Dando Voltas no Ponteiro

10 Capítulo X - MÁS NOTÍCIAS, BOAS PESSOAS


Notas iniciais
Demorei três dias pra postar esse capítulo porque esperava mais dos meus leitores. Mais comentários, recomendações, acompanhamentos, enfim, vocês sabem. Mas não os culpo, já que vocês tem uma vida fora daqui, assim como eu. Esse é o último capítulo que escrevi no Word, então, vai demorar pro próximo capítulo sair. Aproveitem bastante o que se segue!

Após mais ou menos duas horas de viagem, a gente para pra beber alguma coisa num posto de gasolina. Enquanto Kat estava comprando mais suprimentos, me deparo com uma substância verde gelatinosa e brilhante no chão, bem no momento em que eu estava terminando de reabastecer minha scooter. Me agacho e toco na tal gosma e quando a puxo um fio verde vem sendo arrastado do chão pro meu dedo. Solto um “eca” e limpo o dedo na calçada. E é aí que eu ouço um barulho esquisito vindo de trás de mim. Só pra constar, era um posto meio abandonado. As únicas pessoas que tinham lá cuidando do local era um velho meio cego e o vendedor da loja. Eu olho para trás e não vejo nada. Torno a me virar pra frente e ouço um estrondo.

Kat. Corro em direção a lojinha, gritando por seu nome diversas vezes, quando eu entro, ela me olha espantada.

– O que houve, Fayel?!

– Ouvi um estrondo e eu achei que fosse você. – assim que eu termino de falar um rugido grotesco treme a loja. O adolescente lerdo vira o rosto, assustado e pergunta:

– Ai meu Jesus, o que foi isso?!

– Eu acho que seria correto perguntar “quem” foi. – sussurro.

Saio correndo pela loja de doces em busca de algo que eu pudesse usar como defesa. Encontro um pé-de-cabra e avanço em direção da saída. Quando observo a fera começo a rir. A criatura tem meio metro de altura com uma pele viscosa e esverdeada, com uma espécie de cabelo de folhas vermelhas e olhos assustadoramente pequenos e completamente negros. Tinha uma calda extensa e garras assustadoramente afiadas. Enquanto eu gargalhava, ouvi Kat tocar as paredes à procura canos sensíveis. Eu sei disso porque eu li os seus pensamentos.

Enquanto eu ria/bolava no chão senti o monstrinho pular em cima de mim e fincar suas garras no meu braço esquerdo. “Ainda bem que sou destra”, pensei. Grunhi e joguei a fera para longe, e gritei:

– Diga seu nome!

– Katropissss. – Katropis sibilava e eu pude ver que era descendente de cobras.

– Elemento Terra?

– Ssssim. Fui enviada para matar vocccê.

Foi quando vi Kat atrás dela, com uma lança improvisada de um cano solto, com uma ponta amassa – sim, amassada – extremamente afiada.

– Hoje não, víbora! – e fincou na garganta do animal asqueroso.

Katropis gritou girando o corpo inteiro até conseguir arranhar as pernas de Kat. Levantei-me e tentei invocar o tempo inúmeras vezes. Mas nada acontecia. Decidi que eu não tinha... Tempo pra controlar o tempo, e Deus, como isso soou estranho. Entrei na loja e procurei o vendedor, mas ele devia ter se escondido em algum lugar. Gritei:

– Cadê você? Seu nome é Sullivan não é? Tem 17 anos e trabalha aqui porque senão teu pai te põe pra fora. – eu não sabia de onde vinham essas informações, mas eu esperava que ele aparecesse assustado e perguntasse...

– Como você sabe disso tudo? – ele pôs a cabeça do lado de fora do banheiro.

– Eu não sei, eu... Preciso da sua ajuda. – eu não sabia mais o que fazer.

Ele saiu do banheiro, pegou coisas afiadas numa caixa de papelão e me entregou.

– Toma! Isso é tudo o que eu posso fazer.

– Obrigada. – Me virei em direção à porta quando me lembrei de acrescentar: – Ah. Lembrei. Sua amiga, Lucy, também é apaixonada por você. E ela gostaria que você a chamasse pro baile.

– Uau. – ele sorriu e eu saí correndo.

Joguei a caixa no chão perto de Kat quando achei um amuleto circular com uma pedra brilhante e verde, toda suja de terra. Pensei em usar naquele momento, mas na verdade, eu não fazia nem ideia de como se usava. Então simplesmente guardei no bolso do jeans.

– FAYEL, APRESSA AÍ! – Katropis estava em cima de Kat pronta pra jorrar seu veneno nela quando vi uma adaga dentro da caixa. Uma linda adaga dourada que chamou minha atenção até mais do que o amuleto. Ela tinha uma pedra negra no meio que tremeluzia com as cores cinza e azul marinho.

Peguei a adaga e saí correndo atrás do monstrinho irritante. Ele desvia dos meus ataques duas ou três vezes, mas quando eu piso na sua cauda e levanto os dois braços que seguram minha arma, ele não tem saída e se prepara pra o ataque final. A adaga acerta o meio de seu crânio e espirra sangue em todo o meu corpo. Engraçado por que não me lembro de ter acertado tão fundo.

Com toda a empolgação quase não ouço o grito estridente de Kat no fundo da cena do “massacre”. Arranquei a adaga da cabeça do monstro e umedeço os lábios, sentindo o gosto metálico do sangue da criatura. Passo o braço nos olhos tentando limpar a visão e balanço a cabeça na intenção de tirar os cabelos dos olhos.

– Que foi Kat?

– Eu... Seu rosto... Eu nunca vi você tão furiosa antes.

– Você quase não me conhece.

– Não é isso. Você estava com um olhar assassino...

– Olha, eu precisei matar esse monstrinho, ele era pequeno, mas era bem ágil tá bom?

– Não tente desviar, Fayel. Eu vi que você descontou sua raiva ali. É quase impossível acertar o centro exato do crânio numa velocidade de tempo tão mínima.

– Eu tenho... Anos de prática. Você sabe... Fugindo de monstros e essa coisa toda. – menti.

Kat suspirou e rolou os olhos.

– Eu não vou te forçar a falar. Mas sinta-se a vontade pra desabafar comigo. – ela se levantou, limpou o corpo e foi pra scooter.

Volto a olhar pra adaga e dou um sorriso. Eu sei que aquela energia toda, aquela força e habilidade não vieram de mim. Eu sei que tem alguma coisa nessa adaga deslumbrante. Toquei na pedra preta cintilante, e tudo o que eu queria saber era o que exatamente aquilo fazia. Será que foi feito pra outro elemento? Ou isso me traria graves consequências? Eu estava ansiosa pra descobrir.

Vasculhei mais a caixa pra ver se encontrava alguma coisa útil. Mas só o amuleto e a adaga pareciam importantes. Fora isso, peguei um arco e flecha de madeira e uma aljava reciclável. Prendi nas costas e taquei a adaga dentro da aljava. Subi na scooter, pus o capacete e cobri o rosto. Não quero nem pensar no que aconteceria se me vissem com o rosto vermelho, sujo de sangue daquele jeito. Olhei pra trás e disse pra Kat pegar o capacete que tinha no baú atrás dela.

– Não acho que vão nos notar tanto assim, você tá exagerando.

– O seu rosto tá todo sujo e as suas roupas... Credo. Veste isso logo e me abraça. Ninguém pode ver o banho de sangue.

– Certo. – Kat rapidamente faz o pedido e eu dei partida.

Não sei dizer ao certo quanto tempo ficamos na estrada. Mas fizemos pelo menos sete paradas pra reabastecer a scooter. Nas vezes que paramos pra dormir ou comer, foram em florestas, escondidas dos seres humanos... Depois de nossa adorável experiência com Katropis, não esperamos ser incomodadas novamente. E sobre as pesquisas da adaga... Nada. Não podemos entrar em bibliotecas, ou internet. Estamos ocupadas viajando pelo país procurando outros Elementos. Esbarramos em uma criança que tinha a aura da água, Kat a sentiu. Ficamos fascinadas, pois não sabíamos que tinha mais de nós. Mas a aura era fraca e era só uma criança... Não podíamos fazer nada por ela ou com ela. Levá-la pra guerra estava fora de questão. Mas Kat estava maravilhada com a criança e não parava de repetir “Tem mais de nós! Pode ter mais de você! Seremos um grande exército e venceremos a rainha!”.

Oh, queria eu ter alguém igual a mim. Mas eu sou um Elemento roubado e esse mal foi passado de geração a geração. Não há “mais um” de mim. Eu to sozinha nesse quesito. Minha mentora foi minha avó e só por alguns dias. Como as coisas aconteceram rápido esses tempos. Eu nem sei como minha vida se tornou tão interessante de repente. O garoto que eu gosto disse que me ama por SMS e está doente. Levei-o pra a casa de praia dos meus pais... Um lugar que nem Leah visitou. Como tudo aconteceu tão rápido? Por que tudo aconteceu assim? Eu não poderia ser uma adolescente normal que conhece um garoto normal, viramos melhores amigos e nos apaixonamos, que nem acontece nos filmes? Não. Claro que não. Isso aqui não é um filme e não vai ter um final feliz. Não vai ter um casal feliz e uma família feliz brincando com um cachorro. Isso é o início de uma guerra. Uma guerra que eu proclamei.

E agora toda a humanidade pode sofrer por conta disso. Se eu tropeçar, se eu fizer algo de errado... Tudo acaba. Todos... Morrem. Kat nunca encontrará o amor da vida dela outra vez e eu nunca vou poder manter minha família a salvo... Luke a salvo... Eu devia ter simplesmente aceitado o Tratado de Paz e entregado meu Elemento. Eu sei que tudo continuaria uma merda, que tudo continuaria ruim e cruel... Hercília é cruel.

Kat está dormindo do outro lado da fogueira enquanto eu estou sentada aqui, de vigia. Estamos tomando banho em lagos, rios... Chuveiro? Nunca mais vi um. Meus cabelos estão um ninho, e a coloração do cabelo de Kat já está desbotando. Ela reclama o tempo inteiro que devia ter trazido suas tinturas, seus produtos capilares e até o ursinho de pelúcia que faz massagem. Parei de ouvir já faz uns dias, estou tentando relaxar desde então. A coisa é que eu nunca mais vou relaxar realmente. Eu preciso salvar o mundo e sair viva da coisa toda... Por que todos os meus pensamentos se voltam pra isso? Eu só quero relaxar.

Olho pra minha direita e vejo minha scooter toda suja e fico atônita. Não a lavo desde que estive em Londres. Tem sangue seco, terra e folhas por toda a extensão do veículo. Afundo o rosto em minhas mãos sujas de terra e choro. Permito-me a isso porque não choro há tempo, estive me mantendo forte por Kat. Ela precisa de uma imagem forte porque sabe que sou eu quem vai liderar a guerra. Eu preciso fazê-la confiar em mim. Esse foi o único jeito que eu achei, fazendo a fria, calculista e sábia. A verdade é que não passo de uma manteiga derretida que sente falta de casa e da família. Até do namorado que deixei pra trás... E tudo o que tive com Luke. Tão rápido, tão suave, tão profundo do jeito que foi. Do jeito que nós fomos. Que foi. Não é mais. Engraçado como as coisas deixam de ser hoje em dia. Suspiro e solto a voz um pouco, acordando Kat. Ela se levanta e me encara, com os olhos vermelhos e o rosto já sujo de terra molhada. Ela faz uma expressão de pena como se já tivesse entendido e pede pra ficar de guarda.

– Eu prometi que ia ficar a noite toda, vá dormir.

– Você tem que dirigir a scooter. Dorme e eu cuido a partir daqui.

– Kat, eu dou conta.

– Eu estou vendo que sim.

Vejo que fui emparedada por Kat. Olho pra ela e tento fazê-la mudar de ideia, mas vejo que seus olhos cintilaram num azul piscina.

– Estive treinando.

– Tá, eu durmo. Boa noite.

E quando caio no sono...

Estou em casa. Vejo Daphne e vovó na mesa de jantar, em silêncio. Quando vovó está colocando uma garfada de brócolis na boca, Daphne dá um soco na mesa e grita:

– CADÊ A FAYEL, VOVÓ?! ONDE ESTÁ ELA?!

– Eu já disse. Numa viagem, ela volta em breve.

– Uma viagem de 4 meses?! Isso deixou de ser viagem, ela não ligou, nem deu notícias nem...

– Daphne, Fayel está numa guerra.

– Guerra? – indagou Daph com a testa franzida.

Vovó suspira, e joga o garfo de brócolis no prato. Põe a mão na testa e diz, com a voz fraca:

– Eu também queria saber como ela está.

Meu sono foi interrompido pelo grito de Kat. Ela estava de pé, com minha adaga em punho. Não sei como ela conseguiu tirá-la tão silenciosamente, já que pendia na minha cintura. Ela gritava pra eu me levantar, pois havia ouvido um barulho forte mais a frente.

– Eu não ouvi esse barulho.

– Claro que não! Você estava muito ocupada dormindo feito uma pedra!

– Quanto tempo eu dormi?

– Isso é mesmo necessário? Eu acabei de ouvir um estrondo mais na frente!

Levantei e peguei minha adaga de volta. Ela me encarou indignada e apontei pro arco.

– Eu lhe disse pra treinar.

– Argh. Tá bom. – Kat pega seu arco com muita relutância.

Fomos em direção ao lugar que Kat disse que ouvira o tal estrondo. Quando chegamos à uma distancia de 15 metros de onde vem o mal cheiro, decidimos parar e conferir nossas armas. Pergunto se tá tudo ok, e ela assente com a cabeça. Então avançamos pra o que quer que seja que tenha feito todo aquele barulho, que ela disse que ouvira.

Vejo um redemoinho de fumaça pura saindo do estômago de um homem deitado. Sua antemão apoiada na testa, onde mal posso ver seu rosto. Tinha os cabelos ruivos e bem cortados e corpo alto e forte. O movemos para o lado para que eu possa sentir os batimentos cardíacos do rapaz. Olho pra Kat que me olha na expectativa enquanto acaricia a testa do ferido e digo:

– Morto.

– Você sentiu a energia dele?

– Não... Você sentiu alguma coisa?

– Passou. Mas... Quando estávamos vindo... Quando ainda tinha aquela fumaça sob ele... Uma energia vermelha estava agitando por todo seu corpo e foi parando lentamente...

– E o que isso significa?

Kat me observa triste, abandonada.

– Significa que ele era um de nós.

Imediatamente ouvi um barulho nos arbustos. Olhei em volta, mas nada vi. Olhei para Kat, imaginando que ela teria ouvido, mas ela só me olhou como se eu estivesse ficado louca.

– Você ouviu esse ruído?

– Que ruído?

– De alguém se mexendo nos arbustos... Rápido, procure, pode ser o assassino desse Elemento.

No momento em que olho pro céu, vejo o movimento de um corpo voando. Antes que eu pudesse gritar para Kat, o corpo some em alta velocidade. Decidi esquecer a procura da garota e Kat me pede pra fazermos um velório para o rapaz.

– Kat, não seria um pouco rude fazer isso sem a família e amigos dele? Acho que deveríamos ligar pra polícia.

– Somos duas garotas com aspecto selvagem no meio de uma floresta, você acha que vão acreditar que não fomos nós que o matamos?

Dou uma risada.

– Às vezes acho que você nasceu pra ser mortal. – a olhei debochada – Eu controlo mentes.

Horas depois os policiais estavam ali e eu os fazia acreditarem na minha história enquanto Kat estava sentada, se lamentando por não ter conseguido salvar o Elemento. Com certeza ela viu Lupin nele. Confesso que certo desespero tomou conta de mim quando vi que tinha perdido um soldado pra a batalha.

E então me dou conta: só pode ter sido a Rainha. Mas é claro que foi ela. Ela está tentando enfraquecer meu exército na guerra. Como a raiva pode ter sido tão grande a ponto de matar seu próprio filho? Se já não estiver matando outros. Sentei com Kat e comecei a falar:

– Foi a Rainha. Te explico no caminho. Precisamos voltar pra Londres.

– Londres? Eu não vim até aqui só pra voltar pra sua cidade. – Kat rolou os olhos.

– Ah, mas você vai. Estamos com problemas e suspeito de um Elemento na cidade. Vamos, corre!

Após recolhermos nossas coisas, fomos viajando numa velocidade absurda na minha scooter, quando Kat teve a brilhante ideia de me fazer viajar no tempo até Londres.

– Isso vai ser perigoso, é muito caminho. Mas a gente pode tentar. Me abraça e não solta.

– Ok. – Kat faz o pedido e então só há o breu.

Nunca havia ido tão longe numa viagem no tempo. Foi tão longe quando acordei do breu já estávamos em Londres. Mas com danos seríssimos já que estávamos em movimento... Numa scooter.

Batemos numa árvore, bem de costas. Na frente da minha casa. De dia. Fico imaginando o que os mortais pensaram quando viram uma scooter surgir do além e bater numa árvore. Se alguém tiver visto vão nos chamar de satânicas mais tarde. Oras, ninguém mais pode ser um Elemento roubado em paz?

Eu sinceramente não sei quanto tempo ficamos desmaiadas no pé da árvore. Só sei que fomos levadas ao hospital – a vida ama me levar até esse lugar – e por algum motivo desconhecido, continuei conectada à cabeça de Kat. Continuei dentro dela.

E eu posso dizer: é assustador. Quer dizer, Kat é garota muito problemática teve muitos problemas na vida. Se a minha cabeça é um inferno imagino o que uma garota de 17 anos que foi esquecida pelo pai por conta do trabalho do mesmo, abandonada pelos amigos e até mesmo o namorado metrossexual. Entrar na cabeça de alguém que pinta o cabelo de cores engraçadas pra chamar a atenção da sua única família é perturbador.

Eu posso ter perdido meus pais pra morte, mas eles me deram todo o amor do mundo antes de morrer. Eu tenho minha amiga e um garoto de quem gosto (que está morrendo). Não quero dizer que a dor de Kat é maior que a minha. Mas juntar a minha dor e a dela foi demais de mais pra mim. Está sendo. É escuro lá dentro. As pessoas têm que entender que sempre haverá um monstro em nossas cabeças, só que algumas pessoas simplesmente não são fortes o suficiente para vencê-los. E quando eles vencem...

– Fayel... – ouvi um eco com meu nome. Uma voz que eu conheço.

Abri os olhos devagar. Me dei conta da voz que me chamava: era Leah. Senti a falta dela.

– Leah... – falei devagar, quase sem folego.

– Não force pra sair voz. Só me escute: Luke está muito doente. A família até começou a procurar agencias funerárias semana passada. Eu não quero que você se preocupe – bem, tarde demais. – mas ele realmente não parece muito bem. Ele precisa que você esteja lá com ele. Mas claro, depois que você se recuperar. Quebrou alguns ossos e já foi levada à sala de cirurgia pra consertar uns detalhes bestas... Tipo suas costelas... Mas já está tudo bem. Quer dizer, quase tudo bem você está precisando seriamente de uma maquiagem porque, meu Deus, que olheiras são essas Fayel?

Acabei de lembrar porque me despedi rápido de Leah.

– Luke? Fu... neral? – sussurrei.

– Sim... Eu realmente lamento, mas... Dessa vez eu não acho que ele vá sobreviver.

Uma lágrima caiu do meu rosto. Eu não entendo. A mensagem no celular, as visões, como isso pode acontecer tão rápido? Como minha intuição me voltou pra Londres, como eu sabia que uma coisa ruim ia acontecer? Imagino se sou eu, ou a Rainha que está matando Luke, me fazendo voltar pra Londres, me fazendo atrasar com a missão. Então me lembrei de Kat.

– A Kat...

– Ela tá bem. Por incrível que pareça, ela não sofreu nenhum arranhãozinho. Será que você não protegeu o corpo dela, de alguma forma?

Fiz que não com a cabeça, franzindo a testa. Como Kat poderia estar bem se era ela quem estava mais exposta, quem mais estava mais perto da morte? Como ela poderia estar bem? Olhei de volta para Leah e tentei pedir:

– Chamar... Kat... – eu estive sendo dopada, imagino quando tempo perdi com isso. Não, eu não vou avançar o tempo. Eu estou exausta e preciso de tratamento médico. O tipo de tempo que eu controlo não cura ferimentos graves. Assim como as dores do coração. A gente finge que passou, que o tempo curou, mas quando a vida nos trás um rastro do que te feriu, volta tudo de novo.

– Ahn... Claro. Vou chamá-la. – Leah então saiu, me deixando só no quarto por um breve momento. E neste breve momento, eu chorei. Chorei bastante, chorei até sufocar.

Quantos funerais serão precisos pra haver uma coroação? Quantas vidas serão desperdiçadas pra haver uma vitória? Quantos corações serão quebrados pra se encontrar o verdadeiro amor? Rá, o amor. Estou começando a desacreditar de sua existência. Não acredito que deixar tudo isso pra trás não foi o bastante. Não que eu o ame. Na verdade, eu nem tenho certeza de nada.

Mas e se Leah estiver errada?

Assim como as visões distorcidas que eu tenho, Leah também pode ter tido uma ideia errada sobre isso tudo. A verdade é que eu me apego muito rápido às pessoas, isso machuca. Eu as quero só pra mim, quero colocá-las num potinho e protegê-las do mundo. Mas o que eu posso fazer por elas? O que eu não faço nem por mim?

Deitei de lado e olhei para o vaso de flores que alguém deixara pra mim. Fico imaginando se minha mãe estivesse viva, quais flores ela colocaria naquele jarro. Ou o meu pai, o sermão que ele me daria por ser tão desatenta. As pessoas sempre reclamam dos pais que tem, mas nunca imaginam o que as pessoas que não tem sentem por elas. Raiva? Não diria isso. É algo menos sólido, mais liso. Tão indiferente quanto um manual de instruções de uma coisa que você já sabe mexer. Desprezo. Elas não têm noção do que falam, ou pensam.

Teriam, se tivessem nossa dor. Por alguns minutos, se elas a sentissem... Quem sabe tudo não seria diferente? Quem sabe, o mundo não seria um lugar melhor? Quem sabe nem existiria essa guerra idiota. Quem sabe? Ninguém sabe. Cheguei à um ponto de que duvido da existência de um Deus. Como pode existir um Deus? Não nos ensinaram que Ele é o amor? Que Ele tem muito poder? Então Ele poderia consertar isso agora. Mas Ele não o conserta. Porque não existe.

Tirei essa conclusão após ouvir sobre esse funeral. Viajei milhares de quilômetros, pra voltar e ter essa notícia... Eu não acredito mais. Em mais nada. Na verdade quero levantar dessa cama e terminar isso. Essa guerra estúpida, que nem precisava ter começado. Não tem cabimento disputar pelo meu Elemento. Eu o dou. O odeio mesmo. Tá me matando a cada segundo, e não importam quantos hospitais eu vá, isso não tem cura. Não tem. Parece que o meu novo vício é esse: Me machucar e ir à hospitais.

Parei de sentir tanta dor. Tanta pena de mim mesma. Não tem pra quê sentir pena, meu destino é esse e só. Eu tinha que começar a guerra, era o que estava escrito. Mas... Por que eu? A garota órfã que não consegue pensar em si mesma?

Por que?

Notas finais
Um capítulo dramático, não é? Eu gosto de escrever dramas. O sentimento obscuro que cerca a personagem, é aliviante. Pelo menos pra mim, já que escrevo basicamente o que sinto. Hahah, bem, eu tenho um favor a pedir: recomendem a fic pros seus amigos, primos, cachorros, papagaios, todo mundo! Por favor, é muito importante que eu continue recebendo comentários aqui, pra um dia ter estímulo de publicar isso como história, realmente. Obrigada aos que leram e acompanham. ♥