Dangerous Love

2 Separação


Notas iniciais
Aqui vai mais um pra vocês lerem amores

Algum tempo já tinha se passado desde que eu havia visto o garoto misterioso, porém, sua imagem ainda continuava gravada em minha memória, se não até mesmo com mais detalhes do que ele possuía antes.

Todos os dias de minha ainda curta e inexperiente vida de criança eu pensava nele. Sonhava com ele todas as noites. A lembrança dele estava tão incrustada em minha mente que nem por um segundo conseguia esquece-lo.

Sem que eu percebesse, meus melhores amigos se distanciavam cada vez mais de mim pela minha falta de interesse. Não comia, estudava, falava, pensava, não dormia, e quando dormia, sonhava com ele. Minha vida se resumia á uma única coisa: tentar encontra-lo de novo, de algum jeito, não importava qual.

Em minha ignorância e falta de amor pela vida e pelas pessoas que me cercavam estavam se afastando, não percebi o que estava acontecendo, e por isso não pude me prevenir do que estava por vir.

O ruim de sonhar, é que depois você sempre tem que acordar.

Era numa manhã de um dia nublado. Provavelmente iria chover mais tarde, e eu estava esparramada em um tapete rosa que meu pai havia comprado para mim na França. Eu gostava de deitar e ficar desenhando em cima dele, porque ele era muito confortável. Macio, dócil. Ás vezes me parecia que meu tapetinho rosa tinha personalidade própria. Ele era tão doce. Inocente e calado, mas mesmo assim, de algum modo, perdido em pensamentos.

Naquele exato momento estava fazendo o que mais gostava, no lugar que mais adorava: deitada no meu tapetinho, desenhando e pensando nele.

A manhã estava tão calma que era palpável. Mas o silêncio era tenso, como o mar logo antes de uma tempestade. Era como se tudo estivesse sendo armado para uma grande batalha.

E de repente, ela explodiu como milhares de gritos ensurdecedores vindos do andar de baixo. Isso sempre acontecia lá em casa, mas daquela vez era diferente. O ar parecia mais carregado que o normal, e aquilo tudo parecia ter um ar de fim. Abri a porta do quarto para ver o que era. Fui descendo as escadas lentamente.

Um degrau. Mais outro. Minhas mãos de criança acariciavam o corrimão da escadaria. Meus leves pés descalços não faziam nenhum ruído em contato com o mármore frio. Desce. Desce. Desce mais um. Sempre descendo. Nunca tendo um final que se pudesse ver.

Céus! Parecia que aquela escadaria nunca iria ter um fim. Eu estava ficando nervosa com todo o ar de mistério que estava em volta de tudo. Estava tão concentrada em não fazer barulho com os meus pezinhos que esqueci completamente do garoto pela primeira vez em meses.

Finalmente, cheguei á sala de estar. Meus passos vacilavam á cada pisada que fazia no chão imponente. Eles eram abafados pelos gritos cortantes vindos da cozinha.

Aquela jornada toda parecia ter durado um século, mas eu sabia que haviam sido alguns segundos apenas. Agora tudo estava parado e á espera de algo muito grande. Fiquei olhando no vão da porta uma mulher e um homem discutindo. Estavam tão concentrados em seus pequenos discursos que nem notaram a garota petrificada e paralisada que era eu.

- Onde você estava noite passada Fernando?

- Já disse sua surda! Numa reunião de negócios!

O homem estava com uma expressão um tanto quanto raivosa no rosto. A face e o pescoço estavam rubros, fazendo-o parecer quase que um monstro. A pele esticava-se sobre os ossos, e os olhos pareciam saltados das órbitas, eram pura chama.

- Ah sim, é sempre essa mesma desculpa não é? – A mulher parecia que ia ter um ataque. Estava quase á beira das lágrimas, mas segurava-se. Todos que a olhassem, porém, saberiam que estava tão frágil quanto papel. A qualquer momento poderia-se rasga-la e estilhaça-la, fazendo com que nunca mais voltasse a ser o que era antes.

- Você sabe que eu trabalho muito para sustentar essa família Jessica!

- Trabalha tanto que ocupa seu tempo com passeios sozinho á Itália, França e Espanha, certo? – Agora as lágrimas desapareceram de seu rosto completamente, deixando em seu lugar um sorriso sarcástico de canto de lábios, que logo se espalhou e tomou toda sua expressão.

- Eu viajo á negócios, e você sabe muito bem disso!

- Essa é a sua última chance de me dizer a verdade homem!

- Mas eu já disse!

- EU VI VOCÊ COM OUTRA MULHER SEU IDIOTA! – Agora os papéis pareciam haver se invertido. A mulher raivosa e o homem perplexo. Ele parecia completamente sem palavras agora.

- Você viu o que? – Perguntou ainda meio fraco.

-Você. E ela jantando no Gourmet. – Ela falava isso como se estivesse apenas relatando os fatos, sem nenhuma expressão no rosto. Apenas um pouco de raiva e dureza eram perceptíveis sob todas aquelas máscaras que usava. Eu estava muito chocada, e mesmo com aquela idade e sendo superprotegida do mundo pude perceber o que estava acontecendo.

Depois de uma pausa, os dois se encararam. Se olharam acho que como se fosse a primeira vez. E não enxergaram nada além do que realmente eram. Uma mulher e um homem, apenas isso e mais nada. Talvez aquele fosse o momento mais sincero entre os dois, e esse momento era o do adeus. A mulher olhava-o nos olhos, e fitando-o disse:

- Você me humilhou diante de toda a sociedade. Por muito tempo quando saía com minhas amigas e ia embora, sabia que estavam falando de mim, mas não sabia o porque. E agora eu sei, e não te perdoarei. — Ele olhou para baixo.

Acho que aquele foi o primeiro momento de minha vida que não me senti como uma criança. Me senti grande, muito grande. E não gostei nada daquilo. Ser grande não é como todo mundo pensa. Ser grande não é ser independente ou ter a liberdade de fazer o que quiser. Ser grande é fazer a coisa certa, mesmo que isso implique em acabar com a sua liberdade para que os outros pudessem ser felizes, não importa o que aconteça depois ou o que aconteceu antes. E pela primeira vez eu tive a imensa constatação dentro de mim que eu queria ser uma criança para sempre.

Diante de uma cena que jamais seria capaz de esquecer, não importava o tempo que passasse. Aquilo ficaria para sempre dentro de mim. E eu ficaria para sempre dentro daquilo. Apenas como uma expectadora invisível dentro de tudo aquilo.

- Sinto muito. – Ele disse com os olhos abaixados. Não, ele não sentia. E tanto eu quanto a mulher sabíamos. Ela assentiu firmemente com a cabeça.

- Sentir não significa nada. É apenas algo conveniente á nós quando estamos muito cansados de demonstrar a verdade.

Olharam-se mais um pouco. Havia falta de algo entre eles, eu não sabia ao certo o que era ainda... Tentava ao máximo descobrir o que, mas não conseguia. E a falta dessa coisa me enojava muito.

Até que ao mesmo tempo em que a palavra certa me surgiu, passei mal ali mesmo, na frente dos dois. Que mal notaram o que me acontecera. Estavam muito preocupados consigo mesmos para notar qualquer coisa que não os envolvesse.

- Mandarei meu advogado cuidar disso. Os papeis estarão na sua mesa amanhã de manhã. – E ele saiu da cozinha sem dizer mais nenhuma palavra. A mulher ficou mais um pouco ali, provavelmente digerindo o que acontecera. Sentou-se numa cadeira e fitou a janela da cozinha, que dava para as colinas. Depois se virou para mim e disse num tom baixo:

- Viu tudo o que queria? – Sorria sarcasticamente. Se virou e também saiu. Á caminho da porta ainda falou sem se virar, num tom baixo, quase que ininteligível, mesmo no estado de absoluto silêncio que havia no aposento — Mande alguém limpar isto.

E foi embora, deixando ali apenas uma garotinha muito confusa, com medo do que seria daquele ponto em diante. Encontrava-se no meio de uma enorme encruzilhada sem placas que apontassem o caminho certo á que escolher. A mulher via ali apenas uma criança, mas sem saber por dentro aquela garotinha por causa dela agora era muito mais do que só isso.

Algum tempo depois daquilo, ouvi um barulho vindo da escada. Parecia ser uma mala tentando ser empurrada para o andar de baixo. As rodas faziam um som engraçado em contato com os degraus. Depois quando sessou, outro ruído se fez presente, mas dessa vez, pude reconhecer o motor do carro de meu pai saindo da garagem.

Ainda estava pintando o mesmo desenho de antes, mas por alguma estranha razão, não era capaz de termina-lo. “Sentir não significa nada. É apenas algo conveniente á nós quando estamos muito cansados de demonstrar a verdade.” Fiquei com raiva. Risquei tudo e depois escrevi em letra maiúscula: “de que nos serve ter sentimentos?” Depois rasguei o papel em mil pedacinhos e os joguei pela janela do quarto.

A imagem de meus pais ficava se infiltrando na minha cabeça de um jeito insuportável. Meu pai com cara de monstro. Minha mãe á beira das lágrimas. Meu pai perplexo. Minha mãe com raiva. Os dois se encarando. Minha mãe cuspindo as palavras para meu pai. O jeito como os dois pareciam não se importar se estavam separados ou juntos. Para eles aquilo era apenas conveniente. Era isso que me deu nojo e me fez vomitar.

Tudo aquilo me deu uma dor enorme no peito, e minha garganta fechou completamente. Fiquei sem ar, e não conseguia respirar. Olhei para meu tapetinho, dado para mim por meu pai. Depois olhei para meus bichinhos que estavam em cima dele. Mas o estranho era que não conseguia ver nada. Estava tudo embaçado. Até que não aguentei mais e comecei á chorar, como eu nunca tinha chorado antes. Talvez, porque nunca havia sentido tanto antes.

Queria ser abraçada, mas por quem? Escancarei a porta do quarto e corri para o quarto dos meus pais. Tudo passava por mim como um borrão, e mal notei quando passei por um porta retrato que se partiu.

A porta estava entreaberta. Abri-a com força e me lancei como uma flecha para dentro.

- Mamãe! – Gritei. Soluçava tanto que a única palavra me veio com dificuldade. Gritei de novo com mais força. – Mamãe!

Ouvi um soluçar vindo do banheiro. Fui rapidamente até a porta, mas parei na entrada. “E se ela não me quiser lá dentro?” pensei, com um pouco de medo. Não. Ela estava tão sozinha quanto eu, e certamente precisava de um abraço de conforto, mesmo sendo da pessoa que ela mais odiava na face da Terra. Entrei.

A cena que vi ao penetrar o aposento era triste. Uma estatua de mármore estava sentada no vaso sanitário, e por um momento pensei que aquela não fosse minha mãe. Desde quando ela era capaz de sentir alguma coisa, e muito mais chorar?

- Mamãe, você está bem? – Perguntei preocupada. Eu queria consolo, mas quem precisava mesmo dele era minha mãe. Ela era tão frágil por baixo daquela carapaça em que ela se escondia! Ela olhou para mim, não, ela me encarou, de um jeito mortífero.

- O que você quer garota? Tudo o que você quiser pode pedir para Rita, nossa empregada. Ela fará tudo o que você quiser.

- Mamãe, você está bem? – Repeti.

- Não, mas eu não preciso da ajuda de alguém para me recuperar, agora saia!

- Mamãe, eu só queria...

- Saia!

Ela me pegou pela orelha e me puxou até o corredor da casa. Depois, fechou a porta com força na minha frente. Olhei para a porta, que a meu ver parecia ser maior do que de costume, e ainda de frente para ela murmurei:

- Mamãe?

Sem nenhuma resposta vinda de dentro, fui andando lentamente até o meu quarto, até que senti meus pequenos pés pisarem em alguma coisa cortante e gélida. Olhei para baixo e vi sangue.

Pequenos cacos de vidro estavam espalhados por todo o corredor, e eu havia pisado em um. Em minha euforia para ajudar minha mãe, havia derrubado um objeto, que agora reconhecia como um porta-retratos. Dentro, uma fotografia com toda a nossa família. Minha mãe, meu pai, meu irmão e eu. Pensei em como era irônico como a nossa família estava igual á ele. Quebrada, para sempre sem ser capaz de se refazer do choque que sofrera.

Tudo aquilo era por causa do garoto. Se não fosse por ele eu seria capaz de salvar mina família do desastre. Eu era a culpada. Não. Ele era. Fiquei tão distraída com ele que não me preocupei com nada que estava acontecendo. E poderia ter prevenido isso. E a culpa é toda dele.

Naquele momento jurei para mim mesma que nunca mais pensaria naquele garoto de novo. E se algum dia eu o visse, o mataria instantaneamente.

Mas o destino parece estar sempre disposto á nos pregar uma peça. Nada é como a gente gostaria que fosse, mas sempre tentamos fazer o melhor com o que é nos dado.

Notas finais
Reviews?