Dando Voltas no Ponteiro
16 Capítulo Especial – ALGUMAS CORES NÃO DESBOTAM
Notas iniciais
Meu nome é Katherine Jay Woods, nasci dia 26 de Agosto de 1997. Sou virginiana e fiz aniversário na semana passada. Não contei pra ninguém, pois, por mais que eu goste de chamar atenção, tem coisas que eu prefiro manter em segredo. Estive esperando uma ligação do meu pai o dia todo, mas ele sequer percebeu que eu sumi. Tudo bem, isso é normal não é? Ele é muito ocupado. A cor natural do meu cabelo é castanho amendoado e costumava ser muito liso e longo. Claro que devido às químicas ele começou a quebrar e ganhar uma textura mais elástica, e isso me forçou a cortar o cabelo cada vez mais curto e cada vez mais... Como eu digo? Repicado é a palavra. Meu cabelo mede abaixo do ombro e tenho uma franja cortada rebeldemente para o lado esquerdo. As cores do meu cabelo mudam o tempo inteiro e nunca será uma cor só. Isso é porque eu acredito que vivemos num mundo preto e branco. Um pouco de cor preenche e atrai olhares. Seja onde for: roupas, cabelos, artes de ruas, em desenhos... Cor sempre trás mais vida. Assim como o amor, que nos dita que um dia encontraremos alguém que colorirá nossa vida. Estou esperando, Deus. Estou esperando.
– O que ela disse? – Cory chegou arfando perto de mim, pingando de suor.
– Ela está num encontro com Luke. Não sei quando ela volta. – guardei o meu celular no bolso e voltei a olhá-lo – Mas me deixou no comando.
– Por que será que eu acho que isso não vai dar certo?
– Eu só quero levar essas pessoas para ter uma noite divertida. Você sabe que Fayel é bem restrita quanto à horas livres.
Ele coçou a cabeça, irritado consigo mesmo.
– Estaremos encrencados ao fazer isso, você sabe não é?
– Sei. – sorri – Mas você também sabe que amo me meter em problemas.
Duas horas depois, estavam todos arrumados entrando nas duas vans que eu e Fayel alugamos/roubamos. Ela e esse poder de manipulação psíquica. Nick, como sempre, não estava animado. Nick é um garoto reservado de 16 anos, olhos heterocrômicos e cabelos pretos. O olho esquerdo é castanho claro e o direito, azul. A Fayel meio que adora esse garoto. Não é como se ele fosse legal ou coisa assim. Na verdade, Fayel o vê como um soldado importantíssimo.
Nick tem controle sob dois Elementos: terra e água. Ele não faz coisas tão incríveis, mas controla ambos os Elementos e Fayel faz de tudo para mantê-lo no exército não importa o que aconteça. Eu, por outro lado, o acho irritante.
– Você vai ficar com essa cara a viagem inteira?
Ele não disse nada e entrou na van. Eu sempre quis entender esse garoto. Um dia, eu juro: eu descubro o que há com ele. Conferi se estava todo mundo na van e sentei no banco do motorista. Olhei para Cory que estava entrando na mesma van que eu e avisei:
– Você dirige a outra.
– Mas...
– A outra. – o interrompi.
– Eu só...
– A outra.
– Mas eu só queria...
– Vai dirigir a outra van! – gritei.
Ele me olhou com raiva e se redirecionou para o outro veículo. Segui em direção à uma pub no centro de Londres e me arrependi imediatamente por conta das crianças. Ouvi meu celular tocar e atendi, ouvindo a voz de Cory:
– Um pub? Sério? – o olhei pela janela e sorri amarelo – Temos crianças aqui, Kat. Vamos para a London Eye.
– Mas...
– London – e dessa vez ele me interrompeu.
– Eu...
– Eye.
Não que tenha sido uma má ideia, já que moro aqui tem uns meses e eu nunca tinha chegado nem perto da maior roda gigante do mundo. Dei a volta e começaram os murmúrios atrás de mim, alguns confusos e outros frustrados.
– Ah por que não podemos ficar no pub? – gritou Bruce Nakamura, um garoto de 15 anos que controla o fogo. Bruce tem os cabelos negros arrepiados, olhos puxados e um piercing no lábio inferior.
– Você não precisa de um pub, Nakamura. – gritei de volta.
– É, não precisa. – Airly, a namorada de Bruce, protestou. Ela tem um nome engraçado principalmente quando você se dá conta de que combina com seu Elemento, o ar. Airly tem 14 anos, cabelos negros e lisos, olhos castanhos.
Cory nos guiou até a entrada da London Eye. Me dei ao trabalho de pesquisar sobre a queridinha da Inglaterra enquanto dirigia e descobri que a roda de observação tem 135 metros. Olhei para cima e suspirei forte. Ah, pelo menos é perto da água. Isso também porque não é a maior do mundo. Não mais, em 2008 foi inaugurada a Singapore Flyer que sabe-se lá quantos metros de altura tem, e eu sinceramente, não quero descobrir. Além disso, tudo, o ponto turístico é super disputado. O que significa que estamos a quatro horas tentando comprar nossos ingressos.
Estou sentada com dezesseis soldados de um super exército num banco perto de um carrinho de algodão-doce. Claro que eu não resisti e estou comendo o meu terceiro. Estava comendo no banco, pensando em nada, quando fui surpreendida por Sam, o garoto de 16 anos da Terra, que me puxou para longe das outras pessoas.
– O que é isso que você... – então ele me prende pela cintura e pela minha nuca e me beija.
– Só quis provar esse algodão doce.
– Era só ter pedido! Comprei algodão doce pra todo o mundo, com você não seria diferente. – me soltei dele, limpando os cantinhos da boca, ainda sujos com o meu doce.
Sam tem os olhos castanhos, cabelos loiros, ondulados e desarrumados na altura da nuca e uma pintinha debaixo de seu olho direito. E beija muito, muito bem.
– Ah, Kat. – ele me puxou de novo e dessa vez pus meu algodão doce rosa no meio de nós dois – Você não vai contar a eles nunca? Está começando a ficar chato isso de namorar escondido.
– E quem disse que estamos namorando? Não tem namoro nenhum aqui.
– Mas é quase... – ele me beijou e dessa vez eu não o empurrei. Ele passou as mãos pelas minhas costas, fez carinho nos meus cabelos... Tudo muito lindo até que ouvi um grito a pelo menos seis metros de distância de nós dois.
– Katherine! – me virei espantada e vi Cory e todo o exército me encarando. Soltei Sam e me virei.
– Eu só estava terminando de comer e ele quis um pedaço. – arregalei meus olhos e quando me virei para ver Sam, ele me puxou pela cintura e sorriu orgulhoso. Como se isso fosse um prêmio. Como se eu fosse um prêmio.
Cory fez uma expressão de nojo e voltou a falar:
– Consegui os malditos ingressos. Vamos seus beijoqueiros.
Me apressei a andar e só reparei na real raiva de Cory quando encostei no seu braço e ele me empurrou. Gritei pelo seu nome e ele não me respondia. Frustrada devido à ignorância, voltei a falar com Sam.
– Ele só está com ciúme. – o olhei confusa e ele prosseguiu – Ah, qual é? Vai me dizer que nunca reparou que ele é caído por você?
– Não, ele não é. Só gosta de me encher o saco. Só isso.
– Sim, claro. A água oxigenada que você usou nesse cabelo mexeu com você foi? – ele revirou os olhos e andou mais depressa. Olha, eu sinceramente não sei o que há com esses garotos.
Estávamos nos separando em grupos de três pessoas, mas Sam decidiu ficar com Bliss, Laura e Travis para olhá-los. Então ele sussurrou para mim:
– Você precisa conversar com o Cory.
O olhei constrangida e me juntei a Cory na cabine gigante da London Eye. Tinha espaço para mais cinco ali dentro, porém só comigo e o grego parecia pesado demais. E bem, ambos não pertencemos a esse Elemento. Digo, o Ar. E estávamos enjoados, cada um de um lado diferente da cabine, fingindo que a vista nos agradava.
– Eu quero descer. – disse eu, quebrando um silêncio de pelo menos cinco minutos.
– Abre a porta e pula.
O olhei, franzindo o cenho. Ele me olhou de volta e sorriu.
– Que maldade. – disse eu, realmente ofendida por isso.
Me levantei e sentei ao seu lado. Ele se afastou de mim um pouco e eu me senti ligeiramente constrangida.
– Por que você está assim comigo? Não é como se eu tivesse ferido alguém ou coisa assim.
– Kat, você não entende.
– Então me explica.
– Não posso! – ele gritou comigo e voltou a olhar pra fora da cabine – É complicado.
Pensei nas coisas que Sam disse e foi como se tudo estivesse fazendo sentido, finalmente.
– Você gosta de mim, Cory? – tive a ousadia de perguntar, pois senão eu nunca o faria.
– O que? – sua voz saiu tremula e ele me olhou com os olhos arregalados e seu rosto estava muito, muito vermelho – Claro que não.
Me encostei na parede e o olhei irritada. Eu não estou entendendo mais nada aqui. Depois mulheres são as complicadas. De repente tudo parou de fazer sentido. Ao me ver daquele jeito, Cory prosseguiu:
– É que eu não posso deixar você ficar com qualquer um por aí.
– Ele não é qualquer um. – protestei.
– Sim, ele é. Ele não está nem aí pra você. Te trata como um objeto a ser exposto, um...
– Prêmio. – completei enquanto encarava o chão que de repente pareceu um bom para se olhar.
Ele virou meu rosto para olhá-lo e me disse baixinho:
– Você é muito mais que um prêmio. Você é a pessoa mais importante do mundo pra mim.
– Sou...? – isso me fez voltar a pensar que sim, ele é apaixonado por mim.
– É... – ele me soltou e bagunçou meus cabelos – Irmãzinha.
Dei um sorriso e ele retribuiu. Fiquei tão aliviada com a explicação do afeto que Cory tem por mim que me dei o direito de encostar em seu peito e cochilar até que pudéssemos sair dali.
Quando estávamos voltando, ignorei Sam todas as vezes que ele tentava falar comigo. E é claro que Fayel iria ficar furiosa se descobrisse que estou destratando um de seus soldados. Mas ela não vai saber. Nem pode sonhar com isso. Já estávamos no acampamento, indo para nossas cabines quando uma pessoa me parou na central.
– Você é bem disputada, não é? – Nick finalmente falou comigo.
– Eu? Você não sabe do que está falando. – falei imediatamente, lembrando-me de Lupin. A única pessoa que consegue me magoar só de pensar naqueles olhos verdes.
– Pode ser. – ele estava saindo para sua cabine e falou mais alto – Se tem uma coisa que eu sei Kat, é que não importa o que você faça ou quantas vidas você viva... Tem cores que simplesmente não desbotam.
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