Dando Voltas no Ponteiro
21 Capítulo XX – A PRÉVIA DE UMA GRANDE GUERRA
Notas iniciais
Eu estava estática. Eu estava ali parada, olhando para uma Rainha dos Elementos disfarçada. Ali estava ela, em forma humana. Os cabelos vermelhos e ondulados estavam presos num coque firme, assim como seu olhar duro. Suas sobrancelhas estavam arqueadas e os olhos azuis me fitavam com ódio. Sua boca estava colorida num vermelho sangue, e sua roupa de enfermeira dava a parecer que ela realmente era só uma pessoa normal tendo um dia de trabalho normal. Mas tudo o que eu conseguia pensar era que a guerra já estava pra começar.
– É muita covardia da sua parte começar a guerra sem a presença do meu exército. – disse eu, trêmula. Cory já não estava mais comigo, havia saído para conversar no corredor, com mais privacidade.
– Você chama aquilo de exército? – Hercília disse sarcástica – Você perderia de qualquer maneira.
– Podem ser poucos, mas são preparados. Todavia, acabei de encontrar os seus quatro filhos mais poderosos. – tentei soar confiante, mas só pareci mais patética.
Ela andava perto de mim, e eu sentia meus pelos se arrepiarem devido à proximidade. Ela pode me matar a qualquer instante e nem mesmo o meu Elemento poderia evitar isso. Eu só queria que ela não soubesse disso.
– Fayel, Fayel, Fayel... Aquilo não são soldados, são traidores. Pessoas inseguras que estão loucas para uma oportunidade de vida melhor. E sabe o que isso significa?
A olhei, sem entender.
– Que eles são meus. – ela deu um sorriso e quando eu empunhei a minha adaga – que estava escondida na minha calça –, a Rainha não estava mais lá.
Gritei por Cory e ele veio correndo, ainda desligando a ligação. Junto de Cory, Lily e Carol vieram ver o que estava acontecendo. Sem mais delongas, contei que a Rainha Hercília havia me visitado e ameaçado tomar meu exército que eu, há muito tempo, tive a dificuldade de juntar.
– Quantos são? – perguntou Carol.
– Bem, agora são dezoito. – dei de ombros.
Lily arregalou os olhos e então, passou as mãos pela raiz do cabelo.
– Você conseguiu juntar isso em quanto tempo?
– Uns seis meses, eu acho.
– Estamos perdidos... – Carol suspirou.
Cory começou a levantar as mãos, pedindo atenção.
– Vocês não estão focando no que é importante agora! Hercília está a caminho do nosso acampamento, isso se já não estiver lá! Se ela conseguir persuadir eles, vamos estar completamente impotentes. – Cory passou a mão no cabelo e sentou no chão – Não sei como podemos chegar lá a tempo.
– Eu sei me tele transportar, mas demoraria de qualquer maneira. E eu ficaria cansada por levar tantas pessoas. – disse eu.
– Eu posso levar vocês voando. – Lily deu de ombros.
– Você consegue me levar? Eu peso 87 kg. – Cory deu um sorriso – Bem, eu tenho essa ideia de nos colocar numa grande esfera de madeira e então Lily pode nos levar no céu.
– Pode dar certo. – ela concordou – Demoraria quatro horas para chegarmos, mas seria bem mais rápido que um avião.
– Bem, então vamos ao trabalho. – Cory deu um sorriso e saiu andando.
Antes que ele pudesse atravessar a porta, segurei seu braço.
– Você não está se esquecendo de nada, garotão?
– Não. – então apontei para Carol atrás de mim e ele fez sinal de quem tinha tido uma ideia – Ah sim, eu pensei nisso. Vamos levá-la pelo subsolo.
Consegui sentir o ar ficando pesado e então todos nós olhamos para Lily que estava hiperventilando.
– Eu acho que posso ir voando. – todos nós concordamos.
Em alguns minutos, Carol arrumou sua bagagem que era basicamente duas camisas extras, uma calça, roupas intimas (que não incluíam um sutiã) e sua escova de dente. A ofereci meus sapatos, mas ela disse que prefere andar descalça. A garota fica mais estranha a cada minuto que passa.
Consegui levar eu, Cory e Carol em segurança até o subsolo do prédio, enquanto Lily já tinha saído pela janela. Logo estávamos em um estacionamento muito espaçoso e com poucos carros populares. Seguíamos em linha reta num corredor que levava a uma porta de saída no final. Cada passo que dávamos produzia um eco no local, o que nos dava a sensação de estarmos sendo seguidos. É claro que isso não ia acontecer. É claro.
Com o tempo, percebi que o longo corredor só se estendia, mas nunca chegava ao fim. Parei os dois, que há muito já estavam arfando disfarçadamente, querendo parecer mais fortes do que realmente são. Bem, pelo menos Anna.
– O que foi? – disse Cory.
– O corredor só fica maior, vocês não perceberam? – eles apenas me encararam, como se eu estivesse maluca – Sério? Bem, eu vou provar.
Tirei minha mochila das costas e joguei no chão. Agachei-me e procurei por um objeto que poderia jogar. Finalmente encontrei, no fundo da mochila, um cigarro rosa – deixado por Kat, obviamente. O peguei e o joguei o mais forte possível para longe de mim.
O cigarro tinha simplesmente sumido. Sem barulho, vulto, nada. Uma hora ele simplesmente desapareceu. Me virei para olhar as expressões curiosas dos meus parceiros e me surpreendi quando vi Anna pegar fogo. Literalmente.
– Alguma coisa ruim vai acontecer.
– Ok, eu tenho duas perguntas agora: – Cory começou, realmente intrigado – Primeiro: você é um tipo de cachorro de fogo que quando tem um pressentimento bom ou ruim, balança o rabo ou no caso, pega fogo?
– Na verdade, eu... – ela começou explicando, mas logo foi interrompida por Cory.
– Segundo: estamos num corredor que não tem um fim, é meio óbvio que estamos em perigo.
– Isso nem foi uma pergunta! – Anna jogou os braços pros lados, de forma que mostrava sua indignação.
– E ponto de interrogação.
Ela rolou os olhos e eu só olhei pra ele tentando entender o que acabou de acontecer. Ele soltou um risinho e a observou com carinho. Carinho demais.
– Então...! – intervi – Vamos ficar aqui esperando? Temos que arrumar uma maneira de sairmos seguros.
Então um rugido alto ecoou no local. Nós três ficamos parados, esperando alguma coisa acontecer. Ouvimos um segundo rugido e isso foi o bastante para todos nós empunharmos nossas armas. Lê-se: eu e o Cory. Anna estava com duas bolas de fogo nas duas mãos. Ah, cara. Eu sempre quis ser o Fogo. Cory estava com uma espada de ferro que ele mesmo produziu. Era meio torta e cheia de manchas, mas quem precisa de perfeição quando se tem uma espada tão afiada que pode cortar alguém ao meio com apenas um movimento rápido e preciso? É o que ele sempre diz. Enquanto isso, eu estava com a minha adaga em punho. Aquela que me dá habilidades assustadoras e tem uma pedra no meio. É muito boa pra ser verdade.
Então, no terceiro rugido, surge uma fera de pelo menos três metros de altura com a pele coberta de metais preciosos como sua armadura. Seu rosto estava coberta por um capacete, mas ainda podia ver seus olhos que brilhavam em cor vermelha. Suas mãos... Não. Suas garras eram grandes e afiadas e estavam pingando algo esverdeado.
Sem muita cerimônia, corri ao encontro da fera com a adaga em cima da minha cabeça dando um grito de guerra. Gostaria de dizer que era pra extravasar a adrenalina, mas na verdade é só porque eu acho super legal.
Mas para a minha surpresa – ou talvez nem tanto –, o monstro me atirou para longe com seu braço esquerdo antes mesmo d’eu chegar a atingi-lo. Suas garras, pra ser mais exata, se fecharam contra meu corpo e o impulsionou para uma distancia que eu não tive tempo de calcular porque assim que eu notei que estava sendo jogada sem nenhum equipamento de segurança, eu já tinha atingido a parede. E doeu muito.
Pensei ter ouvido Cory gritando meu nome, mas minha visão e minha audição estavam muito danificadas para conferir. Eu sentia que ia desmaiar ali mesmo, mas me recusei a deixar meus dois soldados sozinhos nessa luta. Olhei ao redor, procurando a minha adaga. Ela estava no pé do gigante de armadura, sendo constantemente esmagada pelo tal. Claro que eu só notei depois de uns cinco minutos, ou mais. Não importa. Cory estava em apuros e Anna não sabia o que fazer.
Pobre garota. Ela não tem culpa disso tudo. É a primeira de muitas batalhas que ela irá enfrentar. Deve estar se perguntando o que é aquilo tudo, o porquê disso estar acontecendo. Forcei-me a levantar. Caí algumas vezes, pois a dor era excruciante. Não quero nem pensar na quantidade de ossos quebrados no meu corpo. Você pode estar se perguntando o porquê d’eu não ter parado o tempo ainda. Bem, eu te respondo: manipular o tempo exige energia. E eu não tenho muitos recursos aqui.
...
É isso. É tão óbvio. Tudo o que eu preciso fazer é usar todos os meus recursos para acumular energia e matar o monstro do meu jeito. Vou tomar uns energéticos que eu tenho na mochila e partir pra luta. Mas antes eu preciso saber onde está a mochila em questão. Eu podia chamar Cory, mas a minha voz não saía.
Para ser sincera, eu estava ficando cada vez mais tonta e uma coceira no meu estômago estava me incomodando. Olhei para ver o que era e a “coceira” na verdade era um corte gigante que ia das minhas costelas do lado esquerdo pra abaixo do meu umbigo, numa diagonal. O corte não só sangrava como também soltava fumaça.
Elementos quando se machucam não soltam fumaça, certo? É estranho pensar nisso agora, tendo em vista de que estou no meio de uma luta. Eu nem consigo me concentrar em outra coisa agora. Estou cambaleando para trás enquanto olho para o meu ferimento e sinto que tem pessoas chamando meu nome. Não Cory e Anna que estão tentando matar o sujeito que está me matando. Mas as vozes de pessoas que estão distantes de mim agora, como Luke, Kat e a minha avó. E Daphne, também. Como eu sinto saudades da minha irmã que tampouco teve sua atenção nos últimos meses. Eu nem ao menos sei como ela está indo na escola.
Luke então, nem se fala. Nós terminamos? Ele conseguiu esquecer muito rápido o que tínhamos. Não recebi nenhum telefonema dele desde aquele dia. Espero que ele esteja bem. Outra coisa que me preocupa, é como Kat está treinando aquele exército. Não que ela não sirva pra coisa, mas ela é tão criança quanto eles. Ela se importa com coisas caras, garotos e diversão. Tudo isso que ela está vivendo agora pode sobrecarrega-la.
O que eu quero dizer é que me preocupo muito com ela. Foi o primeiro Elemento que encontrei e é realmente muito importante pra mim que ela esteja bem. Mesmo que não pareça. Mesmo que as pessoas me vejam como essa pessoa fria que só se preocupa com guerras e soldados. Há muito mais em mim do que todos imaginam. O que me alivia é saber que existem pessoas que sabem disso.
E então eu caí para trás, finalmente. Olhei para o teto daquele estacionamento subterrâneo esquisito e pensei sobre tudo o que estava acontecendo enquanto minha visão escurecia. “Se eu voltar viva para casa”, pensei. “Se eu conseguir chegar lá viva, vou dizer para eles que os amo”. Quando concluí o pensamento, ou melhor, a subconsciente súplica pela minha própria vida, meus olhos se fecharam.
E isso foi tudo.
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