Daniel Alexander
23 Lá em Manhattan
Notas iniciais
Manhattan, Nova York.
Percy olhou pacientemente cada traço do rosto de Nico, sempre com a pergunta de “onde eu errei” pairando em sua mente. Nico se colocou no sofá do quarto de Annabeth com o sol começando a cair pela primeira vez naquele ano.
— Perseu. — Nico suspirou. — Me desculpe pelo que errei.
Percy criou uma interrogação em seu rosto. Depois das últimas horas, chegou a conclusão de que ele era o grande culpado das desventuras e violências pelas quais Nico tinha passado nos últimos anos. Ele então se levantou e encarou di Angelo.
— Você não precisa, nem deve me pedir desculpas Nico. Nada é culpa sua. — Falou Percy, convicto em suas palavras. — Jason foi quem te infligiu mais dor, mas eu também tenho minha parcela de culpa. Você é a vítima primo. Você, Annie, Piper, Grover... — Suspirou. — Todos vítimas, de alguma forma, dele.
— Eu errei também. Fiz tudo por você, mas guardei rancor, guardei mágoa de você, primo. Preciso e muito melhorar, mas fui horrível com você. — Nico começou a verter poucas lágrimas pelos olhos.
— Nico, você consegue se livrar desse rancor, eu tenho certeza. Talvez não seja a coisa mais fácil do mundo, mas eu acredito que você consegue. Terapia, as confissões que você faz. Eu não sei, não entendo muito disso. — Percy tentava organizar as ideias. — Enfim, acho que você entendeu. Desculpe por cada dia que eu não sabia que brincava com seus sentimentos, com sua autoestima, com tudo que você tem de bom dentro de você.
— Algum dia vai passar Perseu, eu entendo melhor agora, mas me escute. — Pediu o jovem gótico católico. — Eu realmente te devo perdão, pelos surtos dos últimos dias, pelas acusações, e pelo meu comportamento nos últimos anos, de forma passivo agressiva. Eu realmente vou tentar melhorar, e seremos, se tudo der certo, uma família unida. Não de comercial, mas de verdade, que fala e se ajuda no que precisa, e não faz o trabalho dos outros, nem passa cola das provas. — Riu Nico entre as lágrimas. — Até mais tarde Percy, Jesus me espera.
— Até, melhor primo do mundo. — Percy sorriu ao abraçar Nico. — Sempre foi de coração.
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Reyna estava preparada do lado de fora do depósito da delegacia, localizado, obviamente, ao lado do prédio principal de sua unidade. Ali, Michael Yew tinha se refugiado após correr de Phobos e Demios, numa rápida perseguição na tarde de Ano Novo.
— Mãos ao alto, Michael Yew, queremos apenas conversar com você! — Gritou a policial, encarando o loiro por uma janela. — Não vamos lhe prender nem nada, se você colaborar com a gente!
— Eu sabia que ia me ferrar, eu sabia! — Michael chorava. — Por favor, só me deixem ir embora, eu sou inocente, eu juro, juro mesmo!
— Saia Michael! — Agora foi Frank que bradou, suplicando. — Por um bem maior, saia! Precisamos de você! Da sua ajuda!
— E me prenderão depois! — Michael Yew gritou de dentro do galpão.
— Já dissemos que não! — Reyna berrou furiosa. — Só vou te prender se você se recusar a colaborar...
A policial preparou sua arma, engatilhando-a, e passou a caminhar lentamente para o galpão. Os passos contidos eram na esperança de ver o loiro saindo de dentro do prédio numa auto rendição necessária. Reyna não queria usar a força naquele momento.
No meio do impasse, Phobos e Deimos entraram sorrateiramente no galpão, e, sem Michael perceber foram procurando por ele. Enquanto a negociação entre o loiro e a delegada continuava a correr, eles se esgueiravam na busca pelo fugitivo, até que o encontraram e de supetão, se jogaram em cima do funcionário do Empire State.
— Eu me rendo, me prendam, eu não uso mais drogas, mas, me prendam de qualquer forma, seus colarinhos azuis mequetrefes! — Michael Yew gritava para todo o galpão vazio o ouvir.
— Deixa a gente de fora dessa. — Phobos indignou-se. — Colarinho azul é meu...
— Phobos! — Deimos gritou. — A policial ainda é um dama, apesar da truculência. Tenha mínimos modos...
— Unf, modos... — Phobos reagiu desdenhoso.
—Calem a boca! — Gritou Reyna enquanto segurava Michael Yew pela parte de trás gola da camisa. — Vamos rápido, a vida de Thalia está por um fio, e queremos prender logo Jason Grace!
— O tal Primordial... — Michael Yew riu. — Ai ai, o que vocês querem de mim? Vão mesmo me deixar sair por aí?
— Claro! Será um indulto de fim de ano. — Reyna falou. — Desde que você nos diga tudo o que sabe sobre quem te deu as informações do Empire State...
Michael gelou.
— William, ele falou tudo o que eu precisava repetir. — O jovem funcionário do prédio começou a tremer. — Meu irmão me falou parte por parte do que era pra fazer, e por isso, eu fiz, para ajudar ele. Ele disse que iria pra delegacia, mas pelo visto mentiu, e vai me deixar levar essa culpa, sozinho, de novo. Mais uma enrascada que o senhor perfeição me coloca. Aquele viadinho me paga!
Ao fim da fala de Michael, o celular de Reyna tocou. Phobos e Deimos seguraram o jovem, enquanto ela foi atender a chamada. A face dela clareou um pouco, serenando. Por fim, respondeu com apenas um ok, e desligou.
— Michael, acho que o tal William não mentiu... — Reyna sorriu levemente. — Seu irmão, Will Solace, acabou de pedir pra depor novamente, e disse que sabe de muito sobre o Primordial. Você está livre, e não se meta mais com drogas...
O loiro sorriu e de tanta emoção deu um beijo surpresa na bochecha de Deimos antes de sair galpão a fora correndo.
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Frank e Leo estavam na delegacia, mandados por Reyna, enquanto ela perseguia Michael Yew. Ambos ficaram num depósito, para não levantarem perguntas sobre a presença dos mesmos lá.
— Espero que ela tenha conseguido. — Frank matou o silêncio que reinava no ambiente.
— Eu também. — Leo falava batendo seu pé numa parede. — Ela é genial, eu não sei como. Mas ela é, e muito. Têm planos muito bons.
— Sim, a delegada é boa, faz de tudo pelo bem comum, incluindo ignorar o mal menor. — Frank sentou, pensativo, em uma caixa. — Ela relevou meu pai, meus irmãos, tudo pra prender Jason Grace.
— Eu queria saber um pouco mais sobre a sua história, meu caro urso! — Leo sorriu e se sentou ao lado de Frank, apesar de certa dificuldade.
— Minha história? — Frank indagou.
— Claro, é uma ótima maneira de passar o tempo. — Leo envolveu Frank com seu braço, mas sem querer caiu em cima de outra caixa, e rolou até a parede, dando uma forte batida.
— Leo, tudo bem com você? — Frank saltou para o lado em busca de ajudar o latino.
— Tudo sim. — Leo gemeu ainda tonto do impacto.
Logo um silêncio breve reinou, até ser interrompido por uma batida. Os dois então continuaram a ouvir outras batidas, que vinham daquela mesma parede, onde Leo batera agora pouco. Olharam entre si, e com uma cara de suspeita, resolveram investigar o que era e quem, ou o quê, estaria fazendo aquele barulho.
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Will estava preparado para depor. De frente para Reyna Ávila Ramírez-Arellano, ele suava, mas estava certo do que tinha de fazer por aquele que amava.
— Eu queria ter vindo antes, porém, o meu receio e medo, depois de um tempo, e carinho pelo Nico, me impediram também. — Will tremia a cada palavra, tendo as mesas confusas por conta dos pensamentos que cercavam sua cabeça. — Seguinte, eu queria começar falando que eu fiz tudo isso por amor ao Nico, por carinho com ele, por amá-lo e querer protegê-lo. Jason me enganou como fez com todos, mas ele me pediu ajuda para desmascarar o Percy, e eu topei, principalmente por saber o que o Nico já tinha sofrido no que pensava ser obra do Perseu.
Will arfava dominado pela ansiedade de assumir suas faltas junto a lei e ao amado. As mãos suavam mais, e Reyna o encarava passivamente, como se nada daquilo a surpreendesse.
— Tudo começou quando o Nico me contou sobre o estupro que ele sofreu, sobre como se lembrava de ouvir a voz que clamava ser o Percy, se apossando dele, de cada milímetro do corpo dele. De como era algo que o Nico desejava tanto, e que ele teria, ele guardaria na memória que a primeira vez sexual seria com Perseu Jackson, tal qual foi o primeiro beijo, anos antes na casa de praia de Long Island. — Will estava cabisbaixo, tentando recordar tudo que tinha em mente.
Reyna observava complacente, fazendo algumas caras que buscavam a impassividade.
— Aquilo me deixou revoltado com tudo o que ele foi me falando. A cada absurdo daquela noite eu me deixei enfurecer e tentei fazer ele falar, mas ele não conseguia, não saía de dentro dele pra além do que a mente dele tinha processado. Fiquei guardando este segredo por muito tempo, muito tempo mesmo. Não sabia quem mais poderia ter noção de que esse ato horrível teria ocorrido com aquele menino tão frágil que eu tinha me apaixonado. Eu queria protege-lo, queria me vingar se fosse possível, e se isso ajudasse Nico a se sentir melhor. — O loiro continuou seu depoimento chorando já, enquanto recordava em sua mente das imagens de Nico abrindo o choro indefensável na sua frente.
Reyna encarava o jovem sem dizer uma palavra. Seu silêncio buscava não ser julgador, apesar de sua mente já estar processando muitos outros questionamentos e indagações contra Will naquele momento.
— A questão é que Nico nunca quis se vingar, ele tinha rancor, mas ainda assim, nossa... Olhando em retrospecto até parece que ele sabia, no fundo, que não havia sido Percy. Ele não deixou de amar o primo em nenhum momento. Conversávamos e ele demonstrava o rancor, principalmente através de ironia e julgamentos ao redor das escolhas e pedidos de Percy para ele. Era a vingança mais suave que Nico poderia fazer com alguém que ele amava tanto. Mas eu não aceitava, me sentia preocupado quando estavam no mesmo ambiente. Eu tive muitas experiências traumáticas por conta do meu pai. Ele era até controlado, mas tinha episódios maníacos, momentos que buscava sexo insaciavelmente, fosse homem ou mulher, e sei que ele fez certo mal neste sentido, se você me entende. Nunca foi denunciado, mas tudo foi aos meus olhos, e a história do Nico... Eu sentia que não podia ficar parado, eu tinha que agir. — O namorado do jovem gótico falava com o rosto vermelho do pranto.
— E onde Jason entra para te enganar? — A delegada foi direta. — Até agora entendi toda sua base emocional para destruir a vida de uma pessoa.
— Jason em algum momento descobriu que eu sabia sobre o caso do Nico com o Percy ter sido tão violento. Assim, ele veio conversar comigo. Contou sobre a relação de trio que tinham quando crianças, e como isso desmoronou quando foram separados pela ida de Jason para Nova Roma. Ele não sabia sobre eu ser o amor do Nico, chegou na paz, foi algo que ficou sabendo somente depois, e que me arrependo que ele tenha tido ciência, de verdade. Enfim. Jason me explicou que existia uma pessoa que desejava se vingar de Percy também pelo mal causado por ele, e que me colocaria em contato. Ele me confirmou de que Nico por si só jamais tentaria fazer Percy pagar na mesma moeda, não é da natureza do meu principezinho, nem da moral religiosa dele, então, caberia a minha fazer algo. — Will passou para beber água.
— Assustador, Will. E essa conversa foi apenas uma ou uma recorrência entre você e Jason para ele te incentivar a entrar em contato com essa pessoa misteriosa, que hoje, sabemos todos, era ele próprio. — Reyna foi direta.
— Detetive, foram pelo menos umas quatro conversas, isso eu posso afirmar. — Will respirava enquanto tremia e suava frio. — Sabe, ele me falou sobre ter coragem para defender o Nico, ter força para ajudar um amigo tão especial, que parecíamos como os lendários Aquiles e Pátroclo, referência que eu particularmente só fui entender bem depois o do porquê. Eu, então, corri atrás, corri a um ponto de ajudar meu amado a ter seus medos e rancor sanados de alguma forma, e hoje vejo a quão péssima foi esta decisão.
Reyna assentiu com a cabeça.
— Agora, eu dei acesso a ele, antes do Natal, a diferentes formas de encontrar com outra as “vítimas” que ele me contou sobre Percy, tudo achando que ele faria algo para ajuda-las, ou protegê-las, como estávamos fazendo com Nico. Em nenhum momento, aliás, ele comentou que iriamos de fato matar Percy. A ideia sempre foi sofrimento. Percy tinha que sofrer, sentir dores profundas por conta dos males causados por ele próprio em tantas pessoas. Eu fui ingênuo e me levei pela raiva e por meus sentimentos, ainda tão desordenados por Nico. — Will complementou.
— E como você acha que eles estejam agora, os seus sentimentos: Sabendo que Nico pode querer te ver longe de você depois de tanto que você está soltando para os autos policiais? — A policial mais uma vez foi direta ao interrogado.
— Bem mais alinhados. Meu pai nunca teve problema com o fato de eu ser bissexual. Minha mãe muito menos. Mas a sociedade ao meu redor era diferente. Meus pais não eram religiosos, mas espiritualizados. Meu pai tinha forças cósmicas como fonte de espiritualidade, minha mãe era uma judia secular, então sair do armário dentro de casa foi simples. A escola, os cursos, os empregos, até me encontrar foram todos um inferno por grande parte das pessoas. Além disso, sempre fui fascinado pelos romances, sempre quis viver uma história verdadeira de amor. Assim, ao encontrar Nico, e ele corresponder, pareceu que todo o meu mundo passou a fazer sentido, encontrando ordem para muitas coisas, menos para o que eu sentia por ele, que extrapolou diversas vezes. Na frente dele eu sou levemente irônico e contido, mas ele sabe que eu mataria e morreria por ele, eu me afogaria no encontro do Hudson com o East. Nico é tudo e um pouco mais para mim, hoje de forma mais racional e colocada, mas por um bom tempo, especialmente neste momento dessas histórias fabricadas do passado pelo Jason, eu fui muito irracional para protege-lo, fui tolo, e me arrependo tanto, que estar aqui é uma forma de limpar isso. — O loiro respirou fundo. — Hoje eu afirmo que amo Nico di Angelo sem a loucura oculta que já esteve em minha mente.
— Entendo. — Ela concluiu. — E como você descobriu que ele era o Primordial? Por que não falar logo às autoridades?
— Medo. Descobri no dia em que tive que atirar nele, e ele acabou matando Emily Zhang. Jason me chamou para auxiliar em um plano do nosso mentor, ou seja, ele próprio. A ideia era eu atirar de raspão nele. Uma ameaça básica para assustar Percy, mas achei muito arriscado. Ele falou que ele sabia o plano que tinha montado e que não era arriscado se tudo fosse seguido nos conformes. Daí foi só ladeira abaixo. Medo, ansiedade. Via Jason cada vez mais como o Primordial, e eu estava envolvido. O medo veio de vez com a revelação dele. Acho que nem o caso de Grover foi tão ruim para mim, fiquei triste e chocado, mas achei que poderia ser um acidente, mas depois descobri pelos autos que não era. Depois tudo foi caos, tudo foi medo e terror dentro da minha mente. Até que entendi que deveria vir falar. Tem gente correndo perigo, para além do Nico. Se fosse só ele, eu fugia com ele para qualquer lugar, mas depois disso tudo, ele nunca mais olhará na minha cara novamente.
— E com o que você pode ajudar agora, nesse momento? Sabe do paradeiro dele? — A policial indagou fria, tentando fazer algum contato visual com o depoente, que abaixara a cabeça em culpa. — Como você pode tentar remendar esse dano, Will Solace?
— Eu sei onde ele pode estar. Os esgotos, ele tem um mapa dos esgotos de Nova York, ele sabe se locomover, era assim que sumia rápido. Jason aprendeu essas táticas em Nova Roma. Logo, ele está nos esgotos, e ele tem locais secretos de conexão que nem imaginamos. Locais que só os esgotos levam, paredes falsas, quartos esquecidos, tudo isto perdido pelo tempo e pela modernidade. — Will se recordava. — É este o trunfo dele, enquanto estamos aqui, ele não se importa com o cheiro fétido de milhões de pessoas, desde que ele esteja para realizar o plano da vida dele, o plano de tomar o lugar de Percy Jackson na vida de todos que o amam, porque ele não foi amado em sua própria visão.
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Nico estava do lado de fora da sala de interrogatório. Tinha saído do seu Santo Sacrifício de início de ano, e contemplava as palavras do namorado. Havia sido chamado, e pegou quase todo o depoimento, cocado pelas afirmações que Will despejava no colo da guarda novaiorquina a cada segundo. Estava com muitos pensamentos pela mente, desde ele, seu confidente, até seu primo psicótico podendo realizar alguma atrocidade a qualquer momento. Chorando, Nico pediu água antes de desmaiar mediante a queda da própria pressão, e pela primeira vez em muito tempo, não seria Will Solace quem o ampararia, mas sim, seria o loiro a causa da queda de Nico em toda a ansiedade que pipocava em seu coração e corpo após a primeira manhã do ano.
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