Dangerous
1 Surprise
Notas iniciais
“É impossível” pensava, “como ela pôde se contentar com uma imitação?” Era tudo que Sherlock conseguia pensar, jogado em sua cama na velha e acolhedora Baker Street. Molly Hooper fora apaixonada por ele durante todos aqueles anos, ele sempre soube, e quando ele pensou em se deixar levar, o mínimo que fosse, ela estava noiva. Ele não pretendia viver um amor ou devolver toda a paixão que ela sempre sentira, mas talvez daria-a mais atenção. Talvez tentaria se relacionar mais carinhosamente e talvez eles pudessem fazer sexo. “Eu não quero fazer sexo.” Era o que passava pela mente do moreno naquele momento. “Não vejo graça alguma nessa prática.” Confirmou, encarando o seu próprio teto.
– Sherlock? – Era a voz de John.
A mente de Sherlock iluminou-se ao ouvir a voz de John. Talvez ele tivesse um caso. Algo de interessante para fazer. Algo antes de se casar, deixar o bigode crescer novamente e tornar-se um idoso chato. Ouviu batidas na porta e se levantou da cama, com um pulo teatral. “Estou indo.” Gritou, enquanto vestia uma camisa. Mal tinha acordado e seu melhor amigo já estava ali, pronto para incomodá-lo logo cedo, como nos velhos tempos... Tirando o fato de que agora, John não morava mais em Baker Street.
– Acabou de acordar? – Gargalhava o mais baixo enquanto encarava a cara de poucos amigos de Sherlock.
Como se não tivesse sempre cara de poucos amigos... Mas John o conhecia. Sem precisar de dedução. Sabia que Sherlock estivera na cama a manhã inteira, porque sabia. No entanto, Sherlock já analisava seu amigo, fazendo deduções em cima de suas roupas e da forma em que ele estava arrumado. Sexo na noite passada, Mary é uma mulher caprichosa, John estava preparado para uma viagem de fim de semana.
– Onde vai passar o fim de semana dos sonhos com Mary? – Perguntou simplesmente, deixando escapar um sorrisinho irritante.
– Como você... Oh, esqueça. – John balançou a cabeça. – Na verdade não será um fim de semana dos sonhos. Apenas um intervalo dessa loucura toda. E você está intimado...
– Nem pense nisso, doutor... – Gargalha o mais alto. – Tenho tantas coisas para fazer...
– Mary te arrastaria. – John revirou os olhos. – Você sabe o quanto ela gosta de você e ela já alugou os quartos.
– Tenho alguma escapatória?
– Se uma pista de última hora pular em cima de você, talvez se safe. – John deu um sorriso brilhante. – Saímos em cinco minutos. Sra. Hudson já arrumou suas coisas.
O doutor deixou o detetive sozinho e perplexo, parado no centro da sala. Não deu tempo de xingar, sentir raiva ou procurar um jornal e desesperadamente caçar qualquer crime idiota que ele pudesse transformar em um caso em potencial. Só havia tempo para trocar de roupa. E só.
“John, você ainda me paga...” Caminhou até o quarto resmungando. Passar um fim de semana observando seu melhor amigo agarrando a noiva. Isso não fazia o mínimo sentido para Sherlock. Mas John e Mary já sabiam o que fazer por ele. Sabiam que Sherlock havia passado parte da última semana tocando seu violino. Um pouco confuso e perdido ao fato de que Molly tinha – de fato – desistido de conquista-lo. Ela havia passado tantos anos cercando-o... E não é como se o detetive nunca tivesse notado. Ele notava. Ele sorria internamente quando notava seu batom ou seu penteado diferente; mas ele sempre cometia o erro de comentar. De ser um babaca aparecido. De sempre fazê-la se sentir mal, quando deduzia os sentimentos dela e tudo levava até ele. Agora não era a mesma Molly, a Hooper apaixonada por Sherlock. Agora era só Molly Hooper. Molly Hooper noiva. Noiva de um cara que se vestia igual à ele. Isso o irritava. “Como ela pode se contentar com uma imitação?” O detetive se perguntava pela milésima vez, enquanto vestia-se da forma mais casual possível, não havia nada de interessante naquele fim de semana.
Dirigiu-se até o carro parado na porta do 221B, sorriu brevemente para Mary e revirou os olhos para John, sentado ao lado dela. Sra Hudson segurava a mala de Sherlock e entregou-o, enquanto batia no ombro do detetive e sorria. “Tenham um bom fim de semana, crianças.”
“Crianças...” Holmes entrou dentro do carro, balançando a cabeça negativamente enquanto resmungava. “Ela nos chama de crianças.”
– Bom dia, detetive do chapéu. – A loira extremamente gentil sorriu para o homem incrivelmente alto e alvo no banco de trás.
Sherlock sentiu algo diferente no olhar dela. "Ela e John estão armando algo." Assim que essas palavras voaram pela mente do Holmes, John sussurrou algo no ouvido da noiva. Ela sorriu e não voltou a encará-lo.
– Segredos. – Se afundou no banco de trás. – Estão tentando esconder algo de mim...
– Cale essa boca. – John respondeu-o. – Você saberá mais rápido do que imagina.
– Não acredito que estão fazendo isso! O que acham que vai acontecer?
– Só achamos que você precisa se acostumar com o Tom antes do casamento. – John parecia ter vontade de gargalhar. – Eu não quero confusões no meu casamento, Sherlock.
– O que eu poderia fazer? – Assobiou o detetive, tentando parecer inocente. – Porra John, ele é apenas um imitador.
– E isso te irrita. Molly desistiu de você por um imitador. – Mary cantarolou, sem olhá-lo.
John sabia que Sherlock nesse momento estaria se controlando para não demonstrar a frustração que sentia com as palavras de Mary, mas sabia que ele sentia. Ele realmente sentia. Não havia outro motivo para passar horas e horas tocando violino como havia passado recentemente. John o conhecia muito bem e tinha certeza de que o amigo estava frustrado. Calaram-se durante todo o caminho.
E lá estava o casal, quando os três chegaram à pousada, algumas horas depois. Haviam permanecido em silêncio — incrivelmente — durante todo o caminho, Sherlock muito contrariado e pensativo, enquanto o casal do banco da frente apenas trocava olhares e imaginava se não estavam fazendo algo errado.
Quando o detetive pôs os olhos em Tom, teve vontade de vomitar. As roupas eram praticamente idênticas as suas próprias. Era ultrajante. A única coisa que mudava, era a cor da camiseta por baixo do casaco e o estado de suas roupas e sapatos. As de Tom eram mais antigas, principalmente o sapato. Apenas o casaco, idêntico a todos os do detetive, estava intacto e parecia até novo. “Presente...” Deduziu com um rápido olhar. "Ela deu-o um casaco exatamente igual ao meu!" Quando deduziu isso, o Sr. Holmes ficou ao mesmo tempo enojado e surpreso. Enojado por saber que Tom não se importava nem um pouco em se vestir como ele, mas por um momento, parou para pensar na forma com que Molly havia presenteado o próprio noivo com algo que a lembrava dele. Então se sentiu surpreso; ela jamais o superara, enfim. Sherlock desceu do carro com um sorriso convencido e quinze ideias diferentes de como tornar o fim de semana mais interessante.
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