Dar-se Uma Chance
24 Capítulo 24
Notas iniciais
Revisado por Monsieur Noir
“Não adianta pensar sem agir. E não adianta agir sem pensar.” — Oséias Oliveira.
Capítulo 24
Ele já estava sentado há uma hora naquele banco de bar, alheio ao resto do mundo, como se não desse a mínima. O garçom mal recebia um olhar, quando ele erguia a mão e apontava o copo de gelo meio derretido, pedindo por mais uma dose de bebida. A postura curvada, quase derrotada, poderia denotar um homem moribundo qualquer, mas, apesar da pose abatida, o olhar perdido no nada ainda carregava a mesma força e dureza de guerreiros que enfrentavam o mundo com coragem.
Aquele olhar era o que mais chamara a atenção de Suigetsu a primeira vez que o vira adentrar pelos portões da Nagano University.
Implacável, meticuloso, calculista e misterioso. Era perceptível que, por trás do muro quase impenetrável, Sasuke escondia um universo conturbado e intenso, o qual tentava negar a existência com tudo o que tinha e podia. E, talvez fosse por esse motivo, que ele procurou o que não encontrou nos braços de outra pessoa. E agora ele se arrependia.
Antes de aceitar o desafio de se envolver com esse homem, ele deveria ter avaliado se estava disposto a aceitar as consequências.
O problema do Uchiha, é que ele vivia para se proteger até de si mesmo. Ele nunca se entregava totalmente às circunstâncias porque estava sempre a um passo de deixar tudo para trás, caso lhe conviesse. E, por vezes, o excesso de cautela tornava a convivência difícil. A família de Sasuke, mais especificamente Fugaku, também não ajudou o relacionamento.
E, pelo que parecia, a história estava se repetindo.
Suigetsu entendia que o moreno era desse jeito, por causa do meio em que convivia, só não conseguia compreender o porquê de o outro passar por tudo o que estava passando. O moreno deveria ter um carma ruim, ou ele precisava aprender algo com toda a situação. Ele não entendia muito de religião, mas a avó budista sempre dizia que para mudar uma situação que sempre se repetia, como um ciclo vicioso, era preciso mudar a si mesmo.
Ele não sabia exatamente o que Sasuke precisava fazer, afinal, ambos já não estavam mais juntos e também não eram mais nada, mas assistir o Uchiha entrar em coma alcoólico, também não resolveria coisa nenhuma, principalmente em um momento tão crítico. Não precisava ser médium para adivinhar que algo de ruim estava acontecendo, visto as notícias nos jornais das últimas semanas.
Com um suspiro contrariado, ele deu um último gole em sua cerveja e pegou o celular do bolso. Com toques firmes na tela plana, ele procurou o nome familiar em sua lista de contatos, enquanto rezava que Karin estivesse em casa para atender ao telefone residencial. O loiro não estava disposto a falar com a ruiva, pois, assim como ela, Suigetsu também detestava a Uzumaki. No entanto, ele duvidava que o moreno fosse aceitar ser carregado para casa pelo ex-namorado que o traiu e que ainda carregava certa mágoa.
O toque familiar tocou duas vezes, antes que a voz firme soasse do outro lado:
– Moshi-moshi?
– Karin? – perguntou com cuidado, sabendo bem que ela era capaz de encerrar a ligação, assim que soubesse com quem estava conversando.
– Sim, quem está falando? – ela entoou suspeita.
– Sasuke está no “Grace”, enchendo a cara de uísque. – aconselhou com um tom de descaso e deboche, que sempre utilizava para lidar com a ruiva. Era preciso um nível de distância emocional muito grande para não mandá-la tomar naquele lugar; Deus sabe o quanto ela o irritava.
O Bar Grace era um ponto de referência em Nagano, principalmente para os jovens e adultos que gostavam de conservar um estilo de vida mais boêmio. Por parecer um pub europeu, chamava muito a atenção na cidade. Karin com certeza deveria saber que lugar se referia.
– Quem está falando? – ela tornou a perguntar, ainda mais desconfiada.
– Alguém que você ama. – ele jorrou com sarcasmo, não tirando os olhos do antigo companheiro, que fazia um gesto ao garçom, pedindo outra dose de bebida. O loiro estalou a língua em irritação; não era hora de ficar brincando.
– Suigetsu. – ela rosnou, antes que ele continuasse.
– Olha, Karin... – começou, lambendo os lábios e sentindo o gosto suave e seco da cerveja de arroz. – Eu não perderia o meu tempo, ligando para você à toa. – suspirou cansado. – Sasuke está no Grace. Se importa de eu o levar para a minha casa, quando ele perder a consciência?
Ele quase podia ouvir os dentes dela rangendo do outro lado do telefone.
– Eu estarei aí em breve. – estalou com pressa, quase como se tivesse com medo de se arrepender da decisão que acabara de tomar.
(***)
E era o que Karin havia dito há quase três horas.
Sasuke o encarava como se fosse o matar em alguns instantes. Como ex-namorado, ele sabia que o comportamento do moreno ficava um tanto volátil, quando embriagado. O homem parecia um paciente psiquiátrico que sofria de Borderline, era assustador. Em um momento, parecia que ele estava prestes a morder seu crânio e arrancar seu cérebro com os dentes, mas no segundo seguinte, ele poderia se tornar mimado e carente de atenção.
No entanto, devido aos últimos acontecimentos entre os dois, Suigetsu duvidava que a última alternativa fosse acontecer tão cedo. Naquele contexto, era capaz de o Uchiha variar entre um homicida enfurecido qualquer a um assassino compulsivo, daqueles que sentem o prazer em matar por vingança ou recompensa.
– Quando eu peço para todos os deuses que me deem um minuto de paz, você aparece. Deve ser algum tipo de castigo. – a voz profunda do rapaz ao seu lado se fez ouvir, clara em contraste com o burburinho incessante de risos altos e conversa do bar. – O que você quer, Suigetsu? Achei que já tínhamos dito tudo o que precisávamos ouvir.
– Achei que você estava precisando de companhia para afogar as mágoas. – não quis parecer arrogante, mas seu tom de voz era claramente atrevido e prepotente. – Estava aqui, sozinho, como se fosse um cão chutado pelo seu dono. O que foi? Aquele ogro te colocou para fora?
No momento em que a provocação amargurada saiu dos seus lábios, ele sentiu o ímpeto de se afastar. A mão pálida que segurava o copo se apertou de tal forma, que por um momento, o Hōzuki pensou que o vidro fosse se partir em milhares de pedaços e, depois, Sasuke usasse os cacos para cortar o seu couro para fazer um casaco e seus órgãos para vender no mercado negro.
– Veio enaltecer o seu ego? Melhora a sua autoestima saber que eu não estou mais com ele? – o moreno perguntou, lançando um olhar cortante de esguelha. – Não me surpreende que a gente não tenha durado: você é patético!
Um silêncio prolongado e incômodo cresceu entre eles. Era desconcertante, mas Suigetsu sentiu algo pinicar em seu interior com as perguntas diretas e cruéis. Um rancor agressivo corroeu o seu peito e ele sentiu o ímpeto de socar o rosto perfeito do seu ex-namorado. O loiro havia esquecido o quanto um Uchiha poderia jogar com as emoções das pessoas, quando queria.
Sasuke poderia estar para baixo, mas ele jamais deixava que chegassem para tirar vantagem do seu estado fragilizado, o qual escondia com aquela máscara indiferente e olhares vazios de sentimentos.
Respirando fundo, para acalmar a onda de calor raivoso que tomou conta do seu interior, o Hōzuki retrucou:
– Eu não quero brigar, Sasuke. – esclareceu com o timbre rouco de quem não havia recolhido plenamente as sensações iradas que borbulhavam o seu corpo. – Posso ser estúpido em alguns momentos, mas sei tomar uma dica, quando me lançam uma. E, você foi bem objetivo da última vez que nos vimos. – lambeu os lábios, remexendo-se no banco.
Um som fraco de riso se fez ouvir em toda aquela ebulição de conversas soltas pelo ar do bar lotado, desdenhoso e sem humor.
– Se for assim, você deveria sair; eu quero ficar sozinho. – ele rebateu, sem dar tempo para o outro homem continuar. O olhar agressivo, brilhante e negro quase o impeliram a recuar, mas ele manteve a postura inabalável diante da figura masculina e intimidante do moreno.
Sasuke o encarava daquela maneira forte e firme de sempre, fazendo-o lembrar do porquê de ter insistindo tanto naquele envolvimento que já estava fadado ao fracasso desde o início. Ele realmente havia gostado do estudante de administração no passado, no entanto, hoje, apesar de ainda carregar aquela atração cega, admitia que o sentimento já não fosse mais como antes.
– Eu deveria sair, mas eu não quero. – contestou com teimosia, fazendo um sinal para o garçom, indicando que ele deveria trazer mais duas bebidas; dois Red Mix.
O rapaz os serviu simultaneamente, enquanto ambos se perdiam em pensamentos. Suigetsu não sabia ao certo o que dizer, mas queria dizer alguma coisa. O silêncio não estava o incomodando exatamente, mas havia uma sensação gritante em seu peito, que o fazia sentir compelido em amenizar o sofrimento do outro. Ele não entedia aquilo, e também não sabia lidar muito com a situação, visto como sempre fora mais egoísta que generoso.
– Olha... – começou, ainda sem saber lidar com a situação.
– Não precisa falar nada. – Sasuke o interrompeu com uma suavidade estranha aos ouvidos do loiro. – Eu não quero conversar sobre isso agora. – alertou com o timbre mais firme, quase fazendo o outro rir.
O Uchiha o conhecia por mais de um ano e ainda não havia aprendido que avisos não combinavam com o ex-namorado.
– Você gosta realmente daquele cara, né? – perguntou debochado, ignorando o pedido do homem ao seu lado. O moreno bufou um riso, totalmente sem humor, talvez se lembrando de como Suigetsu era quando namoravam.
– Você consegue ser mais idiota que ele. – comentou casualmente, entornando o copo de uma vez, na ânsia de fazer aquele assunto enfadonho ir embora.
– Ao menos eu tinha que ganhar em alguma coisa, visto como ele foi muito mais rápido em conquistar você. – retrucou de forma reservada, dando de ombros. Para ganhar tempo, ele sorveu o uísque cuidadosamente, ao mesmo tempo em que observava o outro analiticamente.
Sasuke o encarou de volta. O olhar vagou sobre o loiro e logo se tornou distante, como se ponderasse um milhão de detalhes pelos quais havia deixado para trás. Ele parecia mais vago e aéreo, devido à quantidade de álcool que ingerira. No entanto, Suigetsu conhecia como o antigo companheiro agia, quando estava bêbado. O moreno era extremamente consciente para alguém que estava embriagado, era assustador.
– Se pensa que vai me amolecer com esse papo, é melhor ir embora. – ele rebateu, rodando as pedras de gelo no copo, distraidamente. – Diferentemente de você, que caga e anda em cima de compromissos, ele é fiel! – começou com a raiva reverberando em sua voz como um urro, até que a confiança quebrou em um murmúrio baixo.
– Então, qual é o problema? – refutou com certa agressividade. Sua paciência estava indo às favas. Quando se propôs a conversar com o ex-namorado, na esperança de segurá-lo até que Karin chegasse, ele sabia que escutaria umas poucas e boas pelo que aconteceu no passado. Mas, Sasuke tinha um jeito insuportável de colocar as coisas: tenaz, frio e calculista. Cada palavra era como um soco no estômago.
“Inferno”, amaldiçoou mentalmente. Ele sabia que estava errado.
– Se ele é o príncipe encantado que surgiu na sua vida, então, qual é a porra do problema? – ele tornou a perguntar, ainda mais fúria. – É o seu pai ou é você? Até quando você vai deixar o seu velho interferir na sua vida? Antes, era sobre você ser homossexual, agora é sobre como os homens que você escolhe nunca são bons o suficiente! Ele que manda na sua felicidade ou é você? – gritou e jogou as mãos para o alto, num ataque de impaciência, chamando a atenção de uma parcela de pessoas que estavam em volta.
Sasuke ficou em um silêncio submisso, muito diferente dos outros momentos usuais de quietude. Naquele instante, Suigetsu percebeu os ombros curvados para baixo, como se acabassem de anunciar uma derrota. Ele parecia exausto; tão incaracterístico. Quase se sentiu mal por ter explodido daquela forma.
– Ele teria me dito a mesma coisa, sabe? – o Uchiha começou com uma voz tão baixa que o Hōzuki quase não ouviu sob aquele burburinho todo. – Ele não lida muito bem com regras e ordens. Ele prefere seguir suas próprias vontades a ter que se submeter aos desejos dos outros. Embora seja extremamente generoso, Naruto não é subserviente. Quando o vi a primeira vez, eu vi nele o que eu gostaria de ser e viver. – lambeu os últimos resquícios de uísque dos lábios que pareciam secos. – Eu pensei muito...
O loiro o ouvia um pouco atônito. Ele não esperava que o ex-namorado fosse desabafar, não com ele. Um pouco confuso, o rapaz tentava entender o que se passava na cabeça e no monólogo caótico do homem. Por um momento, ele se perguntou onde estava Karin para fazer o seu papel de melhor amiga e conselheira, uma vez que ele não servia para este serviço.
– Eu pensei muito e, às vezes, eu sinto como se tivesse tentado reprimir um lado que eu adorava no cara que eu amo, por inveja e ciúmes. Eu não queria que ninguém mais visse o que eu via. – passou a mão pelos cabelos negros, bagunçando-os por inteiro. – Eu o reprimia, na ânsia estúpida de manter algo que eu considerava ser meu e o fiz se sentir incapaz de confiar em mim e em nosso relacionamento. – ele tornou a jogar com os fios de ébano, como se eles fossem os culpados por seus pensamentos desalinhados. – Eu não sei mais o que devo fazer...
Suigetsu também não sabia. Por um lado, ele queria concordar com o moreno. Sasuke se tornava controlador e obcecado quando queria algo. Em sua cabeça, ele pensava estar fazendo o certo e, apesar de ser extremamente calculista, nessas horas, o Uchiha se tornava impulsivo. Era contraditório, mas era algo que você começava a perceber com a convivência.
– E você já pensou em dizer a ele tudo isso? – perguntou uma terceira voz masculina, sobressaltando o moreno, que levantou em um pulo.
Assustado, Hōzuki também se ergueu, olhando para trás com certo receio. Lá estava Uzumaki Naruto, parecendo preocupado, aborrecido, chateado e, no fundo daqueles olhos azuis impressionantes, um quê de arrependimento e agonia. “Karin”, ele pensou, constatando o porquê da demora exacerbada da mulher ruiva. Ela deveria ter visto na situação, uma oportunidade de empurrar os dois orgulhosos juntos. Ele deveria ter unido dois mais dois, quando dera quase duas horas e ela não tinha aparecido ainda.
O moreno cambaleou do seu lado, finalmente sentindo o efeito dos inúmeros copos de uísque. Por reflexo, ele segurou o braço do ex-namorado, atraindo um olhar feroz do recém-chegado.
– Naruto... – Sasuke inconscientemente quebrou a tensão entre eles, atraindo a atenção de ambos. Sua cabeça estava baixa, suas pálpebras apertadas e sua mão direita agarrava o banco alto do bar com força, enquanto esperava tudo parar de girar. Ele não sabia dizer ao certo, quando fora o momento que havia perdido o controle.
O Uzumaki se aproximou, segurando o cotovelo do homem com um cuidado incaracterístico. Sentindo-se um intruso em toda a situação, Suigetsu soltou o braço do Uchiha e se afastou, vendo o outro se aproximar ainda mais, até que seu ombro colidisse suavemente com a testa do rapaz embriagado. Ele não sabia se era a carga pesada de afeto, mas o moreno se segurou no outro como se sua vida dependesse daquele sufrágio.
Naruto murmurou algo, fazendo Sasuke abanar a cabeça levemente em concordância, enquanto apertava o bíceps firme do enamorado, como para se impedir de cair. Não que fosse da conta do Hōzuki, mas o homem parecia bem para quem havia bebido doses e mais doses de uísque, sem ao menos parar para piscar ou respirar. Se fosse ele, já estaria uma poça de geleia no chão.
Os dois se afastaram, mas antes que ambos pudessem sumir na multidão que lotava o bar, o Uzumaki se virou para ele. Seu olhar carregado, sério, mas ao mesmo tempo grato. Não havia rancor. Era mais para uma bandeira branca da paz deixada no ringue que eles criaram há alguns meses.
– Obrigado. – ele disse simplesmente, antes de arrastar Sasuke para fora.
Era como o ponto final de uma fase. Suigetsu respirou o fôlego que não sabia estar segurando e, apesar de seu coração palpitar de uma forma dolorida, o sentimento de alívio sobrepujava qualquer incômodo que pudesse estar sentindo no momento, como um anestésico.
Ele sinalizou ao barman para lhe trouxesse outra bebida. Ele iria comemorar.
(***)
Naruto soltou Sasuke para se encostar na porta do passageiro do seu Mustang 68. O rapaz estava com o tronco inclinado para frente, como se o gesto fosse o suficiente para lhe trazer o equilíbrio que procurava. O moreno nunca havia se sentido tão vulnerável na vida, e uma parte dele agradecia que o Uzumaki não havia feito tanto alarde pelo fato de estar embriagado. Embora, outra parte dele estava um pouco enervada pelo silêncio pesado e incaracterístico do homem.
– Naruto? – ele chamou com a voz embolada, um pouco inseguro. Ele sabia que os olhos azuis o encaravam intensamente, devido aos buracos que ele sentia estarem sendo cavados em sua nuca.
– Vamos para casa, Sasuke. – o mais novo murmurou com cansaço perceptível em seu tom. – Karin está preocupada.
O Uchiha abanou a cabeça novamente, parecendo muito mais obediente que era sóbrio. O loiro o puxou para que se afastasse da porta e pudesse abri-la. O outro aproveitou o toque para se inclinar em direção ao estudante de engenharia, apertando suas mãos na camiseta desgastada. O cheiro inconfundível adentrou sua narina, quando ele enfiou o nariz na curva entre o pescoço e o ombro.
Naruto sentiu sua espinha se arrepiar com a carícia leve da respiração em seu ponto sensível. Ele segurou a cintura delgada do homem para firmá-lo e abriu o carro, como se não estivesse verdadeiramente afetado com a situação.
– Eu sinto a sua falta. – o moreno sussurrou, fazendo o outro relaxar.
O tronco amoleceu com a declaração simples, assim como as emoções que estava segurando. Os braços bronzeados cercaram a figura pálida, enquanto ele esfregava círculos reconfortantes nas costas de Sasuke. Ele virou o rosto e deu um beijo firme na têmpora do mais velho.
– Eu também sinto a sua falta. – confessou com leveza, antes de fazer com que o rapaz se sentasse no banco do passageiro. Não era hora para dar corda a momentos melosos, eles precisavam voltar para casa.
Sasuke resmungou algo ininteligível, ficando irritado com todo o movimento incessante. Ele só queria ficar quieto, alongando o momento carinhoso e tranquilo. Naruto o prendeu com o cinto de segurança, e bateu a porta com força para que esta se fechasse. O automóvel balançou e, de repente, ele se sentiu enjoado com toda a baderna. “Por que esse usuratonkachi precisa fazer tanto barulho?”, pensou com aborrecimento, quando o loiro sentou no lado do motorista, fazendo o veículo oscilar novamente e seu estômago embrulhar.
– Chegando em casa, você vai para o chuvei... – ele parou, quando ouviu a porta se abrir novamente. Sasuke colocou a cabeça para fora e ele pode ouvir o som nada agradável de regurgitação. – Argh, Sasuke! – ele gritou em horror e nojo, já imaginando o estrago que o homem estava fazendo.
(***)
Naruto abriu a porta do apartamento onde Sasuke vivia com Karin. Sua prima, que estava dormindo no sofá, acordou com um pulo. Os óculos de aro fúcsia tortos em seu rosto. Ela piscou atordoada, olhando o loiro arrastar a figura ainda mais pálida do seu melhor amigo. O homem abria e fechava os olhos vagarosamente, como se fosse muito difícil manter a consciência.
– Por que você demorou tanto? Sasuke está bêbado? Suigetsu não fez nada, não é? Eu vou matá-lo se ele ousou encostar em um fio de cabelo dele! – a mulher começou a bombardeá-lo com um ataque histérico. Levou um tempo para entender o que a ruiva estava falando. Ele podia estar sóbrio, mas ele estava cansado.
Inferno, ele nem sabia quantas horas das últimas 24 passou dirigindo, entre ir e voltar de Niigata e Nagano.
– Não se preocupe, Suigetsu só estava fazendo companhia para Sasuke, enquanto eu não chegava. – a voz normalmente rouca, parecia rasgada agora, de tão áspera. – O homem tem um pouco de dignidade, eu acho... – continuou, fazendo a prima arquear uma sobrancelha em estranheza.
– Você é idiota! – ela retrucou, como se a ideia fosse um absurdo.
Naruto deu de ombros, continuando a arrastar o Uchiha até seu próprio quarto. O músculo direito do seu braço ardia, tamanha a força que usava para carregar o corpo mole e pesado. Sasuke podia ser apenas algum centímetro mais alto, mas ele sentia como se o rapaz fosse enorme. Devido ao cansaço, ele se sentia consideravelmente mais fraco.
– Eu deveria fazer um café para ver se ele melhora? – perguntou, sentindo-se um pouco perdida com a situação. Ela nunca tinha visto o moreno nesse estado.
– Não se preocupe, Karin, acredito que ele só precise dormir agora. – tranquilizou-a com um sorriso pequeno, vendo-a concordar relutantemente.
Os dois se afastaram pelo corredor, até sumirem dentro do quarto.
– Eu não quero dormir! – o Uchiha declarou depois de alguns segundos, tendo entendido tardiamente o sentido da conversa anterior.
– Você está praticamente dormindo, Sasuke. – ele respondeu de forma entediada, puxando o celular, a carteira e as chaves do apartamento dos bolsos da calça do outro.
Sasuke sorriu como o gato Cheshire, embora seus olhos ainda estivessem encapuzados e sonolentos. Ele se inclinava para os toques do loiro como se fossem maliciosos.
– Eu quero ficar com você. – murmurou, agarrando os cabelos dourados da nuca do mais novo, enquanto arrastava os lábios pela base do pescoço.
Naruto estava começando a achar que o moreno tinha um sério problema de múltiplas personalidades quando estava embriagado. No começo, o homem estava dócil como uma garota meiga, no segundo seguinte, ele não parava de resmungar que estava tonto e que o Uzumaki não sabia ficar quieto até se cansar de reclamar, para começar a oscilar entre a consciência e a inconsciência. Agora, o Uchiha estava no modo ninfomaníaco.
Se fosse em outra ocasião, ele veria graça na situação. Mas, naquele momento, ele estava irritado, cansado, confuso e preocupado; repleto de sentimentos nada benéficos para o seu humor já há muito desgastado. Seus pensamentos foram cortados por um chupão particularmente forte em seu ombro e as mãos frias adentrando a sua camiseta sem permissão.
– Sasuke! – ele chamou com repreensão, ignorando os arrepios que nadavam em sua pele bronzeada. Sem perder tempo, ele fez o outro se sentar na cama.
O moreno deve ter visto o movimento como uma oportunidade para começar a descascar suas roupas, porque não parava de puxar a própria camisa sobre a cabeça, de forma desengonçada. Diferentemente das intenções do mais velho, Naruto começou a tirar os sapatos do Uchiha, para que ele pudesse dormir confortavelmente.
Sasuke caiu deitado na cama, em sua ânsia de ficar nu. Ele se sentia preso e quente dentro daquele monte de tecido, mas ele desistiu, porque cada vez que se mexia, seu mundo parecia girar ainda mais. Vendo a sua dificuldade, o Uzumaki começou a abrir os botões da sua camisa, ignorando o olhar escuro e analítico. Por um momento, pareceu ao loiro que o rapaz não estava bêbado, devido à intensidade com que ele lhe encarava.
A mão pálida se ergueu e acariciou os cabelos dourados. A carícia suave atraiu a atenção de Naruto, que ergueu a cabeça para encará-lo.
– Dorme comigo? – ele perguntou. A voz profunda o fazendo engolir em seco com a conotação sexual da sentença simples.
Decidido a levar a questão para o sentido literal, o mais novo concordou com a cabeça. Ele não objetou a declaração, sabendo que Sasuke dormiria em breve. As pálpebras oscilavam, enquanto ele puxava a camisa do tronco delgado e se mudava para remover a calça jeans das pernas longas. O Uchiha apenas se contorceu, quando se viu longe das roupas, e se arrastou até os travesseiros.
Os olhos azuis contornaram a forma longilínea do homem de bruços na extensão do colchão, enquanto se livrava da camiseta desgastada. Ele nem sabia como havia conseguido entrar no bar caro com os trajes que usava, pois estava de pijama, quando saiu de casa. Ele manteve a calça moletom no corpo, sem confiar em si mesmo, caso decidisse molestar o moreno em seu sono.
Naruto se esticou na cama, sentindo seus músculos ondularem em relaxamento. Ele se sentia como uma merda. Mesmo cansado, algo lhe dizia que ele não conseguiria dormir, pois sua mente ainda estava trabalhando freneticamente em cima dos acontecimentos do dia. Sasuke se moveu e virou o rosto para olhá-lo, como se sentisse o tormento na cabeça do homem.
Ele apoiou a mão esquerda no peito bronzeado e pareceu matutar por alguns segundos, antes de decidir falar o que pretendia. Pelo visto, o Uchiha estava voltando a ficar sóbrio, se já conseguia relutar, antes de abrir a boca.
– Eu não quero que você desista de nós. – declarou com simplicidade.
Naruto ficou em silêncio, não confiando em sua própria voz para falar. Como resposta, ele puxou o rapaz em seus braços, batendo seus lábios de forma descuidada na testa pálida. Ele respirou fundo, mas franziu a testa com desgosto. O perfume usual do moreno estava corrompido pelo cheiro azedo de bebida alcoólica. Sasuke não parecia se importar, porque não demorou meio minuto para voltar a ressonar, aquecido pelo abraço reconfortante.
(***)
Ele não conseguiu dormir. Nem a respiração tranquila do Uchiha em seu sono, foi o suficiente para tranquilizá-lo. Sua mente estava a milhão, procurando ver o que era preciso para sair daquele jogo que Fugaku iniciara. Várias possibilidades surgiam em sua cabeça, mas nenhuma delas parecia ser boa o suficiente, porque poderiam prejudicar Sasuke, porque poderiam prejudicar ainda mais a sua família... No silêncio da madrugada, ele pôde se atentar ao peso que parecia carregar nas costas.
Seus músculos estavam doloridos e seus membros pareciam enferrujados, devido à tensão e ansiedade. E, apesar do cansaço físico e mental, seus pensamentos não relaxavam. Em seu devaneio, suas mãos corriam distraídas pelos cabelos e costas do moreno, riscando padrões invisíveis. Por um momento, ele desejou que o mais velho estivesse acordado para ajudá-lo a pensar, porque sentia que em breve as brincadeiras do rapaz começariam a fazer sentido assim que fumaça saísse de suas orelhas.
Sasuke sempre conseguia falar em seu interior, mesmo que não abrisse a boca para dizer uma palavra. Em qual ponto ambos passaram a perder esse tato, ele não sabia. No entanto, o Uzumaki percebeu que queria recuperar essa simbiose que possuíam; como se fossem partes de um todo. Em sua mente — por mais clichê que fosse -, eles eram perfeitos juntos. Desde o começo. Desde sempre. Em tudo.
Com esse pensamento, Naruto teve um estalo.
Com movimentos suaves, para não acordar o outro homem, ele se levantou da cama. O Uchiha se remexeu, se acomodando no travesseiro onde o loiro havia descansado há alguns segundos, talvez procurando o cheiro e o calor os quais estava acostumado.
Ele vestiu a camiseta e o moletom que vestia, quando havia saído de casa para buscar Sasuke no bar. Ele repassou os seus passos em sua cabeça, antes de recolher a carteira, as chaves e o celular de cima da mesa de estudos do moreno. O álcool derrubou o homem em um sono pesado, pois este nem se mexeu com a movimentação do mais novo.
Ele deu um beijo carinhoso na têmpora pálida e saiu do quarto com passos rápidos. Karin cuidaria do mais velho em sua ausência. Ele precisava chegar em casa o mais rápido possível, tomar um banho, conversar com seus pais e correr, porque Naruto não perderia mais tempo brincando de joguinhos e intrigas com o clã Uchiha. Ele terminaria essa história de uma vez por todas, e de uma maneira bem Uzumaki de ser.
(***)
– Eu vim para falar com Fugaku Uchiha!
Mikoto ouviu uma voz rouca e profunda vir da sala de estar. Mihara, a empregada, balbuciou uma resposta tranquila, que ela não conseguiu entender. Pelo que parecia, a jovem estava tentando conter alguém alterado, pois o timbre masculino, estranhamente familiar, parecia cada vez mais insistente.
Ela tomou passos rápidos em direção à confusão, a fim de ajudar a menina. Mas, pelo visto, ela não fora a única atraída pelo som das exclamações energéticas, porque seu marido caminhava apressadamente para o cômodo onde sabia estar o recém-chegado e a sua funcionária.
– O que está acontecendo aqui?
Quando a matriarca do clã Uchiha chegou na sala de estar, ela prendeu a respiração ao ver nada mais, nada menos, que Uzumaki Naruto. Ela olhou em volta, procurando por Sasuke, mas percebeu que o menino estava sozinho. Antes que ela pudesse pensar mais sobre a situação, Mihara começou a falar rapidamente, cortando a sua linha de raciocínio.
– Senhor Uchiha, eu tentei avisá-lo que estava ocupado, mas ele não queria sair. Eu estava prestes a chamar Kotetsu e Izumo para que eles pudessem acompanhar este jovem até a saída! – ela despejou em desespero, com medo de que seu pequeno deslize pudesse lhe custar o emprego.
– Eu já disse que só saio daqui depois de falar com ele. – Naruto persistiu teimosamente, atraindo os olhares para si.
Fugaku puxou um fôlego afiado, enquanto tentava controlar o temperamento. Ele odiava ser interrompido, mesmo quando não estava fazendo nada de importante, como ler um livro e relaxar em seu escritório. Ele olhou para os olhos azuis petulantes e desafiadores e depois encarou a menina amedrontada.
– Está tudo bem, eu vou falar com ele. – ele tentou tranquilizá-la, ignorando a forma como ela pareceu nitidamente aliviada com a resposta tranquila do velho senhor. – No meu escritório, Uzumaki. – comandou, começando a andar pelo corredor que o levava até sua sala pessoal.
Naruto piscou incrédulo por alguns segundos, antes de correr para acompanhar o homem. Ele passou por Mikoto, dando-lhe um sorriso cheio de carinho e não prestando a atenção no rosto tenso e preocupado da morena.
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