Daniel
3 3. O melhor quarto da velha casa
Leonardo tinha razão sobre eu me sujar de sorvete, parecia que eu não sabia comer doces ou salgados na rua, porque eu sempre terminava com ketchup ou chocolate na ponta do nariz ou em uma das bochechas, quando não nos dois.
Eu havia imaginado que saber que estaria indo embora seria a pior coisa que eu teria que enfrentar no dia, porém, estava enganada. A pior parte do dia foi entrar naquele avião depois de fingir ser forte o bastante para garantir a minha tia e meu primo que eu ficaria bem.
Em todas as aeronaves em que viajamos, estive sentada ao lado de Christina. A mulher alta, de cabelos castanhos e olhos azuis era Jovem e sempre me lançava olhares intrigados que imaginei serem porque eu pouco falava.
Durante todo o voou até o Brasil, tentei me lembrar o que minha mãe contava da infância. Macapá, um nome intrigante e que eu sempre achei engraçado. Lembrei-me de a muito tempo atrás, pedir para que ela me levasse para conhecer a cidade, e ela me disse, que na hora certa eu conheceria. Porém, de maneira nenhuma aquela me parecia à hora certa.
Sempre achei que as viagens de avião eram chatas. Tínhamos que parar de cidade em cidade quando as viagens eram longas e demorava uma eternidade para as pessoas descerem e depois outras embarcarem. Além disso, meus ouvidos passavam dias doendo depois que chegávamos.
Das cidades brasileiras que eu me lembrava, havíamos passado por São Paulo, Brasília, Fortaleza, São Luís e por ultimo Belém, antes de chegarmos ao destino final, Macapá, no estado do Amapá.
O percurso Belém-Macapá foi terrível. Estava de noite e chovia muito, o que fez por diversas vezes o avião balançar bastante durante os 40 minutos de voou antes de finalmente aterrissarmos no minúsculo Aeroporto Internacional de Macapá. Christina, eu e o resto dos passageiros descemos do avião por uma escadinha e tivemos que andar até o aeroporto debaixo de chuva.
Depois de entrar no taxi, Christina falou ao motorista o bairro e a rua da casa, olhei no relógio do mp4, ele marcava 02:40p.m e eu adormeci percebendo estar muito cansada, abraçando minha mochila marrom de bolinhas coloridas. E quando acordei, estava em frente a uma casa cor de mogno de dois andares, separada da calçada por muros altos e um portão elétrico.
- Residência dos Oliveira. Seja bem vinda Emily Kalizia de Oliveira Meyer.
- Residência dos Oliveira? Eu nunca soube deste lugar...
- Digamos – Christina saiu do carro falando inglês comigo e eu a segui – que seu pai nunca gostou daqui...
Ela pegou duas malas e saiu em direção a casa. Peguei a ultima das mãos do motorista, disse um Obrigada da melhor maneira que pude e disparei atrás dela sem prestar atenção para o pátio da casa.
A sala era grande e os móveis tinham aparência desgastada, imaginei que devessem ser tão velhos quanto a casa, que mesmo parecendo nova, deveria ter bons anos de idade. Havia fotos de família e quadros de pintores amapaenses grudados na parede e um pequeno arranjo de flores na mesinha de centro, o sofá laranja não combinava com o ar antigo do local, mais era muito convidativo para mim. Bem em frente a ele, uma tevê tela plana me dava boas vindas.
- Tenho uma pergunta para lhe fazer – dei-lhe um pequeno susto sendo tão direta – Por que ficou com minha guarda? Imagino que tia Lúcia e tio Alfredo, assim como Leonardo, me aceitariam na casa deles. Você não precisava me trazer só porque meus pais queriam.
- Aceitariam querida – Christina respondeu-me calmamente – E me pediram para deixá-la com eles, para ignorar Márcia e Richard. Porém, sua guarda veio para mim como uma forma de proteção e eu não quis recusar.
- Proteção? – Minha voz era de indignação – Mais tia, porque eu não me lembro de você? Não me lembro de falarem de você.
- Eu tenho 28 anos, Emily. Te conheci quando você tinha 4 anos de idade e como eu disse, seu pai não gostava muito deste local e logo depois levou você e sua mãe para Richmond. Possa ser sim que ela tenha lhe dito algo sobre mim e você não tenha prestado atenção. Te vi poucas vezes. No máximo três ou quatro – O tom na sua voz era verdadeiro. Não me dei ao trabalho de duvidar – antes dos meus pais morrerem. Você também não deve se lembrar de conhecer seus avôs.
Era verdade. O fato era que eu não conhecia a família da minha mãe. Meus avôs morreram quando eu era pequena, foi o que ela disse, e possa ser sim que Christina tenha razão sobre eu não prestar atenção sobre ela ter uma irmã. Lembro-me vagamente de minha mãe dizer o quanto o Brasil era bom. Mais ela dizia também que ir para Richmond, foi a melhor decisão que eles tomaram, por conta de minha avó, mãe do meu pai ser americana e ter uma casa própria aqui herdada de seus pais. E eu sempre pensei que o sobrenome Oliveira e o gostar de bandas de rock brasileiras fossem a minha única herança do Brasil.
- É verdade – Foi a melhor resposta que eu pude encontrar.
- Vou levá-la até seu quarto.
Havia uma imponente escadaria na parte de trás da sala. Havia também um enorme tapete bem ao centro dela, que, não sei como, dava a perfeita ilusão de ser dividido ao meio, dando continuidade tanto pela esquerda, quanto pela direita. Segui Christina pelo corredor da direita, e como já imaginava, o mogno estava presente por toda a extensão do corredor.
- A casa tem seis quartos – Começou Christina – Três neste corredor e Três no outro. No corredor da esquerda, há uma biblioteca, com diversos livros, didáticos e paradidáticos. Seus avôs adoravam a leitura. E... Ah... Aqui será seu quarto, querida – Ela parou em frente a uma porta que, seria simples, a não ser pela maçaneta que, oh... Seria de ouro?
O quarto era bem maior do que o meu antigo. Graças a Deus, ao invés de Mogno, um papel-de-parede floral rosa claro, era quem me dava o ar da graça. Reparei em uma porta na parede direita, havia ali perto, uma cômoda de carvalho, tomara que atrás daquela porta esteja um banheiro, pensei.
Havia uma mesinha de cabeceira de cada lado da cama de casal, que ficava quase em frente à porta de entrada, uma com um pequeno abajur e a outra com um relógio despertador em cima. Ao lado esquerdo do quarto, havia uma escrivaninha média embutida em uma estante para livros de escola. Os móveis eram todos de uma cor clara, bem diferente do que até agora eu havia visto na casa. Fiquei me perguntando se Christina havia mandado comprar tudo agora, especialmente para minha chegada.
- Este, Emily, é o melhor quarto desta velha casa. Sei que não é o seu, mais fiz o possível para tirar o ar de velharia do resto desse local.
- Ficou ótimo – Era verdade. Estava lindo, mais nada se comparava a minha casa antiga, com meus pais e meus amigos na minha cidade também antiga – Tia reparei no quanto essa casa é grande e gostaria de saber se você mora sozinha aqui...
- Não. Esqueci de mencionar que sou casada a três anos e, há um quarto no corredor esquerdo, que foi alugado a 6 meses por um jovem também estudante. Daniel Grigori, que você vai ter a oportunidade de conhecer. É um menino encantador e ah... Você tem seu próprio banheiro. Meu quarto é o primeiro do corredor, qualquer coisa vá lá, querida.
Coloquei as malas na cama em quanto Christina saia do quarto. Desarrumá-las não seria um problema e o fiz bem rápido, guardando as roupas na cômoda e os produtos de beleza em cima, arrumei os sapatos bem ao lado dela e logo depois, tirei da mochila o notebook e o celular com os cabos todos enroladas. Deviam ser quase 3h da madrugada e não, eu não tinha almoçado nem tão pouco estava com fome.
“O que eu vou fazer apartir de agora?” pensei. Os fones de ouvido pareciam ser os melhores companheiros de uma pessoa solitária naquele momento, as musicas calmas do Capital Inicial, a melhor banda de rock brasileiro na minha opinião (e da minha mãe também) talvez me ajudassem a dormir bem.
Notas finais
Ficarei muito feliz se mandarem.
Obrigado =)
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