Dark Angel
4 Capítulo Três - O Trabalho do Anjo
Notas iniciais
O professor ralhava com a sala enquanto eu fitava a janela, sem realmente ver. Meus cabelos já não tinham as mechas coloridas, minha boca e roupas ostentavam apenas o negro. Em meu pulso, tenho amarrada a gargantilha de minha irmã e uma pulseira cor de sangue, com uma placa de metal e um número escrito. Olhei brevemente para o objeto, vendo que faltava menos da metade. Rapidamente, meu olhar voltou para o vidro, tentando ignorar o acessório que agora parecia queimar minha pele pálida. O sinal que anunciava o fim das aulas soou, e me levantei, jogando a mochila sobre um de meus ombros e erguendo o capuz, apressadamente andando para a casa que havia construído. Morava lá com meu irmão e quatro “amigas”, por falta de termo melhor. Falava com elas, mas nunca chegariam aos pés daqueles em que realmente confiava.
Abri o portão da mansão, já que quando a fiz resolvi que deveria ser do tamanho da sede de minha “família”. Andei pelo caminho que levava a porta, destrancando-a e passando pelo corredor que separava a sala das escadas. Ignorando os degraus, pulei na parede, em zigue-zague, saltando em média dois lances por pulo. Cheguei ao andar do meio, onde haviam apenas oito quartos que ocupavam o andar inteiro. O meu era o maior, ocupando um quarto do já mencionado andar, uma vez que gostava de treinar ali de vez em quando. Tinham mais dois quartos para meus dois irmãos menores, sendo os outros cinco para meus verdadeiros amigos. Joguei minha bolsa no chão do local, indo para meu closet e escolhendo a roupa que usaria. A lista chegaria a qualquer momento.
Optei por um short que cobria apenas um quarto de minha coxa, usando cinta-liga para liga-lo à meia sete oitavos. Coloquei um All Star que ia até pouco abaixo dos meus joelhos, e uma regata preta simples, com um casaco com capuz por cima. Peguei a fita isolante que ficava em uma prateleira ali perto, passando-a em volta de meus braços e pulsos, ignorando as pernas por conta de minha vestimenta.
Pulando o corrimão do andar em que estava, deixei meu corpo cair, pousando suavemente na ponta de meus pés ao chegar no começo da escadaria. Abri porta, que em uma casa normal seria um daqueles armários que ficam em baixo dos degraus, selando-o novamente atrás de mim. Coloquei o capuz e desci para o subsolo pela estreita passagem que só eu podia passar.
Na sala, havia diversas armas, armaduras, quadros, desenhos, bonecas quebradas. A perfeita mistura de ateliê com depósito de armamento.
Peguei a katana que deixei em casa de manhã para que fosse polida na máquina que projetei, retirando a espada do objeto e verificando o trabalho. Amarrei-a em minha cintura, a bela bainha batendo em meus tornozelos. Um protótipo de sorriso formou-se em meus lábios por alguns segundos, desaparecendo em seguida. Só com aquelas nove pessoas que sou “verdadeiro”. Só com elas.
Um corvo surgiu no ar, com um pergaminho em seu bico. Já acostumado, peguei o papel, agradecendo a ave, que desapareceu assim como apareceu. Li atentamente o que havia ali, decorando as faces e nomes. Enrolei aquilo e guardei em meu bolso, terminando de recolocar as armas que tirei quando troquei de roupa. Sai por outra passagem, que levava ao lago de minha casa. Nadei até a superfície, sentindo os últimos raios de sol em meu rosto. Sequei-me utilizando do meu elemento, e logo estava saltando de telhado em telhado, procurando as vinte pessoas. Esta semana eram poucas. Em um beco, vi minhas duas primeiras vítimas, e sem fazer um ruído sequer desembainhei minha espada, a qual possuía inclusive a lâmina negra e em seu punho tinham pequenos cristais em forma de losango de coloração cinza como meus olhos.
Pulei naquela rua em que os dois criminosos estavam, um conversando com o outro, e assim inviabilizei quaisquer tentativas de fuga dos dois. Katana em mãos, corri na direção deles e arranquei-lhes a cabeça em um só golpe. O número de minha pulseira mudou. Vi o sangue lavar a calçada e os corpos decepados, sem uma gota em mim ou na lâmina que os matara. Ser um monstro tinha suas vantagens. Ouvi minha “senhora” apressar-me usando telepatia, e segui para os próximos alvos, riscando os dois “trabalhos” concluídos da lista. Meus olhos estavam gelados e sem emoção, rosto empedernido. O anjo dos infernos estava em serviço.
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