Notas iniciais
O QUE É ISSO? UM CAPÍTULO SURPRESA O/ Espero que vocês segurem a emoção.

Tive dificuldades para dormir. Eu não sabia bem se o motivo para isso era porque eu já havia dormido demais durante todo o domingo ou se era porque meus pensamentos insistiam em voar para Kyle a todo momento. A última vez que eu olhara no relógio para ver que horas eram, se passavam das uma e quinze da manhã. Tudo estava me impedindo de dormir; o barulho constante de carros na avenida, as luzes dos prédios, o edredom fofo e confortável em cima de mim. Tudo isso estava me tirando o sono. Contudo, não vi que horas acabei pegando no sono, apenas dormi.

Na manhã seguinte acordei me sentindo cansada e ao mesmo tempo ansiosa. Queria saber se estava tudo bem com Kyle e com seu pai. As perguntas ainda estavam me incomodando. Me incomodaram a noite toda. Por que seu pai havia feito isso?

Levanto-me da cama e escolho uma calça jeans preta para vestir junto de um suéter rosa grande e uma sapatilha da mesma cor do suéter. Vou para o banheiro e tiro minha roupa. Quando entro no chuveiro deixo a água quente e relaxante agir sobre meus músculos já tencionados. Eu ficaria muito feliz se hoje não tivesse aula, mas era a primeira aula teórica em um pouco mais de um mês de aula. Parando para pensar na quantidade de tempo que estou em Nova York me dou conta de que parece que estou vivendo aqui há muito mais tempo. Não possso acreditar em tudo o que aconteceu em apenas um mês.

Apenas saio do banho quando a água começa a ficar fria. Por não ter dormido direito, estou com olheiras debaixo dos olhos que infelizmente não conseguiram ser disfarçadas com maquiagem. Apenas faço meu habitual delineado de gatinho e passo um batom cor da boca. Prendo meu cabelo em um rabo de cavalo alto e vou para a cozinha após pegar minha bolsa preta.

Abro a geladeira a procura de algo que me chame atenção. A questão é que a geladaria está cheia de coisas gostosas que eu costumo comer: frutas em uma tigela azul como maçã, cachos de uva verde, blueberries e frutas vermelhas, há suco de laranja numa garrafa, leite, iogurte natural... Mas nada me chama atenção. Não estou com vontade de comer nada. Percebo minha indisposição para ir a aula e sei que vai ser uma manhã difícil. Mesmo não sendo acostumada a ficar sem comer de manhã, saio de casa com um guarda-chuva transparente em minha mão.

***

O céu está nublado e feio. Eu nunca fui muito de gostar do calor e eu meio que sempre odiara morar na Califórnia por causa das temperaturas, entretanto aquele céu cinzento e cheio de névoa não estava me agradando também. A garoa estava fina e ventava bastante. Não tinha dúvidas de que o outono havia chegado algumas semanas adiantado já que estávamos na segunda semana de setembro. A cidade parecia estar caótica naquela manhã. Aquela agitação toda estava me dando nos nervos, as pessoas mal-educadas me empurrando, esbarrando o ombro com força enquanto conversavam em seus celulares, os barulhos altos das buzinas dos táxis, ônibus e carros pareciam até mais altos do que o normal. Talvez fosse a noite mal dormida, mas eu já estava estressada logo pela manhã e querendo voltar para casa. O cheiro de terra molhada predominava no ar junto com as fumaças dos veículos.

Paro no mesmo semáforo em que eu fora atropelada pela bicicleta e espero debaixo do meu guarda-chuva, ouvindo as gotas de chuva caindo em cima dele.

***

Quando passo pelo portão preto da academia de ballet sinto uma vertigem tomar conta de mim. Paro de repente e me sento no banco estofado preto vazio em frente à recepção.

–Alice, você está bem?

Olho para o lado e vejo Lucas se aproximando. Ele está vestindo um suéter preto de cashmere, calça jeans azul escura e um all-star preto que me lembra o de Kyle.

Tento sorrir para o menino de cabelos castanhos que se aproxima.

–Não estou me sentindo muito bem. — digo. — Mas não deve ser nada. — acrescento olhando para meus pés.

–Você parece cansada.

–Noite mal dormida. — respondo e sorrio.

Na hora que olho para o portão aberto e preto me levanto do banco em que estava sentada. Chloé está entrando vestindo uma calça jeans roxa e um suéter branco. Seus cabelos louros estão soltos caindo nos ombros em ondas.

–Oi Chloé, como você está? — pergunto.

Ela olha para mim.

–Preciso falar com você. — é só o que ela diz.

Franzo o cenho. Ela está muito séria. Lucas parece não entender nada. Vejo Chloé entrar no banheiro feminino. Olho para Lucas que olha para mim.

–Eu... Já volto. — falo e ele concorda com a cabeça.

Ando em direção ao banheiro do outro lado da salinha e empurro a porta branca e pesada. Lá há duas pias grandes de granito branco, um espelho grande e retangular além de cinco divisórias. Alice está parada em frente a pia de granito olhando para seus pés.

–Você está bem? — pergunto me aproximando.

Ela olha para mim.

–Olha, Kyle não quis me contar se vocês transaram ou não e isso não importa muito, mas eu tenho que falar uma coisa pra você, Alice.

Sua seriedade e o modo direto com que ela começou a falar me assustam. Tento ignorar o fato de ela achar que Kyle e eu transamos, sendo que não transamos.

–Nós não... — começo.

Chloé levanta a mão e eu me calo.

–Olha Ally, — ela suspira e coloca uma mecha do cabelo loiro atrás da orelha — você tem que saber que o que aconteceu ontem não foi nada novo, entende? Você não sabe nada da história do Kyle nem dos meus tios e... Sinceramente Kyle não quer te envolver nisso, eu tenho certeza.

Meu coração dispara e ela continua.

–Você tem que saber que não é a primeira vez que isso acontece com o pai dele e o Kyle fica arrasado. Eu não vou contar mais do que isso, mas só quero falar que é bom você se afastar.

Não posso acreditar no que estou ouvindo. Mais uma vez estou ouvindo da boca de alguém para eu me afastar!

Balanço a cabeça.

–Kyle e eu...

–Olha, não é da minha conta. -ela sorri murchamente. -Mas estou falando isso pro seu bem. Não se envolve com o Kyle porque ele tem uma bagagem muito grande.

Chloé me dá um abraço e eu não consigo retribuir. Apenas fico parada encarando a parede de azulejos quadrados e brancos do banheiro silencioso.

–Você vem? — ela pergunta me soltando e olhando para mim.

Franzo o cenho e engulo em seco.

–Já vou, pode indo.

Ela assente e sorri sem mostrar os dentes.

Espero a porta ser fechada e sinto meu estômago se revirar com força. Abro uma porta cinza claro e me debruço diante de um vaso sanitario branco cheirando a pinho. Sinto um líquido amargo encher minha boca e vomito uma água transparente por meu estômago estar vazio.

***

Após passar uns dez minutos sentada ao lado do vaso sanitário, decido finalmente levantar e dar descarga. Vou até a pia e faço bochecho com água. Pego um papel e limpo a boca. Olho meu reflexo no espelho. Minhas olheiras parecem piores.

Decido fazer algo que não deveria já que eu tinha vindo até a academia. Decido ir embora sem assistir a aula. Quando saio do banheiro, todos já entraram na sala. Passo pela recepção e saio. Não me importo em abrir o guarda-chuva já que um táxi para para mim logo quando saio do prédio de pintura bege descascada.

***

Quando o táxi para em frente ao prédio de tijolos vermelhos do outro lado da cidade, meu estômago se revira ainda mais. Meu enjôo não passou nem por um momento e até houve um momento que achei que vomitaria dentro do táxi.

Pago o taxista e saio do carro amarelo. Olho para o céu cinzento e chuvoso, as gotas de chuva estão mais grossas e o meu suéter rosa não parece estar dando conta do vento gelado.

***

Quando a porta do apartamento de Kyle se abre, meu coração se despedaça. Não posso acreditar no que eatou vendo.

–O que está fazendo aqui?

Franzo o cenho. Pelo modo como está falando, sei que sim, ele está bêbado às dez da manhã.

–Eu... Vim ver se você estava melhor. — digo.

Ele dá as costas para mim mas deixa a porta aberta. Respiro fundo e entro no apartamento. Fecho a porta e dou uma olhada ao redor. Vejo que a cozinha está toda bagunçada com garrafas de cerveja vazias dentro da pia.

Kyle pega uma garrafa de vodca pela metade no balcão e olha para mim enquanto a abre. Ele está de calça jeans — a mesma de ontem — e sem camisa.

–O que aconteceu lá no hospital? — pergunto, minha voz falhando.

Ele leva a garrafa até a boca e toma dois goles grandes. Arfa e depois olha para mim.

–A Chloé não falou com você?

Franzo o cenho e tento não sentir o cheiro ruim que está no apartamento me embrulhando cada vez mais o estômago.

–Eu... Ela disse algumas coisas mas...

–Sim, eu falei para ela dizer. — Kyle se joga no sofá com a garrafa de vidro na mão. — Você não entendeu?

Mordo meu lábio inferior com força para evitar que as lágrimas saiam.

–Kyle, por que você não me dá essa garrafa... — me aproximo do sofá.

Antes que eu possa chegar perto, Kyle olha para mim e aponta com o dedo:

–Não se aproxima de mim.

Paro abruptamente surpresa com o jeito agressivo dele.

–Chloé disse que era pra você se afastar, certo? Então vai embora.

Não consigo conter as lágrimas e elas caem antes que eu possa impedí-las.

–Por que está fazendo isso comigo? Eu vim ver como você estava e...

–Eu pareço bem? — ele pergunta e dá um sorriso debochado. Eu não respondo e ele leva a garrafa de vodca até a boca mais uma vez. — Pronto, você já sabe a resposta.

Tento respirar fundo.

–Kyle...

–Vai embora! — ele grita e se levanta do sofá.

Dou um passo para trás, assustada. Ele segura meus dois braços. Seus olhos verdes fitam os meus e eu fecho os olhos tentando impedir novamente sem sucesso, que as lágrimas tornem a cair.

–Vai embora, Alice. Por favor, antes que eu acabe te machucando sem querer.

Abro os olhos e fito os seus, tão verdes como uma folha de orvalho. Suas mãos se afroxam em meus braços e ele me solta.

Saio do apartamento depressa e fecho a porta. Ouço um barulho de vidro se quebrando e desço as escadas com a visão turva.

Notas finais
#CHORANDOEMPOSIÇÃOFETAL sim ou claro? Bom, espero que tenham gostado pessoal Agora sim, até sexta-feira. amo vocês lê ♡