Dark

2 D r e a m s


Notas iniciais
A n t e r i o r m e n t e Um grito de pavor rompeu a noite, rasgando a garganta de Astrid. Um grito de paládio mudou a vida do anjo que já estava em punição. Um grito de socorro que pode tê-la salvo ou não.

Meu corpo fora jogado, sem delicadeza, ao solo frio, estava atônita. Meus olhos absorviam cada lugar do quarto rapidamente, estava desesperada. Senti o sangue correr por minha bochecha, estava presa a um pesadelo?

Gritei. Senti garras arranhando profundamente meu abdômen. Gritei ainda mais. Era um pesadelo, mentalizei.

Meus braços se jogavam em socos e murros ao nada, mas sentia o impacto sobre alguma coisa que não conseguia ver. Talvez fosse o travesseiro...

Quando pensei que iria finalmente acordar, por estar beirando a morte, escutei um estrondo. Era o meu espelho, tinha sido estraçalhado como se algo tivesse sido arremessado em sua direção. Cacos de vidros, na porcelana, mesclavam-se, agora, com uma cor púrpura bizarra.

O que porcaria está acontecendo? Não sabia que possuía uma imaginação tão fértil a ponto de ter um pesadelo como esse.

Tentei, imediatamente, pôr-me de pé... falhei miseravelmente. Meu abdômen estava sangrando horrores e as dores não eram poucas. Como tinha convicção de que tudo era apenas um pesadelo, fechei os olhos com força e tentei ignorar todos os estrondos no quarto. Fui tão bem sucedida que só percebi o cessar dos barulhos quando um resmungo soou bem próximo à mim.

Abri os olhos com esperança de ter acordado, mas acabei tendo a visão mais intrigante e desesperadora que já tive em meus dezessete anos de vida.

Um rapaz, alto e de aparência musculosa, estava prostrado diante de um corpo totalmente desfigurado. Sua vestes negras estavam brilhando com um tom púrpura, o mesmo dos cacos do espelho, que percebi ser oriundo do corpo em sua frente. Seu cabelo castanho estava desalinhado e sua expressão era de pura interrogação. Quando notou que estava sendo observado (ou sentiu o pânico que estava transmitindo), seus olhos me encararam diretamente e puta… merda.

Um arrepio subiu pelas minhas costas e abafei um grito de dor. Íris cor de âmbar me viram tão intensamente que senti todo meu corpo entrar em combustão.

Quem era aquele garoto? Aquele corpo estava morto? Por que eu não consegui enxergar-los antes? Por que porcaria eu não acordava?

Seus passos silenciosos e elegantes foram direcionados até o meu corpo que neste momento não estava mais querendo seguir os meus comandos. Parecia estar em convulsão.

Observei de olhos arregalados ao passo que sua figura masculina ficava cada vez mais perto do meu rosto. Oh, não.

— Por favor, não me mate. Por favor, Por favor, Por favor... — Repetia sem cessar com uma nova onda de pânico me invadindo; Ou morreria pela hemorragia que estava tendo ou pelas mãos daquele estranho.

Suas sobrancelhas grossas ergueram-se e seu maxilar ficou travado.

— Durma. — Em menos de um abaixar de pálpebras, sua mão gélida já encontrava-se com suavidade em minha testa e seus atrativos olhos enviavam correntes elétricas que insistiam em passar-me tranquilidade e calmaria.

Antes que um segundo se completasse, tudo virou insignificante. O que era estar sangrando horrores por causa de garras do além? O que era estar com um desconhecido a encarando profundamente em seu quarto? O que era ter um corpo estranho aparentemente morto em seu piso? Eu acho que escutei minha risada.

Com esse turbilhão de perguntas, minha mente parecia estar em um movimento hippie [2] enquanto não desviava a atenção do inebriante olhar do rapaz.

Estranhamente vi-me sorrir ao lembrar, inesperadamente, da presença de minha avó, embalando-me na larga rede de tecido como fazia quando mais jovem. Senti um toque delicado em meus cabelos suados e então, adentrando em uma profunda paz e esquecendo toda a dor que meu corpo exalava, dormi como o garoto assassino havia ordenado.

A luz e o suave aquecer do sol em minha pele acabou despertando-me deliberadamente. Sem erguer o meu corpo pesado da cama, olhei com um pouco de pavor para o teto. Minha mente mandava sinais de alerta ao lembrar-me vagamente dos principais acontecimentos de ontem.

Ousei olhar para o local onde estava deitada ainda que hesitando um pouco. O assassino estaria alí, observando-me acordar?

A tensão deixou meu corpo no momento que notei estar em meu quarto e não haver alguém no final da cama a me encarar.

Me ergui como se estivesse com sequelas no abdômen, mas não havia sequer um arranhão por debaixo do pijamas, que por sinal não havia lembrado de ter vestido, apenas uma mancha um pouco roxa como se tivesse levado uma pancada. Estranhei, mas não tanto. Muitas vezes não importava-me com as pancadas que recebia no Muay Thai e acabava sempre ficando esculpida por aquelas manchinhas.

— Astrid, cheguei! — Tomo um susto ao escutar o grito provindo do térreo.

Mordi os lábios em nervosismo ao lembrar de não ter ligado ontem a noite para o hospital, onde minha tia é a enfermeira chefe, para dizer, como o de costume, que a casa continuava intacta e que iria dormir. Ela deveria estar muito preocupada nesta altura do campeonato...

— Astrid… — A porta do meu quarto abre-se de supetão por uma mulher alta de longos cabelos loiros. — Oh, já está acordada.

Olhei em seus cansados olhos azuis enquanto as sardas de seu rosto se juntavam por causa de seu aliviado sorriso que em milésimos despencou de sua expressão.

— Está bem? — Antes que eu conseguisse enrolar a língua para dizer um “Sim”, minha vista começou a ficar turva e meu mundo pareceu chacoalhar. Estava tonta.

Ah, não.

Em câmera lenta, vi minha tia correndo para agarrar meu corpo sem equilíbrio antes que chegasse com força ao chão.

— Não durma, escutou? — Tia Melissa soava distante apesar de estar me carregando quarto a fora. — Astrid? Fique comigo! Mantenha-se desperta!

Olhei para trás um pouco desesperada e foi quando o vi. Estava com as mesmas vestes e aparência de ontem, porém os seus olhos estavam fundos como se não houvesse dormido. Porém, continuava irresistivelmente belo.

Um meio sorriso cruzou sua expressão e tentei não surtar, estava com medo.

O que você fez comigo, estranho?

Eu te salvei. Sua voz soou pesada e indiferente na minha mente e tenho certeza que se tivesse forças o suficiente, teria gritado. Eu não estava esperando por uma resposta, nem de longe.

Mas mantive-me, claramente, a observá-lo como uma louca enquanto sua postura permanecia tensa ao seguir minha tia que agora saía de casa e dirigia-se ao seu SUV.

— Astrid? — A voz da mulher chamava-me. Direcionei meus olhos para os seus em questão de minutos. — Nem pense em dormir!

Senti meu corpo ser deitado no banco do passageiro e o carro dar partida.

Insistentemente, virei a cabeça que mais parecia um balde de chumbo para o lugar atrás do banco do piloto — onde Melissa estava sentada tagarelando em alguma chamada no celular enquanto dirigia — e lá estava ele encolhido a me encarar. Ergui as sobrancelhas ou pelo menos tentei.

Você é algum tipo de alucinação da minha mente após o pesadelo? Por que minha tia não pode vê-lo?

O rapaz manteve-se em silêncio, o que me fez duvidar se realmente teria o escutado em minha mente. Suspirei e tentei novamente.

Qual o seu nome, estranho?

Suas íris cor de âmbar pareceram escurecer.

Cala a boca. Okay, o meu cérebro realmente tinha um fetiche bizarro por garotos mal educados e durões. Eu escutei isso.

Se eu tivesse a capacidade extremamente fofa de ficar corada ao sentir vergonha, teria ficado. Mas como minha avó costumava dizer, eu era desprovida de vergonha na cara. Então, não me importei muito com o fato, uma vez que logo agora parecia estar perdendo minha sanidade também.

Você matou aquele homem, ontem, não matou?

Não seja cega, aquilo não era um homem. Seus olhos reviraram em um tom de impaciência enquanto voltava a se concentrar em meu pescoço.

O que está fazendo, estranho? Toquei o local onde encarava para ver se havia algum arranhão.

Fique quieta, estou tentando tirar o veneno de seu corpo. Inconscientemente me veio o fato de estar de pijamas e nem o meu ex namorado havia me visto assim. Fechei os olhos.

Não se sinta acanhada, não olhei para o seu corpo enquanto lhe trocava. Tenho habilidades mais que suficientes para ter êxito nisso. Porcaria.Arregalei os olhos e o enviei a minha melhor expressão de incredulidade. Eu não havia cogitado isso.

— Ela está em estado de choque, aparentemente, ficou tonta e pude ver suas pupilas dilatarem. — Escutei tia Melissa dizendo formalmente assim que a porta do SUV abria-se e algum enfermeiro pegava-me no colo. — Não usa drogas ou possui problemas de oxigenação e muito menos está grávida.

Tive uma incontrolável vontade rir ao escutar a palavra ‘gravidez’ ser citada.

Observei o estacionamento do hospital, lotado de carros e em movimentos de profissionais, sair do meu campo de visão assim que as portas do elevador espelhado se fecharam. A mulher que me trouxera segurava minha mão enquanto encarava-me preocupada.

O homem negro de fardas verdes já me levava para fora do elevador quando vi a figura do menino, novamente, atrás de nós.

Não me deixe morrer, por favor!

Pedi exasperada. Não estava mais sentindo aquela calmaria e tranquilidade de antes, acho que pelo fato de estar quase a ponto de surtar. A dor latejante apesar de estar fraca em meus músculos, consumia minhas energias de tal forma que comecei a arfar.

Ele demorou um pouco para responder ao passo que me seguia.

Não irei. A voz estava hesitante.

Tentei balançar a cabeça sem ter confiança em sua palavra, mas foi um ato estúpido. Meus miolos pareciam estar em uma balada rave e porcaria, doía num grau... Desliguei-me mentalmente de toda a intensa mobilidade do hospital local e só realmente despertei quando já estava repousando em uma salinha de pacientes em observação.

A médica que havia me atendido anteriormente, pelo que meu estado drogue gravara, estava conversando com minha tia sobre algo relacionado à intoxicação. Veneno. Vi pela janela da sala a expressão decepcionada e surpresa que a mulher de cabelos loiros fazia ao que supus, pelo meu dom nato de leitura labial, ser a palavra “suicídio”.

Eles não estão pensando que eu queria me matar, estão? Que tomei veneno para isso?

Astrid. Uma voz rouca aflita soou ao meu lado. Ele. Preste atenção no que vou falar. Acho que o estranho estava esperando que virasse minha cabeça para olhá-lo, mas não podia. Não queria arriscar sentir aquela balada rave novamente. Você está colocando a sua tia em perigo por estar aqui.

Franzi o cenho, em que mundo estava vivendo? Minha tia estava em perigo por estar no hospital que trabalha? Não fazia sentido, nada estava.

Se você zela por ela, precisa confiar em mim. Temos que fugir agora. Finalmente virei a cabeça, seu semblante era sério e obscuro.

Olha, você é até que bonitinho, sabe? Mas não me leve à mal, eu estou tendo a noção que você e esse seu andar arrogante e prepotente são frutos da minha mente perturbada. Expliquei calmamente como se estivesse tentando aceitar a logicidade. Talvez seja um longo caso de stress por causa do término recente com Chris. E só essa beleza estonteante que você tem, não é capaz de me fazer sair de um hospital como uma fugitiva delirante para ganhar um ticket- manicômio.

Seus olhos estreitaram-se e sua expressão ficou agitada como se tivesse perdido raros minutos de sua vida por ter me escutado.

Percebi um sinal que indicava o meu delírio: O ato de não ser um bom ouvinte era o que mais me incomodava no meu ex.

Você esqueceu o que viveu ontem? O rapaz pareceu gritar na minha mente. Em como as garras daquele ser se afundaram em sua carne humana? O quanto de dor sentiu?

E hoje de manhã acordei quase toda plena! Falei dando de ombros. A menos por aquela mancha roxa, mas sei lá… ela tá numa boa posição. Dei um meio sorriso que logo caiu ao ver que o rapaz não estava para brincadeira.

Outro sinal: Chris muitas vezes levava tudo para o sério e chateava-se muito fácil com qualquer ironia minha.

Porque eu estava curando você! Ele deu alguns passos em direção a porta fechada da sala hospitalar, deixando-me levemente alertada. Veja, humana, você está arriscando a vida da sua tia por teimosia, será culpa sua se algo a acontecer. E por favor, dá para parar de me bombardear com informações desnecessárias da sua vida amorosa?

Ah tá. Passei minhas mãos pelos cabelos, gostando daquele papel de teatro americano que minha mente fazia-me passar. E qual perigo minha tia está exatamente passando por estar em seu hodierno local de trabalho?

Seus olhos arregalaram-se e mesmo sem querer, temi pelo que iria dizer.

— Elas chegaram. — Suspirei. Minha mente poderia ter usado um bordão melhor do que esse, mas pelo menos se esforçou ao fazer com que o rapaz dissesse-a em voz alta.

O estranho já vinha em minha direção quando consegui ver, pela janela, que o tempo parecia ter parado. Tia Melissa que ainda conversava com a médica, estava com uma das mãos repousada no pescoço e tinha a boca aberta no meio de uma palavra.

Uma maca hospitalar atrás dela estava estática apesar de ter um enfermeiro em seu encalço a empurrando, contudo, sem mexer-se. Pacientes e atendentes pareciam ter combinado um mega Mannequin Challenge [3].

— Para onde está me levando? — Perguntei confusa e áerea ao ser puxada por seu corpo musculoso para sair da sala às pressas. — O que está acontecendo? — Sussurrei ao passarmos rapidamente por aqueles corpos no hospital que não pareciam nos ver ou sequer movimentar à si próprio.

O rapaz não parecia ter paciência para responder-me.

Eu não estava acreditando que minha mente seria capaz de imaginar tudo isso.

Você não está delirando, humana! Seus olhos cor de âmbar se voltaram aos meus e vi a sinceridade brilhando neles ao mesmo tempo que senti uma onda de desprezo na palavra “humana”. Porcaria. Praguejou, guiando-me pelos corredores e tentando nos esconder de alguém que não fazia a mínima ideia de quem era. Você percebeu que assim que entrou no hospital, vultos e cópulas de seres humanos a olharam diferente e começaram a falar sobre o seu estado?

Eu não tinha notado. Caramba, o que estou dizendo? Eu nem mesmo sei se isso é real!

Se você é real! E “Cópulas de seres humanos”? Que porcaria!

No último corredor do nosso andar havia uma passagem livre para um elevador; Porém, antes que chegássemos na metade do vão, um homem de longos dreads presos em um coque e olhos de gato saiu de uma das salas de emergência.

Prendi a respiração. Meu corpo estava mais tenso de que quando lutei Muay Thai pela primeira vez.

Suas mãos continham garras e quando virou-se para nós… Eu o tinha visto! Era o enfermeiro que tinha me carregado!

Antes que movesse um músculo para nos atacar, o estranho agarrou fortemente em meu pulso e corremos. Olhei para trás apenas para ver o que já tinha temido, atrás do enfermeiro bizarro e do mar de corpos imobilizados havia três mulheres vestidas de um longo capuz vermelho em que marcava apenas algumas de suas curvas e deixava em exposição as pontas lisas dos seus cabelos pretos.

Meu olhar focou-se a nossa frente, tentando desviar-me das pessoas estátuas do hospital.

— Minha tia! Temos que salva-la! — Gritei, começando a achar a situação séria, para o rapaz que ainda procurava algum meio que nos possibilitasse sair dali.

— Não farão mal a sua tia se ela não souber o que aconteceu com você! — Sua voz soara rude e logo que terminou de falar, olhou-me rapidamente apontando para uma porta com uma placa vermelha que continha “SAÍDA” escrito em branco.

Rezava para ele estar certo. Nem eu mesma sabia o que estava acontecendo comigo, quem dirá minha tia. Senti calafrios ao descer as escadas que nos levariam para fora do hospital.

Notas finais
Sugestão de música tema para a leitura: Dreams by Imagine Dragons ( https://youtu.be/S5VcyLHNeNs ) [2] Movimento hippie - Foi um comportamento coletivo de contracultura dos anos 1960 que tinha como lema “Paz e amor”. [3] Mannequin Challenge — Tendência de vídeo viral da internet, que se tornou popular em 2016, em que as pessoas permanecem congeladas em ação como manequins, enquanto uma câmera em movimento os filme. (Wikipedia) [Qualquer erro, por favor, reportar à escritora.]