Dangerous
18 Go Get Your Shovel
Notas iniciais
— Preciso que assine isso para mim. — Sherlock colocou um número considerável de papéis em cima da mesa de centro. — Na última página, no primeiro espaço.
Molly folheou as páginas. Se sentia cansada demais para ler todas aquelas páginas.
— Você vai me dizer o que são? — Ergueu os olhos para ele.
O detetive estava parado, as mãos na cintura e um olhar bastante sério.
— Apenas assine, Molly. — Revirou os olhos. — São só estúpidos documentos.
— Vou confiar em você dessa vez. — Pegou uma das canetas em cima da mesa e procurou o campo certo onde devia assinar. — Mas apenas porque meu filho está morrendo de fome...
— Nosso filho ainda não foi formado, Molly. — Ele revirou os olhos de novo, mas agora com um sorriso no rosto. — Não o culpe pela sua fome.
Ele havia dito "nosso filho" pela primeira vez. Tinha uma semana que Molly estava em Baker Street e essa era uma das primeiras vezes que ele falava algo relativamente carinhoso sobre o bebê — pelo menos quando sabia que Molly estava ouvindo.
— Pronto. — Entregou-o os documentos. — Preciso trocar de roupa e...
— Ótimo. Me deixe assinar aqui... — Apoiou-se na parede e assinou logo abaixo da assinatura de Molly. — Agora estamos casados.
Deu as costas e abriu a porta. Molly permaneceu na mesma posição. Olhando-o incrédula, com as feições congeladas. Não acreditava no que seus ouvidos tinham ouvido. Quando percebeu que ele estava dando as costas e saindo do apartamento, Molly segurou-o pelo casaco e puxou-o para perto.
— Você está louco? Você não pode nos casar dessa forma... — Respirou fundo, fazia tempo que não se sentia tão nervosa daquele jeito. — Você não pode simplesmente chegar aqui e me fazer assinar documentos de união estável como se fossem estúpidos documentos.
— Eu já fiz isso, Molly. — Sorriu. — Agora preciso ir ao cartório e...
— Me dê esses papéis! — Ela disse, sem soltá-lo. O detetive tinha um sorriso cínico em seus lábios. Era delicioso vê-la nervosa. — Você não pode me casar com você sem saber se eu quero me casar com você!
— Você está morando comigo. Está carregando meu filho. Está sendo protegida por mim e por Mycroft... — Ele revirou os olhos. — Por qual motivo você não iria querer uma união estável?
— Por... Simplesmente não querer? — Ela riu, sentindo-se ainda mais nervosa que antes. — Você não pode me induzir à me casar contra minha vontade...
— Molly... Ou prefere que eu te chame de Sra. Holmes? — Ele deixou uma gargalhada escapar de seus lábios e se arrependeu logo em seguida.
Molly soltou-o e se afastou. Estava mais nervosa do que nunca. Ele não podia jogar com os sentimentos e com a situação dela agora. Quando ela pensava que estava sendo bem tratada e respeitada, ele estava obrigando-a a assinar um documento de união estável... Aquele imbecil nunca iria mudar?
— Eu só... Você sabe que eu posso simplesmente nunca mais voltar de um caso. — Revirou os olhos, se aproximando dela com cuidado. — Sabe que posso levar um tiro e não voltar mais para casa... Eu só quero garantir que meu filho tenha algo no futuro, Molls.
Era a primeira vez que ele chamava-a daquele apelido. Ela sentiu as bochechas formigarem e algo dentro de si derreter. Aquele homem era simplesmente impossível.
— Eu me preocupo com vocês. Eu quero que não fique de mãos abanando se algo acontecer...
— Nada vai acontecer! — Ela interrompeu-o. — Pare de dizer essas coisas! Você é Sherlock Holmes... Você é conhecido por ser imortal.
— Mas agora é diferente. — Ele pareceu sinceramente... Preocupado? Sherlock parecia preocupado. Molly ficou ainda mais confusa. — Agora eu tenho uma família e essa foi a única forma que eu encontrei de protegê-los... Você sabe, no caso da imortalidade falhar...
Ela ficou em silêncio. Por que ele tinha de ser tão imbecil e ao mesmo tempo tão maravilhoso? Fazê-la assinar documentos sem saber o que eram e logo depois dizer coisas como aquelas? Como ele conseguia?
— Me desculpe, Molly. A gente pode fingir que isso não aconteceu. É só segurança. — Ele sorriu. — Não precisa me tratar como marido, nem se sentir na obrigação de agir como uma esposa. Apenas sinta-se completamente protegida.
Molly não soube dizer nada. Apenas se aproximou novamente e passou os braços envolta dele. Naquele momento, Sherlock estava sorrindo, mas Molly Hooper nunca saberia disso. Ele retribuiu o abraço por alguns segundos e depois os dois se separaram. Molly deu-o as costas e começou à caminhar na direção do quarto.
Ele queria abraçá-la de novo, mas apenas observou-a caminhando. A forma como ela balançava os quadris para lá e para cá — rebolando de forma sedutora — deixava-o louco. Ela sabia disso. Por isso continuava fazendo aquilo.
— Vou me trocar. Podemos almoçar fora hoje? — Ela gritou, de dentro do quarto. — Comemorar nosso pseudo-casamento?
— Pode ser... — Ele gritou e ajeitou o casaco, passando pela porta.
"Seu desejo é e sempre será uma ordem, Sra. Holmes..." Ele sussurrou enquanto descia as escadas e tentava pegar um táxi.
—
Quatro meses depois dos documentos serem assinados, os dois se encontravam dentro de um quarto privado no Hospital Barts. Molly já estava acordada, apesar de não saber ao certo há quanto tempo. Sherlock estava ali, ao seu lado. Com um aperto bastante fraco em sua mão. Os dedos entrelaçados, tentando passá-la o máximo de conforto. Era inútil.
Nenhum dos dois via esperança naquele momento. Ambos sabiam que o bebê não era planejado, mas eles o esperavam. Eles o queriam, imediatamente o amaram. Aquilo doía tanto. Molly queria poder desligar todas aquelas emoções e esquecer de tudo o que havia passado.
If it's not real
You can't hold it in your hands
You can't feel it with your heart
And I won't believe it
But if it's true
You can see it with your eyes
Oh, even in the dark
And that's where I want to be, yeah
Os olhares se encontraram. Castanhos nos verdes. Molly sentiu as lágrimas virem em fração de segundos... Ela já tinha uma imagem perfeita. Uma criança linda correndo entre eles. Cabelos cacheados, como um anjo... E aqueles olhos. Ela queria tanto que seu filho tivesse aqueles olhos. Deixou que as lágrimas corressem livres, não tinha mais motivo de esconder sua dor de Sherlock. Estava exposta. Não apenas exposta. Estavam dividindo-a.
Ele levantou-se da poltrona e secou as lágrimas da legista. Se aproximou com cuidado e beijou-a. Não um beijo apaixonado ou desesperado. Apenas juntou seus lábios e ficou ali por um segundo. Ela sentiu a sensação doce de ser beijada por ele... Aquilo parecia apenas ficar melhor com o tempo. Então ele se afastou e tentou dar um sorriso. Não deu muito certo.
— Você vai ficar bem. Vai ter outros filhos. — Foi tudo o que ele conseguiu dizer, de ínicio.
— Mas e se... E se eu não... — Ela não conseguiu completar a frase.
Tinha medo de não poder — nunca mais — ter outro filho. Aquilo a asombrara desde o momento em que percebeu que estava perdendo seu bebê. Será que havia pesadelo maior para uma mulher do que saber que nunca poderia ter filhos?
— Você pode ter filhos, Molls. — Ele sabia quais eram os medos da mulher que convivera os últimos quatro meses dentro de sua casa. Sabia lê-la de uma forma incrível. — Nós vamos ter outros filhos. É uma promessa.
— Nós? — As lágrimas voltaram à molhar o rosto da castanha. — Você disse nós?
— Fique calada. — Ele sussurrou, aproximando-se dela. — Eu vou estar aqui. E eu vou estar segurando sua mão. E o sofrimento vai ir embora. Eu prometo.
So one day, he found her crying
Coiled up on the dirty ground
Her prince finally came to save her
And the rest you can figure out
Então beijou-a de novo. Ela não podia reclamar. A dor dentro de si era enorme, era — com toda certeza — inesquecível. O pequeno Holmes era algo grande e importante entre eles... Mas agora ela se sentia cega. Mas o beijo dele a guiava. Eles iam conseguir. Juntos.
—
— Eu estou ao seu lado. — Ele disse, pela milésima vez naquela semana. — Nós podemos fazer isso.
A última semana havia sido um inferno completo. 221b lembrava-os de tudo relacionado ao bebê. O antigo quarto de John era algo proíbido de citar, mas resolveram que entrariam lá. Precisavam enfrentar isso. Precisavam se desfazer dos pertences do bebê. Precisavam aceitar que ele não viria mais.
Mad sounds in your ears make you feel alright
They’ll bring you back to life
Nós últimos dias, tudo o que o casal havia feito se resumia em: sentar-se no sofá enquanto ele tocava violino. Era sempre a mesma melodia — aquela que escrevera depois de observá-la dormir. Molly sempre se desfazia em lágrimas e ele deixava o violino de lado para confortá-la. E os dois terminavam as noites ali. Mal comiam, mal falavam de outra coisa, não aceitavam qualquer visita ou contato com pessoas de fora. Estavam vivendo em sua bolha, vivendo em seu luto. E ninguém poderia tirá-los dessa situação, apenas eles podiam.
"Eu não consegui..." Ela soluçava e dizia baixinho enquanto ele tocava. "Eu não consegui te dar um filho." Sherlock sabia imediatamente que devia parar. Na maioria do tempo, a canção fazia-a sorrir, anestesiava e embalava-a direto ao sono profundo, mas às vezes só trazia mais e mais dor.
— Molly. — Ele abraçou-a e recebeu-a em seu peito enquanto ela se aninhava. — Nada disso é culpa sua...
— Nós seríamos felizes... — Ela sussurrou.
Ele não aguentava aquilo. Não conseguia mais vê-la se culpando por tudo o que havia acontecido. A culpa era do infeliz psicopata que havia sido noivo dela. Aquele imbecil que havia deixado-a à mercê de uma cobra venenosa e depois aterrorizado-a a ponto de perder o bebê. Ela não tinha culpa de nada.
— Você não tem culpa de nada, Molls... — Ele sussurrou, enquanto beijava o topo da cabeça dela.
— Por que... — Ela levantou-se e encarou o homem à sua frente. — Por que está fazendo isso por mim?
Viu enquanto as feições dele desmoronaram. Aquele homem forte e consolador à sua frente não existia mais. Diante daquela pergunta, a máscara caiu. Ele não conseguia mais fingir.
— Eu não estou fazendo nada por você, Molly. — Ele disse, enquanto ela observava as lágrimas aparecendo nos olhos dele. — Eu estou fazendo isso unicamente por mim.
Ela não sabia entender o que ele queria dizer, mas sabia que agora sim estava vendo a verdadeira reação de Sherlock por ter perdido seu filho. Via mais desespero em seus olhos do que jamais vira — mais até do que na noite em que assistiu-a gritar e agonizar de dor quando perdera o pequeno Holmes.
— Eu me abri para ele, Molly. Me abri para nosso filho. — Uma lágrima teimosa rolou pelo rosto dele. Molly não conseguia segurar, já estava chorando de novo. — Eu me abri para ele e me abri para você. E então tudo isso aconteceu...
Ele agora estava em pedaços. E o dever dela era estar lá por ele, como ele sempre estivera por ela. Teria que consolar seu consolador. Ser o anjo de seu anjo. Aquilo demandava esforço, mas era o que ele vinha fazendo nos últimos dias. Então ela vestiu a máscara de forte e puxou-o para perto. Com aquele movimento, ele deixou o corpo pesar sobre o dela e se soltou. Todo o sofrimento veio em segundos. Ele abraçou-a com força e soluçou enquanto chorava. Aquilo cortava o coração de Molly, mas dentro de sua mente ela entoava "continue forte" enquanto queria desabar junto com ele.
— Eu perdi meu filho... — Ele sussurrou, entre soluços. — E estou fazendo isso por mim, porque eu sei que não suportaria um dia se também perdesse você.
Molly sentia-o abraçá-la com força. Ter que confortá-lo com tanta dor dentro de si pesava sobre ela. Mas ele havia feito isso por ela. Ela precisava retribuir. Tinha que ser forte. Sentiu quando ele desfez o abraço lentamente e deitou-se em seu colo. Suas mãos automaticamente se esconderam entre os cachos de Sherlock. Queria poder tirar aquela dor de dentro dele.
— Você nunca vai me perder. — Ela sussurrou.
— Aqueles estúpidos documentos... — Ele começou, Molly sabia onde ele queria chegar. — Nós assinamos aqueles documentos sem qualquer sentimentalismo. Não havia sentimentalismo, mas haviam os documentos. Nós assinamos...
Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Ainda encontrando conforto no colo e no carinho de Molly Hooper. Aquilo funcionava tão bem... Por qual motivo ele havia negado-a por tantos anos?
— "Perder um filho deixa os casais mais propensos à separação." — Ele citou. — Eu não quero separação, Molly. Eu quero ser seu marido. Não quero que você vá embora.
Ela não conseguia processar direito o que ouvia. Ele tinha realmente dito "eu quero ser seu marido"? Aquilo parecia mentira. Ela sentia-se bastante anestesiada enquanto ele sussurrava e soluçava em seu colo.
— Molly... Eu estou com medo. — Ele se levantou e encarou-a.— Eu nunca senti isso antes. Eu juro que nunca senti isso antes. Não quero ficar sozinho Molly... Eu prometo...
Respirou fundo. Molly não conseguia respirar, tinha esquecido daquele processo complicado. "Deixe o ar entrar, deixe-o sair..." Ela dizia para si mesma, dentro de sua cabeça.
— Eu prometo que vou te dar outros filhos. — Colocou as duas mãos na frente do rosto, como se estivesse fazendo uma oração. — Quantos filhos você quiser... Prometo que vou te fazer mais feliz do que nunca. Só não se separe de mim... Por favor.
— Eu não estou indo à lugar nenhum, Sherlock.
— Molly... — Ele respirou fundo.
A expressão em seus olhos cada vez mais assustada. Ele parecia ter acabado de deduzir algo muito importante. O fechamento de um caso complicado que ele havia pensado e pensado por semanas. Então ele sorriu.
— Você ainda me ama, Molly? — Ele perguntou. Seus olhos brilhando enquanto encarava a legista.
— Eu sempre te amei. — Ela respondeu sinceramente. — Isso é real. Eu nunca vou deixar de te amar, Sherlock.
— Eu acho que eu também te amo. — Ele parecia pensativo. — Isso nunca tinha passado pela minha cabeça. Não dessa forma... Mas eu tenho certeza agora. Eu não consigo pensar no que eu faria se você caminhasse por aquela porta e não voltasse mais. Eu não consigo controlar meu ódio se pensar que alguém pode machucá-la. Eu quero fazer todas as coisas ao meu alcance para mantê-la por perto. Vou te dar filhos, vou te fazer feliz, vou fazer tudo o que quiser... Se você ficar ao meu lado. Eu não sabia que podia chamar isso de...
— Amor? — Ela perguntou. Um sorriso aparecendo em seu rosto depois de tantos dias de lágrimas. — Você não sabia que podia chamar isso de amor?
— Você me mudou de tantas formas... — Ele sorriu. — E eu sinceramente sinto raiva por isso. Você me obrigou à abrir as portas para você, e agora eu estou aqui. Completamente vulnerável e sensível. Eu a amo tanto e eu não sei se posso lidar com outra perda.
Molly simplesmente não sabia o que dizer. Abraçou-o apertado e sentiu-se completa. Eles superariam aquilo. Juntos.
— Vou te fazer feliz. — Ele sussurrou, ainda abraçado à ela. — Você nunca vai querer ir embora...
— Eu nunca iria embora. — Ela riu. Ele era tão ingênuo.
Então, pela primeira vez naquela semana, os dois levantaram-se do sofá e saíram. Precisavam respirar e lutar para superar. Um dia aquela dor teria que ser deixada para trás. Eles seriam o anjo da guarda um do outro. Tudo daria certo.
Mas agora, parados em frente à porta do antigo quarto do bebê, eles não se sentiam mais tão seguros. Molly queria recuar e sair dali. Deixar aquele quarto trancado para sempre... Mas Sherlock sentiu aquela insegurança. Segurou a mão dela com mais força e abriu a porta.
Os sentimentos vieram tão rápido quanto da primeira vez que visitaram aquele quarto. Mas dessa vez, no lugar da alegria e da surpresa, havia apenas dor. Molly passava a mão com cuidado sob a madeira do berço, enquanto Sherlock observava os objetos e sapatinhos de bebê em cima da cômoda.
Well, go get your shovel
And we'll dig a deep hole
To bury the castle, bury the castle
Os dois trocaram um olhar significativo, mas não havia dor ou pena. Havia raiva. Muita raiva de qualquer entidade ou força chamada destino. Raiva de quem quer que fosse que havia tirado aquela criança dos braços dos dois. Agora eles eram órfãos. E eles sentiam raiva por isso. Como se fosse programado, exatamente no mesmo momento, Molly derrubava os objetos de cima da cômoda, enquanto Sherlock arrancava os enfeites colocados em cima do berço.
Tiveram um grande ataque de raiva. Os sabonetes, shampoos, sapatos, roupas e até o próprio berço estavam no chão em poucos minutos. Os dois destruíram tudo. Precisavam tirar aquele ódio de dentro deles, precisavam deixar aquilo enterrado para que pudessem seguir em frente, aquela era a única forma.
Depois de destruir tudo que estava ao alcance das mãos do casal, se encararam de novo. Procuraram pelo olhar um do outro como se precisassem daquilo mais do que qualquer coisa. E precisavam. Se aproximaram e se abraçaram com força, e sem palavra alguma, Molly desabou em lágrimas mais uma vez. Nunca algo havia ferido-a tanto de dentro pra fora. "Nós vamos ficar bem." Ele sussurrou mais uma vez, enquanto os dois saíam do quarto e tentavam superar aquilo. "Juntos nós vamos ficar bem." Ela respondeu, depositando um beijo na bochecha do marido e pensando numa maneira de seguir em frente.
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