Danger Line
1 Leaving my faith on the danger line
Notas iniciais
Está pequena, eu sei, mas foi um momento raro de inspiração daqueles que só aparecem uma vez por mês, pelo menos em mim.
Espero que gostem ^^
Inferno. Numa única palavra consigo descrever este lugar onde me encontro, embora consiga usar muitas mais: pesadelo, tormento, tristeza, sofrimento, fim de mundo...
Não estou sozinho mas é assim que me sinto. Estou perdido e não me encontro, as conversas que tenho com os meus amigos são deprimentes. Será que posso considera-los amigos? Companheiros de guerra, talvez, mas amigos acho que não. Era capaz de morrer por eles, porque estamos no mesmo cenário, a lutar e a passar pelo mesmo. Só ainda não o fiz, pois sei que tenho alguém que me espera do outro lado da barreira que separa este mundo escuro e frio, cheio de mortes e cheiro de sangue do mundo colorido e alegre em que ela vive.
As cartas mantêm-me vivo, dão força à chama de esperança que há em mim, mas por quanto tempo? Olho para o céu, foco o olhar numa estrela e penso "Que saudade!", sinto que do outro lado da barreira invisível ela olha para a mesma estrela e pensa o mesmo.
Quero voltar. Deixar este lugar de miséria, no qual, todos os dias, sujo as mãos de sangue inocente. O chão que piso está impregnado do cheiro e da cor do sangue, de memórias de vidas infelizes que acabaram para sempre.
Se voltar, se algum dia conseguir sair daqui com vida, sei que vou lembrar-me de tudo: dos rostos molhados de lágrimas enquanto imploravam pela vida, das armas, dos gritos de desespero, das vidas que deram lugar à morte mesmo à frente dos meus olhos. Daquele lugar, não guardo uma única boa memória...é tudo negro e sem vida. Então pergunto-me "Para quê voltar?" Para ficar esquecido, é a resposta que encontro.
Prefiro morrer do que ficar com imagens destas no pensamento. É melhor morrer do que carregar no corpo o peso da culpa, a culpa de não ter ajudado mais inocentes, a culpa de ter morto tantos homens. Não que não merecessem, só não me sabia capaz de o fazer. Agora que o faço, já se tornou num hábito. A guerra é uma droga, viciou-me e não consigo parar.
O meu nome é Matthew Sanders e a minha vida nunca mais foi a mesma desde que vim para aqui. Perdi a alma e a alegria de viver. Já vi dois amigos de infância perderem a vida à minha frente e não pude fazer nada. Brian Haner e James Sullivan, bons amigos, bons irmãos, bons soldados.
A minha vida deixou de fazer sentido no dia que pisei este campo de batalha, mas não perdi a fé, isso nunca! Na última carta que enviei a Valary, pedi-lhe desculpa por deixar de lutar e com um aperto no peito também lhe pedi que não me esperasse vivo. Amo-a mais que tudo e ela sabe disso, mas não consigo continuar. Chamem-me cobarde se quiserem, mas não é fácil estar rodeado de mortes, gritos e choro constantes e no fim viver com isso tudo gravado na mente sem poder esquecer.
Agora estou na linha de perigo à espera do tiro da sorte. De sorte porque é ele que me vai acertar sem que eu me defenda, é ele que me vai levar para junto dos meus amigos, para um lugar melhor longe disto. Não estou arrependido de ter lutado pelo meu país, arrependo-me de não o ter feito de maneira diferente, melhor. Não sei se teria sido possível, já que guerra é isso mesmo, guerra. As mortes, as perdas, os gritos, o desespero...são inevitáveis.
Ouvi o som do disparo, senti a bala entrar-me no peito rápida e silenciosamente, sem dor e caí. Olhei uma última vez para o céu estrelado, para a mesma estrela de sempre, sorri e pensei "Finalmente, livre." A dor veio, ficando forte a cada instante, a minha visão ficou turva e não senti mais nada. Assim deixei a minha fé na linha de perigo, pelo menos morri um pouco mais feliz.
FIM
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