Notas iniciais
Eu estava profundamente chateada com o que tinha acontecido. Sean não havia me ligado e naquela noite fui me deitar cedo na cama. Kyle estava sentado ao meu lado mas não disse nada. Acho que ele também estava bem chateado com tudo. Não sei se ele esperava que eu dissesse algo. Eu só não sabia o que dizer. Estava exausta demais e sentia que os problemas só estavam começando.
Decidi quebrar o silêncio do quarto e perguntei olhando para a janela grande de vidro observando os flocos de neve cair:
—Você foi tirar satisfações com o Matt?
Houve um momento de silêncio antes de Kyle responder.
—Sim, mas ele não estava no apartamento dele.
—Ah. — é tudo o que eu digo.
Pelo menos isso não tinha acontecido. Seria mais um problema que eu não queria enfrentar.
Ouço a campainha tocar e sento-me na cama com as sobrancelhas unidas. E se fosse Sean novamente? Eu estava preocupada com ele, apesar de tudo o que ele dissera.
Levanto-me da cama e Kyle faz o mesmo. Saio do quarto e atravesso a sala com passos pesados e abafados pelo par de meias brancas. Quando abro a porta, fico extremamente surpresa ao ver Sam ali. Mas não é o Sam que sempre está alegre, e sim um Sam com o rosto coberto de lágrimas.
—Sam, o que aconteceu? — pergunto o abraçando.
Ele me agarra num abraço extremamente sufocante e soluça.
—Ele terminou comigo. Aquele bicha terminou comigo.
Olho para Kyle enquanto Sam chora em meus ombros. Kyle está com as duas mãos enfiadas no bolso da calça de moletom preta. Ele arqueia as sobrancelhas e respira fundo.
—Eu sinto muito, Sam. Vem até o sofá. Vamos, sente-se ali. Vou fechar a porta e preparar um chá para você.
Sam, que está usando um suéter cinza claro de lã e calça jeans, senta-se no sofá e passa a mão pelos cabelos.
—Aquele bicha! — ele diz.
Tranco a porta e olho para Kyle que parece um pouco irritado. Lanço-lhe um olhar de censura. Espero que ele não seja rude com Sam.
—Está tudo bem, Sam. — digo me aproximando. — Você quer algo pra beber?
Me agacho à sua frente. Ele respira fundo e concorda com a cabeça.
—Uma água só está bom.
Concordo com a cabeça e me coloco de pé novamente. Vou até a cozinha e pego um copo d'água.
—Desculpe vir para cá. Mas foi o único lugar que pensei que poderia vir.
—Claro. — digo da cozinha.
Kyle murmura do meu lado, apenas para eu ouvir "Como se não tivéssemos nossos próprios problemas".
Lhe dou uma cotovelada e faço cara feia. Ele revira os olhos e eu saio da cozinha levando o copo de água para Sam.
—Por que ele terminou com você? — pergunto sentando-me ao seu lado no sofá.
Sam bebe uns goles de água.
—Eu sugeri há algum tempo que... adotássemos uma criança e ele disse que sim. Hoje mencionei o assunto novamente e ele não quer mais. Disse que não está preparado para nada sério. Ele deve ter outro, Alice. Eu vou matar ele. — Sam recomeça a chorar.
Ele está tão chateado! Eu não sei como reagir nem o que falar.
—Eu... sinto muito. — digo. — Mas não fique assim. Sei que as coisas ficarão bem.
Passo o braço ao redor do pescoço do meu melhor amigo.
***
K.Y.L.E
Não é como se eu fosse insensível ou algo do tipo. Só não estava interessado em ouvir um cara chorando por outro na sala da minha namorada àquela altura da noite. Nós tínhamos nossos próprios problemas para resolver e para pensar. Mas Alice parecia ter esquecido todos eles e estava dando toda a atenção do mundo para seu amigo.
A observei por minutos mais minutos enquanto Sam desembuchava os detalhes da briga que tivera com o ex. Ela olhava para ele com atenção e segurava suas mãos nas dela. Como conseguia fazer isso? Colocar os problemas dos outros ma frente dos dela? Ela era... bondosa demais e nem se esforçava para isso. Era algo dela, que vinha de dentro.
—Sei que apareci de surpresa, mas não quero voltar para o apartamento. Será que posso passar a noite aqui?
—Claro que sim! — ela responde.
Ele olha para mim, parece me notar apenas agora.
—Desculpe, cabelo de fogo. Não reparei em você.
Dou de ombros e digo:
—Não se preocupe. Eu... vou deixar vocês dois sozinhos.
Olho para Alice e entro em seu quarto. Sento-me na cama. Logo depois ela entra e pega um travesseiro, lençóis e um cobertor para o seu amigo. Ela sai do quarto encostando a porta. Parece demorar uma eternidade até que volta na ponta dos pés.
A observo vir deitar na cama novamente. Ela respira fundo.
—Ele dormiu? — pergunto.
—Sim. Estou com dó dele.
Não digo nada. Não sei o que dizer. Apenas concordo com a cabeça.
—Bom, acho melhor você dormir também. Acho que já passou por muita coisa hoje. Não precisa se preocupar com os problemas dos outros também.
Alice olha para meu rosto com as sobrancelhas unidas. Parece ofendida.
—Ele é meu amigo, Kyle! É claro que me preocupo.
—Só estou dizendo para descansar. — suspiro.
Ela não diz nada. Apenas se vira de costas para mim e fica em silêncio.
Estou um pouco perturbado com tudo o que acontecera naquele dia. Tudo teria sido muito diferente se aquele escroto do irmão dela não tivesse aparecido. Eu estava cansado, exausto de me criticarem e criticarem Alice por suas escolhas. Eu sabia que ela estava bem chateada também. Não queria irritá-la ainda mais, por isso apenas a deixei de dormir e, mais tarde, quando vi que ela tinha pego num sono profundo e exausto, a abracei, trazendo-a mais para perto de mim. Eu nunca havia reparado muito naquela vista do quarto dela, sempre estivera ocupado demais olhando para ela, mas para tudo tem uma primeira vez. Aquela era a primeira vez que tinha parado para realmente contemplar aquela vista de prédios enormes.
A neve estava caindo pesadamente, havia piorado bastante e o céu estava preto como nunca vira antes. Parecia haver uma neblina muito espessa que impedia ver as formas dos prédios com clareza, apenas conseguia ver uns pontos brilhantes das luzes dos apartamentos entre a névoa. Tudo estava em perfeito silêncio, o quarto estava quente e eu segurava em meus braços a melhor coisa da minha vida.
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