Dando Voltas no Ponteiro

2 Capítulo II - O REAL INÍCIO


Notas iniciais
Como diz o nome do capítulo, esse aqui é o início real de tudo. Aqui dá pra entender um pouquinho do vem a acontecer nos próximos capítulos. Aproveitem!

E os dois anos se passaram. Minha casa foi alugada por estrangeiros, eu ainda estudo naquela escola e moro com meus avós maternos. Nesse meio-período, umas coisas estranhas andam acontecendo comigo. Às vezes, o mundo para e tudo fica meio escuro… E eu sempre volto dormindo. Pelo menos é o que dizem. Outros dizem que eu pareço um demônio, mas eu não ligo. Aliás, nesses últimos dois anos, eu ando não ligando pra nada. Desde que meus pais morreram nada mais fez sentido pra mim. Eu ajo como um daqueles clichês sobrecarregados em estereótipos. Não, eu não sou um clichê desses. Uso roupas pesadas e maquiagem escura pra evitar pessoas. Talvez eu só tenha medo de expressar meus sentimentos. Meu coração está carregado de tristeza desde então, e eu simplesmente não consigo seguir em frente. Sinto como se tudo que é mentira, desaparecesse e a verdade transborda. Dói tanto.

— Fayel, para de pensar na vida! – Leah, minha melhor amiga, chamou minha atenção para a aula de química enquanto o professor me encarava.

— Ah… Hã, desculpa Sr. Adams.

— Qual é a fórmula do sódio? – ele repetia devagar.

— Não sei.

— Sabe por quê?

— Porque eu não quis prestar atenção nessa sua aula de merda. – falei em tom sarcástico e levantei risadas na sala toda. Mal ligo pra isso.

— Diretoria.

— Não precisa falar duas vezes. – levantei e fui à diretora, mas no meio do caminho me senti sufocada de uma forma inexplicável. As coisas estavam ficando escuras, em preto em branco e também com as cores sobrepondo-se, causando uma tontura inexplicável. Me vi em um cenário completamente diferente da diretoria. Era a escola que eu estudei aos 7 anos.

— Fayel! Toma cuidado! – a diretora falava com uma versão menor de mim mesma.

— Me… Me desculpa.

Eu estava flutuando atrás de mim mesma com 7 anos, chegando a cantina. Apareceu uma garotinha loira de olhos verdes e jogou suco de uva na minha cara, eu a conhecia bem… Macy Derek. Eu sempre a odiei, por causa das judiações que ela fizera comigo, tipo essa vez. Até o dia em que eu não aguentei mais suas ofensas.

— Olha o que você fez, sua vaca! – voei na cara dela e a arranhei toda, depois saí correndo pra não ser pega por ela e suas amigas.

Me tranquei no banheiro, lavei o rosto mas fiquei chorando. Então a cena foi ficando clara cada vez mais e eu me encontrei na enfermaria, abracei minha avó, que estava do meu lado, e chorei por causa das lembranças ruins.

— Não chore, Fay. Estou aqui…

— Eu não aguento mais, vó. Não aguento mais sentir que estou ficando louca... – quando ela ouviu isso, pôs o rosto perto de meu ouvido, dizendo:

— Você não está louca. Você está ficando mais forte.

— O que?

— Falamos sobre isso mais tarde.

Pulei minhas últimas aulas e o diretor me liberou do que quer que seja o que ele ia fazer depois da repreensão do Sr. Adams. Chegamos em casa muito tarde, e minha avó estava morta de cansaço, então cochilou um pouco e só depois de um tempo, ela apareceu no meu quarto, provavelmente pra falarmos sobre meu outro acidente hoje…

— Fayel.

— Ah sim, entra.

— Eu quero falar com você sobre seus poderes.

A encarei por um tempo esperando que ela fosse me dizer que era brincadeira, mas depois de longos cinco segundos, respondi:

— Poderes? Do que você tá falando?

— O que? Você realmente acha que esses apagões que você dá no meio dos lugares é normal?

— Mas… São só ilusões, acontece comigo desde que sou uma criança.

— Fayel, isso são visões. Eu também tenho esses poderes. Ou, eu tinha.

— Como assim "visões"?

— Quando eu era nova, como você, eu estava tendo esses problemas com muita frequência e aí percebi que eu tinha algo a fazer. Uma missão. Quando descobri que minha missão era encontrar o amor de minha vida e adiar a morte dele… – ela fez uma pausa e seus olhos encheram-se de lágrimas – Eu teria que abrir mão de minha própria vida. Eu teria que dá-lo minha vida.

— O que quer dizer com isso?

— Eu fui egoísta, Fayel. A única filha que pude ter com ele, foi sua mãe. Eu tive que voltar várias vezes o tempo… Mas eu não posso mais fazer isso. Não posso trazê-lo de volta. Eu escolhi minha vida solitária sem ele. Achando que eu poderia voltar ao passado sempre… Quando descobri que essas anomalias estavam absorvendo toda a minha vida, toda a minha alegria… Tive que passar para alguém que estava para nascer… – ela me olhou – Me desculpe, Fayel.

— Vó… Eu não consigo entender muito bem o que você quer me dizer. Melhor, não to comprando essa história toda. Eu sei que você quer que eu me sinta melhor por ter dado mais um surto desses e ainda na frente de todo mundo, mas não precisa por o vovô no meio e...

— Fayel, eu não estou brincando. Você precisa descobrir a sua missão. Você precisa saber da verdade agora. – então eu comecei a rir.

— Missão? Na terra? Vó, por favor né! Eu sou ateia.

— Fayel! – e então tudo parou, tudo ficou preto em branco, fomos então para o pior dia da minha vida: o dia em que recebi a notícia da morte dos meus pais.. E lá estava a minha avó ao meu lado, rindo.

— Eu lhe disse que o passado não é apenas uma lembrança, se você quiser…

— Vovó… Seus olhos…

— Os seus estão iguais aos meus, querida. – Os olhos dela estavam negros, totalmente negros e pareciam lhe levar a loucura, tirar toda a sua felicidade e procurar todas as suas piores lembranças.

— Mas… Como você…?

— Perto de ti a energia negativa volta. E assim, posso voltar ao tempo.

— Energia negativa?

— Sim. Somos um Elemento. Uma maldição que nos acompanha por muitos antepassados, uma maldição que só você pode quebrar sem que o mundo deixe de ser o que é.

— Vó, mas eu…

— Shh! Vão nos ouvir!

— O que?!

— Shh! – ela pôs o dedo indicador nos lábios e, em seguida, apontou para frente.

E observei a cena e fiquei paralisada, como um fantasma. Talvez eu seja um fantasma…

— Mãe? – atendi ao telefone – Ahn… Delegado Hudson? E aí como anda a sua famí… O que? – vi meus olhos marejarem, eu ficando vermelha, a sensação de dor no coração havia voltado e eu própria, meu estado de espírito, estava ficando literalmente vermelho – Meus pais… Eles não morreram! É mentira! Para de mentir. – e cai no carpete e joguei o telefone pra longe.

E então eu estava dormindo no meu quarto. Minha vó provavelmente estava dormindo também. Sentei na beira da minha cama e chorei, chorei e chorei. Até não aguentar mais. A dor parecia tão recente e tão intensa.

— Eu não aguento mais... – olhei para cima e vi que uma aura rosa estava me envolvendo.

— Eu não posso agora… Me deixem em paz!

— Fayel, a gente quer te ajudar.

— É nos deixe lhe ajudar…

— Você vai ficar bem. – vozes misericordiosas ecoavam pela minha cabeça e depois começavam a rir.

Eu sei que é bem estranho e nada misericordioso, mas as vozes me acolhiam, e ao mesmo tempo, me conduziam a atos horríveis. Eu identifico essas vozes como “Vozes da Confusão”. Elas simplesmente… Te confundem. Eu já me coloquei em muito perigo por conta delas. O fato é que, elas te manipulam, e só aparece quando você está mais triste e vazia. E lhe fazem fazer coisas que pareceriam sanas apenas para você. Bem estranho né? Não queira presenciar as Vozes da Confusão.

— Eu não vou fazer nenhum favor à vocês!

— A gente só está com um pouquinho de fome…

—Não, não! Eu não vou fazer isso!

— Por favor, Fayel…

— É, por favorzinho…

— A gente tem sede de sangue e fome de alma…— e então deram risadas maléficas.

Era isso o que eu fazia para elas: Cortava minha pele e fazia uma espécie de ritual para alimentá-las, senão, eu teria de aguentar as consequências. Consequências como: Sentir dor eterna em certa parte do meu corpo até extrair sangue de alguém que eu gosto. Essa é a pior coisa do mundo. Felizmente, nunca o fiz. Não teria coragem de machucar alguém.

— Se você não fizer…

— Tudo bem, eu faço… Eu… Eu faço.

Cortei a pele dos braços e estendi. Sempre achei que aquilo fosse coisa da minha cabeça, uma desculpa pra aquelas vozes esquisitas na minha cabeça. Por um tempo, acreditei na esquizofrenia (o que é bem provável) e que eu me cortava porque tinha problemas mentais muito... Estranhos. Até vou pra um psiquiatra e tomo uns remédios. Mas depois dessa conversa esquisita com a minha vó... Talvez elas sejam reais.

Depois da mutilação gigante nos braços, ouvi um sussurro nos ouvidos dizendo “Muito obrigado, Fayel Lynch…”. E não lembro de mais nada, só lembro de dormir e sonhar com algo muito, muito estranho…

Era um campo agitado com muito barulho e dor. Tinham pessoas lutando umas contra as outras. Umas estavam de armadura negra, soltando faíscas, fogo, água e sendo arrastadas por árvores. Outras estavam com uma roupa casual mas cheios de armas. E eu não estava como um fantasma nesse sonho.

— Fayel! Você está bem? – uma garota de cabelo colorido me virou e em seguida apresentou uma expressão de surpresa – Fayel, por favor, me diz que é você aí.

Eu queria falar alguma coisa mas estava sem controle das minhas ações. Me pergunto quem é ela. A garota de cabelo colorido estava chorando em desespero quando tudo começou a clarear.

Acordei desesperada. Eu não sabia o que estava acontecendo, eu só sabia que tinha acontecido algo muito ruim àquela garota. Olhei o relógio, já estava de madrugada. Me levantei do chão do banheiro e fiz um curativo no meu braço e voltei pra minha cama pra voltar a dormir. Dessa vez, não sonhei com coisa alguma. O despertador tocou e mais uma vez, eu estava assustada. Me arrumei e fui para a escola. Só para deixar bem claro, eu tenho amigos. Na verdade, só uma. Só gosto de conversar com uma. A Leah. Sabe, ela esteve comigo desde sempre então… Só ela sabe dessas anomalias estranhas que tenho.

Entrei na escola e ouvi algumas pessoas cochichando coisas sobre mim, como sempre foi desde que eu entrei nessa escola. Na verdade, esses cochichos sempre foram coisas ruins. Depois de alguns segundos percebi que os olhares mudaram, os sussurros… Tudo. Estavam olhando para outro lugar, me senti mais confortável assim. Olhei para trás.

Era Candance e suas amiguinhas do clube cor-de-rosa. Mas ela estava com um garoto do seu lado, um garoto muito bonito. Lindo. Tinha cabelos pretos e olhos azuis intensos, azuis como eu nunca vi antes. A única coisa que eu consegui dizer foi:

— Uau.

— “Uau" mesmo, Fayel. Ele é um gatinho não é?

— Sim, Leah, ele é. Quem é esse? O novo namorado da Candance? – e ri.

— Lógico que não! – ela revirou os olhos – Ele é o irmão dela. Dizem que ele saiu de um internato de Oxford. Ele tinha uma doença aí muito estranha, não sei se já se curou. Mas que ele é gato, sim, ele é.

— Eu... Vou perguntar a ele uma coisa. – e sai em direção a ele.

Parei em frente dele e imediatamente fiquei com vontade de sair dali. Ele me olhou assustado, como quem dizia “Ela vai me espancar!”.

— Oi. Eu acho que te conheço.

— Conhece sim, querida. – Candance entrou na frente dele – Mas fica longe do meu irmãozinho! Vamos, Luke.

— Você… Você é a garota do quarto? – Luke disse e de repente eu me lembrei de onde eu o conhecia.

— Ahn… Eu… Eu prefiro não me lembrar dessa noite.

— Seu nome é Fayel Lynch não é?

— Sim… Eu…

— Ah, fracassada! Não fique envergonhada! Foi uma ótima festa de boas-vindas não foi mesmo? – Candance disse e todos ali riram.

— Pelo menos eu não dei uma de sonsa depois que todos descobriram do seu irmão naquela noite.

Todas do grupo dela me encararam como quem dissesse “Ela não devia ter dito isso”. Mas, sim, eu disse. Eu não vou deixar essa vaca pisar em mim. Nunca mais.

— Fay… Não continua essa briga. – Leah me advertiu do meu lado.

— E você, Leah. Deveria ter vergonha de si mesma, deixou de andar conosco para andar com essa drogada.

— Ela… Ela não é drogada! Você que é uma… Uma… Uma ridícula! Só sabe fazer mal às pessoas!

— Nossa, que insulto! – disse uma de suas amigas em tom de deboche, a Julie – Cortou meu coração.

Julie tinha a feição incrivelmente parecida com a de uma estrela de Hollywood. Ela era realmente bonita. Pena que a maquiagem não escondia o quão podre estava a alma dela.

— Oh Julie, chega a dar pena o quão estúpida você é, mesmo com a educação que seus pais estão pagando pra ver você ser alguém na vida, ao invés de só mais uma encostada na popularidade do ensino médio. – defendi Leah.

— Olha aqui, sua piranha...

— CHEGA! – Luke gritou. E depois olhou para a irmã, com olhar de desprezo. – Eu achei que você tinha mudado Candance!

— Mas eu mudei maninho…

— Ah claro! QUANTA maturidade. Deixa que eu mesmo faça minhas próprias amizades tá bom, Candance? – e então, Luke saiu andando.

— Amorzinho! Me espera… – Julie saiu correndo atrás dele, tropeçou algumas vezes por causa do salto, mas ainda parecia uma modelo.

— Idiota. – dei um sorriso irônico para Candance. Elizabeth, a outra amiga de Candance, três anos mais nova, a olhou dizendo “Não fica assim, amiga!”.

E fomos para a aula.