Dançarinas Lunares
8 Capítulo 8
Notas iniciais
Numa câmara a jovem dançarina era levada para a primeira parada de seu fim.
— E é aqui que ficaras demônio. – foi rudemente jogada no chão empoeirado da cela.
O guarda que a levara até ali trancou-a naquele cubo de pedra e grades e saiu com cara de poucos amigos, no entanto não ouviu nenhum som de revolta da presa, na verdade segurar a menina foi fácil, não houve resistência, não falou, não esperneou ou gritou, nem mesmo ao ser jogada na cela soltou algum grunhido.
A cela era cinza com as paredes ásperas de pedra, parecia uma caverna escura, úmida e suja, havia somente uma janela com barras de aço de onde vinha a pouca luminosidade das estrelas. Mas nada chegava aos olhos azuis violetas da albina, tudo estava monocromático, sem cor, sem vida, não tinha mais porque resistir.
— Perdão meninas, mas desde o inicio eu planejava isto, desculpa. – murmurou se encostando num canto daquela prisão vazia – Desculpa. – continuou murmurando as únicas palavras que podia pensar.
Não tinha mais vontade de viver, porque ? Era melhor para suas irmãs se morresse, era uma assassina, um monstro, sabia que iria se comparar a Sajid quando o matasse, sabia que não iria mais ser a mesma, amava tanto aquelas meninas para faze-las sofrer por isso.
Yursa, sua primeira amiga de viagens, a primeira a pegar um pedaço de seu coração, sua confidente e colega nos primeiros momentos constrangedores da adolescência em que não sabia o que fazer. Manar, a linda menina que mesmo gêmea era tão diferente da irmã, não só pelos cabelos negros como também pelo amor aos animais, sempre fazia a caravana parar para ajudar algum animal ferido na estrada, era doce e animada. Maram, aquela sapeca, quando estavam ainda presas como escravas era a albina quem mais protegia a irmã dos abusos, era a mais velha e a mais segura, tinha tanto amor pela irmã como pelos demais membros de sua nova família.
Aludra, a melhor amiga que teve, lembrava de quando a encontrou com Hanan sentadas com fome e frio numa rua de alguma cidade a anos atrás, a loira mais velha não superou o horror de ser traída pela própria família por um erro que não fora dela, um estupro, não pode superar aquilo, por isso passou a esconder seus olhos atrás da faixa para não ter mais que ver o mundo daquela forma, mas poucas vezes abria os olhos e Aysha lembrava de sempre estar ali com ela para mostrar pouco a pouco que a vida que tinha agora valia a pena ver.
Hanan, a pequena e madura Hanan, na frente de outras pessoas ela podia parecer uma menina alegre e animada, mas a albina sabia que ela ainda lembrava do abandono da mãe, tinha medo de ser esquecida novamente, mesmo assim mostrou a pequena que a nova família dela a amava ao ponto de não poder passar um minuto sem a loira a rir e brincar com as outras, era uma criança, mesmo que as vezes parecesse uma adulta.
Lembrando de todas suas irmãs não pode deixar que as lagrimas que jurou não soltar, caíssem. Estava descumprindo a maior promessa que fez a todas quando as conheceu: ‘Não as abandonar’, estava sendo egoísta com elas, mas não podia, não podia......não podia.
Ouviu um som de algum lugar, já fazia minutos ou horas que estava ali ? Levantou o olhar que nem percebera que abraçava os joelhos e escondera o rosto entre eles, assim que olhou para cima encontrou luz vinda da janela, no entanto o coração apertou ao reconhecer os olhos esbranquiçados.
— Não. – sussurrou num suspiro, quase um soluço – Não, não pode ser.
— Está na hora de irmos Aysha. – falou a loira de olhos esbranquiçados num tom doce, olhando para trás de si – Yursa, me passe o material.
— Não, não, o que vocês estão fazendo aqui ? Aludra, você.....seus olhos. – falou surpresa e sentindo o peito arder em ver tais olhos a vendo com raiva ou reprovação, mas carinho e compreensão, diferente de antes que foram abertos com pura raiva do que ela dissera antes.
— Sabíamos. – contou enquanto raspava as grades de aço com um aparelho raro de se encontrar – Sempre soubemos que você iria fazer isto, te conhecemos a muito tempo Aysha, esqueceu disso ?
— Tentei avisar Knight, mas parece que foi tarde de mais. – ouviu-se a voz de Hanan, como se estivesse sentada ao lado da janela, como a cela era embaixo da terra não seria surpresa – Desculpa ter demorado.
— Foi difícil chegar aqui sem sermos vistas sabia, espero que nos recompense depois mana idiota. – falou Manar, mesmo com um tom repreensivo, era brincalhão.
— Com certeza. – confirmou a irmã ao lado.
— Não...s-se vocês forem pegas tentando me ajudar, eu....eu...por favor meninas, não me façam sofrer mais. – falou em lagrimas, eram poucas as vezes que viram a albina chorar, mas naquele momento nenhuma delas fez o pedido.
— Você ainda tem muito o que viver criança. – Yursa finalmente se pronunciou – E ainda tem duas pessoas que você precisa ver. – disse fazendo todas as irmãs assentirem – Knight e Kameel foram as únicas pessoas depois de nós que conseguiram levar um pouco do seu coração também Aysha, não pode dizer o contrario, vocês os ama, principalmente o segundo príncipe.
— Com certeza, como o amor é belo. – ironizou Aludra retirando a primeira grade, mas falou logo seria – Mas assim que te soltarmos não teremos muito tempo, teremos que fugir daqui Aysha, só terá tempo de se despedir deles, vivemos em mundo diferentes você sabe, temos que partir, a caravana está pronta no ponto D, temos que chegar lá e partir.
— V-Vocês..... – sentiu o coração apertar, mas não de dor e sim o amor que tanto cultivaram naquele lugar seco pela dor e ódio que tinha, eram as únicas pessoas que poderiam algum dia entender algo assim – Obrigada meninas.....d-desculpa por tudo, prometo que vou recompensa-las.
— Espero que seja com varias tortas de lótus negras. – Hanan falou fazendo as 5 rirem e Aysha finalmente estava livre, agora para uma ultima parada antes de voltar a vida com sua família que sacrificaria tudo para tê-la bem.
Frio. Era assim que se sentia naquele momento, naquele quarto, deitado em sua cama olhando para o teto e seu irmão adormecido depois de chorar por horas a fim, aconchegou mais a cabeça do castanho em seu peito e suspirou pela milésima vez.
— Aysha. – falou ao vento sabendo que a amada não o escutaria, não falou com o irmão, nem com ninguém depois que saiu daquele quarto fedendo a sangue e a corpo morto.
Mas o irmão havia lhe ido visitar, falado que descobriu a verdade do pai, um diário da moça morta estava escondido e dentro dizia como conhecera o rei, as historias horríveis que ele lhe contou, as ultimas visitas que teve quando disse saber que uma das dançarinas era do clã que matara, que ela iria o levar em breve. Sajid sabia que estava próximo da morte e a ultima amante fora na frente sem mais aguentar a doença e a preocupação do governante.
Agora o conselho estava discutindo o horário da execução de Aysha e ali estava o menino, sentindo-se inútil, um idiota, um fracasso, sempre sonhara em ser livre, orgulhara-se de ser forte e independente, mas não tinha nem forças de salvar a pessoa amada. Não. Tinha que fazer algo.
— Vou salva-la ! – exclamou se levantou e acordando Kameel – Vou salva-la e vamos sair daqui. – afirmou novamente convicto vendo os olhos negros do irmão – Desculpa maninho, mas não posso suportar o pensamento de perde-la.
— Hmmmm....hm. – murmurou fazendo sim com a cabeça e segurando com força a camisa do mais velho – Hm.
— Não, você não pode vir também, nem sei se ela vai querer me ter ao seu lado, eu.....mas preciso tira-la daqui, não vou permitir que a levem. – se levantou e ia se dirigir a porta quando sentiu um puxão no braço pelo mais novo e virou vendo-o encarar a janela.
Sem entender fez o mesmo, naquele momento tudo parou e nem mesmo o ar ousou interromper o encontro dos olhos azuis com os com os azuis violeta.
— Olá Knight. – falou a albina, parecia uma ilusão, um sonho, ou a mesma já havia morrido e seu espírito estava ali ? Todas as respostas foram respondidas quando Kameel correu até a mais velha que abaixou-se para abraçar o pequeno menino – Oi Kameel, querido.
— M-Mas....como ? Eu ia agora te tirar da prisão e você...está aqui... – falou surpreso, mas a albina sorriu-lhe ainda abraçada ao menor.
— Minhas irmãs me tiraram de lá, ainda não descobriram, mas quando virem que a ‘assassina do rei’ sumiu, vão me procurar por todo o país, não estou segura aqui, nem minhas irmãs. Estamos partindo. – falou vendo Kameel soltar-se e a olhar espantado – Não nos veremos mais. – disse com pesar.
— Hmmmm...hmmmmm....Snif....hmmm. – o menor tentara falar, mas nada saia, chorava penosamente.
— Vim me despedir. – aquelas palavras furaram o corpo de Knight – Deveria ter ido embora assim que me soltaram, mas as meninas sabiam que não conseguiria ir sem dizer adeus e sem um ultimo pedido. – olhou profundamente nos olhos azuis do moreno.
Aproximou-se quebrando a distancia que tinham um do outro, e o abraçou, tocou aquele coração mais uma vez, fê-lo sentir o cheiro de lírios da menina, o calor de seu corpo, quando esta separou-se minimamente para olha-lo nos olhos não pode deixar de deixar uma lagrima cair e sem deter-se aproximou as bocas, um beijo calmo, amoroso e sofrido com gosto de despedida.
— Não quero que vá. – admitiu a abraçando mais em seus braços – Irei com vocês, mas não me deixe.
— Não Knight. – disse doce lhe acariciando os cabelos, ainda sentia o doce gosto do maior em seus lábios – Você tem que ficar, cuidar dos seus irmãos, ajudar seu irmão mais velho, o que eu fiz vai atingir esse reino e não quero que essa terra tão prospera e bela decaia, ajude Idris, ele será um bom rei, mas você precisa o ajudar e cuidar de Kameel. – sorriu para o menor que se enroscara em sua perna.
— Mas..... – ia retrucar, mas a menor o beijou calando-o.
— Agradeço por tudo e saiba que meu coração foi dividido em 7 partes, hoje deixo duas para trás, mas lembrarei de vocês com muito amor. Obrigada por tudo, por não me odiar e por amar essa pessoa que só veio fazer mal aqui. – disse olhando para suas mãos no peito de Knight se separando do mesmo – Obrigada e.....adeus. – beijou a testa de Kameel e antes que eles a impedissem, partiu.
Pulou a janela e quando ambos os príncipes correram para ver onde ela estava, a encontrou junto a outras 5 figuras escuras, olharam uma ultima vez para cima vendo os meninos e se foram.
— Eu te amo. – disse uma ultima vez sentindo o peito doer e ouviu novamente o irmão chorar – Nós te amamos.
Por trás da porta do quarto estava uma figura encostada de costas, os braços cruzados no peito e os longos cabelos loiros mostravam pesar, principalmente os olhos negros que encaram o céu pensando no quanto o irmão mais novo agora deveria sentir-se mal e triste. Idris pensou em entrar para lhe dizer algo reconfortante, no entanto somente deu um sorriso frágil segurando um pequeno diário que contava o que o pai havia feito e que para pagar seus pecados não queria culpar a menina que viera para o matar e sim entregar sua vida a ela, o diário era de Kamirsa, a amante de seu pai.
— Acho que está na minha hora de fazer um sacrifício. – disse voltando pelo corredor no qual havia vindo para falar com seus irmãos e acabando por testemunhar o encontro com a dançarina fugitiva e a declaração de amor do irmão.
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