Notas iniciais
K Y L E
—Eu deveria ter ido atrás dela. — digo.
Estão todos tensos, mas, segundo eles, ela não pode ter ido tão longe. Sean ao meu lado suspira:
—Ela vai voltar cara, só dê um tempo a ela.
— Sim, não é a primeira vez que ela faz isso para chamar atenção.
Todos param para olhar para a mulher de cabelos louros sentada no sofá vermelho. Me pergunto como alguém pode ser tão megera daquele jeito. Eu a encaro. Como ela pode não estar preocupada com a própria filha?
—Mãe, faça-me um favor. — do meu lado, Sean diz de cara feia.
Observo a mãe da minha boneca — que não tem o mínimo da doçura dela — levantar com as mãos abertas na altura da cabeça como se estivesse se rendendo. Ela sai da sala e eu pego meu celular para tentar ligar para Alice novamente. Já se passam das oito horas da noite. Estou preocupado. O telefone toca uma,duas,três... dez vezes e cai na caixa postal. Tenho vontade de jogar o telefone do outro lado da sala. Fecho os olhos e passo a mão pelo cabelo. Estou começando a ficar louco e também não consigo ignorar o que Cecile disse sobre Alice, sobre ela ter feito algo para chamar atenção. Aproveito que eu e Sean estamos sozinhos na sala e pergunto para o cara alto:
—O que a sua mãe quis dizer com "não é a primeira vez que ela faz isso para chamar atenção"?.
Meu cunhado passa a mão pelo queixo e respira fundo antes de dizer:
—A Alice brigou feio com a minha mãe uns dois anos atrás. Eu não morava mais aqui e só fiquei sabendo porque meu pai me ligou perguntando se ela estava em Chicago comigo. Eu disse que não e peguei o primeiro voo que pude para vir pra cá. — ele dá uma pausa e depois continua. — A Alice ficou dois dias desaparecida. A gente não fazia a mínima ideia de onde ela estava. Sabíamos que ela não estava na casa de ninguém porque ela não tinha amigos na escola e nem socializava com ninguém.
Franzo o cenho.
—É. -Sean assente ao ver minha expressão. — O pessoal era bem maldoso com ela. Talvez era inveja. — ele dá de ombros. -Enfim, nós achamos ela numa casa na árvore na floresta perto da estrada para subir para cá.
Levanto-me num salto.
—Então vamos procurá-la.
Sean balança a cabeça.
—Não, eu tenho certeza de que ela não foi pra lá. Não tem mais nenhuma casa na árvore mais. Olha, acho que a gente deve esperar.
Perco a paciência.
—Esperar? E se aconteceu alguma coisa com ela? Eu não vou esperar.
Dou as costas para ele. Esperava mais dele. A sua irmã não volta para casa desde meio dia e ele não está nem um pouco preocupado?
—Cara, você nem conhece nada aqui...
—Então vem comigo. Você vai esperar dois dias?
Sinto a raiva e exasperação me tomar. Por que diabos não estão preocupados com ela? Sean olha para mim por um tempo e suspira.
—Tudo bem. Vou pegar a chave do carro.
Eu abro a porta e saio. Aquela família dela era estranha. Minha cabeça estava trabalhando com pensamentos acelerados. Eu queria vê-la, tê-la em meus braços e pedir desculpas pelo o que eu disse mais cedo. Porra, no que eu estava pensando? A mãe dela até podia ter razão. Eu não era o melhor para Alice, não tinha nada a oferecer para ela, não tinha dinheiro para lhe comprar coisas caras e levá-la a restaurantes sofisticados. Eu não falava italiano como ela, não era culto como ela. Ela era uma boneca, quase sempre se vestia como uma e eu parecia grosseiro perto dela com meu cabelo chamativo e minha tatuagem. Sim, isso tudo podia ser verdade, mas eu não ia terminar com ela. Eu era muito egoísta a ponto de querer que ela ficasse comigo, que não tinha nada a oferecer a ela. Nada além de festas em fraternidades com pessoas bêbadas. Apesar de tudo isso, eu queria encontrá-la. Queria dizer para ela que eu fora um idiota e que pegaríamos o primeiro voo para qualquer lugar que ela quisesse ir se ela não quisesse ir para a casa do meu pai em Ohio.
Pensei no que Sean dissera. Alice nunca me contara aquela história. Sim, eu sabia que ela tinha complicações com seus pais, principalmente com aquela bruxa loira da sua mãe,mas nunca pensei que ela tivesse feito algo assim. Pensar nas coisas que ela passara mais nova me dava raiva. Não gostava de imaginar ninguém sendo mau com ela. Obviamente, as garotas que foram más com ela, tinham inveja. Ela era linda, inteligente, sua inocência ás vezes era algo ruim, mas também era lindo. Como odiar ela? Ninguém teria motivos para isso. Alice era a pessoa mais doce que eu conhecia. Eu tinha que achar minha garota logo. Eu estava enlouquecendo.
Sean sai de casa com a chave do carro de seu pai e duas lanternas.
A L I C E
Eu queria chorar. Não acreditava que estava perdida no meio daquela mata. Não deveria ter ido procurar a antiga casa na árvore. Nem havia mais nada ali. O fato era que eu havia perdido a noção do tempo, mal percebera enquanto escurecia e me perdia cada vez mais da trilha.
Queria voltar para casa. Para a minha casa, em Nova York. O feriado mal tinha começado e já estava nada mais do que horrível. Achara que com Kyle aqui seria bom, melhor, mas estava enganada. Eu me sentira magoada com suas palavras. Minha mãe conseguira atingir o ponto fraco dele. Mas eu não entendia como ele podia se julgar tão ruim assim para mim. Ele não era ruim para mim. Me sentia triste com aquilo e quis ficar um tempo fora de casa, mas já estava passando mal há algumas horas por estar com sede e sem nada no estômago. Se ao menos eu tivesse trago meu celular comigo... Eu o deixara em cima da cama.
Enquanto eu descia por entre as árvores, tudo o que eu ouvia era o barulho dos meus pés amassando galhos e folhas secas no chão. Meus olhos já tinham se acostumado com a escuridão, mas eu estava com medo. Parecia que alguém me observava e eu não sabia para onde estava indo. Flashbacks passaram por minha mente do dia em que eu fugira de casa. Encontrar aquela casa na árvore fora uma sorte grande. Mais sorte ainda foi os policiais não verem a quantidade de drogas escondidas dentro de uma tábua de madeira.
Paro de andar quando ouço risadas atrás de mim. Viro-me bruscamente, meu coração martelando tão forte ao ponto de ouvir os batimentos em meus ouvidos.
—Fazia tempo que eu não te via.
Olho ao redor, não estava vendo ninguém até uma luz forte ser apontada para meu rosto. Fecho os olhos e desvio o olhar da luminosidade. Quando olho novamente, vejo um garoto moreno e alto segurando a lanterna. Eu conhecia ele. Era um dos garotos odiosos da escola que sempre pegara no meu pé. Jogava basquete e fumava maconha após os jogos.
—Quanto tempo, não? O que está fazendo no meio da floresta sozinha?
Engulo em seco.
—Isso não é da sua conta.
Ele sorri, seus dentes sempre foram muito brancos.
—Ah Alice, vamos lá. Não seja grossa. Sei que seus pais não te deram essa educação.
Fico calada e ele ilumina meu corpo com a lanterna.
—Se eu soubesse que você ia ficar tão gostosa assim, teria te fodido no ensino médio.
—Vai se foder, garoto.
Cruzo os braços e faço menção para andar. Sinto meu corpo ser empurrado com força e eu bato contra o tronco de uma árvore.
Grito e arregalo os olhos quando sinto a mão de Evan — esse era o nome dele — tapando minha boca.
Todos os meus sentidos estão ligados ao máximo.
—Fique quietinha. — ele fala com a voz baixa e desliga a lanterna. A luz da lua iluminando sutilmente algumas partes da mata. — Você vai ficar quietinha.
Tento me desvencilhar dele me pressionando contra a árvore, mas ele é muito mais forte do que eu.
—Acho que fui burro por não te dar bola na escola. — ele continua.
Me assusto quando ele rasga minha blusa revelando meu sutiã preto.
—Olha só isso, quem diria que você fosse tão gostosa.
Ele me joga no chão e sobe em cima de mim. As lágrimas começam a cair e eu grito pedindo socorro.
—Pode gritar, ninguém vai te ouvir.
Ouço o cinto dele sendo solto. Grito novamente e me debato debaixo dele enquanto ele se debruça sobre mim.
—Se você resistir vai ser melhor mesmo.
Dou uma joelhada no meio de suas pernas e ele cai pro lado gemendo. Levanto-me eufórica e saio correndo.
—Vagabunda! Eu vou te pegar.
Corro sem olhar para trás com toda a velocidade que posso.
Tropeço em alguma coisa que não vejo o que é e caio para frente. Sinto algo rasgando minha calça e minhas mãos arranharem em um galho de árvore. Ouço passos se aproximando e tento me levantar desajeitada. Eu levanto e recomeço a correr.
—Vem aqui sua vagabunda!
Não olha para trás! — penso.
Meu coração começa a se acelerar ainda mais quando vejo o farol de LED de um carro próximo dali. Quando me aproximo, posso ver que finalmente encontrei a estrada de asfalto. Uma lanterna me ilumina.
—Alice?
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