Dancing around

1 Capítulo Único


Notas iniciais
olá!! a faculdade está me matando, e por isso decidi escrever uma oneshot bem fluff e comfort pra me distrair e quem sabe distrair vcs também! espero que gostem!

nessa fic, há uso da neolinguagem.

a música do título e mencionada no decorrer da história é de mesmo nome, dancing around - flor.

— Esse vagão foi molezinha. — Jesse abriu um sorriso convencido assim que a porta se fechou.

— Ah sim, até porque se não fosse pela minha ajuda a gente teria passado o resto das nossas vidas lá. — T.E brincou em um tom sarcástico.

— Qual é, não foi tão ruim...

Já haviam passado por alguns vagões desde aquele em que o parasita ficara e o clima entre os dois estava diferente desde o vagão dos Apex. Estavam mais próximos e T.E começava a temer o momento que o número do garoto chegasse a 0 e ela não pudesse ir embora com ele. Afastava esse pensamento sempre que ele aparecia, não estava preparada para lidar com isso.

Talvez nunca esteja preparada.

— Não imaginava que você conhecia tantos enigmas — o garoto continuou, mencionando o vagão que estavam a alguns minutos atrás. O vagão era desértico, com algumas construções de calcário e arenito levantadas e outras derrubadas, remetendo ao Egito Antigo. No centro de uma delas que se assemelhava a um palácio abandonado, havia uma esfinge. Ao se aproximarem dela, a mesma recitou 3 enigmas.

Se T.E não estivesse com ele, era provável que ele não saísse daquele vagão tão rápido.

— A Tulip conhecia. Acabou que eu ainda me lembro de alguns. — comentou, indiferente, oferecendo algumas gramíneas para o cervo, que aceitou com prazer.

O silêncio se instalou por alguns segundos, tudo que ouviam eram as rodas do trem em movimento enquanto atravessavam a ponte de um vagão a outro.

— Que coisas você quer aprender ou conhecer quando sair do trem? — Jesse perguntou com interesse, as mãos posicionadas na maçaneta em forma de infinito do vagão seguinte.

— Acho que... Tudo que eu puder — ela respondeu com sinceridade. A cada dia que se passava no espelho, ela pensava nas aventuras que poderia ter, nos assuntos que poderia aprender e em como viveria cada um de seus dias fora do espelho como se fosse o último.

— É muita coisa, mas a gente dá um jeito nisso! — ele abriu um sorriso e girou a maçaneta.

A porta se abriu, dando um vislumbre do que havia no interior do espaço. Um lustre repleto de cristais fora a primeira coisa que viram. O ambiente se parecia com um salão de alguma mansão antiga e refinada. Uma pintura dourada que poderia facilmente ser ouro cobria boa parte das paredes e seus detalhes, cortinas púrpuras cobriam as janelas que iam do chão até pouco antes do teto, que se curvava semelhante a uma abóbada. No meio, polvos humanóides dançavam suavemente, dando passos para frente, para trás e girando periodicamente. Havia uma escadaria coberta por um tapete de velado azulado a frente e aos lados, sendo que os degraus dos lados pareciam levar para alguma sala acima de onde estavam. Em algum lugar, uma música clássica tocava.

— Uau — o garoto suspirou, maravilhado.

— Aonde pensam que estão indo? — uma voz questionou de cima. Ambos ergueram o olhar para notar que quem falava era o lustre. — Não podem debutar assim, com essas roupas, sem dança e sem acompanhantes!

— Como é? — T.E perguntou, na defensiva. — Escuta aqui, seu...

— Venham comigo. — O lustre jogou um de seus cristais ao chão e rapidamente o cristal se transformou em uma forma humanóide de si. A forma seguiu o caminho por uma das escadas que levavam para um andar acima.

Os jovens se entreolharam por um momento, sem certeza de como prosseguir. Essa fora uma das abordagens mais rápidas que já tiveram ao entrar em um vagão. Enfim, o garoto deu de ombros e o seguiu, com T.E e Alan Dracula logo atrás.

Uma sala de dança — e o lustre — os esperava. A sala era ampla, com a mesma decoração do salão de antes, um pouco menor do que este. Havia um mezanino com janelas abertas que mostravam apenas uma vasta escuridão.

No chão, diversas figuras em formato de pés se posicionavam em várias partes da sala de forma estratégica e didática, com linhas pontilhadas demarcando para onde deviam ir a cada passo ou rodopio.

— Vocês devem permanecer aqui até que aprendam a dança para o baile. Feito isso, estarão prontos para se apresentarem no salão principal. — O lustre ordenou com a voz firme e saiu em seguida, trancando as portas de molduras atrás de si.

— Bom, isso foi rápido. De certo pra compensar o vagão de antes... — ele pensou em voz alta.

— É... — Ela concordou distraída, observando os passos impressos no chão.

Alan Dracula permanecia tranquilo, até deitou-se para observá-los.

— Não deve ser tão difícil — o jovem posicionou os pés em uma das figuras e estendeu a mão para a amiga, que pareceu surpresa com o gesto.

— Eu não sei dançar, Jesse — admitiu, mesmo sabendo que não conseguiria fugir fácil assim.

A questão era: ela ficava sem jeito perto dele desde aquele abraço.

— Qual é! Nenhum de nós sabia desfilar até aquele vagão do desfile, com esse vai ser a mesma coisa! Além disso, eu também não sei dançar dança de salão, então a gente pode aprender juntos. — Assegurou.

T.E ponderou por um momento, até enfim aceitar e segurar a mão do outro, se aproximando para que seus pés ficassem na posição correta a frente dos dele. Sua outra mão foi ao ombro do companheiro e a dele em sua cintura.

Algo em como suas mãos tinham temperaturas diferentes os fazia não quererem soltá-las mais, e não era a primeira vez que isso acontecia.

Com receio, deram o primeiro passo para a dança, ela alguns milésimos de segundo atrasada, resmungando baixo pela falta de atenção.

— Se eu pisar no seu pé durante essa dança ridícula, eu não vou pedir desculpas — ela esclareceu.

Ele riu.

— Tudo bem, só por favor: não pisa no meu pé — ele pediu sorridente e dessa vez foi ela quem riu.

Eles continuaram a dançar, seguindo exatamente as figuras destacadas no piso.

— Não é estranho? — T.E perguntou.

— O quê? — ele ergueu o olhar das figuras para olhá-la nos olhos.

— Estamos dançando sem música.

A ficha de repente pareceu ter caído para ele. Pararam a dança e se separaram. O garoto analisou ao redor, em busca de aparelhos de som ou até instrumentos que tocassem melodias sozinhos, mas sem sucesso. Estava ocupado demais em acertar a coreografia e notando como ela ainda segurava sua mão, esperando que ela não percebesse seu coração batendo um pouco rápido demais. Em sua mente, repetia:

“Pense rápido Jesse, não enrole.”

— A-ah... — gaguejou e desviou o olhar assim que sentiu seu rosto esquentar. — Bom, nós podíamos cantar uma música.

— Acho que vai ser um tanto complicado cantar uma música clássica — considerou.

— Mas não precisa ser clássica! — ele disse empolgado. A outra o observou, confusa. — Veja, desde que a gente siga os passos do chão, ninguém disse que precisa ser uma música tradicional de baile.

— Isso... faz sentido. — Ela notou o brilho nos olhos de Cosay e o sorriso orgulhoso de ter tido uma boa ideia, o que a fazia sorrir também sem que percebesse.

— Podíamos cantar “Quando olho pra você, eu me vejo” de novo!

— Por favor não. — A resposta dela veio tão rápido quanto a sugestão do outro. — Eu... conheço uma que pode funcionar.

O cervo de repente prestou mais atenção ao que falavam. Até ele sabia o quanto isso não era uma coisa que ela costumava dizer.

— Beleza! — ele retornou as mãos na mesma posição de antes e a olhou com expectativa.

Por um segundo, ela se arrependeu de ter tido a ideia. Só tinha cantado em voz alta uma vez, em um vagão de karaokê, antes de encontrar o garoto e o cervo.

Agora com ele ali... Era algo completamente diferente.

Suspirou, e começou a cantarolar. Quanto antes começasse, antes terminaria.

— I can't wait, I've been longing, to be dancing around again.

No primeiro verso, já tinham executado mais 3 movimentos de acordo com as figuras. O animal de repente se juntou a eles, dançando à sua maneira sobre as quatro patas.

— Eu conheço essa! — o brilho no olhar de Cosay se intensificou, e seguiu com a próxima estrofe — I wish for the madness...

— I live a bit lavish — A essa altura, já haviam pego o ritmo da coisa, estavam dançando como se já tivessem feito isso antes.

— With no care beside — Ele estendeu o braço que segurava a mão dela e ela fez o mesmo, o que os fez ficarem lado a lado por alguns passos, até retornarem a posição original.

A dança se seguiu com naturalidade. Nem sempre conseguiam ser fiéis as figuras, mas o que realmente importava era que estavam se divertindo.

Entre risos e estrofes desafinadas, e por vezes tropeçando em seus próprios pés, encerraram a coreografia alegres. Uma luz dourada vindo das formas do chão começou a brilhar intensamente e eles tiveram de soltar a mão um do outro para protegerem a visão.

Em um passe de mágica, eles apareceram de volta ao salão principal, com roupas adequadas para o baile. Entretanto, a roupa de T.E não era um vestido.

— Bonito terno — Jesse elogiou. Ele vestia um terno de um tom de amarelo voltado para o mostarda, com uma gravata lisa na cor azul-marinho, como se a peça fosse uma releitura da roupa casual que usava.

Ela admirava seu terno preto da cabeça aos pés, com um único tom de branco na camiseta contrastando com a ausência de cor.

— Valeu, digo o mesmo — ela apontou para ele e o garoto fez uma reverência exagerada.

O animal vestia uma gravata vermelha e uma cartola.

— Com vocês, Alan Dracula, Jesse Cosay e T.E! — O lustre anunciou, e o salão todo se calou para dar vez a música que começaria a tocar.

— Me concede essa dança, T.E? — ele estendeu a mão para ela, o corpo levemente inclinado e um sorriso bobo estampado no rosto.

Ela revirou os olhos com a frase clichê que ele dissera, e aceitou o convite.

Começaram a dança da mesma forma que treinaram, dessa vez com uma música clássica de fato. Já não era tão complicado quanto achavam que era ao entrarem no vagão. Para eles, essa tinha sido uma das experiências mais memoráveis no trem. Ambos cantando e dançando juntos, se divertindo tanto a ponto de esquecerem de todas as suas preocupações. Alan Dracula parecia encantar os convidados com seus passos diferenciados de cervo.

A música continuava no mesmo ritmo, mas os amigos de viagem pareciam mais criativos e energéticos a cada passo. Eles giravam em volta de si e em volta do outro, muitas vezes rindo dos passos que acabavam de criar.

Ouviam certos murmuros das pessoas-polvo, elogiando suas roupas ou comentando que eles seriam ótimos pretendentes para o casamento de seus filhos.

Ao fim da música, T.E decidiu executar um passo diferente: segurando uma das mãos do garoto, o rodopiou e, devido ao chão liso e falta de prática, ele escorregou e começou a cair. Em reflexo, ele se segurou no ombro dela, mas ela já o segurava com ambas as mãos na cintura dele.

Eles se entreolharam por uns segundos, seus rostos ficando corados simultaneamente.

A garota abriu um sorriso convencido, e o puxou para que ele voltasse a ficar de pé.

— Obrigado — ele agradeceu inicialmente, mas logo percebeu o que acontecera — Espera, você fez de propósito! — um sorriso se abriu.

— Eu? — Ela fingiu estar ofendida, apontando para si — Claro que não. Da onde tirou isso? — ela disfarçou e se dirigiu até o cervo para acariciá-lo.

Ele não conseguia conter a alegria que estava sentindo.

— Aaah, eu estou amolecendo esse seu coração de pedra, não estou?

— O quê? Não! — ela protestou, as bochechas retornando a um tom escuro de cinza. Não era assim que ela tinha imaginado que ele reagiria.

— Vocês executaram a dança de forma majestosa! Podem sair — O lustre apontou com um dos seus pendentes de cristais a porta recém aberta.

Ela se dirigiu imediatamente à saída com o animal, enquanto Jesse agradecia ao lustre e as pessoas-polvo.

Quando a porta se fechou e suas roupas voltaram a ser as suas comuns de sempre, T.E decidiu puxar um assunto que até então não tinha coragem de dizer, e a ocasião parecia perfeita para isso. Deixou que Alan Dracula liderasse o caminho.

— Jesse — ela o chamou e ele olhou em sua direção. — Você não se incomodou com eu... estar usando um terno?

— Não, por que eu me incomodaria? — Ele a olhava com uma expressão acolhedora.

— É que... Eu venho pensando sobre algumas coisas e... Eu sou não-binário, e entendo completamente se...

— Ei, parou aí! — ele interrompeu e estendeu as mãos em sinal de “Pare”. — Então quais são seus pronomes?

— Elu/delu, às vezes ela — T.E parecia surprese com a reação do garoto — Eu... venho pensando em um nome também.

A expressão dele se abriu ainda mais, ansioso e curioso para saber.

— E qual é? — A esse ponto, ele nem conseguia mais disfarçar seu sorriso.

— Lake.

Ele estendeu a mão para ela apertar.

— Prazer, Lake. Nome muito bonito a propósito! — elogiou ele. O cervo se pôs ao lado do garoto e fungou, como se quisesse dizer o mesmo.

Ela retribuiu o sorriso e apertou a mão dele, fazendo um carinho rápido no animal logo depois. Teve certeza a partir dali que ele era sua pessoa favorita.

Notas finais
espero que tenham gostado! E por favor comentem se puderem, isso me incentiva muito a continuar escrevendo sobre esses dois que são meu maior conforto ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!