Dancing With Our Hands Tied

2 1. Ele havia capturado o pomo de ouro


capítulo um

Não era segredo para ninguém em Hogwarts que Regulus Black era um dos melhores apanhadores que o time de quadribol da Sonserina poderia sonhar em ter. Em seu quinto ano de Hogwarts, o rapaz era como uma lenda viva, seu time vivia ganhando troféus pela habilidade dele em se movimentar sutilmente em campo. Por isso, ele passou boa parte de sua adolescência acostumado a ser adorado.

Regulus era popular por ser bom em tudo o que fazia, possuía notas espetaculares, sua vassoura era da mais nova geração, e sua habilidade como apanhador era inegavelmente espantosa. Não era incomum que houvessem muitas garotas ao seu redor, ansiosas para que ele pudesse lhes dar ao menos uma chance. Mesmo assim, ele sempre foi muito fechado em seu próprio mundo, sem demonstrar muito interesse para com aqueles que o cercavam. Algo em suas feições denotavam que o rapaz estava acostumado com a solidão.

Ele emanava tranquilidade e confiança, e talvez fosse por isso que os demais alunos o julgasse ser inabalável. Embora houvesse algo, lá no fundo, que sempre iria lhe abalar: Sirius Black, seu irmão mais velho.

Ali, no meio do campo de quadribol em sua posição esperando pelo apito que iria dar início a partida, Regulus conseguia ver seu irmão na arquibancada com o cachecol amarelo e vermelho. Sirius aparentava estar mais feliz ultimamente, cercado por seus amigos estúpidos que ele ousava chamar de família. Naquele momento ele se encontrava torcendo por um de seus melhores amigos, James Potter, o apanhador da Grifinória e rival de Regulus no jogo que iria começar.

O maxilar do rapaz endureceu com aquele pensamento, seus orbes escuros desviaram-se automaticamente para James Potter que segurava sua vassoura com um sorriso convencido no rosto. Ele era um sujeito detestável, o tal do Potter. Regulus iria dar um jeito de fazer com que aquele Leão perdesse, custe o que custasse.

As palavras de Madame Hooch desejando um jogo limpo foram jogadas ao vento, a verdade era que entre cobras e leões não existiam partidas honestas. Ambas as casas eram alimentadas pela sede de vitória, e em um jogo, é inevitável que um lado saia como o perdedor.

“Não será o meu lado”, Regulus pensou enquanto estreitava o olhar em direção ao apanhador de vestes vermelhas.

A partida começou frenética com os balaços zunindo para todos os lados, era difícil conseguir se focar em alguma coisa em meio aquela bagunça, contudo Regulus estava acostumado. O rapaz explorava o campo de Quadribol com os olhos brilhando em ambição, vez ou outra ele precisava se desviar de algum balaço rasante, mas nada aparentava abalá-lo. Naquela tarde ele iria vencer na frente de seu irmão mais velho, iria provar que merecia os holofotes.

Uma série de faltas haviam sido cometidas, e os pontos para ambas as casas iam aumentando de forma exponencial. Foi após uma cobrança que os olhos castanhos do Black encontraram um vislumbre dourado em meio ao campo, era uma pena que Potter também estivesse olhando para o mesmo ponto dourado, que se aproximava da parte da arquibancada em que os alunos da Grifinória torciam enlouquecidos.

Foi necessário uma arrancada brusca de Regulus para que sua vassoura fosse mais longe que Potter, e com um chute que acertou diretamente no abdômen do rapaz, ele encontrou-se livre para pegar o pomo de ouro. Ele estava a alguns passos da arquibancada, provavelmente atingiria alguém, mas o gostinho da vitória era a única coisa que lhe importava, então ele seguiu.

Regulus saltou da vassoura, fechando suas mãos em direção do pomo, agarrando-o com firmeza ao mesmo tempo em que caía em meio a arquibancada, em cima de uma garota que aparentava ler um livro com uma expressão plena. Se não estivesse tão concentrado em capturar o pomo, teria franzido o cenho, intrigado com aquela cena.

― Ai meu Merlin ― conseguiu escutar alguém gritar.

― Esse pessoal da corvinal não bate muito bem, era óbvio que isso acontecer.

As cenas que vieram a seguir foram mais rápidas do que ele poderia raciocinar, seu corpo chocou-se contra algo macio que rapidamente o afastou com um tapa ardente.

― VOCÊ ENLOUQUECEU BLACK? MEU LIVRO ESTÁ ARRUINADO.

Tudo tornou-se um completo caos, os grifinórios gritavam descontentes e os sonserinos pulavam enlouquecidos comemorando a vitória. Foi naquele momento em que ele percebeu o que havia acontecido, para conseguir vencer a partida havia saltado sobre a garota e no meio do processo, rasgou seu livro. Um sorriso debochado surgiu no rosto de Regulus, pouco lhe importava o franzir de sobrancelhas irritado daquela garota, ele havia capturado o pomo de ouro, na frente de Sirius.

Regulus ergueu o pomo no ar e gritou, degustando-se com a vitória.



~*~



Nathalie Moreau detestava ambientes barulhentos, mesmo assim uma de suas melhores amigas havia conseguido a proeza de arrastá-la para um jogo de Quadribol. O pior de tudo é que aquela partida era como se fosse um clássico, conseguia atrair a atenção de toda a escola e fazia com que a rivalidade já existente entre a Grifinória e a Sonserina simplesmente ultrapassasse o limite do aceitável.

Sua amiga Simone, havia sido convidada para assistir a partida pelo batedor de trancinhas da Grifinória, um rapaz pelo qual ela possuía uma quedinha. Nathalie sequer teve a oportunidade de negar quando viu o brilho feliz nos olhos da amiga.

Mesmo assim, tratou de levar um de seus livros para o campo, procurando distrair-se daquele ambiente hostil e ruidoso, embora lá no fundo o carregasse em suas mãos para poder ter algo com o qual se entreter quando fosse segurar vela para o casal não assumido. E pelas barbas de Merlin, ela estava bem entregue a história que se desenrolava naquelas páginas, até que Regulus Black caísse em seu colo e rasgasse seu adorado livro.

Era óbvio que ela conhecia Regulus Black, qualquer aluno em Hogwarts conseguiria reconhecer aqueles olhos e cabelos castanhos marcantes. O sonserino era do mesmo ano que ela, logo ambos dividiam algumas aulas, e Nathalie simplesmente ignorava a sua presença e evitava pensar muito sobre alguém como ele.

Após gritar com o rapaz, ela percebeu que aquela era a primeira vez em que lhe dirigia a palavra. O contentamento de Regulus ao perceber a fúria em suas feições fez com que ela fervesse em raiva. Nathalie levantou-se e apoiou suas mãos no peitoral do rapaz, empurrando-o com força para trás em seguida. Para uma pessoa controlada, ela certamente estava sendo consumida por suas emoções.

A multidão emitiu um “Ooh” e não demorou para que os professores corressem para separar a briga generalizada. Alguém a segurou por trás, afastando-a daquela confusão. Ela não era uma pessoa que costumava enfurecer-se com muita facilidade, mas que droga, a dor que estava sentindo era real e ela conhecia as regras do Quadribol, sabia que se quisesse, Black poderia ter escolhido um caminho que não a machucasse mesmo que isso significasse perder o pomo por alguns segundos.

Rico, mesquinho e sangue-puro. Conteve os xingamentos consigo mesma.

― Sabe que irá pegar uma detenção por isso, não sabe? ― a monitora de sua casa perguntou e Nathalie apenas acenou com a cabeça.

Sua mãe iria ficar surpresa com a notificação da escola, porém confiava na filha que tinha, se Nathalie havia se envolvido em uma briga, então algo terrivelmente errado havia acontecido. O que realmente a irritava era saber que agora Regulus Black teria seu rosto marcado, e garotos da sonserina como ele não eram do tipo que perdoavam, sabia que o sorriso debochado que ele direcionou a ela seria apenas uma amostra do que viria pela frente.

A garota foi direcionada até a Enfermaria, onde foi atendida por Madame Pomfrey, que já estava ciente da situação no Campo de Quadribol.

― Teve sorte de não ter nenhum machucado grave, Srta. Moreau. Se estivesse prestando atenção no jogo, isso muito provavelmente não teria acontecido. ― a mulher disse em um tom repreensivo enquanto direcionava a menina para sentar-se em uma maca. ― Sabe muito bem que Quadribol é um jogo agressivo.

Nathalie ergueu as sobrancelhas bem desenhadas, completamente desacreditada.

― Bom, isso não teria acontecido se aquele idiota fizesse uma curva com a vassoura ao invés de se jogar na arquibancada! ― disparou as palavras.

Antes que a mulher pudesse respondê-la, Nathalie ouviu o barulho de uma cortina ao lado se arrastando, e para seu espanto, ali estava Regulus Black com o uniforme da Sonserina, sentado na maca ao lado. Todo o sangue que estava em seu rosto pareceu se esvair. A última coisa que precisava era que aquele garoto a escutasse o xingando.

Um sorriso odioso se formou no rosto do rapaz.

― Então você é a garota francesa, Nathalie Moreau. ― seu nome nos lábios dele lhe causou arrepios. ― Parece que já tem um conceito de mim bem sólido.

― Não me olhe como se não soubesse o porquê você tem uma reputação de mesquinho arrogante ― retrucou.

Regulus aparentava se divertir com aquela discussão, ela não era a última e muito menos a primeira pessoa a odiá-lo.

― Sabe que pessoas da sua laia deveriam dobrar a língua diante de um Black, não?

Madame Pomfrey deu um passo para a frente, prestes a impedir o que provavelmente seria o segundo conflito daquela tarde.

O olhar assassino da Moreau era algo espantoso, ela apenas observava Regulus no mais completo silêncio, com suas feições perfeitas se contorcendo de desgosto. Foi necessário alguns momentos que ela jogasse os cabelos cacheados para trás dos ombros marrons e saltasse da maca.

― Agradeço sua ajuda Madame Pomfrey, mas acho que consigo ficar bem sozinha. Me recuso a permanecer mais um segundo ao lado de um ser tão odioso quanto você, Black. ― cuspiu as palavras, retirando-se do ambiente em passos rápidos.

Enquanto saía da Enfermaria, foi necessário que Nathalie segurasse suas emoções para que não desatasse a chorar de raiva e humilhação. Apesar de ser filha de um francês puro-sangue e uma londrina trouxa, aquele tipo de situação nunca havia lhe ocorrido, afinal as pessoas respeitavam o sobrenome que ela carregava. Precisou cerrar seus punhos com força para que seus sentimentos começassem a se externalizar em dor.

Como podiam existir pessoas com pensamentos tão pequenos e ridículos como ele? Ela não saberia responder.

― Nathalie! Meu Merlin, Nath, está tudo bem? ― Simone correu em sua direção com as longas tranças presas em um rabo de cavalo balançando atrás da cabeça. A grifina olhou para a amiga com preocupação.

― Me desculpe, devo ter arruinado o seu encontro pós-jogo. ― Nathalie murmurou, sentindo seus sentimentos se recolherem.

Simone ergueu uma sobrancelha.

― Está maluca? Aquele Black saltou sobre você, e tudo o que você tem a me dizer é que sente muito sobre o meu encontro? ― ela balançou a cabeça em sinal de negação ― Não sabe a vontade que estou sentindo de azarar aquele desgraçado.

Um pequeno sorriso, calmo e tímido surgiu no rosto de Nathalie.

― Empurrar ele foi bem satisfatório, não posso mentir.

A garota da casa dos Leões passou o braço ao redor dos ombros da amiga e então, lhe dirigiu um olhar de reprovação.

― Sabe, você arranjou um péssimo lugar para ler um livro.

― Eu sei. ― Nathalie resmungou.

― E sabe que Black não vai esquecer essa história tão cedo. ― disse em um tom cuidadoso.

― Mal posso esperar para ver.