Dangerous

14 Pior que branco


Capitulo 14 – Pior que branco

Para o azar de Lira ela acordou, mas já era sexta e passara das onze, sem forças pra se levantar pois à quase uma semana não sabia que gosto tinha a comida ela não sabia mais direito nem como se respirava. Ela estava puro osso. Não sabia oque fazer, então ligou para Vergan, o único que nunca tinha lhe feito nenhum mal ainda.

Com dificuldade discou o número do menino e em minutos ele disse que chegaria. Deixou que o celular escorregasse da orelha e ficasse por lá mesmo. Antes disso viu que tinha ligações perdidas de seu pai, avó, Naomi, Kylie e Vergan. Ela respirava profundamente olhando o teto branco como as nuvens.

– Oque você vez consigo Lira? – perguntou para o branco infinito do teto – quem é você? – perguntou para a solidão daquele branco profundo. Passou por volta de quinze minutos tentando formular uma frase que pudesse descrever quem ela era, e conseguiu dizer – Meu nome é Liranda. Chamam-me de raposa. Sou covarde e sem atrativos. Eu tenho 17, talvez 18 anos. Meus pais me abandonaram para morte. Eu sou lésbica e bulimica. Talvez tenha EDNOS e anorexia. Ser magra é bonito. Naomi me usou como ela usa LSD. Normal. Pauline e Sam estão mortas. – sentindo que aquilo não era o suficiente nem pra ela nem pra ninguém balbuciou – Meu nome é Clove. Eu sou sexy e angelical. Coragem é basicamente meu sobrenome. – sorrindo para o teto ficou calada.

Ouviu passos na escada e logo viu a silhueta de Vergan na porta. Alarmado ele correu até a cama e começou a chorar.

– Lira! – disse o menino quase que suplicando a vida de Lira comum à tona – oque aconteceu com você? – Ele chorava em cima do corpo magro de Lira –você ainda está ai não está?

– Estou – disse sorrindo, quase como uma piada dizer que ela estava viva, pois não aparentava estar.

Ele passou as mãos no rosto de Lira, que agora tinha ossos proeminentes e acariciou com cuidado toda aquela superfície, ele tinha medo de machuca-la, ela parecia tão frágil.

– Eu – disse Vergan sem saber mesmo oque dizer – vou... Fazer uma sopa, está legal? — disse ele se levantando de prontidão, quase que eufórico – eu... Vou te tirar dessa, ok? Eu volto em um minuto, fique viva. – disse ele correndo quarto a fora como um louco, Lira ouviu um barulho alto e pode ver Vergan se estatelando no fim da escada, mas se levantando com rapidez para não se demorar com a sopa.

Lira ficou fitando o teto novamente, percebeu que pra ela a cor mais sozinha era o branco, porque ele não era profundo como ela imaginava que era, ele era superficial e frio, ele era feio e sem graça, não era vivaz como o amarelo, nem doce como o azul bebê, nem mesmo alegre como o laranja, ou fortificante como o verde escuro. Ele é apenas o branco, passivo. Evasivo e mortificado. O branco é como Lira. Lira é como o branco.

– Aqui menina Lira – disse Vergan entrando com uma panela grande no quarto. Só quem chamava raposa de ‘menina Lira’ era Pauline – come muito! É um caldo rápido que minha mãe me ensinou, minha bisavó costumava fazer pra seus filhos na África. É pobre em ingredientes, porém rico em vitaminas. Espero que te mantenha de pé.

Vergan deu colher por colher a sopa na boca de Lira, colocou um pano com álcool e água quente nos pés da menina pra mantê-la aquecida e colocou-lhe um cobertor sobre as costas. O olhar dele é preocupado, o menino sugeriu diversas vezes que chamassem uma ambulância, que ela precisava ir para o hospital, mas Lira negou cada uma delas com um argumento diferente. Depois de tudo Vergan ficou ao lado dela, forçando ela comer, mesmo ela dizendo que se botasse mais uma colher em sua boca ela acabaria vomitando.

– Vergan – disse Lira – obrigada por tudo – o menino não sorria, apenas ficava com o rosto comum e sem nenhuma expressão, olhando atentamente para Lira, se perguntando provavelmente como ela tinha forças pra falar – quero te pedir um favor.

Bom, depois de levantar na madrugada, preparar caldos e cuidar tão carinhosamente de Lira, acho que Vergan faria qualquer coisa por aquela ruiva mal agradecida. Um obrigado não basta, ela sabe oque Vergan quer, oque ele sempre quis. Mas não daria.

– Amanhã – continuou Lira antes que Vergan pudesse responder que obviamente faria tudo que ela pedisse – terá um velório de uma amiga minha – disse olhando para seus dedos nodosos e sem carne – será que eu poderia comparecer?

Vergan assentiu. As horas se passaram e a comida vez com que Lira ficasse mais disposta, ela já conseguia se levantar, tomou até banho, mas pediu que Vergan à ajudasse a se trocar. Ele vestiu com muito respeito as não curvas de Lira, sem dar um rabo de olho aqui ou ali, apenas colocando a roupa doce e responsavelmente.

Eles chegaram atrasados no velório de Pauline, mas ela estava lá para ver o caixão ser colocado debaixo da terra. Lira jogou uma flor branca sobre onde estaria o corpo da velha gordinha cozinheira de biscoitos de damasco, a única que sabia de cada cabelo da cabeça de Lira, que sabia cada passo que ela dava, cada pensamento que surgia súbito em sua mente. A filha dela estava lá, mas não havia muitas pessoas, talvez umas quinze ou vinte estavam acompanhando o enterro. Lira se ajoelhou perto do buraco e ninguém foi tira-la de lá, com medo talvez. Medo de que pudessem pegar em um de seus braços e desfaze-los. A magreza de Lira fazia que ela parecesse com um cadáver, a brancura também não à ajudava à ser convidativa.

– Me leva com você Pauline – disse Lira chorando e fazendo toda a hidratação que Vergan fizera nela em horas se esvaírem em segundos – eu não vou suportar sem você, não vou conseguir – continuou ali sentada jogando delicadamente alguns poucos de terra que conseguia pegar em suas mãos magricelas. Mesmo que ela quisesse não conseguia mais chorar, não havia liquido o bastante pra isso, então ela só permaneceu ali até que Vergan a chamou para irem embora.

Um pedaço da vida de Lira se fora junto com aquela rosa, um pedaço da alma de Lira se fora com aquelas lagrimas, um pedaço do restante de sentimentos de Lira se fora com aquelas palavras. Agora ela era o branco. Frio e evasivo. Como uma pedra.

O véu negro que estava na cabeça de Lira deixava a menina com um ar muito macabro, de tal modo que se ela mesma se olhasse no espelho tomaria um grande susto. Eles voltaram do velório num carro onde o silêncio vencia as palavras, num carro onde o reino quieto pairava no ar. Vergan levou a menina pra casa e a colocou na cama, com delicadeza despiu a menina e procurou por um pijama quente no guarda roupa.

– Obrigada Vergan – disse a menina com olhos inchados – por tudo.

Vergan pegou um macacão de algodão bem quentinho para que ela não passasse frio, mas não colocou o macacão em Lira, deixou-o sobre a cama. Olhou de esguio para a menina nua na cama e sentiu uma ereção.

– Me desculpe – balbuciou, antes que Lira pudesse perguntar porque viu Vergan abaixando o zíper de sua calça jeans – eu prometo não te machucar – disse ele ficando sobre Lira — mas antes de você morrer – ele balançou a cabeça e desistindo da ideia, tudo oque ele estava dizendo era besteira, mesmo ele sabendo que Lira era irrecuperável ele não podia simplesmente fazer uma rapidinha numa garota debilitada.

– Vai embora – disse Lira – por favor – Vergan apontou para a panela de sopa que ele fizera novamente, era um bom caldo, mas Lira não tomaria mais dele.

Vergan saiu pela porta do quarto. Agora Lira estava completamente sozinha. Literalmente sozinha, como o branco. O branco é solitário, tão solitário e evasivo que chega ser problemático. Lira correspondia ao branco tão bem que poderia trocar seu nome. Vergan quase perdera a cabeça e estuprara a garota. Garota que os pais abandonaram. Garota que acabou com uma amizade que prometia ser duradoura por causa de um amor esdruxulo e incapaz. Garota que perdera sua conselheira e cadela. Garota que agora conseguia ser mais solitária que o próprio branco. Pra ela, só resta Clove.

Mas onde ela está? Porque Lira não conseguia mais vê-la? Será que ela se fora pra sempre? Não. Ela nunca se vai.

– Eu estou bem aqui, querida – disse Lira sorrindo maliciosamente – sentiu saudades?

Lira não conseguia ver a menina, ela não conseguia ouvir a menina, ela tampou seus ouvidos sem as mãos, ela tampou seus ouvidos mentalmente. Clove estivera sempre ali, Clove sempre estará.

– Pensou na proposta? – perguntou Lira a si mesma – vai vir comigo para a eternidade? – rindo-se completou – voar nas asas da escuridão?

Lira começara a entender. Clove era o branco. Lira queria que Vergan voltasse, mas ela parecia estar presa na cama, ela parecia estar congelada, não tinha controle de seus movimentos, ela não tinha controle mais sobre nada a não ser parte de seus pensamentos, parte que estava sendo domada por Clove.

– Me deixa em paz – conseguiu dizer entre dentes. Se ela fizera Clove voltar, ela podia fazer Clove ir embora certo? Errado.

Lira não determina nada, porque ela nunca foi e nunca será nada. Além da covarde, fragilizada e passiva da Lira. A menina conseguia ouvir a risada da Clove de novo e novo em seus ouvidos sem parar, como se seu crânio fosse estourar na próxima vez que ela começasse.

Lira conseguiu se desvencilhar das presas, que não passavam de algemas imaginarias, e sair da cama, ela pedia repetidamente para que Clove parasse mas ela não conseguia ser ouvida, sua voz estava presa na garganta e ela gritava à plenos pulmões pra dentro de si. Ela gritava tudo oque conseguia, desde opressões que sofrera com seus pais até raivas mais recentes das amizades, e mágoas das mortes de entes queridos, ou mesmo o desgosto por si mesma, mas oque ela mais gritava era para que Clove parasse de fazê-la reviver essa tortura interna que ela estava sentindo. Ela conseguiu fazer com que poucas lagrimas saíssem de seus olhos, mas ela não precisava que lagrimas saíssem, a dor poderia ser vista pelos olhos de quem quisesse.

De repente a menina ouviu latidos finos vindos do quintal de trás, latidos que ela poderia reconhecer talvez até depois que morresse.

– Sam? – gritou a pergunta pros ares, a única palavra que saiu de sua boca em minutos, talvez horas depois que Clove dominará seus pensamentos, mas o amor incondicional que ela sentira por Samantha faria ela sair de seus melhores devaneios ou piores loucuras – Samantha, é você?