Dar-se Uma Chance
23 Capítulo 23
Notas iniciais
"Não se deve julgar o mérito de um homem pelas suas grandes qualidades, mas pelo uso que sabe fazer delas." — Jean de la Bruyere.
Capítulo 23
Quando Kushina ouviu o barulho familiar da porta do carro de Naruto bater com mais força que o habitual, ela não pensou que havia algo errado com o temperamento do menino, enquanto ainda encarava a louça em suas mãos. Ela e Minato haviam acabado de comer um lanche rápido e, embora estivesse morrendo de preguiça, decidiu que limparia a bagunça da cozinha, antes de dar uma relaxada. O dia fora difícil; ela detestava jornalistas – exceto Shikamaru, claro, porque ele era um amor de garoto, educado e tão diplomático quanto o seu marido.
Em sua cabeça, o filho havia saído para jantar fora e se encontrar com alguns dos muitos amigos que possuía; como era comum do moleque aos finais de semana. Sabia que os planos não envolviam Sasuke, porque se o fosse, o mais novo não estaria voltando para a casa tão cedo. Com um riso meio divertido, meio debochado, ela colocou o prato no escorredor da lavadora de louças automática. Aquela idade era tão mágica, cheia de inconstâncias e descobertas, mesmo que já tenha passado pelas atribulações da adolescência.
Ela se lembrava com carinho daquela época em sua própria vida. Olhando para a parte traseira da cabeça de Minato, que estava sentado no sofá da sala, recordou-se das muitas vezes que fizera o inferno na vida do homem, porque não conseguia admitir para si mesma que estava apaixonada. Ele havia passado por poucas e boas para conseguir conquistar a sua confiança. Às vezes, Kushina se perguntava como o homem aguentou as suas volubilidades, entre puxá-lo para beijos aquecidos e empurrá-lo juntos com seus questionamentos.
Naquele momento, a porta da frente se abriu e, por ela, passou um furacão amarelo, cinza e azul. Naruto ostentava uma expressão fechada, quase agressiva. O rapaz parecia intimidade, ainda mais com aquelas cicatrizes no rosto, repuxadas, devido à mandíbula tensa. O marido, percebendo a energia do menino – que já nem deveria ser considerado como uma criança –, levantou-se. A altura dos dois rivalizando, já que o mais novo alcançara o pai.
O estudante de engenharia não disse absolutamente nada, ele apenas deixou um papel cair na mesa de centro da sala e marchou para o quarto, batendo a porta com força, fazendo com que todos os vidros da casa estremecessem com o impacto. Era nessas horas que ela amaldiçoava o próprio gênio, pois havia passado grande parte dele para o filho; o moleque era difícil. Com um olhar para Minato, ela o viu encarar o objeto deixado pelo jovem, consternado.
– Eu vou falar com ele. – o homem declarou com nervosismo, mas antes que ele pudesse dar um passo adiante, ela o interrompeu.
– Do que se trata? – ela perguntou, secando as mãos no pano de prato, enquanto caminhava até o esposo.
Ele apenas lhe deu um olhar, como se esperava que isso fosse o suficiente para lhe responder. Como Kushina não demonstrou nada, além de confusão e dúvida no olhar, ele decidiu ser mais claro:
– Sasuke. – uma única palavra foi o suficiente para a mulher balançar a cabeça afirmativamente, em compreensão. Para as outras pessoas, ele continuava sendo vago, mas para a ruiva à sua frente, a explicação fora satisfatória.
– Esquecemos o contrato em cima da mesa do escritório. – ela constatou com um suspiro e um estalo na língua. – Com tanta coisa para se preocupar, acabei me esquecendo de guardar. – continuou, coçando a lateral da cabeça com a unha do indicador. – Eu cuido disso, fui eu quem conversou com o garoto Uchiha em primeiro lugar. Naruto sempre mexe naqueles papéis para consultar os projetos, foi desleixo da minha parte. – ela começou a divagar, já caminhando para a escada que dava para o andar superior.
Minato correu e a agarrou pelo antebraço, temeroso que o temperamento da esposa piorasse a situação. Às vezes, o mais velho achava que vivia entre a cruz e a espada, quando se tratava da mulher e do filho. Ela se virou, meio irritada com a interrupção, meio questionadora.
– Eu vou falar com ele. – tentou convencê-la, mas pelo olhar determinado, o qual conhecia tão bem, ele sabia que seria inútil.
– Confie em mim, Minato. – ela soou estranhamente calma. – Eu vou cuidar disso. Prometo não perder a paciência. – jurou com um sorriso compreensivo, voltando a subir as escadas e fazendo com que o homem suspirasse em resignação. “Um Uzumaki quando quer algo, um Uzumaki consegue”, não era o que ela vivia dizendo? Ele sabia que em breve, ela tomaria as rédeas sobre o comportamento de Naruto. Ele interviu até onde podia.
(***)
Ela parou em frente à porta do quarto do filho, encarando a pequena placa com os dizeres: “THE MAN CAVE – What happens here... Stays here!”, antes de bater suavemente. Ela esperou pacientemente por uma resposta, mas quando nada veio, ela decidiu se pronunciar:
– Naruto, sou eu. Podemos conversar? – Kushina tentou novamente, sendo mais direta. “Um, dois, três...”, contou em pensamento, tentando controlar o próprio temperamento. No entanto, quando a contagem chegou ao “dez”, ela já estava mandando a paciência às favas. Principalmente, porque o moleque insolente se recusou a responder qualquer coisa. – Se você não abrir essa maldita porta, eu vou pegar “A Chave Extra”! – ela gritou no limite.
No passado, “A Chave Extra” era o terror do Uzumaki mais novo. A mulher não poderia arrombar portas, mas tinha uma solução bem eficiente, caso o garoto se recusasse a obedecer aos seus comandos e desbloquear a tranca. Ele sabia muito bem que, quando a mãe decidia fazer algo, ela o faria, independentemente do que estivesse à sua frente, como obstáculo. A ruiva sabia que agora, era só uma questão de tempo até que o outro cedesse.
Quando o som familiar da chave girando na fechadura se fez ouvir, ela teve que segurar o sorriso contundente, para não deixar Naruto ainda mais irritado. Ela precisava que ele estivesse calmo, para que ouvisse e, principalmente, entendesse o que precisava dizer. O rapaz tendia a ser orgulhoso e um pouco cabeça fechada, quando estava nervoso.
– Você não toma uma dica, não é? – a voz rouca e grave soou aborrecida.
– Geralmente, as mães não sabem como tomar uma dica, só estou fazendo o meu papel. – ela explicou como se ensinasse o óbvio para uma criança.
Naruto revirou os olhos, mas não conseguiu controlar um sorriso; Kushina era terrível, e essa, por incrível que pareça, era uma das partes que mais admirava na figura feminina. Com uma frase simples, ela era capaz de calar qualquer um que se colocasse em seu caminho. Ele estava surpreso que a mulher ainda não fora comer a mente de Fugaku Uchiha; o rapaz suspeitava que a atual ponderação da matriarca fosse o medo de prejudicar Sasuke.
– Veio me explicar o porquê daquele contrato? – o loiro perguntou sem hesitar, consciente de que alguém viria conversar, uma hora ou outra.
– Para quê, se eu tenho certeza que você já tirou conclusões por si mesmo? – ela murmurou com uma imparcialidade que não lhe era característica. O tom de voz baixo, não foi o suficiente para amenizar o timbre e a aura imperial da mulher. – Explicações, a gente dá sobre o que não é possível entender, Naruto.
Ele a encarou por um momento ou dois, ponderando a seriedade nos recursos femininos. Ambos tinham um relacionamento difícil, mas o estudante admitia que, por mais conflituosa que fosse essa relação, os dois eram extremamente parecidos. Kushina sabia o entender perfeitamente bem, mesmo que não se preocupasse em pegar todas as suas dicas. Na verdade, ela as ignorava sem qualquer peso na consciência.
– E, então...? – ele perguntou vagamente, assistindo-a sentar em sua cama e bater a mão no lugar ao seu lado, indicando que ele deveria se acomodar, uma vez que a conversa poderia ser longa.
Os orbes cinza-chumbo observaram o rapaz se inclinar sob o colchão macio, puxando as pernas para que estivesse em posição de meditação. Os cabelos desgrenhados roçaram o seu rosto, enquanto ele olhava para baixo e se ajeitava confortavelmente, tentando parecer relaxado. Por um momento, ela empurrou os picos rebeldes com os dedos, vendo-o fechar os olhos com a carícia bem-vinda.
– Sasuke é um homem tão difícil quanto você, sabia disso? – ela refletiu em voz alta, fingindo não reparar a forma como os ombros do outro se tencionaram com a menção do moreno. – Os dois são tão teimosos, querem fazer tudo sozinhos e insistem em protegerem quem consideram importantes com unhas e dentes. É admirável. – ela murmurou, contra a testa do mais novo em um beijo afetuoso, aspirando o perfume de maçãs do seu xampu e se sentindo nostálgica, pois costumava segurar Naruto assim por minutos, quando ele era pequeno, apenas para se deliciar com o aroma, que o jovem não fez questão de mudar, mesmo em vida adulta.
O loiro sentiu um nódulo duro em sua garganta, o qual ele engoliu com muito custo, juntamente com as lágrimas que pareciam querer se formar com a ardência dos seus olhos. Um dos motivos pelo qual ele fugia de Kushina como o Diabo da cruz, é que a mulher o deixava emocionalmente frágil e sensível, como se tivesse o poder de puxar tudo o que ele tentou arduamente empurrar. Minato era compreensivo, calmo, mas era a ruiva que o transformava naquela criança despreparada e desprotegida do passado, a qual sempre precisava de um abraço para afastar daquela angústia que apertava o seu coração com mãos de ferro.
– Sasuke sente culpa, Naruto. – ela continuou com o timbre ameno. – Ele tem tentado fazer tudo sozinho, como forma de se redimir com a nossa família, pelas atitudes de Fugaku.
Naruto a encarou, segurando todas as suas replicas na ponta da língua. Sasuke não tinha que se sentir culpado, quando ambos foram responsáveis pelo que aconteceu. Defendê-lo não tornava a situação melhor. O moreno escondeu decisões que os envolvia em conjunto e suas respectivas famílias. Se ele não podia confiar no homem para compartilhar informações, ideias e objetivos agora, o mesmo se aplicava no futuro. O estudante de engenharia realmente queria que o relacionamento evoluísse, prosperasse, mas, não, dessa maneira.
– Eu não estou querendo protegê-lo, só estou dizendo que eu o entendo. – ela explicou como se adivinhasse os seus pensamentos. – Assim como entendo você. – pausa. – Com uma família tão rígida, torna-se difícil aprender a dividir momentos, emoções, sonhos... Sasuke cresceu em um casulo, Naruto, sempre sozinho. – suspirou, vendo-o abaixar a cabeça, em profundo pensamento. – Deve ser difícil pisar em anos de costumes e regimes fechados, para se entregar plenamente a uma relação, como ele tem tentado fazer ao longo dos meses. – colocando a mão no rosto bronzeado, ela acariciou as cicatrizes com o polegar, traçando-as.
No passado, ela desprezava essas marcas. Quando Kushina viu pela primeira vez as lesões vermelhas, causadas por cortes profundos e raspagem de pele no rosto bonito, ela só faltou desmaiar. As feridas tinham o propósito de causar impressões permanentes na cútis lisa e, mesmo Minato, teve um tempo difícil para se acostumar com a visão agonizante da carne repuxar como se estivesse viva. Ela entendia a fase rebelde, mas ela não entendia o porquê de cravá-la na pele como uma lembrança profunda e definitiva de tempos complicados, cheios de conflitos, internos e externos.
Por vezes, ela se pegava imaginando como seria Naruto sem aqueles sinais em sua face, quase como se fosse um espelho do seu marido. No entanto, as comparações pareciam ridículas e, então, ela percebeu que já havia aprendido a amar as cicatrizes, porque elas faziam parte do que o filho se tornou ao longo dos anos. Eram os vestígios físicos da sua força, da sua singularidade e sua forma incomum de tomar decisões. O menino nunca cansou de surpreender as pessoas, desde criança, e, quando ela acreditava que a imprevisibilidade não poderia lhe fascinar mais, ele aparece com Sasuke.
– O pecado de Sasuke é fazer o que pensa ser melhor para você. — concluiu, esperando que o mais novo entendesse o seu ponto.
Ele passou as mãos pelos cabelos, acumulando e os agarrando na parte de trás da cabeça, enquanto contemplava o teto e respirava fundo. Isso tudo não mudava absolutamente nada.
– Eu sei, mas eu já tomei a minha decisão, kaa-san. – ele respondeu, evitando encontrar os olhos da matriarca. Não, porque estava inseguro sobre suas escolhas, mas porque não queria mostrar as emoções conflitantes que estavam em seu rosto. – Não estou o culpando por nada. Eu errei também, e muito. Acreditei que estava pronto para arriscar algo diferente, mas eu não estava. Ao mesmo tempo em que tentei fazer tudo devagar, tudo foi muito depressa e isso embaralhou a minha cabeça. Eu não deveria ter começado outro relacionamento, tão logo eu terminei com a Sakura, porque acabei projetando meus medos e minhas dúvidas em cima do Sasuke e isso, corroeu nossa relação. – ele começou a pressionar os calos das mãos novamente, no intuito de se distrair.
Kushina o ouviu atentamente, sabendo que era um momento raro. Naruto não se abria com tanta facilidade, como a maioria das pessoas costumava pensar, devido à personalidade receptiva do loiro. Minato era o único que conseguia fazer o primogênito abrir a boca, com paciência, contornando as desculpas e enrolações do mais novo, até que ele começasse a se despejar, sem ao menos perceber. Mas, ela não tinha a mesma calma do marido.
– Sasuke não confia em mim, mas eu também não confio mais nele. – explicou. – Eu... – coçou a testa, enquanto tentava organizar a sua confusão mental. – Nós não estamos mais juntos. – contou de forma insegura.
A ruiva ficou em silêncio, avaliando meticulosamente o que acabara de ouvir. Era uma pena, mas ela entendia. Infelizmente, ela não poderia pedir que o outro reconsiderasse, era uma escolha dele, no final das contas. Ela só queria que o mais jovem entendesse as razões do Uchiha, sem julgá-lo como vilão. O menino poderia ter errado em suas decisões e agido de forma impulsiva ao lhe oferecer suas ações, mas ele acreditava que estava fazendo o certo, e Kushina admirava essa iniciativa. Não eram muitos os filhos que se rebelavam contra a tirania de um pai. A maioria crescia insegura, porque temia a reação dos parentes; Sasuke não tinha medo de desafiar Fugaku e nem mesmo a própria família. O homem tinha uma mente brilhante e ambiciosa, uma pena que viveria à sombra do irmão mais velho no controle da empresa, porque o garoto seria perfeito como um presidente.
– Eu não sou muito boa com conselhos, Naruto. – ela admitiu com sinceridade, olhando o garoto nos olhos. – Eu poderia pedir que reconsiderasse, podia dizer que estava sendo precipitado ou mesmo condenar Fugaku pelo que está acontecendo. Eu poderia defender Sasuke; poderia tomar as suas dores... – ela encarou as unhas distraidamente, pensando que precisava ir à manicure esta semana. – Mas, você é um adulto, não, uma criança. – pausa. – Assim como Sasuke, você possui uma personalidade forte, decidida. Eu não te criei para ser o menininho da mamãe e, por mais que eu amaldiçoe a minha decisão às vezes, porque Deus sabe que você é um pé no saco, isso me dá a certeza de que você sabe o que está fazendo. – Kushina voltou a encontrar os orbes azuis, que eram tão parecidos com os do pai, mas que naquele momento, parecia uma sombra densa dos seus próprios, devido aos contornos escuros. – Eu confio em você. – ela confessou, vendo-o arregalar as pálpebras em surpresa. – Se você acredita que esse caminho é o que deve seguir, eu vou apoiá-lo...
Naruto ficou em silêncio relutante; admirando as palavras que saíram da boca da mulher, como se tivessem adquirido forma física e dançassem diante de seu rosto. Era como ser tocado, sem que nada tremulasse sob a sua pele. Por um momento, ele acreditou que fosse um dom materno, embalar com os cinco, até mesmo seis, sentidos. Ele a admirava com todo o seu coração, embora sempre fizesse o possível para se manter longe desse efeito extenuante que a matriarca lhe causava.
– Eu te amo, sabia? – o loiro perguntou com um sorriso, puxando-a pela nuca, a fim de depositar um beijo afetuoso na testa pálida. Os fios vermelhos fazendo cócegas em seus lábios e entrelaçando entre seus dedos como se fosse líquido. – Você é a melhor mãe do mundo, já te disse isso? – perguntou com um sorriso matreiro. Kushina sempre o tirava da letargia pós-término, com seu jeito simples e ânimo fácil.
A ruiva soltou um riso alegre, enquanto dava um tapa no peito firme. Uma lembrança vaga de Naruto pequeno rondando a sua cabeça; foi-se o tempo em que esse homem fora um bebê pequeno, rechonchudo e indefeso. Ela sentia falta daquela época; de poder aninhar o menino em seus braços e consolar os choros apenas com uma melodia sem letra, murmurada pelo nariz e embalada por braços protetores. A cada dia, ela se dava conta do quanto o rapaz cresceu, tanto física quanto psicologicamente. Em breve, seguiria em frente, longe dos seus velhos. Ela piscou freneticamente tentando espanar as lágrimas que sabia estar se formando.
Nessas horas, ela sentia vontade de ter outro filho, porque com o afastamento do primogênito ao longo dos anos, ela se sentia menos como mãe, como se estivesse perdendo uma parte de si mesma. Por um momento, ela percebeu que todos os acontecimentos estavam mexendo com seus nervos também, afinal, o garoto só estava construindo sua própria vida, não, abandonando-os.
– Você sabe que isso não vai me convencer a te deixar comer ramen, não sabe? – ela brincou e se levantou, agradecendo mentalmente a constância em sua voz. – E não pense que seu pai não me contou sobre sua insolência de hoje cedo. – ela recomeçou, fingindo um olhar aborrecido. – Se uma vez eu considerei te deixar comer aquela coisa, você me fez mudar de ideia com a sua atitude. – a ruiva assistiu os lábios masculinos formarem um beicinho muito infantil.
– Você já foi mais divertida. – sugou a respiração pelo nariz, de forma ruidosa e contrariada. – Eu não te amo mais! – exclamou, vendo-a se afastar.
Ela só lhe lançou um sorriso de escárnio por cima do ombro e contorceu as sobrancelhas vermelhas em deboche, antes de abrir a porta.
– E, Naruto...? – ela perguntou, chamando a atenção do outro. – Não descarte aquele contrato. Se você pensar nele, sem a intervenção de Fugaku, verá que o acordo é bastante benéfico, para ambas as partes. Sasuke não é tão ingênuo quanto parece, ele sabe o que está fazendo. Eu e Minato aceitaremos a sua decisão, mas quero que pondere sua escolha. Não é somente a questão do dinheiro, é um investimento para o futuro. – ela jorrou, saindo do quarto. – Eu sei que você vai encontrar uma solução inteligente para as duas empresas, por isso, pense bem, ok? – propôs com um último olhar, antes de sumir pelo corredor.
“Considerar o acordo, hein?!”, ele pensou, encarando o carpete de manta bege que cobria toda a extensão do cômodo. “Como eu vou fazer isso sem puxar uma briga com aquela família?”, perguntou-se, agarrando os cabelos e se jogando no colchão macio, enquanto sentia a cabeça começar a doer.
(***)
– Você acha que eu exagerei? – ele ergueu a sobrancelha direita, olhando para a mulher loira como se ela tivesse adquirido uma segunda cabeça.
Shion deu de ombros, erguendo o copo ainda cheio com Cuba Libre. Ela bebeu o líquido, sentindo o álcool marcar o gosto do refrigerante e limão de forma agradável e suave. Ela pegou seu cigarro, batendo as cinzas no cinzeiro, antes de tragar a fumaça para seus pulmões. O nariz e a garganta queimaram um pouco com a invasão.
– Não exatamente. – ela explicou vagamente, brincando com o guardanapo molhado que envolvia seu copo. – Eu só acho que você não lhe deu chance para se explicar. – completou, encontrando os olhos azuis, que pareciam brilhar, mesmo com o entorno escurecido do bar e as luzes distantes, que dançavam frenéticas pela pista de dança.
Naruto ficou em silêncio, tenso e com a postura arredia. Ela suspirou. Havia sido um martírio fazer o homem sair de casa, a mulher não queria que ele ficasse arisco de repente e saísse por aquela porta; o Uzumaki precisava se distrair. Kiba pediu que ela intercedesse na situação, enquanto ele ainda estava em Fukushima, preso pelos deveres de faculdade – e Shion não estava a fim de aturar o monólogo do Inuzuka sobre o rapaz à sua frente.
– Olha – ela recomeçou. –, quando estamos com muitas coisas na cabeça, a gente não raciocina no calor do momento. – tentou ser mais clara, mas sabia que estava fazendo um nó naquela mente confusa. – Alguns respondem com agressividade, outros são extremamente sentimentais e, uma pequena parcela de pessoas emudece. – ela olhou para a superfície plana da mesa por um instante, refletindo. – Eu lido com emoções fortes em uma base diária, Naruto, e, às vezes, a gente precisa perceber quando devemos agir, recuar ou dar um tempo para que o outro pense. – suas mãos gesticulavam distraidamente. – Eu não conheço o Uchiha, mas ele não me parece ser alguém que faz algo sem pensar corretamente sobre as consequências.
– Eu sei muito bem disso. – ele a interrompeu. – Uma parte de mim está esperando que ele tome a iniciativa e me procure para explicar o próprio lado da história. – riu de forma desolada, balançando a cabeça negativamente, enquanto puxava algumas partículas de cinza do cigarro com a ponta do indicador. – É infantil, não é? – mordeu o lábio inferior, passando a mão livre pelo cabelo rebelde. – Eu sei que é somente o meu ego falando, mas eu queria que fosse ele que dissesse o que está sentindo dessa vez. – murmurou, pegando o próprio cigarro preso no cinzeiro de vidro.
Shion o olhou atentamente, vendo a maneira como ele rodava o fumo entre os dedos indecisos e desenhava padrões no suor do copo gelado. Naruto parecia uma criança abandonada, o que não combinava em nada com o homem decidido que ela conheceu. Ela quase se sentia tocada; quase. Ela não ia com a cara do Uchiha, pela loira, o mais novo poderia encontrar outra pessoa para amar. A mulher se candidataria se não estivesse com o foco em alguém agora.
– Eu pareço uma garota estúpida e apaixonada falando essas coisas. – ele sorriu e ergueu o olhar para encara os orbes que cintilavam violáceos pelas luzes difusas.
A advogada bufou algo que parecia ser um riso, antes de se inclinar para frente e prender a mão bronzeada entre a sua, analisando-a. Com um aperto suave, ela tentou transmitir um conforto que contrastava completamente com o brilho predatório que preenchia as íris claras.
– Nada disso estaria acontecendo, se você tivesse me dado uma chance. – ela brincou e depois gargalhou, quando sentiu o homem empurrar o seu braço, dando um riso de sua própria autoria. O som rouco e grave ondulando pelo espaço entre sua mesa. Um arrepio passou pelo seu corpo com o som, ao mesmo tempo em que lhe dava certa sensação de vitória; conseguira mudar o rumo dos pensamentos do mais novo e amenizar o clima melancólico que os envolvia.
– Você é impossível. – ele balançou a cabeça novamente, tentando conter o sorriso descompromissado. Naruto agarrou a sua gim-tônica, as fatias de limão ondulando com o movimento brusco, e tomou um gole generoso.
Os dois olharam para o palco, onde uma banda se preparava para começar a tocar. Um DJ ainda conduzia as músicas que serviam para distrair os clientes, enquanto o show não começava. O silêncio entre a dupla era reconfortante e distraído, uma vez que ambos estavam perdidos em seus pensamentos.
Shion deu de ombros, chamando a atenção do homem com o seu gesto.
– Eu preciso te contar uma coisa. – ela começou, lançando um olhar ousado e malicioso por alguns segundos, antes de voltar a encarar os músicos. A loira colocou o copo na boca, mas não bebeu uma gota sequer.
Naruto esperou com uma sobrancelha arqueada.
– Eu quero a sua prima. – a advogada jogou de uma vez, fazendo o rapaz arregalar os olhos em surpresa. Se ele estivesse bebendo alguma coisa, com certeza teria engasgado.
– O quê?! – ele praticamente gritou de uma forma não muito viril, atraindo uma gargalhada da mulher. – Você não se atreva, sua... Sua pervertida! – acusou-a com o dedo indicador em risque.
– A personalidade dela me fascina, Naruto. – a loira se inclinou para frente. – Aquele jeitinho irritado é uma delícia. A cada vez que eu vejo aquela ruiva, eu tenho vontade de levá-la para casa e...
O homem a interrompeu:
– Meus ouvidos queimam! – ele exclamou, apertando as palmas em cima das orelhas. O rosto vermelho, enquanto encarava a loira, horrorizado. – Você vai corrompê-la! – Naruto tentou ignorar a imagem mental das duas, em posições nada castas. Ele precisou esfregar as pálpebras.
– Pare com isso, idiota! – ela exigiu com irritação queimando os olhos. – Onde você pensa que vai? – Shion perguntou em um tom de comando, assistindo o homem se levantar e rodar o conteúdo restante do seu copo.
– Vou trancar a Karin em um lugar que você nunca vai descobrir! – retrucou, ignorando a loira, que agora estava em seu encalço.
Ela riu debochadamente.
– Ela não é tão inocente quanto você pensa. – declarou, fazendo-o parar em consternação. – Aquela aparência “petite” engana, Naruto.
– Ela... – ele sentiu que as engrenagens de sua cabeça estavam falhando. – Você... – o rapaz não sabia o que pensar.
– Apenas alguns beijos, nada de mais. – a loira deu de ombros, franzindo os lábios em um beicinho muito atípico de sua personalidade. – Mas a sua prima é muito mais teimosa que você e não quer ceder. – jogou o cabelo por cima dos ombros. – Nós começamos a sair mais, depois daquele dia da boate. Ela é amiga da Ino e só acontecia de estarmos sempre juntas. – explicou, andando em direção à chapelaria para retirar os casacos.
Naruto resmungou algo ininteligível, pegando o casaco preto e o cachecol de cashmere cinza. Uma parte dele tentou contabilizar quanto tempo havia se passado, desde a última vez que toda a turma se encontrou para ter acontecido tantas coisas. Os dias passaram rápido. Ele ajeitou o paletó grosso em cima da camisa branca e colocou a outra peça no bolso, esperando Shion pegar a própria jaqueta.
Os dois saíram indiferentes ao vento gelado. Os cabelos claros, que pareciam brilhar durante a noite, ricocheteando em torno dos rostos concentrados. Um silêncio tenso se estendeu, incomodando a incomodar a loira.
– Naruto? – ela chamou.
– Vá com calma e só corra atrás da Karin se estiver realmente interessada. – ele murmurou, ignorando o tom questionador da advogada e fazendo com que a mesma franzisse as sobrancelhas em questionamento. – A Karin parece ser essa mulher durona, mas na verdade ela é extremamente sensível e romântica. Entretanto, raramente se entrega totalmente e isso frustra as outras pessoas. É preciso um nível muito grande de paciência para lidar com as inconstâncias da minha prima; uma hora ela quer e na outra, ela não quer saber de mais nada. – suspirou, parando do lado da porta do próprio carro. – Eu não quero que ela se machuque, caso você decida que não está afim de lidar com sua bipolaridade.
– Eu não sou alguém que desiste fácil. – ela apoiou a mão na lataria vermelha, cercando o homem com o seu corpo; seu próprio automóvel esquecido no outro lado do estacionamento.
– Boa sorte – ele brincou com um sorriso divertido. –, e obrigado por esta noite. – agradeceu, referindo-se ao fato de ela o chamar para conversar e acabar o distraindo de Sasuke, falando sobre Karin. O mais novo destrancou o veículo e entrou.
Ela apenas sorriu daquele jeito particular só dela, meio arrogante e sugestivo, ao mesmo tempo em que dava dois tapas no capô vermelho do Mustang, em uma despedida simples, antes de se afastar. Com um meneio divertido, Naruto deu a partida no carro e saiu, pensando em como as situações eram irônicas. Shion não tinha nada em comum com a ruiva. As duas eram teimosas, mas uma era extremamente moleca; juvenil demais para a outra. Ao mesmo tempo em que algo parecia não ornar, é como se fosse um contraste bonito. Uma era cor vibrante e outra era um sinônimo pálido de pequenos tons; sua prima diria melhor, uma vez que ela entendia muito mais de arte do que ele, no entanto, o homem suspeitava que ela não fosse poética a esse ponto.
– Eu ainda acho que deveria trancá-la em um porão. – ele murmurou, sentindo-se um pouco protetor, afinal, ela era sua irmã-bebê.
(***)
Sasuke estava de saco cheio. Ele precisou sair de casa para conseguir um momento de paz. Karin não parava de buzinar em sua orelha sobre o vaso que ele havia quebrado, “É importado, você sabia?! Onde vou encontrar outro como esse?!”, ela gritava totalmente histérica. Fora que a mulher não parava de falar de Naruto e o quanto estava chateada pelas suas atitudes. Na opinião dela, o Uchiha era um molenga covarde. E ele, de fato, pensava assim também.
Seu pai não parava de ligar em seu apartamento. A matéria havia saído na manhã de quarta-feira e, quando o velho senhor descobriu, a primeira pessoa a receber a descarga de frustração do homem, era o filho caçula. Ele passou a não atender os telefonemas, nem mesmo do celular, porque ele estava cheio de berros e broncas. Fugaku, sua melhor amiga, seu “ex-alguma-coisa”... Se ele pudesse sair esganando as pessoas agora, ele o faria, mas decidiu que teria um tempo só consigo mesmo em um bar nas redondezas.
Ele estava cansado. A faculdade estava tomando um pedágio da sua cabeça e essa situação com o Uzumaki, juntamente com tudo o que o envolvia, estavam fazendo um nó em sua mente. Uma parte do moreno queria jogar tudo para o alto, mas ele sabia que as coisas não eram tão fáceis assim. Sasuke já estava envolvido o suficiente para saber que suas atuais ações teriam consequências em muitas outras pessoas. Mas, por hoje, ele gostaria de ficar sozinho, porque havia gente demais fazendo barulho à sua volta e ele não conseguia pensar com clareza.
O Uchiha pegou seu copo de Red Mix, o gelo tilintando no vidro, enquanto ele entornava o seu conteúdo. A bebida desceu queimando em sua garganta, mas o rapaz nem se importou. Sua carteira, seu celular desligado e as chaves descansavam no balcão, esquecidos. O barman lançava alguns olhares em sua direção, completamente curioso sobre o homem solitário e silencioso, sentado em um dos muitos bancos altos ao longo da bancada, mas o moreno nem pareceu reparar, tão perdido estava em seus próprios pensamentos.
Ele sabia que deveria chamar Naruto para conversar , expor o que seu orgulho fazia questão de suprimir. Mas, Sasuke não conseguia, e o fato o frustrava. Que tipo de cara não conseguia admitir coisas tão simples? Era só assumir seus sentimentos com relação ao mais novo e expor a sua preocupação para com o estudante de engenharia e a sua família. Uma parte de si condenava o Uzumaki por toda a culpa que girava em seu interior, e a outra, se martirizava por suas atitudes, as ações do seu pai e pela relação fracassada que tiveram. O loiro havia se tornado uma parte importante da sua vida. Ambos estavam sempre juntos, desde que se conheceram, e o corvo encontrou no outro, uma forma mais leve de levar os seus dias.
O homem de aparência selvagem e jeito livre, o transportou para um mar de circunstâncias incertas. A personalidade aventureira, surpreendente e que desprezava a rotina e a constância lhe mostrou que havia muito mais por trás de um destino todo planejado. Ao longo da sua existência, ele sempre pensou que se formaria em Administração, faria uma pós-graduação em Finanças, uma vez que era seu irmão mais velho quem tomaria o controle da empresa da família. Quiçá, um dia, ele fosse encontrar um parceiro ou, talvez, não se prendesse a alguém de fato. Sasuke continuaria a passar os anos, da forma como tinha que percorrer esse tempo, sem ter que se atentar em fazer algo além do que precisava.
Mesmo com a inexperiência de Naruto para o sexo homossexual, o rapaz era muito mais ousado, arriscando lugares diferentes e explorando a imaginação e o sentido de se transar com a mente. Ele sempre foi muito focado, sempre teve dificuldades em trabalhar com coisas que não podia ver e tocar, mas o loiro lhe ensinou um caminho distinto. Se o Uzumaki havia aprendido muito com o Uchiha, o moreno precisava aceitar que havia aprendido muito com outro também.
O estudante de engenharia o distraía e o relaxava, pois se dependesse dele, Sasuke centralizaria toda a sua atenção apenas na carreira. O mais novo o fazia rir e sorrir com mais frequência, mesmo que ele tentasse segurar essa manifestação espontânea do seu corpo. Nem tudo era perfeito entre os dois, ambos brigavam por qualquer motivo e o moreno sempre tinha vontade de dar uns cascudos na cabeça dura do homem, mas eles se entendiam de forma que o fazia pensar em algum tipo de conexão simbiótica, clichê e harmônica de almas.
Ele bufou um riso debochado. “Acho que estou ficando excessivamente romântico”, pensou consigo mesmo, fazendo um gesto para o barman trazer outro copo com a mesma bebida anterior.
– Quem diria... – uma voz masculina começou nas suas costas. – Estou um pouco surpreso em te encontrar aqui, ainda mais sozinho. – o outro continuou, chamando a atenção do moreno e esperando o mesmo se virar. – Onde está o seu novo namorado?
Sasuke nem precisava dar a volta para saber de quem era aquele timbre.
– Suigetsu. – ele afirmou com um tom escuro de voz, completamente aborrecido. “Será que é muito difícil ter paz nessa vida?”, perguntou-se com um rosnado, entornando a bebida que o funcionário do bar lhe entregara.
O dia de hoje estava sendo longo.
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