Dar-se Uma Chance
19 Capítulo 19
Notas iniciais
Demorei, eu sei, mas dessa vez, foi por culpa do último capítulo de Deveres do Coração, ele consumiu mais dias que o esperado, porque foi realmente desgastante escrevê-lo.
Espero que gostem. Em breve as coisas tornam a esquentar, prometo, mas o capítulo é um elo importante para os próximos eventos, então ele pode parecer um ponto morto.
Obrigada a pohchan e a New Meels, vocês são uns amores, fico feliz em saber que as agradei tanto ao ponto de receber uma recomendação de cada. Obrigada também aos comentários e a quem favoritou o enredo, isso me mostra o quanto estão gostando e mesmo que seja uma responsabilidade enorme, fico imensamente grata, porque significa que estão gostando do meu "trabalho". Obrigada, de coração.
O capítulo está revisado às coxas, já vou avisando...
Beijocas ♥
Escrito por KiiinN
“Jamais desista das pessoas que ama. Jamais desista de ser feliz. Lute sempre pelos seus sonhos. Seja profundamente apaixonado pela vida. Pois a vida é um espetáculo imperdível.” — Augusto Cury.
Capítulo 19
Itachi demorou.
Demorou duas semanas a mais que o combinado, deixando Sasuke uma pilha de nervos. A ansiedade e a impaciência estavam construindo um redemoinho desagradável na boca do seu estômago, que perdurou por dias, impedindo-o de se alimentar e, até, de se concentrar adequadamente. Ele tinha plena noção de que era algo complicado, afinal, a ajuda contratada por seu irmão mais velho burlaria um esquema rígido de leis e normas, e isso, demandavam tempo e cautela, caso não quisessem dar às caras sobre o que estavam aprontando.
No entanto, quando o seu telefone celular tocou naquela manhã, a caminho da faculdade, e ele viu que o identificador reconheceu o número do primogênito, o jovem Uchiha tentou segurar um suspiro de alívio, uma vez que não tinha certeza sobre o andamento do seu pedido. Com calma fingida, ele estacionou o carro em uma vaga qualquer na rua pouco movimentada, ligou o pisca-alerta e pegou o aparelho, apertando o botão verde mostrado na tela para atender a chamada.
– Diga. — ordenou secamente, arrumando os cadernos e livros que deslizaram para fora do banco do passageiro em sua parada.
– Encontre-me no estacionamento do Okususobana Natural Garden, as 14 horas. Não se atrase. — o homem desligou, sem se importar com despedidas cordiais.
Sasuke franziu os lábios e as pálpebras, irritado, porque Itachi não havia lhe dito se dera tudo certo e havia lhe dado uma ordem, sem se preocupar em consultá-lo. De acordo com os seus cálculos, ele teria que correr com a prova de Legislação Empresarial para chegar dentro do horário estipulado. Apesar dos resmungos mal humorados, ele tinha plena ciência de que seu irmão mais velho ainda estava fazendo um grande sacrifício ao percorrer um caminho de três horas até Nagano, quando tinha um milhão de compromissos para atender na Mangekyou, em Niigata.
Desligando o pisca-alerta, ele deu a partida no carro, mas antes que pudesse manobrar o automóvel para o meio da rua, seu celular tornou a tocar, fazendo o seu coração saltar involuntariamente. O toque era familiar demais para que o moreno se esquecesse do significado que ele representava. "Lion Heart" preenchia todo o ambiente do Hyundai Genesis Coupé como um aviso de que não havia somente os seus planos para se preocupar; em nenhuma vez, nessas quase três semanas separados, ele se atentou em ligar para o Uzumaki.
Deixando o veículo como estava, ele pegou o telefone, tentando ignorar a leve euforia que tomava conta do seu peito.
– Oi. — seu cumprimento parecia uma ordem, que dizia expressamente: desembucha.
– Sempre tão caloroso... — a voz rouca comentou em um tom divertido e sarcástico.
Algo em seu interior se apertou e ele teve de engolir em seco. Sasuke não tinha reparado no quanto sentia falta daquelas ligações corriqueiras de Naruto, até aquele momento. Na verdade, ele estava fazendo o possível para não pensar no estudante de engenharia, porque sabia que se o fizesse, seria ainda mais difícil passar por todos aqueles dias, afastado. Já era um martírio ter que voltar para o apartamento e ver em cada canto daquele lugar, um pedaço do mais novo em suas memórias. Os dois tiveram um envolvimento curto, antes da pausa, comparado aos envolvimentos anteriores, mas era muito mais significativo que qualquer outro que já passara na vida de ambos.
– Só quando se trata de você... — ele respondeu com seu próprio ar de escárnio, que atraiu uma onda de risos do homem do outro lado da linha.
– Bastardo. — retrucou, atraindo um sorriso discreto do Uchiha. — Estou atrapalhando você? — ele perguntou, repentinamente preocupado, o que nunca acontecia no passado. Naruto tinha a mania irritante de ignorar que o moreno tinha seus próprios compromissos para atender, quando queria conversar.
– Como se isso lhe importasse... — respondeu com um toque de veneno, percebendo com estranhamento o silêncio pesado que preencheu a linha. — Naruto? — chamou, sem ter certeza se a ligação havia caído.
– Eu só queria saber se você estava bem, se estava vivo... Já que você nem se preocupou em me dar um sinal de vida. — ele resmungou, tentando encobrir o fato de que se sentia como um cachorro chutado. O Uzumaki estava inseguro, pela primeira vez em sua vida, ele estava verdadeiramente temeroso em perder alguém. Então, ele ligou para ver se recebia algum sinal de que deveria continuar esperando, se valeria a pena insistir mais um pouco ou se deveria fazer algo para mudar a situação que estavam, porque ele já estava ficando farto em ser deixado de lado. Ele estava cansado em receber nada, principalmente quando Sasuke deixou bem claro que não tinha certeza do que sentia. O loiro estava tentando deixar o tempo passar e confiar no moreno, mas à medida que os dias passavam, mais incerto ele ficava.
Infelizmente, o corvo não entendeu o apelo silencioso, levantando suas defesas e acreditando que as declarações do rapaz eram meras acusações, ele rebateu:
– Eu estive ocupado. — justificou-se, franzindo o cenho em descontentamento e se perguntando se não haveria um dia, que ambos não se desentenderiam.
Após um minuto de silêncio, que pareceram muitos, Naruto respirou fundo, retendo um mundo dentro do seu âmago.
– Desculpa. — pediu em um tom que encerrava a discussão. — Eu não tenho o direito de te cobrar, é só que, às vezes, — pausa. — eu ainda acho que estamos juntos... — sussurrou com cansaço, fazendo o Uchiha engolir em seco mais uma vez.
A declaração trouxe um mar de emoções conflitantes para o moreno. Ele não sabia se ficava feliz, pelo o Uzumaki ainda se sentir dessa maneira, ou se ficava preocupado com o tom utilizado pelo loiro. Havia em seu íntimo, um grande "quê" de alívio ao perceber que o outro ainda se encontrava envolvido e uma ponta de amargura pela delimitação de seus atos, uma vez que ele não poderia alegar muito, principalmente, quando dissera não saber se o relacionamento dos dois era importante. Esse único tópico, já era o suficiente para tornar o seu humor ainda mais azedo, pois lhe deu mais um motivo para se incomodar.
– Não estamos juntos, mas prometi que seríamos amigos, independentemente do que aconteceu. Isso lhe dá certo direito de me cobrar. — tentou justificar, esperando que não parecesse muito agradecido pelo comportamento do mais novo.
– Eu acho que sim... — o estudante de engenharia brincou, soando como se tivesse um sorriso nos lábios, o que deu um pouco de alívio para Sasuke. — Eu preciso ir, o professor acabou de entrar na sala... — avisou.
E o corvo queria dizer "não", pedir para o homem ficar mais um pouco na linha, mas ele apenas franziu os lábios, sentindo a cabeça girar, devido ao início de uma dor de cabeça.
– Ok. — assentiu simplesmente.
– Certo... — Naruto começou sem jeito. — A gente se fala...
E simplesmente desligou.
Sem os usuais choramingos do outro sobre querer ficar mais um pouco no telefone, porque sentia falta do seu corpo nu... O Uchiha bufou um riso amargo e balançou a cabeça negativamente, enquanto manobrava o carro para o meio da rua; essa ligação lhe deu a dimensão da falta que o loiro fazia em sua vida. Não havia mais finais de semana chutando a panturrilha do rapaz por ele ser um idiota; não havia mais noites cheias de brincadeiras estúpidas em meio a um amor gostoso... Não havia mais nada do que ele aprendeu a valorizar em um curto período de tempo.
Naquele instante, ele sentiu o peso da sua teimosia e das suas decisões impensadas.
(***)
Sasuke mal teve tempo de parar o carro em uma vaga, quando uma figura de terno preto abriu a porta e saltou para o banco passageiro. A princípio, ele levou um susto, mas quando olhou para o lado e encontrou os cabelos escorridos do irmão mais velho, alívio tomou conta de seu interior e ele quase xingou o empresário por ter chegado de supetão, sem se anunciar. Manobrando o automóvel adequadamente, ele parou, desligou o motor e se virou para o homem, enquanto tirava o cinto de segurança.
– Nunca mais faça isso! — exclamou com raiva, atraindo um sorriso afetado do outro.
– Assustado, irmãozinho? — perguntou debochadamente, tirando um envelope pardo de dentro do paletó. — De qualquer forma, aqui está, — murmurou com a mesma voz tranquila e suave de sempre, estendendo o objeto para o rapaz. — o documento oficial que atesta seu controle total sobre os seus bens.
O estudante de administração tentou puxar a carta, ansioso para verificar os papéis com os próprios olhos, mas Itachi apertou mais o controle sobre a pasta. Seus rosto em branco, enquanto estudava as características do caçulo.
– Espero que saiba o que está fazendo. — avisou.
A frase atraiu o olhar de Sasuke para o irmão, que ainda o encarava com neutralidade. Aquelas íris negras não denunciavam um único pensamento do primogênito Uchiha, e, apesar do vazio inerente daqueles orbes, era possível perceber a grande intensidade dos globos escuros. O corvo sentiu como se fosse uma criança outra vez, que estava prestes a aprontar algo. O sentimento o lembrou do passado.
O mais velho sempre teve essa capacidade inata de descobrir suas artimanhas, lendo-o como se fosse um livro aberto, mas mesmo sabendo que era errado, o homem o ajudava e ainda acobertava suas brincadeiras. O porquê de o empresário fazê-lo até hoje, o estudante não sabia, mas agradecia por ele nunca interferir em sua vida, uma vez que já tinham pessoas demais tomando decisões por ele; seu pai, os anciões, o restante do clã...
– Como...? — seus olhos derivaram para o envelope, indicando o motivo de sua dúvida.
– Kisame. — respondeu com simplicidade. — As pessoas nunca suspeitam que os filhos roubem os seus próprios pais, então, não houve muita investigação sobre o meu pedido. — ele deu a dica, piscando um olho e dando um sorriso sacana.
– Você falsificou a assinatura do papai. — foi a constatação chocada.
Desde pequeno, Sasuke nunca duvidou das habilidades do seu aniki, mas assistir de primeira mão o que ele era capaz de fazer para conseguir o sucesso de seus interesses, surpreendia-o.
Itachi não tinha escrúpulos — apesar da cara de bom moço -, mas o fato não o tornava uma pessoa ruim, uma vez que nenhumas das suas atitudes foram pensadas em prejudicar alguém, só o tornava extremamente ardiloso e astuto.
– Eu não, mas Kakashi, sim. Eu apenas digitei o documento e o entreguei para Kisame, para que ele fizesse o resto. — espanou o assunto de forma descuidada. — Talvez, eu também tenha intermediado algumas ligações... — deu de ombros. — Foi um processo simples, mas que demorou, devido aos motivos que você já conhece.
Um silêncio cheio de compreensão tomou conta do interior do carro, enquanto o rapaz refletia sobre tudo o que tinha escutado naquela curta conversa.
– Obrigado. — murmurou humildemente, colocando o envelope dentro de um dos livros que estavam jogados no banco traseiro. — Você sempre me ajuda. — admitiu com gratidão, pisando em seu próprio orgulho para expor aquelas palavras de forma tão aberta. Era o mínimo que ele poderia fazer por ter sempre Itachi ao seu lado, independentemente dos seus deslizes.
– Esquece isso, Sasuke. — o mais velho pediu, bagunçando os cabelos negros e curtos do mais novo, antes de sair do carro. – Apenas se cuide e não faça nenhuma besteira.
O Hyundai Genesis Coupé balançou, devido ao baque da porta se fechando. Sasuke observou do espelho retrovisor, a figura masculina se afastar com passos rápidos para o seu próprio automóvel, o qual estacionado a alguns metros de distância. No ato, finalmente ele pôde perceber a presença de Shisui, que aguardava o homem, sentado no banco do motorista. Com uma buzinada simples para indicar uma despedida e um cumprimento ao mesmo tempo, os dois deixaram o local apressadamente, arrancando um suspiro do moreno. O simples ato de expirar o ar preso em seus pulmões arrancou todo o cansaço, preocupação e impaciência dos últimos dias.
Agora, ele só precisava correr com o resto do plano...
(***)
"Uchiha Sasuke"
Ele terminou de digitar em seu iMac, salvando o documento original e o mandando para a impressão. Com um suspiro cansado, a mão pálida viajou pelos cabelos, empurrando os fios negros para trás, enquanto os olhos ônix digitalizavam pela tela do computador mais uma vez, checando a ortografia e a gramática. O texto era simples, apenas um pouco técnico e formal demais, mas em suma, não era algo de grande complexidade. O problema, é que tudo para o estudante de administração tinha que estar perfeito, caso o contrário, ele não arredaria a bunda daquela cadeira tão cedo.
O moreno pegou a folha da impressora, releu mais uma vez as palavras, conferindo-as, e assinou, bem acima da marcação onde estava o seu nome. Com um meio sorriso satisfeito, ele tirou o telefone sem fio da base e discou o número recentemente adicionado à memória. O sinal da chamada ressoou cinco vezes e na sexta, ele já estava começando a ficar nervoso. Em seu interior, ele esperava que uma pessoa em especial atendesse a ligação, mas outra parte do seu ser, rezava para que apenas Kushina fosse a grande autora deste ato, só para evitar maiores constrangimentos e questionamentos.
Sasuke não estava disposto a responder as perguntas incessantes e indiscretas de Naruto sobre o que ele queria conversar com a mulher de cabelos vermelhos.
Quando estava prestes a desistir, uma vez que a linha só chamava, uma voz feminina se fez ouvir:
– Moshi-moshi?
– Kushina-san? — ele perguntou educadamente. Não importava quantas vezes a ruiva lhe pedisse para ser menos formal, ele insistia em lembrar que não estavam tão íntimos ao ponto de serem tratados como se fossem da família ou velhos amigos. O problema era a grande dificuldade que ele sentia em se tornar mais ligado às pessoas.
O irônico, é que em menos de um dia, ele se sentiu extremamente vinculado ao Naruto, mas o Uchiha tinha plena certeza que era culpa do jeito espontâneo e livre do Uzumaki, que atraia esse tipo de reação das pessoas a sua volta, independentemente se elas queriam ou não.
– Sasuke? — ela soou duvidosa.
– Sim. — ele confirmou, olhando para a folha de papel com um olhar concentrado e duvidoso, mas ainda assim, centrado na conversa.
– Naruto não está em casa. – a mulher respondeu, antes mesmo que ele pudesse dizer alguma coisa.
Sasuke ficou indeciso entre dar um sorriso, divertido com a ansiedade da ruiva, ou franzir a testa em confusão. "Onde Naruto está as 21h56m?", ele se indagou, olhando para o relógio. O homem tinha aulas apenas no período da manhã e, pelo que se lembrava, às quintas-feiras, ele ficava durante a tarde para as aulas de Estruturas.
– Ele ainda não chegou da faculdade? — jogou verde para colher maduro.
– Mal chegou e já saiu. — soltou um suspiro. — Ultimamente, ele não têm ficado muito em casa, Sasuke, por isso aconselho a tentar no celular.
Ele franziu os lábios, descontente com a informação. Na sua mente surgiam um milhão de possibilidades para aqueles passeios nada convencionais do Uzumaki e nenhuma delas eram boas o suficiente para sossegá-lo. Era estranho que o mais novo estivesse fora em plena terça-feira de noite, quando na manhã seguinte, ele teria que estar às 7h na universidade. Não que ele quisesse controlar os horários do antigo companheiro, mas em suas contas, as atitudes não condiziam com a velha personalidade do loiro, que mesmo sendo muito agitado, voltava cedo para casa, devido aos compromissos do dia seguinte.
E ele decidiu que não gostava disso...
– Eu vou tentar localizá-lo pelo celular, — prometeu. — embora, eu não tenha ligado para falar com o Naruto.
Um silêncio reflexivo preencheu a linha, seguido do som do telefone sendo movimentado, o que lhe fez deduzir que ela estava mudando de posição.
– Ah, não? — ela perguntou um tanto confusa.
– Não. — assegurou. — Preciso falar com você.
Mais uma pausa longa de quietude. Kushina deveria estar pensando nas implicâncias daquela conversa, antes de se dar a liberdade de vocalizar as suas dúvidas. A mulher era curiosa e não descansaria, enquanto não descobrisse os motivos que levou Sasuke a chamá-la. O moreno quase podia ver as engrenagens se movendo naquela cabecinha vermelha. De certa forma, ele estava usando essa característica ao seu favor para atrair a matriarca. Alguns meses se envolvendo com Naruto lhe deram o benefício de treinar essa capacidade em manipular essa particularidade em especial, visto como o macho havia herdado toda a personalidade da figura materna, talvez funcionasse com ela também.
– E sobre o que seria? — a ruiva tentou pisar com cautela, mas era claro como água, que ela estava tentando se conter para não bombardeá-lo de perguntas.
– Consegue me encontrar para um almoço essa semana?
– Claro! Me encontre amanhã ao meio dia, no Mikazuki! — ela propôs com um tom de voz extremamente animado.
– Não precisa se preocupar em ser tão urgente, Kushi-
Ela o interrompeu.
– E você acha que eu esperaria tanto tempo para saber o motivo de tanto mistério? As coisas comigo não funcionam dessa maneira, rapazinho. — avisou com um toque de mau humor, que atraiu um sorriso do moreno.
– Hn. — retrucou, arrancando uma gargalhada alegre da mulher.
– Hn. — imitou ao som dos risos descontraídos. — Nos vemos amanhã, Sasuke! — ela finalizou, antes de desligar o telefone, sem uma despedida cheia de enrolações ou conversa fiada.
O corvo gostava desse jeito desapegado da Sra. Uzumaki, talvez por ser o mesmo de Naruto. Ambos eram um pouco grosseiros no modo de agir, mas ainda assim, demonstravam calor e carinho em suas atitudes desgarradas. Era impossível se sentir ofendido com a personalidade indelicada dos dois, porque quem os conhecia superficialmente, logo se acostumava com esse caráter livre, leve e solto de mãe e filho.
Antes de colocar o telefone na base, ele discou outro número familiar...
(***)
Um par de olhos azuis, quase violetas, rodou pelo quarto pequeno, buscando a origem do som de "As Your Friend" de Chris Brown com o DJ Afrojack. O toque era familiar e ela fez uma careta ao reconhecer o objeto causador de todo aquele estardalhaço. Naruto havia esquecido o celular em sua casa de novo. Onde ele estava com a cabeça, Shion não sabia, apenas tinha certeza de que aquela atitude vaga e distante não era o usual do Uzumaki, mesmo que ele fosse naturalmente distraído.
A loira pegou o aparelho e atendeu, sem se preocupar em olhar o identificador de chamada, esperando que fosse o próprio à procura de seu pertence.
– Você é uma cabeça oca! — ela logo jogou, sem esperar o homem se identificar.
– Desculpe? — disse uma voz completamente diferente, mais grave e constante que a do estudante de engenharia, cujo timbre era mais rouco e entoado.
Ela quase bateu a palma da mão na própria testa para se repreender, pois conseguia ser mais afobada e eufórica que Naruto.
– Gomen, nee, achei que fosse outra pessoa. — retratou-se sem perder a pose arrogante. — Se está procurando pelo Naruto, ele não está. — respondeu, antecipando a pergunta silenciosa vinda do outro, cuja quietude se prolongou ainda mais densa e pesada, devido à sua declaração.
Quando a mulher já estava começando a achar que o rapaz tinha desligado, ele tornou a falar:
– Ele vai demorar muito para voltar? — a questão soou irritada, autoritária e completamente desconfiada, fazendo a fêmea se perguntar internamente, "quem esse cara pensa que é?", contagiada pelo mau humor do homem.
– Eu espero que não, porque estou esperando o jantar que ele ficou de me trazer. — respondeu com implicância, mas, não, para o macho com quem conversava e, sim, dirigido indiretamente ao Uzumaki, uma vez que ele não estava presente para se defender. Aquela era uma birra simpática que costumavam trocar com o loiro para demonstrar o carinho que sentiam um pelo outro.
Mais uma pausa silenciosa se seguiu, cheia de uma aura reflexiva e palavras não ditas. Era claro para Shion que o homem não estava muito à vontade em conversar com ela, mas a mulher não podia fazer nada, visto como o proprietário do telefone estava ausente naquele momento.
– Diga a ele que Sasuke Uchiha ligou. — ordenou, desligando a ligação sem um último vocábulo. Os olhos azuis encararam a tela do celular com raiva, como se este fosse o culpado por tal conversa desagradável. A rapariga sentiu como se tivesse acabado de ter um embate furioso com uma namorada ciumenta, o que não fazia sentido, sendo que havia acabado de falar com uma figura do sexo masculino.
– Eu, hein?! — ela disse para si mesma, colocando o aparelho no mesmo lugar onde Naruto havia deixado.
– Quem era? — a familiar voz rouca quebrou repentinamente o silêncio do seu apartamento, assustando-a.
– Não faça isso, idiota! — gritou, apontando o indicador para o nariz fino e cinzelado do mais novo. — Quase me matou do coração!
– Era essa a intenção. — ele respondeu emburrado com o tratamento grosseiro, quando ele havia dirigido vários quarteirões a fim de comprar Udon para saciar uma vontade hormonal de Shion, uma vez que ambos não estavam com vontade de cozinhar.
– Imbecil, você não viveria sem mim. — ela murmurou, andando até a cozinha, já sentindo o cheiro delicioso do caldo e salivando em antecipação. — Aliás, — ela gritou do outro cômodo. — um tal de Sasuke Uchiha ligou no seu celular. O cara é um estúpido! — reclamou, tirando as tigelas de dentro do saco com urgência e os olhos brilhando, não mais irritada sobre o confronto anterior.
Naruto, que até então estava andando até onde a mulher estava, parou no meio do caminho com o coração a mil. Era a primeira vez que Sasuke ligava depois daquele rompimento. Fora a última vez que ele mesmo fez questão de entrar em contato com o Uchiha, há três dias, ele não havia nem recebido um mero SMS do rapaz de cabelos negros.
O Uzumaki estava sentindo falta, estava inseguro, devido à espera demorada, e, ele simplesmente não conseguiu segurar o impulso de ligar, de querer estar perto, de ouvir a voz profunda falando em seu ouvido daquele jeito que o arrepiava. Não era à toa que sempre dizia para o estudante de administração, que se deixasse, grudaria no homem e nunca mais o soltaria, ele era viciado em tudo no cara, desde a maciez da pele pálida e até seus contornos viris. O último era o que ele mais aprendera a amar nas últimas semanas e que mais sentia falta, do corpo colado ao seu, desavergonhado e necessitado.
Puxando uma respiração profunda para acalmar aquele bolo confuso de emoções que giravam em seu peito, ele voltou a andar. Ao chegar à porta, os orbes azuis viram Shion sentar na cadeira, preparando-se para comer. Os dois haviam se aproximado consideravelmente desde que se conheceram e rapidamente se tornaram inseparáveis. O loiro sabia do interesse da advogada, que nem fazia questão de esconder o quanto era atraída pelo universitário desde o Under Water Bar Praha, mas nada o impedia de manter um relacionamento amigável, sem estender as esperanças da rapariga, pois havia encontrado nela, uma companhia muito agradável e engraçada. Ela tinha um jeito sarcástico, irônico e desconfiado, que lembrava exatamente do seu companheiro, mas também era espontânea, alegre e sempre compartilhava suas besteira, sem aqueles clichês e frescuras femininas que normalmente reparava em Sakura.
– E o que ele disse? — perguntou esperançoso.
– Que queria falar com você, óbvio. — ela respondeu, querendo cortar a conversa, porque estava concentrada demais em comer.
Mas, Naruto pareceu não pegar a dica.
– Só isso? — voltou a indagar ansiosamente.
Shion teria se aborrecido, se não tivesse estranhado o comportamento urgente, desviando o olhar da comida para o Uzumaki, ela o analisou de cima a baixo com um brilho indecifrável, fazendo o outro se remexer desconfortavelmente. Ele não havia contado nada sobre Sasuke para a mulher, pois não sabia como ela reagiria ao saber que o homem, o qual ela investia tão descaradamente, teve um relacionamento com outro cara. De certa forma, nada o impedia de dizer, mas como os dois estavam separados agora, o estudante de engenharia não via necessidade de compartilhar algo tão íntimo. Se o relacionamento de ambos se normalizasse, ele não hesitaria de falar a verdade, mas se nada acontecesse... Naruto ainda não descobrira o que faria.
– Estava esperando algum recado importante? — ela jogou, escaneando a postura do homem ainda mais intensamente.
A força das íris claras, quase violetas, incomodou o rapaz, porque lhe davam a impressão que a advogada conseguia ler a sua alma como um livro aberto. Naruto deduzia que essa capacidade inata adveio da grande experiência profissional da mulher, cujo requisito mais importante em sua área era a postura analítica, e a maturidade. Ela era sete anos mais velha, o que lhe dava uma carga grande de conhecimento para desconfiar do seu comportamento.
– Acho que sim... — ele murmurou como se fosse uma criança pega fazendo arte.
Shion ponderou um segundo, mastigando o macarrão para se ao luxo de pensar um pouco, antes de tornar a falar:
– Às vezes, ele não falou para mim, pois não queria que eu soubesse de algo que só queria compartilhar com você. — consolou, fazendo o rapaz dar um sorriso e concordar com a cabeça, antes de sair. Em certos momentos, o Uzumaki parecia uma criança, mas isso não lhe tirava o encanto, pelo contrário, dava-lhe ainda mais charme. Naruto que não ficasse esperto, que ela não tardaria em pegá-lo no meio do caminho...
Balançando a cabeça para espantar o rumo dos seus pensamentos, ela voltou a comer.
(***)
Ao chegar no quarto, ele pegou o celular e discou o número que já tinha de cabeça. O toque soou repetidas vezes, demoradamente, como se o dono da linha se recusasse a atender ou quisesse lhe castigar por algo que desconhecia. Sasuke tinha essa mania irritante de tentar puni-lo ao fingir ignorância sobre sua necessidade latente por atenção, o que o deixava ainda mais energético e puto.
Depois de alguns minutos, que pareceram horas para o loiro, ele ouviu o som da chamada ser interrompida, para dar lugar àquela voz profunda que lhe agradava e hipnotizava ao mesmo tempo.
– Parece que você cedeu ao pedido dessa mulher e voltou mais rápido que eu esperava. — o Uchiha comentou acidamente.
– E parece que você conversou com ela muito mais que o esperado. — ele retrucou defensivamente, já notando a repreensão velada no timbre do outro.
Um silêncio pesado cercou o clima entre os dois. Naruto simplesmente odiava quando o moreno agia daquela forma agressiva. Ele nem ao menos sabia o que tinha feito para ser tratado daquela maneira. Internamente, começou a se arrepender de ter entrado em contato, uma vez que era claro como água, que ambos discutiriam novamente sob pretextos que ele mal podia imaginar. Era desgastante ter que brigar o tempo todo, e pensar que não era desse jeito no começo de tudo, dava-lhe um gosto amargo na boca. A partir de que momento a dupla passou a se desentender constantemente, o mais novo não sabia, mas ele temia que não pudessem mais voltar ao que eram antes.
Talvez fosse o acúmulo de frustrações, medos e angústias de cada, que interferiu no relacionamento, além da grande quantidade de palavras não ditas por orgulho e incerteza. Mas, em seu ponto de vista, parte da responsabilidade dessas desavenças, era dele, que em todo o envolvimento hesitou, porque estava inseguro demais com toda aquela novidade. Até aquele momento, ele não sabia como agir e sentia como se estivesse pisando em ovos, o que acentuava ainda mais aquele sentimento incômodo de inadequação.
Cansado de prolongar aquela pausa tensa, ele continuou:
– Por que me ligou? — perguntou, soando aborrecido.
Havia uma força interior o mandando ser mais cordial, mas ele simplesmente não conseguia parecer indiferente àquela atmosfera desagradável. Sasuke tinha aquele poder de levá-lo a vários extremos conflitantes; uma hora ele estava exultante e em menos de cinco segundo, estava amaldiçoando até o último descendente Uchiha existente na Terra. Esse cara simplesmente o deixaria louco um dia...
– Liguei na sua casa e sua mãe me disse que você não estava. — ele comentou vagamente.
– Isso não responde a minha pergunta. — retrucou secamente.
– Liguei para depois você não dizer que eu sumi. — rosnou, dando a entender que estava ficando irado com o comportamento do mais novo. O Uchiha só não queria admitir que estivesse sondando onde o companheiro estava, uma vez que este deveria estar em casa. Seu interior gritara em revolta ao saber que o homem saía constantemente por aí, sem um destino ou uma satisfação, para fazer, sabe-se lá, o quê! Uma parte dele queria apenas descobrir se o Uzumaki não havia seguido com a sua vida, como se o moreno não existisse, como se não tivesse admitido que gostava dele há algumas semanas.
E qual a reação mais óbvia, ao descobrir que, além de perambular por todos os cantos, Naruto estava saindo com uma mulher qualquer e visitando o seu apartamento como se fossem extremamente íntimos? Ciúmes, que queimava o seu interior como ácido e, em breve, fá-lo-ia não se responsabilizaria por seus atos.
– Você faz parecer que o obriguei a fazer alguma coisa. – o loiro apontou com raiva.
Um breve silêncio se fez ouvir, enquanto Sasuke pensava naquela acusação absurda e fora de ordem. Quando entendimento caiu sobre ele, sua voz respondeu, ainda mais profunda e grave:
– O que está acontecendo com você?
Naruto bufou.
– O que está acontecendo com VOCÊ, teme?! — rebateu em um tom cortante. — Você me liga, agindo como se fosse um dever obrigatório e desnecessário. Me atende aos tocos e ainda me pergunta o que está acontecendo comigo?! Será que sou eu quem preciso de análise? — jorrou com veneno.
– Quem é essa mulher? — o Uchiha ignorou as perguntas, rebatendo de uma vez só aquilo que o incomodava verdadeiramente nos últimos minutos, desde que desligara o telefone há algum tempo.
Os olhos azuis piscaram repetidas vezes, confuso com a indagação repentina. As sobrancelhas douradas se franziram, enquanto ele observava distraidamente um painel de aço inoxidável pintado de rosa e branco preso à parede, o qual estava pregado uma infinidade de fotografias e recados, inclusive um mais recente, que continha a caligrafia desleixada do Uzumaki com os dizeres:
[Pare de me tratar como se eu fosse um pedaço de carne! Ass.: Naruto.]
E em baixo, a resposta escrita de forma elegante e rebuscada:
[Impossível, pois você é tão delicioso quanto um bife!]
Ele sorriu.
– É uma amiga. — murmurou com graça e diversão indisfarçada.
– Ela não tem a voz parecida com nenhuma das meninas que conheci... — comentou, tentando parecer casual.
Naruto podia simplesmente derramar de uma vez por toda, quem ela era e o porquê de estar sozinho na casa de uma mulher, porque uma grande parte dele estava tirando uma infinidade de conclusões precipitadas e ele detestava ficar na dúvida. Que o homem o desiludisse de vez ou o tranquilizasse, porque o Uchiha não aguentava mais matutar sobre o assunto.
– O que é isso? – o loiro perguntou em um tom divertindo, sacando qual era a do moreno. — Uma investigação policial? Eu a conheci há duas semanas! — gargalhou, esquecendo-se do motivo de sua birra anterior, como se a raiva tivesse dissipado feito fumaça.
– Eu só fiquei curioso! — resmungou, entrando na defensiva e fazendo o mais novo rir ainda mais.
– Certo, Sasuke... — concordou, apenas para não desencadear outra discussão. — Ela é apenas uma amiga, não se preocupe. — provocou, andando pelo quarto e se sentando em um pufe de couro creme. — Ela não tem o que você me oferece. — murmurou, balançando as sobrancelhas sugestivamente como se o outro pudesse vê-lo.
– Idiota... — retrucou, parecendo mal humorado, mas o Uzumaki havia notado o leve sorriso no timbre profundo e grave.
Um breve silêncio se fez ouvir, enquanto o loiro pensava no que diria a seguir. Ele simplesmente queria manter aquele clima leve e descontraído que os norteavam sempre, quando não estavam brigando como animais em defesa de sua honra e seu território. O estudante de engenharia simplesmente odiava, quando ambos ficavam naquele clima pesado, cheio de reticências e nenhum ponto conclusivo sobre um impasse normalmente ridículo.
– Sasuke, eu estou com saudades de você... E do seu corpo nu! — confessou animadamente e sem hesitar, sabendo que a declaração deixaria o moreno desconfortável.
– Hn. – ele podia até não admitir, mas também sentia falta do loiro barulhento, principalmente quando ele incitava aquelas conversas sobre temas sexuais, tão despretensiosamente.
– Sem "hn" para mim, bastardo! — resmungou. — Quando poderemos nos ver de novo? — suplicou com uma voz manhosa, atraindo um suspiro resignado e divertido do Uchiha.
– Não acho que seria uma boa ideia. Você sabe o que acontece, quando estamos juntos.
Naruto quase podia ver as sobrancelhas bem delineadas franzidas, enquanto seu dono entrava em profunda reflexão, ponderando fortemente sobre a sugestão do enamorado. Se ele usasse as sacadas corretas, conseguiria o que queria. O mais novo simplesmente não estava aguentando mais esperar!
– O que acontece? — perguntou inocentemente, mordendo a língua, ao imaginar Sasuke bufar em aborrecimento e rolar os olhos, entediado com os joguinhos irritantes do Uzumaki, mas, mesmo assim, se divertindo com a troca descontraída de brincadeiras despretensiosas.
– Preciso realmente dizer o que acontece? — rebateu como se o homem fosse algum tipo de retardado mental.
– Okay! — resmungou de forma mal humorada, antes de abrir um sorriso brilhante, sentindo um comichão gostoso no baixo-ventre. — Mas, esse é o propósito, Suke! — exclamou como se acabasse de ter uma ideia brilhante. — Podemos transar como coelhos e continuarmos a ser amigos, que tal? — balançou as sobrancelhas sugestivamente. – Que roupa você está usando?
Silêncio.
– Naruto, que eu saiba, você não está na sua casa para me fazer esse tipo de proposta. – rosnou, não acreditando na audácia e burrice do homem. — Típico...
– Você não pode me culpar, sexo é uma das coisas mais importantes na minha vida, depois de comer... — pausa reflexiva. — Levando-se em conta que — pausa dramática. — adoro comer você, então, isso o torna um aspecto primordial para a minha existência! – pensou mais um pouco. – Vamos, Sasuke, podemos ser rápidos!
Ele tinha certeza que Sasuke rolou os olhos outra vez.
– Baka. — murmurou.
E se o moreno tivesse ali, naquele momento, o loiro sabia que ele faria aquele carinho estranho de arranhar os dentes em sua bochecha, enquanto afundava os dedos nos seus cabelos. Ao imaginar a cena, um arrepio correu pela sua espinha e seu baixo-ventre tremeu em antecipação. Ele realmente sentia saudades do Uchiha, daqueles tempos especiais em que passaram juntos, mas também sentia falta do sexo. Ah, como ele sentia...
– Eu estou falando sério... — Naruto murmurou. – Você está matando o meu tesão, demorando desse jeito! – reclamou como uma criança birrenta.
O som do riso grave se fez ouvir, aumentando ainda mais o sorriso do estudante de engenharia.
– Vindo de você, eu diria para não se preocupar, porque com esse fogo interminável, logo você se recupera. – brincou, fazendo o mais novo dar um muxoxo amuado.
– Mas, Sasuke... – teimou.
Um longo silêncio se fez ouvir, enquanto ambos pensavam sobre a conversa que ainda estavam tendo. O mais novo sabia que estava levantando uma infinidade de dúvidas na certeza de sua mente. A oferta era tentadora e o próprio Sasuke estava com saudades daqueles momentos em que os dois tinham juntos, mas aceitar o pedido, colocaria em risco os planos do corvo. Se Fugaku desconfiasse que ambos estavam se envolvendo novamente, seria ainda mais energético em suas atitudes descabidas.
– Naruto, eu pedi um tempo, porque realmente preciso disso... — suspirou. — Respeite, por favor.
O Uzumaki deu outro muxoxo resignado, sentindo-se chutado como um cachorro abandonado. Ele não conseguia entender como o Uchiha era tão centrado e focado em suas decisões ao ponto de negar uma leve mudança. Ambos não precisavam se envolver como estavam envolvidos antes. Era só uma sessão de relaxamento e descarrego de tensões, para que os dois pudessem seguir seus caminhos separados.
Com discrição, mas sem cobranças e afeto.
Ou quase sem afeto, porque da parte de Naruto havia um lote dele para distribuir para o moreno, mas enquanto ele estava confuso, ele aceitaria ficar na retaguarda, esperando até que o homem pudesse se decidir se podia corresponder aos seus sentimentos ou não.
Se lhe dissessem no passado que sua felicidade moraria com alguém do sexo masculino, ele não teria rido como se fosse a piada mais engraçada do ano, mas teria duvidado imensamente daquele alguém, uma vez que ele era tão apaixonado por um belo par de seios, como os de Shion e Hinata. Mas, agora, apesar de sentir certa atração pelas mulheres, ele gostava muito mais de Sasuke.
– Hm... – inalou mal humorado por ter sido negado. — Quando mudar de ideia, me liga, porque estarei aqui, esperando por você. — informou.
– Certo...
O loiro deu um suspiro, meio irritado meio resignado com a resposta vaga. Uma grande parte, ele estava injuriado consigo mesmo por se deixar levar pelas palavras do Uchiha. Era sempre assim, desde que se conheceram, o mais novo não conseguia negar o homem, por mais que algo em seu interior hesitasse. De certa forma, ele confiava demais no moreno, por isso acatava as decisões deste como se fossem regras religiosas, que as pessoas crentes decidiam seguir sem segundos pensamentos. Mas, pela primeira vez, a ideia fixa de que algo estava errado, não saía de sua cabeça.
Talvez, fosse o fato de estar começando a se sentir cansado de estar sempre abandonado; de não poder compartilhar algo que era importante para ambos. O estudante de administração não dividia a confiança que o Uzumaki depositava nele e isso o tornava ainda mais chateado. Desde o começo, ele se entregou ao Sasuke de uma forma que não havia feito em nenhum dos seus relacionamentos anteriores e Naruto esperava o mesmo do outro rapaz, mas, pelo visto, o corvo continuava o subestimando e questionando a todo o momento.
Era difícil manter algo que exigiam uma base dupla, sozinho.
Era o que o loiro pensava, mas na verdade, os dois estavam lutando por uma causa conjunta, contudo, tomando escolhas em separado, o que tornava tudo ainda mais distante e solitário. O erro era de ambos e o mais novo já não sabia que atitude tomar para melhorar a situação cada vez mais estafante que estava se estabelecendo entre eles.
Visto como os dois retomaram aquele clima pesado do início da conversa, ele decidiu encerrar a ligação para esfriar os ânimos:
– Nós nos falamos depois? — perguntou com o toque de esperança na voz.
– Hn... — retrucou. — Eu te ligo. — soou como uma promessa e, isso, melhorou o humor da despedida.
Naruto queria dizer o que estava entalado em sua garganta, mas optou pelo silêncio, desligando o telefone logo em seguida. Ele se sentia derrotado, como se houvesse perdido uma batalha de determinações, e o fato feria o seu ego. Ele nunca foi inseguro, nunca titubeou, mas a situação estava o tornando alguém que odiava e o loiro não sabia até quando suportaria aquilo...
Quanto tempo ficou pensando naquilo, ele não sabia, só acordou para o mundo real, quando uma voz feminina ressoou pelo quarto:
– Você parece desanimado... — Shion comentou casualmente, enquanto devorava uma caneca com algo cremoso dentro. — As notícias que recebeu não foram boas? — ela perguntou, sem realmente querer saber a verdade, pois sabia que aquele não era o momento certo para conversar sobre algo que o incomodava.
– Não... — ele respondeu secamente, dando o diálogo por encerrado.
E ela não insistiu.
(***)
Os cabelos vermelhos esvoaçaram com o golpe de vento, entrando na visão da mulher já há muito, esbaforida. Ela empurrou os fios rubros com impaciência, enquanto corria, de maneira desengonçada, sobre finos saltos de um escarpim preto. Kushina bufou, amaldiçoando o fato de ter deixado o carro com o marido e de não ter trocado se sapatos por algo mais confortável. Agora, depois de correr por quase meia hora para tentar chegar a tempo em seu compromisso, ela amaldiçoava o tailleur desconfortável e as plantas dos pés doloridas. A fêmea odiava aquelas roupas pomposas, mas por ser uma figura de negócios, precisava incorporar o papel para manter o respeito entre os homens poderosos.
Ela abriu a porta de correr do restaurante Mikazuki, procurando entre o enorme balcão de serviço a figura tão conhecida e que a aguardava há quase quarenta minutos. Resmungando alto sobre o próprio atraso, ela encontrou o alvo de seus pensamentos. Sasuke estava sentado elegantemente em um dos bancos altos e a visão da figura imponente, fizera a mulher corar, envergonhada por estar tão bagunçada, mesmo vestida em trajes formais. Ele tinha a idade do seu filho, mas parecia ter a aura tão antiga quanto a dela, por causa a expressão sempre carregada e séria. Às vezes, a ruiva pensava que ele parecia ainda mais maduro que qualquer outra pessoa que já conheceu, inclusive seu marido e a si mesma.
Abrindo um sorriso apologético, a mulher caminhou até o rapaz, enquanto passava a mão direita pelos cabelos desgrenhados.
– Desculpe o atraso, mas é que o escritório está uma loucura! — ela respirou fundo para acalmar o fôlego. — Estamos tentando compensar o buraco enorme das últimas semanas e há tanto o que fazer... — justificou, não percebendo a forma como os lábios finos do outro se franziram em desagrado.
A consciência do Uchiha pesava tanto, toda vez que ouvia o desastre que as atitudes do seu pai haviam causado àquela família. Ele se sentia extremamente culpado por ver Minato e Kushina parecerem dois cegos no meio do tiroteio, enquanto tentavam arrumar a bagunça de suas vidas; ao mesmo tempo em que Naruto parecia a sombra do ser brilhante que já fora um dia, devido à preocupação. Ainda assim, o homem tentava levar o relacionamento adiante, como se o moreno não fosse o responsável pelo seu infortúnio.
O estudante de engenharia era uma pessoa tão bonita – tanto por dentro quanto por fora – e tão complacente, que, às vezes, julgava-se não merecedor desse homem ao seu lado.
– Eu entendo perfeitamente. — ele murmurou, arqueando os lábios levemente em um sorriso singelo, tentando disfarçar o desgosto que havia permeado suas entranhas.
Não percebendo a aura pesada do outro, a matriarca começou a resmungar:
– Às vezes, eu odeio ser mulher. Por que não posso simplesmente ir trabalhar de tênis? — mal humorada, ela empurrou para fora do aperto contrito do escarpim, o calcanhar. Seus pés pareciam pequenos pães inchados, devido à posição desconfortável.
Sasuke segurou a vontade de rir, assistindo-a tirar o sapato disfarçadamente e mantendo as pernas quietinhas para que ninguém reparasse na sua falta de modos.
– De vez em quando, eu queria ser como a sua mãe. Ela é sempre tão elegante e parece que nunca sofre com essas coisas! — murmurou indignada, agarrando o cardápio e o abrindo com os movimentos bruscos e raivosos. — Como ela consegue?! — indagou como se acabasse de presenciar um absurdo.
O Uchiha, que observava a mulher com carinho, instantaneamente se lembrou de um rapaz, igualmente barulhento e grosseiro em suas atitudes. A espontaneidade de Kushina o livrou dos pensamentos de autoflagelamento e lhe deu lugar à diversão.
– E, então...? Está esperando por muito tempo? — a ruiva perguntou, notando que ele beliscava uma porção de shimeji com shoyu, que ele empurrou na direção dela em um pedido mudo para que se servisse também.
– Faz um tempo... — ele respondeu com indiferença, incapaz de se sentir nervoso pela espera. De qualquer forma, a senhora corou um pouco com a resposta sincera, mas não se desculpou, uma vez que já o tinha feito quando havia chegado.
– Você vai me acompanhar? — ela tornou a questionar, indicando o aperitivo com um movimento de cabeça e se referindo ao almoço que combinaram no dia anterior.
– Claro, que tipo de cavalheiro eu seria, se eu deixasse uma senhora almoçar sozinha, depois de ter feito o convite? — retrucou com diversão, mas a Uzumaki não levou a declaração com ânimos muito bons.
– Já pedi para não ser tão formal comigo, Sasuke. Você poderia ter feito o seu pedido, eu não iria me sentir ofendida, uma vez que me atrasei. — ela resmungou. — É isso que me irrita em sua família, todos vocês agem como se a vida toda fosse composta de regras.
Sasuke engoliu em seco com a repreensão evidente na voz feminina. Ele ficou em silêncio, visto que a linguagem corporal da fêmea indicava que ela tornaria a falar a qualquer comento:
– Eu não estou querendo tomar o partido pelo meu filho, Sasuke, uma vez que não sei ao certo o que está acontecendo entre vocês; Naruto não sabe lidar muito bem com desabafos e não me conta muito sobre a situação, mas eu sei que há algo errado com os dois. As últimas atitudes do seu pai me mostraram muito bem isso. — ela sorriu para o garçom, que se aproximou, e fez o seu pedido, sendo acompanhada pelo rapaz mais jovem, que a olhava atentamente, esperando a conclusão daquelas declarações.
Quando o funcionário se afastou, ela tornou a dizer:
– Não seja como o restante da sua família, Sasuke-kun. — ela pediu, agarrando a mão pálida do menino entre os seus dedos firmes, dando um aperto que era forte demais para uma mulher tão pequena. — Você merece ser feliz com quem lhe quer o bem, com quem deseja cuidar de você e compartilhar os melhores momentos que a sua vida pode ter. Escolha aquele que pode ser a sua metade, mas também um inteiro, sozinho, porque os relacionamentos também precisam de individualidade em meio à unificação. Independentemente de ser com Naruto ou não, pense no que é melhor para você, sem se preocupar com imagens, regras e protótipos de conduta criados pela sua família, porque o amor não é algo para ser banalizado como um padrão a ser seguido, entende? — ela lambeu os lábios secos.
Os olhos negros escanearam a postura segura da matriarca, notando a aparência cansada por trás de um rosto tão jovial, que não condizia com 45 anos daquela senhora. O rapaz engoliu um nódulo, que estava se formando em sua garganta. Era nítido que o estudante de engenharia estava sofrendo por sua causa, mas, mesmo assim, a Uzumaki estava o incentivando a ser feliz e desejando ardentemente a sua felicidade, independentemente com quem fosse. Ela o estava aconselhando de uma forma tão maternal, que ele se sentiu tocado.
– Eu ainda quero que você seja o meu genro, porque acredito que você faz muito bem ao Naruto, mas em primeiro lugar, quero que você esteja pleno consigo mesmo. — ela sorriu carinhosamente, bagunçando os cabelos negros como se o homem ao seu lado não passasse de um pirralho. – Seu pai é um idiota, não dê ouvidos às suas birras e tudo ficará bem, eventualmente...
E, pela primeira vez na vida, Sasuke não ligou de ser tratado como uma criança, porque ele estava se sentindo particularmente motivado e especial depois dessa conversa, então, ao erguer as pálpebras para encarar as íris cinzentas de Kushina, ele respondeu, com uma determinação de ferro, que trouxe um sorriso bonito aos lábios femininos:
– Eu não serei como o resto dos meus familiares, não se preocupe. — sorriu afetadamente, quase com malícia. — E é por isso que lhe propus esse convite para almoçarmos juntos, preciso lhe propor uma coisa...
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