Notas iniciais
Deus demorou sete dias para criar o mundo...
E eu destruí o meu em apenas três.
– Não, não, não!! — Um garoto, desesperado, revirava desesperado o armário da enfermaria, olhava o nome de cada remédio, e os jogava no chão quando via que não era o que precisava, quebrando os vidros. — Isso não pode estar acontecendo!! Aguenta firme, Satomi-chan!! Você não vai morrer, eu vou...
– Riki... Não dá mais... Eu... Eu vou... — A garota mumurrou, suando e quase sem voz. — Por favor... Me ouça...
– AINDA NÃO ACABOU!! EU VOU ACHAR O REMÉDIO, EU PRO...
– POR FAVOR, RIKI!! ME OUÇA, VOCÊ SABE QUE EU JÁ MORRI, EM VEZ DE QUEBRAR TUDO... Fica... Fica comigo, por favor... Riki...
O jovem desabou, mordendo o lábio para conter o choro, e ficou ao lado da cama onde a garota estava, descalço em cima dos cacos de vidro e líquidos que se espalhavam pelo chão. Parecia ignorar a dor que causava, o sangue que saia de seus pés e tornozelos parecia não incomodar. A garota loira que estava pálida, ao seu lado, sorriu.
– Eu queria... Que isso tivesse durado mais tempo... — A garota falou, sem conter as lágrimas. — Mas, eu quero te pedir uma coisa... Por favor, cumpra isso...
– Arf!
O jovem acordou com um susto, em um quarto relativamente escura, não se assustou, pois já havia acordado diversas vezes. E sabia que não podia fazer qualquer barulho, para não chamar a atenção das pessoas que andavam pelo corredor. Apesar do isolamento sonoro ser quase perfeito, não poderia ser surpreendido novamente por alguém. Ele se levantou, silenciosamente, e se dirigiu até a porta, com uma caixa de ferramentas que havia achado no armário há um tempo atrás, se dirigiu até a porta de ferro. Chegando lá, colocou o dedo sobre o gélido metal da porta.
– Controle-se... Com essa temperatura, deve ser... Cerca de três da tarde... Eu tenho uma hora. — Concluiu, e começou a desparafusar os parafusos que continham a tranca da porta.
Ele não sabia quanto tempo havia se passado desde que havia acordado da última vez... Ou há quanto tempo havia terminado o jogo doentio de matança a qual havia participado. Quando terminou de desparafusar a porta, pelas suas experiências, já sabia que a porta abriria, apesar de não ter uma alavanca ou maçaneta, com um grande impacto, já que abria para fora. Ele respirou fundo e voltou para o final da sala, de onde se jogou abaixo do armário e pegou sua queridinha, algo que estava escondendo há muito tempo. Sua shotgun, totalmente carregada. Hoje seria o dia, o dia que ele tanto trabalhou para chegar.
Olhou para trás, viu todas aquelas outras onze pessoas. Quatro em questão, o chamaram mais a atenção, eram aqueles que sobreviveram com ele.
O pensamento o dominava: Será que algum dia, haviam acordado? Com o que sonhavam? Será que também estariam tentando escapar? Quem eram as outras quatro pessoas que haviam chegado após ele? Pelo que haviam passado? Mas isso não importava agora. Riki, cara a cara com a porta, levantou a perna, e chutou a porta com tudo.
A luz do sol e ambiente externo o cegou, e penetrou com tudo naquele quarto, que sempre estava gélido e escuro. Apesar da cegueira momentânea, Riki se apressou em destravar a shotgun, apesar de não enxergar. Várias pessoas que andavam no corredor se assustaram abismadas, algumas correram, até o desespero ser "cessado" por um tiro na parede.
– TODOS QUIETOS, SE NÃO VÃO MORRER!!!!
...
– ... ... ... — Sugiyama estava ajoelhado, ao lado do corpo incosciente de Taniguchi, nessa altura, além dele haviam outras quatro pessoas lá:
Haruka roia as unhas, com medo e quase desmaiando com a imagem.
Naomi anotava o que via em um pequeno bloco de notas.
Kotaro suava frio, olhando com olhos arregalados.
Megumi estava do lado de fora do depósito no qual Taniguchi foi encontrado.
Os outros quatro alunos: Yakatsu, Kaori, Gen e Minami não estavam lá.
– É oficial. — Sugiyama falou, aumentando a tensão. — Vivo, ele ainda está. Mas quebrou o pescoço. Não tenho idéia da magnitude da lesão. Ele pode apenas ter quebrado algumas vértebras, ou ter sofrido uma decaptação interna. Mas, qualquer que seja a possibilidade... Eu tenho quase certeza que é questão de tempo até ele morrer.
...
– M-M-M... Min-Minami-chan... Nãã-Não o... olhe. — Gen falou, quando os dois passaram por uma das salas de aula. — Que desgraça explicaram pra eles...
Minami já tinha olhado, aterrorizada. Um corpo desmembrado, com os olhos arregalados e com sangue saindo pela boca. Isso em uma olhada rápida, já que aquela cena era digna de vomitar. Minami não conseguiu reconhecer o corpo, desfigurado. Apenas, que era o corpo de uma garota.
...
Ogishia Riki — SHSL Orator
– Quem é o teste que está solto?! — Um terceiro homem de batina branca entrou na sala de vigilância, onde estavam Yuuki e Yuuto. — E por que ainda não foi continuo e posto em suspensão?! Cada segundo que ele passa assim é um perigo!
– Hunf, por que você acha? — Yuuto resmungou, com raiva. — Esse moleque tem um refém, e a cada movimento que tentamos fazer ele ameaça atirar.
– Claro que é um blefe! Alguém que saiu de um jogo de matar não vai querer matar outras pessoas! — O terceiro homem retrucou, se aproximando dos visores.
– Blefe? Pfft, de todas as pessoas, eu esperava que VOCÊ reconhecesse ele garoto. Era o seu favorito no segundo Ronpa, lembra? — Foi a vez de Yuuki falar.
– V-Você não está falando... Do... Do... — O terceiro homem respirou fundo. — Ogishia Riki... De tantas pessoas... Logo ele!!
– Sim... Mas, covenhamos, ele seria a única pessoa capaz de fugir daquela sala de segurança máxima. — Yuuki disse. — Ogishia Riki... O único estudante que conseguiu manipular todo o jogo e cometer o crime perfeito. Agora é tentar descobrir o que ele pretende.
O clima estava tenso naquele corredor, vários guardas do lugar e cientistas suavam frio, principalmente o que estava com um cano de escopeta apontado para o pescoço já fazia quase duas horas.
– Eu vou falar minha exigência pela última vez... — Riki resmungou, pressionando o cano da arma contra o pescoço do refém. — ONDE ESTÁ ACONTECENDO ESSA PORRA DE JOGO?!?! VOU CONTAR ATÉ 10, E SE NINGUÉM ME LEVAR ATÉ LÁ, ESSA CARA MORRE!! E SE TENTAREM ME ENGANAR, ELE MORRE DO MESMO JEITO!!!
– Então atire. — Um dos guardas, armado, falou. — Temos muuuuitos outros por aqui, antes se fosse alguém importante... Ele entenderá que a morte vale a pena, por isso sugiro que renda-se logo, pois tudo isso que está fazendo é inútil.
– Pois é... Vocês são mas doentes do que eu pensei. — Riki respondeu. — Vocês não se importam com a morte desse homem... Mas e com as mortes que podem se ocasionar com essa? Sabe, nem falo de mortes no sentido literal, mas morte psicológica de outras pessoas... Ele é um homem que tem pais que o criaram, irmãos e provavelmente esposa e filhos... Um mundo inteiro de pessoas ao seu redor, e vocês dizem que a morte dele seria insignificante? Eu não sei como reagiria ao saber que meu filho, ou meu pai morreu porque os colegas de serviço dele deixaram... Isso se eu tivesse essa idade. Seria muito cruel crescer sem um pai, e ainda mais com o pensamento na cabeça "meu pai morreu porque era um inútil"... Mas se vocês acham tudo isso irrelevante, então... Bem, eu não sou de falar!!
– E-Espere!! — O líder dos guardas gritou, ao ver o dedo do jovem começando a se mover. — Muito bem... Iremos levar você para lá, mas só isso. Está bom para você?
– Não prestou atenção no que eu falei? Sim, isso é tudo que eu quero. E podem ir todos na frente. Eu vou atrás.
O que parecia ser o líder dos guardas engoliu em seco, mas assentiu com a cabeça, e se quase todas as pessoas foram embora, menos nove delas; oito guardas armados e um cientista, que o guiaram pelos corredores daquele prédio. Nisso tudo, o refém ainda era mantido sob o cano da arma, que agora se posicionava na garganta do mesmo. Uma emboscada estava sendo planejada? Não dava pra saber, mas possivelmente não. Todos já haviam sido informados do nível de perigo daquele aluno, que antes de ir para "Hope Peak", havia passado anos no reformatório.
– NÃO DEIXE-O ENTRAR NO JOGO!!! — Yuuki gritou, deseperada, para o ponto eletrônico que havia na orelha daquele guarda. — PERCEBA, ELE ESTÁ MANIPULANDO VOCÊ!!! ATIRE O PÉ OU ALGO DO TIPO!!
– Desculpe... Mas recebemos ordens superiores para fazer o que ele quer... Yoshida-san deu a ordem, não podemos descumprir... E mesmo assim, se nós apontassemos a arma para ele, o refém iria morrer.
– Entendido. Siga ordens superiores. Desligando. — Yuuto falou antes, cortando o contato. — Se o chefe mandou, ele deve ter feito algo para coibir que esse moleque atrapalhasse no jogo. Vamos apenas confiar nele.
Depois de quase vinte minutos de andança, e a paciência de Riki quase no fim, eles chegaram em uma grande porta de metal, que se abria e fechava automaticamente. Um botão foi apertado, e com um barulho estanecedor de sirenes, ela foi aberta, onde dava para um andar pequeno e escuro, com apenas um disjuntor e uma porta protegida por grades. Riki entrou, sem dar as costas para os guardas, e jogou o refém para fora. O homem de batina branca apertou o botão para fechar a porta, que levaria cerca de dois segundos para se fechar.
Dois segundos que foram o suficiente.
Foi muito rápido, apenas foi percebido o homem de batina branca caído no chão, com os olhos arregalados, e massa encefálica saindo pelo buraco que se formou em sua cabeça. Uma morte rápida e imprevisível, e após ela, a única reação foi um grito do próprio assassino.
– ISSO FOI PELA MINHA NAMORADA! SEU MERDA!!!
Já dentro da sala escura, Riki usou a outra bala da escopeta para atirar na fechadura da grade, que facilmente cedeu. A porta estava aberta. Em menos de um minuto, Riki já estava no segundo andar de "Hope Peak", praticamente um passo acima dos alunos que disputavam o jogo doentio; e que muito provavelmente haviam ouvido aquele barulho.
– Ele penetrou no jogo... — Yuuto falou, sem palavras.
– Mande o Sugiyama atrasar o andamento do jogo! Vamos atrasar a investigação também... Não podemos deixar que ele faça contato com esses estudantes!
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