Daredevil

2 Capítulo 2 - Strongest


O vento bagunçava seus cabelos, mas mesmo assim não sentia frio. Os braços fortes de quem o segurava o aqueciam, aqueciam até o fundo de sua alma. Tentava virar o rosto para ver aonde estavam indo, mas parecia que corriam na velocidade da luz com tão borrada a sua visão se tornava. A única coisa que conseguia ver com certo foco era o rosto pálido e magro do homem que o carregava no colo. A única coisa que conseguia pensar era como ele havia parado ali.

A pequena figura marcava sua presença. Pequeno, com as mechas esverdeadas o cobrindo o rosto, parecia ser frágil. Fazia amizade dificilmente graças à sua timidez. Parecia uma tartaruga enquanto passava pelos portões da escola com a mochila pesada nas costas, a gravata com um nó perfeito envolta do pescoço.

Ao longe pode ouvir uma voz fina e assustada que gritava por seu nome. Se virou bruscamente apenas para encontrar a loira que era uma de suas únicas amigas: Elizabeth. Ela tinha os olhos inchados e o nariz vermelho, seus lábios tremiam junto a seu queixo, suas mãos geladas envolvendo o rosto de Ciel.

– Perdão... — ela falou baixo, sua voz delicada falhando, os olhos verdes deixando mais lágrimas escorrerem. O garoto fraziu o cenho e segurou as mãos da menina.

– O que houve? — sua voz inocente e doce perguntou, com medo em cada sílaba. Não sabia porquê, mas tinha receio do que ela poderia vir a responder.

– Então você ainda não... — ela não conseguiu terminar a frase, antes disso ela já caía de joelhos no chão e voltava a chorar, seu vestido rosa envolvendo suas pernas. Naquele momento, ele sentiu um calafrio percorrer sua coluna. Ela não sabia como, mas de algum modo ele já sabia. Ele já sabia o que era que ele não sabia. Isso não faz sentido, faz?

A próxima coisa que ouviu foram os passos das pessoas cercando os dois, a diretora do colégio abrindo caminho entre a multidão de alunos para pegar Ciel pelo braço e o afastar do tumulto. Suas lágrimas se recusavam a cair por causa da falsa esperança que ele talvez estivesse errado. Errado sobre o que não sabia.

Mas ele estava certo. Ele e sua estúpida mania de acertar os passos das pessoas, o movimentos das peças. Sua idiota facilidade em xadrez e seu maldito sonho em ser o próximo Sherlock Holmes. Querido, os seus pais... Foi a única coisa que ele precisou ouvir a mulher adulta pronunciar antes que as lágrimas vazassem de seus olhos e o obrigassem a cair no chão. A dor lhe deu uma facada no peito, o cortando e sugando a sua alma. Seus punhos começaram a bater contra o chão duro, os gritos sendo arrancados de sua garganta mesmo que ele não quisesse que os mesmos saíssem.

Sua casa, em chamas. Seu coração, em pedaços. Seus pais, mortos.

Tentou afastar a marca ainda dolorosa em sua cabeça, se concentrando nas imagens tortas que eram a paisagem. Voltou a olhar para o rosto do homem, o qual nem o nome sabia.

– O seu nome? — sentiu a amargura em suas palavras nos lábios. Não, não por causa do adulto que lhe estendera a mão quando todo o resto se afastou. Mas sim por causa desses todos que se afastaram. Da injustiça que lhe havia acontecido.

– Sebastian — respondeu simplesmente, o cabelo preto lhe emoldurando o rosto com o que o vento o bagunçava.

Mal percebeu, o homem tinha parado repentinamente o que pareceu ser sua corrida a jato, e já o colocava de volta ao chão. — Chegamos, Ciel — o alto disse, vislumbrando a enorme mansão que havia a frente deles.

Como ele sabia o meu nome?