fúria e o grande leque que ela sempre carregava nas costas estava pronto para ser usado contra ele.

À sua direita e à sua esquerda, o Raikage e a Tsuchikage anuíram, determinados.

— Você não deixará essas montanhas essa noite, Uchiha Sasuke. — declarou o Raikage. — Pelo menos não vivo.

Notas finais
E eu estou de volta! E com uma excelente notícia pra vocês: DARK DAWN ESTÁ FINALIZADA! Esse fim de semana consegui finalizar o capítulo 32 e o capítulo extra também! Os capítulos só precisam passar pela revisão e serem publicados. Hoje, trouxe o capítulo 29 pra vocês com a conclusão da batalha e a despedida do nosso queridíssimo Chikage! HAHAHAHAHA Já vai tarde, não é mesmo?! Porém, Sasuke-kun ainda tem um último obstáculo para superar antes de poder voltar para o seu lar... O que será que os Kages vão fazer? E a Sakura? AS TRETAS AINDA NÃO TERMINARAM POR AQUI! Não dou certeza, mas tentarei trazer mais um capítulo durante a semana pra vocês se eu me animar. Agora, o que acharam da partida do Chikage? Sasuke foi mais esperto e ganhou a luta. Até o próximo capítulo! xoxo