Capitulo 11 – Reviravolta

Via as luzes da sirene na janela do banheiro, estava em cima do vaso sanitário espiando pela janelinha. Seu pai estava na maca e parecia desacordado, ela só queria que ele não estivesse morto. Não havia nem sinal da policia, ela estava com medo do que viesse á ocorrer depois desse ataque. Desceu do vaso e contou até dez para se acalmar. Lembrou-se da ótima tarde isolada que teve, aquele não poderia ser o gran finale. Ouviu passos na escada e sentiu que eles se aproximavam do banheiro, estremeceu se perguntando quem seria.

– Abre a porta Lira – falou a voz que era estranhamente reconhecida – sou eu, o Vergan, abre meu anjo.

Lira saltou e correu até a porta, abriu e puxou o garoto pra dentro e trancou de novo a porta. Olhou desesperada dentro de seus olhos castanhos e protetores, ficaram se olhando por alguns segundos sem ter oque dizer. Ele olhava com desapontamento, com sorriso torto. Lira não resistiu abraçou o amigo com força, ela estava hiperventilando, com os olhos arregalados, ela não queria solta-lo. Agarrou-se com força e sentia o calor da pele do menino negro e alto que estava ali. Ele retribuiu o abraço carinhosamente, não desesperado como Lira. Como ele podia não ter medo dela? Essa menina louca acabou de esfaquear o próprio pai.

Vergan dava tapinhas tranquilizantes nas costas de Lira. A menina soltou-se do amigo e voltou pra sua posição fetal do lado da pia. Vergan levou a mão esquerda até a nuca, e colocou a direita na cintura, respirou fundo e se sentou no chão próximo a menina.

– Lira me diz – ele perguntou segurando uma das mãos da garota e olhando fixo e seriamente para ela – oque está acontecendo?

Ela não respondeu, começou a balançar a cabeça negativamente, prometeu a si mesma que não choraria. Ela estava ali parecendo um daqueles cachorrinhos de caminhoneiros que só mexem a cabeça de acordo com o balanço do automóvel. Ele continuava com as sobrancelhas erguidas pedindo uma resposta.

– Eu estou tão cansada – ela conseguiu dizer – tão cheia de tudo. Sabe? Ninguém se importa, ninguém, nem ao menos me perguntam como eu me sinto – na verdade Vergan fazia essa pergunta todos os dias, ligava umas quinze vezes e ela nem se quer dava um passo para atender o telefone, mandava mensagens para se certificar que não estava fazendo nenhuma besteira, ele era tão superior, tão amável – Ninguém se importa. Minha mãe faz teatrinho perto do meu pai fingindo que gosta de mim, meu pai liga pra psiquiatras diariamente pra falar sobre minha internação. Sem contar de todo o resto – ela continuava sacudindo a cabeça, com a voz amargurada e um rosto melancólico ela não parava de falar – Clove anda me sufocando, Naomi anda me rejeitando pelos cantos, falando pelas minhas costas... Ninguém se importa. Eu poderia morrer que ninguém ia nem notar.

Por alguns minutos Vergan ficou digerindo aquilo, não ia jogar na cara dela que ele sempre esteve ali, ele sempre fez tudo por ela, ele sempre a amou, sempre se importou e ela nunca ligou. Mas, não era hora pra aquilo, ela precisava de um ombro amigo. Respirou fundo e concentrou toda sua paciência.

– Lira não diga isso – falou apertando a mão da menina – eu estou aqui, tem Pauline, tem a Kylie e no fundo a Naomi te ama, ela nem tem noção de que isso está te matando por dentro. Lira eu te amo, eu me importo – Lira não quis olhar nos olhos de Vergan, ela só queria que ele ficasse ali, calado, só queria sentir o calor do seu corpo. Lira deitou em seu tórax definido e o abraçou novamente – às vezes, quero dizer, talvez... Fosse bom você ir um tempo pra clinica – Lira se levantou bruscamente, olhou nos olhos do menino assustada, aquela ideia interrompia seu sono quase que toda noite, ela não ia nunca voltar pra lá – sabe... Você pode morrer, todo esse lance de bulimia e depressão... Seria bom se...

– Vergan – ela balançou a cabeça sem tirar seus olhos dos olhos dele, só pedindo que ficasse quieto. Deitou-se novamente, queria que ele a protegesse de todos os males, ele estava ali pra isso, ele estava ali pra protegê-la. Ele sempre esteve.

Lira levantou a cabeça e olhou novamente para os olhos de Vergan, piscou algumas vezes. Fechou os olhos e se aproximou de dele tocando-lhe os lábios. Vergan correspondeu, era um beijo leve, romântico e superficial. Rapidamente Lira saiu do laço e deitou novamente no menino. Vergan continuava com os olhos fechados, tentando usufruir do breve momento. Lira fechou os olhos e não se demorou em adormecer.

Acordou em sua cama, sozinha, debaixo das cobertas. Quarta feira. Olhou e já eram três da tarde, nunca havia dormido tanto, pelo menos ela não tinha que ir para escola. Levantou-se e foi até o banheiro, olhou para seu rosto que agora era só osso, ela aparentava ser muito mais velha do que realmente era, seus cabelos estavam bagunçados, passou alguns minutos penteando seus longos fios ruivos que ficaram bem armados, mas ela não se importava. Colocou uma faixa verde na cabeça e uma bata também verde e uma blusinha branca por baixo, para que não vissem os cortes em seu braço, com um shorts jeans boyfriend e seu all star azul, respirou fundo e cobriu fundo as olheiras com maquiagem, um pouco de preto nos olhos e foi até a porta fechada do quarto. Respirou fundo novamente e contou quantos dedos tinha na mão. Sorrindo abriu a porta. Saiu e não havia ninguém no corredor, foi até a cozinha e achou um bilhete na mãe no balcão.

Liranda,

Estou com eu pai no hospital, larguei Brendan na creche, quero te avisar que não voltaremos pra casa, tem algum dinheiro no cofre no sótão, a casa já está paga então não se preocupe com isso, as contas deste mês também, arrume um emprego para se manter, não queremos mais você, você está acabando com a família, saímos dai antes que você decida nos matar, estava tudo perfeito antes de você se tornar uma maníaca e esfaquear seu próprio pai.

Se quiser podemos te internar numa clinica, se não quiser continue sendo essa louca psicótica e sem futuro. Você sempre fode tudo Liranda, sempre. E quer bem saber? Vou te dizer que quem matou seu avô foi você, enchendo o ouvido dele com seus problemas pessoais e ridículos. Quem matou Sam? Foi eu, eu mesma, eu dei veneno pra aquele monte velho de pelo, é, se você sabe estragar as coisas que eu mais amo eu também sei, quer jogar? Vamos jogar então. Se decidir que quer ajuda ligue para 22358198. Seu médico. Mas não se esqueça de que se voltarmos a morar juntas você sempre será o meu aborto, sempre será uma estranha na minha vida.

Com muito desprezo Janet.

Amassou a carta rindo, nossa que família perfeita ela achou que tinha. Foi até o galpão e pegou sua antiga lata de piche, foi até o quarto da mãe e pintou no teto algumas palavras:

Não significa nada.

Na parede em frente sua casa escreveu em preto:

Cuidado! Louca psicótica.

Subindo a escada, na parede presenteou a vista com algumas letras:

A vida é uma arte, mas nem todos podem ser artistas.

No teto da cozinha outra mensagem:

Seja o autor de sua própria história, de seus próprios crimes.

Lira não sabia onde queria chegar com aquilo, só sabia que não ia se demonstrar fraca para ninguém. Ela era forte, não precisava de ninguém por ali. Pegou as chaves do Volvo cinza do pai e foi até a cidade. Dava buzinadinhas provocando as meninas bonitinhas na rua. Deixou seu cabelo voar no vento e sentir a brisa, chegou ao supermercado e encheu o carrinho, pagou tudo com o cartão do pai que estava no carro, idiota escreveu sua senha num papelzinho e escondeu na carteira. Foi até o supervisor e bateu na porta.

– Oi, preciso de um emprego – foi logo falando descarada.

O homem olhou com os olhos mortíferos, subiu e desceu duas vezes olhando para Lira. Curioso, puxou a cadeira para frente apoiou os braços na mesa.

– Qual seu nome menina? – falou com a testa enrugada.

– Liranda Handt Bellmont – falou enchendo a boca. Nunca fora tão gostoso falar seu nome antes. Ela se sentia independente.

O homem esperou uns momentos, juntou algumas folhas de papel na mesa e as grampeou, depois juntou as mãos e olhou para Lira novamente, estendeu a mão pra cadeira fazendo sinal para que se sentasse. E assim ela fez.

– Você usa algum tipo de droga? – perguntou sem mais nem menos delongas.

Lira riu pelas narinas, sacudindo a cabeça colocou os braços na mesa da mesma forma que o homem.

– Uso, mas só aos fins de semana, durante festas – falou com sinceridade. O homem deu de ombros. Sem perguntar mais nada entregou algumas folhas para Lira e mandou-a assinar.

– Complete os espaços, eu te aceito como caixa – disse estendendo uma caneta – você tem folgas sábado, domingo e segunda pra se curar da ressaca. O trabalho é na parte da tarde...

– Quer saber? – disse Lira torcendo o nariz e folheado os papeis – que se foda – levantou da cadeira e foi até a porta, bateu com força e riu, se lembrou de que os papeis ainda estavam na sua mão, abriu a porta novamente e jogou eles na sala do supervisor – são bons pra limpar a bunda, tente.

Correu escada a baixo gargalhando, entrou no carro e saiu a toda velocidade, passou numa loja de conveniência, comprou tudo que tinha na prateleira, de cerveja e vodka até whisky que conseguia segurar, pagou e saiu bebendo enquanto dirigia, saiu costurando na avenida, gritando com a garrafa pra fora do vidro.

– Ao orgulho gay! – gritava com as mãos pra fora e a garrafa erguida — À liberdade! — Rapidamente chegou a casa e ligou alto o som, ligou pra todos a sua lista telefônica, desde Annabeth, sua tia avó, até Katherin a menina mais recatada e idiota do colégio.

Com o tempo as pessoas iam chegando, Lira jogou tudo oque tinha na adega velha de seu pai em cima da mesa e as comidas que comprou. A musica aumentava, o pessoal ia chegando, a casa ia ficando lotada, as drogas estavam chegando junto, todos estavam dançando, se beijando e ficando completamente loucos. Lira beijou no mínimo umas quinze garotas, ela gritava, pulava e dançava. Suava e bebia mais e mais, vomitava e cheirava qualquer pó que lhe davam.

Foi para varanda do antigo quarto de sua mãe, dois adolescentes estavam usando a cama, mas não pararam com a presença da menina. Apoiou-se na varanda e esticou os braços, sentindo o vento. Ela se sentia livre e independente. Deixou todos seus problemas serem carregados pelo vento, enchia a boca de vinho e deixava-o ferver em sua saliva. A varanda dava para o quintal dos fundos onde, depois da cerca, haviam muitas arvores que Lira nunca se arriscou a dar uma checada.

Sentiu alguém colocar a mão em seu ombro, se estivesse em estado normal ela gelaria e ficaria com pernas bambas, mas não hoje, não agora. Ela se virou e sentiu os olhos de Clove nela, sorriu perfeitamente alegre. A garota também sorria, Lira se virou para olhar a paisagem novamente e Clove lhe abraçou por traz, entrelaçando sua cintura fina.

– Quer ir até lá? – perguntou Clove olhando na mesma direção que Lira – eu sei que quer, mas não tem coragem.

Lira se virou e tirou as mãos de Clove.

– Vai se foder, eu não preciso de você – gritou Lira em plenos pulmões, segundos depois viu a menina dando as costas e saindo pela porta, o casal olhava assustado pra ela. Ela se arrependeu e foi correndo atrás de Clove.

Achou a menina perto da cerca.

– Me perdoe eu... – sentiu a bebida chegar do estomago a sua boca novamente e vomitou. Limpou a boca com a manga da blusa e continuou com rosto enojado – eu não sei oque deu em mim.

Clove só concordou. Segurou a mão da menina e correu pelo gramado, elas giravam, giravam e giravam. Até que caíram tontas no chão, rindo como loucas e se abraçaram. Seus cabelos estavam molhados de suor. Elas pararam de rir por um instante e se olharam no gramado. Clove foi chegando mais perto para beijar Lira, mas ela se afastou dizendo:

– Vem, vamos entrar com o pessoal – Clove não resistiu à proposta e se juntou com Lira. Elas entraram e a festa continuava como no inicio, o pessoal se beijando, dançando e se drogando.

Ela sentia a melhor vibe que poderia. Nunca se sentiu tão a vontade em se assumir lésbica, em beijar todas aquelas meninas, em dizer orgulho ao ser quem era, em viver a vida como sempre deveria ter feito. Gritava:

– Essa etapa é só mais um gole. — e aumentava o tom — A vida ta ai pra beber!

Todos repetiam, urrando, como um hino.

Lira se sentou no sofá para ver tudo oque acontecia, um casal se beijava ao seu lado, ela tomou um gole de sua garrafa de vinho e sussurrou:

– Alegria, apenas por um instante.

Notas finais
Gostaram? Comentem, favoritem, recomendem e/ou divulguem. Obrigada por tudo.