Notas iniciais
Bom, pra deixar vocês mais curiosos sobre oque vai acontecer na ''festa do pijama'' da Naomi e da Lira, porque não conhecer mais sobre o passado delas? Espero que gostem.

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Estavam no antigo quarto da mãe de Naomi, empoeirado e bagunçado, seu pai acabara de deixar uma caixa velha de madeira, lá haviam roupas da época da mãe de Naomi, algumas fitas do verão que a mãe e pai da menina passaram na casa de campo anos antes dela nascer, e seu vestido de casamento.

— Vai vamos! Por favor, só uma vez – suplicava Naomi batendo os pés no chão – é legal!

Naomi tinha 8 anos na época e Lira 6, era sempre a mesma brincadeira. O casamento. Naomi adorava brincar de se casar, Lira sempre era o noivo, e ela a belíssima noiva de branco, naquele tempo, a menina tinha longos cabelos loiros com ondas nas pontas que chegavam na cintura, e Lira, como sempre muito influenciável, estava tentando fazer com que seu cabelo ficasse igualmente lindo, mas ele era encaracolado e ondulado, e isso nunca aconteceria.

— Eu deixo você ser a noiva dessa vez – sugeriu Naomi.

Lira continuava de braços cruzados sentada no chão de madeira, fazendo bico, no final ela sabia que ela seria o noivo e que elas iam brincar. Lira sempre seguia as regras de Naomi, mesmo não seguindo as regras de mais ninguém.

— Oque eu tenho que fazer pra você brincar? – perguntou Naomi segurando o antigo vestido da mãe – por favor! Esse vai ser um casamento especial, com um vestido especial...

Lira revirou os olhos e se colocou de pé, o sorriso de Naomi se iluminou e estendeu o vestido para que ela a ajudasse a colocar. É claro que o vestido era umas cinco vezes maior que Naomi, mas ela continuava linda vestida nele. O pai de Naomi apareceu na porta para avisar que estava indo trabalhar, ou seja, planejar um assalto ao banco ou coisa do tipo, então Naomi foi até o quarto atualmente usado pelo pai e pegou um terno velho, esticou o cabide para Lira que colocou por cima de suas roupas. Naomi prendeu o cabelo de Lira para trás e colocou um chapéu, ela ainda não parecia um homem, os olhos verdes como esmeraldas brilhavam inocentemente e as sardas ficavam mais aparentes nas maçãs do rosto. Elas prepararam o altar com caixas velhas de papelão, as alianças com cebolitos, e Naomi colocou um disco velho para tocar, um musical clássico. Elas fizeram toda a entrada, lá na frente fizeram o juramento sobre saúde e doença, riqueza e pobreza e tudo mais, colocaram as alianças com cheiro de cebola e na hora de beijar a noiva elas viravam inocentemente para dar um selinho. A boca de Lira sempre fervia quando Naomi encostava os lábios carnudos e delicados nos dela, naquele dia Naomi demorou-se um pouco mais para soltar Lira, e então o coração da menina começou a bater mais rápido, e assim ela saiu do beijo e desceu do altar, jogou o terno no chão e comeu seu anel. Naomi desceu delicadamente do altar, jogou o buque improvisado no chão e soltou o coque que prendia seus lindos cabelos.

— Você sempre estraga tudo! – gritou e saiu correndo, por azar, tropeçou no vestido e caiu, Lira preocupada correu até a menina e a amparou – obrigada – com isso, comeu sua aliança e deu risada.

— Nossa primeira briga de casadas tigresa – falou brincando Lira e elas riram.

Era tudo tão inocente, puro e ingênuo, tudo tão infantil e incontrolavelmente magico. Brincadeira de criança é algo tão perfeito.

Quatro anos se passaram, agora elas estavam sentadas no sofá com Kylie e Jennifer, uma menina que se mudou pra Califórnia alguns meses depois de chegar na cidade. Elas eram imbatíveis, as quatro melhores amigas inseparáveis. Era noite do pijama, estavam vendo um seriado no Disney Channel, até que Kylie desligou a televisão e sentou de pernas cruzadas no colchonete.

— Vamos falar dos meninos – disse sorrindo, Naomi sentou e Jennifer também, Lira continuou deitada, mas apoiou a cabeça em sua mão, pouco interessada – então Naoms é verdade que você beijou o Thomas?

Naomi revirou os olhos e deu uma risada inocente.

— E se for? – desafiou, as três se olharam, Lira roía as unhas como quem pouco se interessa – sim, eu beijei – ela mentiu, como a maioria das garotas que são populares, fingem que deram seu primeiro beijo e ela como era a mais velha queria servir de exemplo para todas as outras. As meninas se entreolharam alarmadas, Kylie jogou uma almofada em Naomi que riu – e você Jennifer? Ainda apaixonada pelo Cook?

— Nunca gostei do Cook, ele é feio – disse a menina balançando a cabeça com rosto desgostoso – mas o Max – disse agarrando um travesseiro e suspirando – ah... Esse sim!

Elas riram, bobas e inocentes.

— Eu continuo apaixonadíssima pelo Vergan! Tão forte e másculo... – disse Kylie, Vergan deu fora nela quando ela decidiu demonstrar seus sentimentos alguns anos depois, ela acabou por decidir ficar linda e gostosa e ficar com todos os meninos da escola que chegassem nela só pra mostrar ao Vergan que não precisava dele – E você Raposa? Quem é o seu menino?

Lira se virou no colchonete, escondendo o rosto, ela não gostava de ninguém, queria mais é distancia de todo e qualquer sentimento.

— Vai fala ai! – jogou um travesseiro Jennifer.

— É Lira! Para de ser ridícula! Todo mundo gosta de alguém, ninguém vive sem amor – insistiu Kylie – Vai Lira conta!

— Ai Lira, porque você vem pras nossas festas? Nunca nos conta nada – resmungou Kylie jogando outro travesseiro na menina.

— Tudo bem, já chega – disse Naomi intervindo na conversa – chega disso, se ela não quer dizer, ela não precisa.

— Precisa sim – retrucou Jennifer – nós sempre contamos nossos segredos – continuou a menina morena com o nariz empinado – é oque amigas de verdade fazem.

Naoms olhava sem argumentos, Lira abafava a respiração acelerada no sofá, ela não ia chorar, elas podiam colocar quanta pressão quisessem, ela não ia chorar. Ela já estava chorando, lagrima estúpida. Secou os olhos na manga da blusa vagarosamente para não ser percebida. Lira tinha muita coisa na cabeça, o novo padrasto, as notas vermelhas, as palmadas da mãe, a falta do pai, Naomi e Thomas.

— Se eu digo que não precisa – elevou a voz Naomi – é porque não precisa, chega, vamos dormir – declarou por fim.

— Semana que vem é na casa de quem? – perguntou Kylie enquanto se levantava para apagar a luz.

— Na toca da Raposa — disse Naomi. A toca da Raposa era a casa na arvore, as meninas adoravam ir lá porque podiam ficar acordadas até a hora que quisessem, falar o quanto quisessem, era o lugar preferido de todo mundo.

Depois que Kylie apagou a luz, Naomi cutucou Lira e indicou espaço para ela com a cabeça, a menina sorriu e foi para o lado, levantando a coberta para que Naomi se aninhasse do seu lado. Era sempre assim, Naomi ditava tudo, e sempre protegia Lira.

Agora Lira estava sentada em sua cama, contando as conchas que pegara na casa da vó no verão passado, sozinha em seu quarto ouvindo um CD antigo que pegara da mãe de uma cantora de jazz. 327, ela conseguira 327. Ela já sabia disso, contava aquelas conchas todos os dias. A mãe escancarou a porta, com um bebê no colo. Agora Lira tinha 14 anos, o bebê tinha no máximo um mês.

— Cuida dele pra mim – ordenou a mãe que tirou o telefone celular da orelha por segundos – preciso falar com Louis – Louis era o pai do menino, padrasto de Lira, que não aparecera em casa desde o nascimento do filho. A mãe colocou a criança na cama e bateu a porta com força. Ele era tão frágil, Lira podia sentir seus ossos fracos ao lado da corrente sanguínea, até a corrente sanguínea dele deveria ser frágil, Lira tinha medo de que se o segurasse muito forte ele se quebrasse no meio, mesmo assim pegou a criança no colo, ele fazia barulhos engraçados e mexia as mãos delicadamente. Nem parecia real, parecia um daqueles brinquedos das lojas do shopping, tão delicado, com a pele tão fina, os cabelos eram ruivos como os dela e os olhos verdes claros, quase tão claros que na luz pareciam brancos. Ela esticou para tocar as bochechas gordas do menino e ele segurou seu dedo, a mão tão pequenininha mal conseguia fechar envolvendo o dedo da irmã. Ela sorriu.

De volta aos cinco anos de idade de Lira, ela acabara de entrar na escola onde Naomi estudara. Elas já se conheciam. O exercício que elas estavam prestes a fazer era um desenho livre, que tinha que retratar um dos melhores momentos que elas haviam vivido e depois mostrar pra classe.

Um menino chamado Jorge fez o desenho da visita que ele fez ao zoológico no mês passado com a família, e completou que seu animal preferido era o lêmure, por causa dos olhos. Nancy, uma menina loira com olhos castanhos desenhou o dia que ganhou sua cadelinha, Flacke, e disse que ela era branca como um floco de neve. Jonas um menino moreno desenhou seu irmão Justin dentro da barriga da mãe, falou que ele era seu companheiro de aventuras. Chegando a vez de Naomi, ela olhou para Lira com aquele olhar brincalhão que prevalece até hoje, e um sorriso torto que sempre fora o favorito de Lira.

— Essa sou eu – mostrou apontando a menina de cabelos loiros no papel — e essa é a Lira – disse apontando a outra menina – minha melhor amiga, qualquer momento perto dela é um dos melhores.

A professora juntou as mãos, e olhou como quem quer dizer ‘meu Deus! Que fofura’ mas ela provavelmente deve ter concluído que isso era muito besta de se dizer. Pediu para que Lira mostrasse seu desenho, com vergonha ela se levantou e com o desenho colado no peito para que ninguém visse, foi até Naomi e lhe deu um beijo na bochecha, depois saltitou até a professora e cochichou em seu ouvido que estava com vergonha, e que não queria dizer nada, colocou o desenho na mesa da professora e correu para seu lugar. A mulher virou o desenho e falou nada, ficou um pouco confusa, mas depois de um tempo, depois de visualizar o desenho que na verdade não era nada complexo se levantou de sua mesa e virou o desenho para sala.

Eram duas meninas de palito segurando as mãos e um coração em cima, e ao lado estava escrito: ‘Eu consigo sentir o amor’.

Notas finais
Gostaram?