Dance comigo
1 "Moves Like Jagger" - Maroon 5
O nome dele era Luca.
Luca era um tipo comum de rapaz. Simpático, alegre, boa pessoa. Uma ótima companhia.
Na verdade, esse era o seu grande diferencial. Luca era um amigo para todas as horas. Tudo sempre se tornava muito mais divertido em sua companhia. Ele era aquela pessoa que levava a vida como muitos gostariam de ter coragem de fazer.
Luca tinha 29 anos e nenhuma pressa para chegar a qualquer lugar. Não; ele não era preguiçoso nem uma pessoa empacada em alguma fase da vida. Nada disso; Luca ia muito bem. Profissionalmente, era sempre elogiado por seus superiores. Tinha como características marcantes a liderança, a iniciativa, a eficiência, a presteza, a inteligência... Na verdade, Luca era capacitado até demais, de acordo com alguns. Muitos não compreendiam porque ele ainda não havia subido todos os degraus profissionais que estavam à sua frente. Bastava Luca querer; mas, ao que tudo indicava, ele não estava interessado.
Não é que ele não soubesse da sua capacidade. Luca conhecia muito bem seus pontos fortes. E também não é como se ele não soubesse de todos os ganhos que viriam junto às promoções em seu emprego. Luca sabia de tudo isso muito bem. Contudo, ele acreditava que o preço a ser pago para ter acesso a esses benefícios era um pouco alto demais. Então, era preferível que ele se mantivesse exatamente onde e como estava.
Por que ele teria pressa de crescer (ou de evoluir, como algumas pessoas lhe diziam)? Luca tinha uma vida ótima. Trabalhava mais por prazer e, sendo tão eficaz no que fazia, não precisava gastar horas a mais em suas tarefas. Em primeiro lugar porque, como ele era simplesmente muito bom no que fazia, terminava rápido qualquer trabalho que lhe passassem. E, em segundo lugar, Luca não tinha qualquer interesse em mostrar-se para seus superiores, porque não estava em busca de promoções dentro daquela empresa, como ocorria com muitos de seus colegas. Curiosamente, mesmo sem correr atrás dessas promoções, ele invariavelmente era chamado por diretores de departamentos, que lhe questionavam sobre o interesse em ser promovido. Quando isso acontecia, Luca sorria, agradecia de forma simpática e, do seu jeito tão particular, demonstrava não estar interessado.
Embora muitas pessoas achassem difícil compreender o modo de ser de Luca, a visão de mundo que ele possuía era até bastante simples. Luca vivia o momento. Não gostava de fazer planos, não gostava de se prender a algo que ele nem mesmo sabia se um dia se concretizaria. Viver para o futuro era não viver o presente, costumava dizer ele. Em outras palavras, Luca vivia guiado pelo prazer do instante. Se os prazeres eram efêmeros, a vida também era.
Obviamente, Luca não era ingênuo. Ele sabia que a vida não era feita somente de deleites. Ela também trazia problemas; e esses não eram poucos. Muitas pessoas gostam de se precaver, de se planejar para justamente estarem preparadas para os dias ruins. Luca até concordava que esse pensamento fazia algum sentido... Mesmo assim, não era de seu feitio agir dessa forma. Ele não queria viver pensando no pior. Se o pior acontecesse – e ele tinha plena consciência de que isso poderia ocorrer a qualquer momento –, então quando esse momento chegasse, apenas aí ele encararia o problema.
Essa filosofia de vida fazia de Luca uma pessoa que estava sempre de bem com a vida. Nada para ele era tão grave, nada era tão terrível. Ele nunca se preocupava em olhar para o todo, focava tão somente no instante, e o instante sempre podia ser maravilhoso. Luca acreditava em fazer o momento e isso ele sabia fazer bem. Isso queria dizer que, para ele, o segredo da felicidade estava em fazer o que se gostava. Simples assim.
Seus dias eram sempre ocupados. Fazia o que lhe dava gosto. Um dia estava em uma festa, no outro ia para um show. Nesse fim de semana ia mergulhar com um grupo. No outro, ia fazer escalada com amigos. Andava de bicicleta, corria pelo parque, ia ao cinema. Divertia-se. Esse era o seu lema.
Era claro que uma pessoa tão leve e vivaz como ele atrairia garotas. As meninas se interessavam por esse jeito dele, incrivelmente charmoso, de não se preocupar com nada.
Sua companhia era agradável, seu senso de humor era cativante. Tinha uma beleza comum, mas seus outros atrativos faziam com que ele se tornasse irresistível. Seu sorriso era um dos seus pontos fortes. O papo tranquilo e envolvente era outro. O olhar era algo à parte; simplesmente devastador. E quando ele dançava; era aí que as mulheres, de maneira geral, derretiam-se.
Todavia, se uma rápida análise for feita a respeito da personalidade de Luca, não será difícil entender que ele também não era homem de fixar compromisso.
Luca não era de pensar no futuro. Não fazia planos. Logo, não fazia o menor sentido para ele ficar com uma garota pensando em um compromisso longo. Ele queria viver o momento. Curtir ao máximo, aproveitar e vivenciar o agora, apenas isso. Quando estava com uma menina, não fazia a menor questão de pensar se iriam se ver novamente no dia seguinte. Não que ele fosse contra isso, mas não achava que valeria a pena estar com alguém pensando se esse alguém estaria consigo no futuro. Aliás, para Luca, isso até mesmo impedia as pessoas de serem mais felizes. Elas deveriam se preocupar mais em ser felizes a cada instante, em vez de ficar planejando felicidades vindouras.
Desse modo, os relacionamentos de Luca com as mulheres eram um reflexo do seu modo de viver. Quando estava com elas, era intenso. Era incrível, mas não costumava durar mais que uma noite. E, para ele, estava tudo perfeitamente bem assim.
Um dia, vieram avisá-lo de que havia uma nova funcionária no seu setor. Luca, sempre tão amigável, quis conhecer a nova colega. A moça se chamava Mayra e, logo à primeira vista, parecia ser muito séria.
Luca, no entanto, acreditava que as aparências poderiam enganar. Então, resolveu ver se, por trás da seriedade da jovem, não havia uma garota divertida, interessante, com quem ele pudesse, de repente, viver alguns bons momentos.
Buscou se aproximar de Mayra por meio do seu jeito simpático de ser. Conseguiu um sorrisinho apático da moça, que parecia mais interessada em seu trabalho do que nas piadas que ele contava. Em outra ocasião, chamou a garota para o happy-hour, junto com alguns colegas da repartição. Ela não demonstrou o menor interesse.
Normalmente, Luca não gostava de perder tempo com uma garota só. E não demorou muito para perceber que Mayra fazia o tipo de garota com a qual ele não se dava muito bem. Não era a primeira vez que se deparava com mulheres assim; e sempre que isso acontecia, ele deixava a moça de lado. Afinal, para que perder tempo com alguém que não tem nada a ver com você?
Entretanto, dessa vez, havia algo de diferente. Mayra não era simplesmente uma garota séria; ela tinha um brilho muito particular. A garota, desde que chegara à empresa, tinha deixado claro que possuía fortes interesses em crescer ali. Ela era obstinada e batalhadora. Não era do tipo passional; na verdade, a frieza parecia ser uma característica inata dela. Contudo, em seus olhos verdes, havia um fogo que queimava e que a tornava um mistério a ser desvendado. Como uma mulher tão fria, tão ponderada e calculista, parecia albergar dentro de si uma chama poderosa e voraz? Afinal, essa era a paradoxal impressão que todos tinham dela. Em reuniões, Mayra atordoava os presentes. Quando apresentava uma pauta, ela sabia fazer uso dos seus dois lados de forma magistral. Sua frieza e rapidez de raciocínio impressionavam; mas, ao mesmo tempo, ela conseguia imprimir o nível ideal de paixão em suas falas, de forma que todas as pessoas acabavam concordando com seus argumentos, fossem elas movidas pela razão ou pela emoção.
Mayra era uma mulher que intimidava; ela não parecia se importar com o que pensavam dela, até porque, independente do que se pensasse, ela conseguia o respeito de todos ao redor.
Luca ficou tentado a conhecer um pouco mais dessa mulher. Mayra era fria; mas, ao mesmo tempo, era possível perceber que a vida queimava nela com um fogo intenso. Ela, em uma certa medida, assemelhava-se a ele. Mayra parecia decidida a viver e aproveitar ao máximo cada momento de sua vida. Ela não parecia uma escrava de sua profissão; a realidade era que a garota realmente gostava daquilo e sentia um prazer enorme a cada vitória, a cada conquista. Ela não parecia projetar-se apenas no futuro – embora estivesse claro para Luca que sim, ela certamente deveria fazer muitos planos. Mayra vivia sua vida intensamente, mas dentro de uma intensidade resguardada, se é que isso seria possível. Mayra era intensa, mas contida. Totalmente paradoxal, mas era a única forma de defini-la.
Foi essa intensidade que, apesar de encoberta por uma usual carapaça de gelo, fez com que Luca se sentisse obrigado a se aproximar dela. Ele queria conhecê-la, entendê-la. Mayra era diferente. Porém, ao mesmo tempo, tão parecida...
Decidido a isso, Luca resolveu fazer uso de toda a sua artilharia. Começou a ficar além de seu horário, porque era o que Mayra normalmente fazia. O setor ficava mais vazio e Luca aproveitava-se disso para tentar uma aproximação. Ia até Mayra, para tirar dúvidas sobre um projeto, pedir opiniões sobre uma apresentação, conselhos sobre como fazer esse ou aquele trabalho...
Mayra, por sua vez, era séria, mas não antipática. Sempre que lhe pediam algum favor, ela ajudava, dentro do possível. Aliás, por esse motivo é que Luca quis tentar atingi-la por esse caminho. Assim, enquanto a garota analisava o que ele lhe pedia, Luca tentava se mostrar interessante. Usava de todos os artifícios possíveis para seduzi-la, sem resultados satisfatórios. Mayra sequer parecia notar o que ele fazia ou dizia quando agia com segundas intenções. Ela se concentrava no pedido do rapaz, ajudava-o no que ele requeria e, depois, ignorava-o solenemente.
Luca não achava ser possível que Mayra fosse assim tão desligada da realidade. Ela certamente o estava notando; não era possível que ela não fosse capaz de percebê-lo! Mas então, se ela o notava, mas não se interessava... Ora, esse era outro absurdo! Como ela poderia não se interessar?
O fato é que Luca estava já ficando impaciente. Ele não era do tipo que gostava de gastar tanto do seu tempo, concentrando tanta energia em uma única coisa. No entanto, não conseguia simplesmente deixar isso de lado. Assim, quando entendeu que seus habituais truques de sedução não estavam surtindo o efeito desejado, resolveu partir para um ataque mais pesado.
A empresa havia fechado uma conta alta, com um cliente muito importante. Devido a isso, haveria uma festa, para a qual todos os funcionários estavam convidados. Luca viu aí sua grande chance. Ao saber do evento, foi direto até a mesa de Mayra que, como sempre, parecia bastante compenetrada no que fazia. Colocou-se frente à moça, curvando-se por cima da sua mesa, obrigando-a a erguer o rosto para encará-lo:
— Você vai à festa amanhã, comigo. – ele disse, com uma firmeza que desconcertaria qualquer um.
— Ah, sim? – Mayra recostou-se à cadeira, ergueu uma sobrancelha e cruzou os braços.
— Sim. – respondeu Luca, ainda mais enfático. Ele já havia criado mentalmente uma lista de motivos para convencer a garota, com tópicos bastante convincentes, pois fariam uso do seu charme e do seu senso de humor, de um jeito que ela não poderia se recusar a aceitar o convite.
— Está bem. – ela deu de ombros.
— Como... Como é? – Luca perguntou, completamente despreparado para essa resposta.
— É o mínimo que eu posso fazer. Você tem se esforçado muito para conseguir minha atenção. Cada vez que eu o via se aproximando, eu me perguntava: "Qual o problema ridículo que ele vai me trazer como desculpa para se aproximar dessa vez?" – Mayra respondeu, voltando a analisar alguns papéis sobre a sua mesa. Luca ficou sem palavras e o silêncio em que ele se colocou obrigou Mayra a levantar o rosto uma vez mais, para fitar a expressão de surpresa dele – Acha que eu não sei quem você é? Luca, sua fama o precede. Você é uma das pessoas mais competentes daqui. Normalmente, as pessoas recorrem à sua ajuda, e não o contrário. Então, convenhamos... Seus pedidos de socorro não me foram nem um pouco convincentes.
— Na verdade, eu realmente precisava de outras opiniões que...
— Melhor não tentar consertar. Vamos deixar assim, ok? Eu percebi o seu esforço. Vamos juntos para a festa amanhã. Mas não há qualquer necessidade de ir me buscar em casa ou formalidades do gênero. E eu espero que você se comporte. – Luca fez uma expressão de que não entendeu o último comentário, como se ele não fizesse o menor sentido. Mas Mayra não deu tempo de ele dizer qualquer coisa – A gente se encontra lá. Certo? Ótimo.
Mayra terminou o que tinha para dizer e voltou ao seu trabalho. No mesmo instante, pareceu esquecer-se completamente da presença de Luca ali. O rapaz, compreendendo que não tinha mais nada a fazer ali, retirou-se.
Era verdade que as coisas não tinham saído conforme o planejado. Mesmo assim, ele tinha alcançado seu objetivo.
No dia seguinte, Luca estava próximo à pista de dança. Olhava com insistência para a entrada do lugar, na expectativa de ver Mayra chegar. Algumas garotas já estavam por perto, tentando se fazer notar, mas o jovem literalmente só tinha olhos para um lugar: a entrada do ambiente, por onde entravam dezenas de pessoas e, até então, nada daquela que ele realmente esperava.
Finalmente, viu Mayra aparecer. Abriu um sorriso de alívio, porque já cogitava a possibilidade de ela tê-lo feito de bobo. Felizmente, ela estava cumprindo sua palavra e Luca dirigiu-se até ela com um sorriso de satisfação no rosto.
— Boa noite. – Luca cumprimentou, apreciando a moça mais de perto. Mayra vestia-se sempre bem, mas eram roupas adequadas para um ambiente de trabalho. Vê-la em trajes diferentes dos sempre tão sóbrios terninhos e tailleurs do dia a dia era, no mínimo, interessante.
— Boa noite. – Mayra respondeu ao cumprimento, de sua forma sempre tão fria. Luca concluiu que, embora as roupas fossem outras, o jeito seco continuava o mesmo.
De qualquer maneira, isso não importava mais. Estavam em uma festa, ambiente em que Luca se sentia muito à vontade. Era em lugares assim que seus melhores dotes afloravam mais naturalmente – e de modo mais atraente também.
Uma música ótima, de ritmo animado, começou a tocar. Aproveitando que estavam próximos à pista de dança, Luca puxou Mayra para lá e começaram a dançar. A garota dançava de forma contida, sem grandes extravagâncias; mas Luca, rapidamente, dominou o local.
Que ele dançava bem, todos ali sabiam disso. Que Luca conseguia colocar a dose certa de sensualidade em seus movimentos, isso era mais do que nítido. A única diferença para o seu usual jeito de dançar era que, dessa vez, toda a sua atenção estava direcionada para uma única garota.
Luca dançava sem tirar os olhos de Mayra. Ele sabia ser avassalador com um simples olhar. Aliás, os olhos negros e profundos de Luca eram poderosos; ele conseguia dizer muito com seus olhares, fazia-se entender mais por eles que por palavras.
Muitas mulheres terminavam por desviar os olhos, quando Luca as fitava assim. Era um olhar muito intenso e normalmente era desse modo que ele sabia que tinha o controle da situação. Com um olhar, ele era capaz de subjugar.
Entretanto, Mayra não desviava os olhos dos dele. Pelo contrário; ela travou com Luca um jogo de olhares em que nenhum dos dois parecia disposto a perder.
Como em tudo referente a ela, Mayra dançava de forma contida. Porém, seus olhos transmitiam aquele fogo que Luca já tinha visto, mas que agora queria conhecer a fundo. Por sinal, o olhar incandescente da moça fazia com que ela se tornasse a mulher mais atraente e sensual no lugar.
E os dois passaram a dançar apenas um para o outro. Olho no olho e movimentos cada vez mais sedutores resultavam em uma batalha sensual. Eles não paravam por nada; era quase como se estivessem querendo ver quem se renderia primeiro. Tanto é que, quando um garçom passava por perto, levando ou trazendo bebidas, ambos alcançavam um copo ou garrafa e bebiam ali mesmo, na pista, sem parar de dançar, sem quebrar aquele poderoso contato visual.
Quando, finalmente, houve uma mudança no tom das músicas, passando para um momento de ritmos mais lentos e calmos, Luca se aproximou de Mayra, enlaçando sua cintura para que pudessem dançar mais próximos um do outro, em um compasso mais tranquilo.
Em um primeiro momento, Mayra pareceu não gostar muito dessa aproximação. No entanto, acabou permitindo que ela acontecesse e permaneceu calada enquanto seus corpos se moviam agora mais cadenciados. Luca notou que ela aparentava alguma tensão e resolveu que esse poderia ser um bom momento de atingir sua meta. Levou uma mão à face de Mayra que, com esse gesto, arregalou os olhos. Com um bonito sorriso, Luca começou a aproximar seu rosto do dela e tornou-se claro seu intento de beijá-la.
Mayra, percebendo isso, afastou-se abruptamente. Olhou zangada para Luca e depois deu meia-volta para sair dali, notoriamente nervosa.
Luca foi atrás da garota, compreendendo que havia ultrapassado o limite com ela. Alcançou-a quando ela já estava no estacionamento:
— Ei! Espera aí, Mayra! Me desculpa, eu...
Mayra não se deu ao trabalho de responder. Apesar de nervosa, ela não aparentava estar fora de si; apenas não demonstrava qualquer interesse em ouvir o que Luca tinha a dizer. Já havia tirado a chave de seu carro da bolsa e estava prestes a abrir a porta quando Luca colocou-se à frente dela, impedindo-a de concretizar o ato:
— Você pode sair da minha frente, por favor? – Mayra perguntou, com a voz fria.
— Não. Eu quero conversar com você primeiro.
— Eu não tenho nada para conversar com você. – ela disse, cruzando os braços.
— Exatamente! Não temos nada para conversar! E sabe por quê? Porque você não me deixa descobrir algum assunto para a gente ter sobre o que falar!
— E por que você quer ter algum assunto para conversar comigo?
— Porque... porque... Ora, sei lá por quê! Eu queria tentar conhecer você, sabe? Só isso! Você me pareceu uma garota legal, interessante... É um absurdo eu querer me aproximar de uma garota?
— Não.
Luca notou que Mayra permanecia daquele jeito de sempre. Fria, concentrada, equilibrada. Era impressionante, nada parecia conseguir tirá-la daquele estado gélido! Fora os momentos em que conseguia ver fogo por trás daquele olhar aparentemente calculado, ela parecia um robô.
Porém, Luca sabia que ninguém era assim tão controlado, centrado, frio. Muitas vezes, as pessoas utilizam-se dessa forma de ser como se ela pudesse servir de escudo. É um meio de se proteger, resguardando os sentimentos. Certamente, era a situação dela:
— Olha, Mayra... Eu não conheço você, mas esse seu jeito de ser não me engana. É visível que você esconde alguma coisa e tem medo de compartilhar. Sei lá, você pode já ter se magoado com alguém; podem já ter ferido e machucado seus sentimentos... Olha, eu sei que não pareço uma pessoa muito confiável. Você deve me achar infantil ou um cara que tem o ego do tamanho do mundo, sei lá... E tudo bem, é o que as pessoas normalmente pensam de mim mesmo, mas...
— Espera um pouco. De onde você está tirando tudo isso?
— Estou tentando compreender você. E, sabe, não tem nada de errado em se esconder por trás dessa aparência fria, que distancia as pessoas de você. Mas, de vez em quando, você poderia baixar a guarda um pouco. Permitir que se aproximem, às vezes, pode ser bom e...
— Ah, entendi. Você me vê como uma mulher que deve ter se machucado muito em algum momento da vida e, por isso, eu me fechei para o mundo.
— Bom... – Luca colocou a mão atrás da nuca, sentindo um leve nervosismo.
— E agora é o momento em que você me diz que pode me ajudar? Que sabe como me fazer entrar em contato com meu lado doce e frágil novamente? Que tem a chave para o meu coração?
— Não, eu não iria dizer essas coisas...
— Ah, Luca. Você pensa demais, sabia?
O rapaz, que tinha desviado os olhos por um momento, sentindo-se sem graça pelo modo como Mayra falava consigo, surpreendeu-se quando a garota puxou-o para si, em um beijo inesperado. Mayra beijou Luca com vontade, não apenas com seus lábios, mas com todo o seu corpo. Envolveu-o por inteiro, da cabeça aos pés, arrepiando-o completamente, sentindo o roçar da pele quente dela contra a sua.
Quando precisaram respirar, separaram-se. O beijo não tinha sido apenas intenso; da forma como ocorrera, parecia surreal. Luca ficou olhando para Mayra enquanto recuperava o fôlego, com um olhar interrogativo.
— Eu não sou uma garota que precisa ser salva. Não fui duramente ferida ou magoada. Não preciso de alguém que tenha a chave para o meu coração ou qualquer coisa assim. Na verdade, a única chave que me interessa é essa. – dizendo isso, Mayra exibiu a chave do seu carro – Agora, com licença.
— Como é? Você me beija desse jeito, do nada, e agora quer ir embora, como se nada tivesse acontecido?
— Não estou agindo como se nada tivesse acontecido. Muito pelo contrário; eu quero entrar no meu carro e dirigir para me livrar desse sentimento de frustração.
— Frustração? Está querendo dizer que o meu beijo não...
— Não, não é nada disso. – Mayra interrompeu Luca, compreendendo que tinha ferido o ego do outro – Eu estou frustrada porque essa noite não saiu como eu esperava...
— E o que você esperava?
— Bem, eu esperava que você fizesse jus à sua fama.
— Que fama?
— Fama de galanteador, arrebatador de corações, essas coisas...
— Mas era exatamente o que eu estava fazendo! Ou melhor, era exatamente o que eu estava tentando fazer lá dentro, antes de você sair, de repente, sem qualquer explicação lógica...
— Não, não era o que você estava fazendo. Quero dizer... estávamos indo bem. No começo, você estava sendo exatamente o que eu esperava. Mas aí, você começou a dançar mais devagar comigo...
— Eu estava dançando com você no ritmo da música! O que esperava que eu fizesse?
— É, isso foi chato. A mudança do ritmo quebrou o clima para mim.
— ... Quebrou o clima?
— É. Sabe, Luca... Você está aí, achando que eu escondo algum segredo, algum trauma, algum grave motivo para eu ser como eu sou, mas... Quer saber a verdade? Eu sou assim porque sou assim. Porque nasci assim, sei lá. É meu jeito de ser. Você acha que eu sou séria, fria? Eu não me vejo tanto assim, embora já me tenham falado isso antes... De qualquer maneira, eu não me importo. Meu jeito afasta as pessoas? Isso é bom, porque eu não gosto de perder meu tempo falando de frivolidades e amenidades que podem ser discutidas com qualquer um. Não gosto de desperdiçar meu tempo, tendo de encontrar meios para ser afável com os outros. Eu sou como sou; quem não gosta, não precisa ficar por perto. Não destrato as pessoas, tenho consciência das minhas responsabilidades e não interfiro na vida alheia. Agora, sabe o que não é legal? É você ficar achando que meu jeito de ser é na verdade uma capa de proteção; como se uma pessoa não pudesse simplesmente ser assim.
— Não é bem isso! Não há problema algum em ser assim; não foi isso o que eu quis dizer! É que... Você me deixou confuso, Mayra.
— Por quê?
— Porque você me parecia tão contraditória... Por um lado, você tem esse lado frio e centrado. Legal, perfeito, você pode ser assim, claro. Mas, por outro lado... Você tem esse fogo no olhar, como se, por dentro, uma chama ardente queimasse, desejando explodir. Parecia-me que você estava escondendo o seu verdadeiro eu.
— Eu sou assim, Luca. Se quer mesmo saber, eu me vejo como uma pessoa intensa, sim. Vivo os momentos como únicos, dedico-me às coisas que me interessam com fervor. Se lhe pareço muito centrada, é porque eu gosto de focar no que quero para conseguir. Miro nas estrelas para conquistar o céu. Quando quero algo, quero com vontade. Aliás, eu quero com tanta vontade, com tanta intensidade, que consigo me tornar uma pessoa estritamente fria para encontrar o melhor caminho de alcançar meu objetivo exatamente da maneira como desejo.
Luca estava impressionado. Era a primeira que via alguém falar de frieza e paixão, intensidade e concentração, desejo e foco como elementos que não só casavam perfeitamente, como deveriam estar unidos para existirem de fato.
— Você me acha contraditória porque, normalmente, as pessoas muito intensas se deixam carregar pelos seus desejos, pelas suas emoções. Eu sou intensa e gosto de viver os sentimentos ao máximo. Entretanto, uma interessante notação que fiz ao longo da vida foi perceber que as pessoas que se deixam levar pelos sentimentos não conseguem aproveitá-los ao máximo. O que começa como algo bom pode se tornar ruim, se você não souber racionalizar parte da sensação. Não é que eu queira tirar a beleza dos sentimentos que não devem ter explicação; é tão somente que há sensações tão maravilhosas que, se eu compreender como chegar até elas, não vou abrir mão de descobrir esse caminho, para segui-lo quantas vezes me interessar. Eu não me deixo levar, gosto de controlar. Gosto de me sentir no controle.
— Não se pode controlar tudo todo o tempo.
— Eu sei. Tenho consciência disso. Mas o que eu puder controlar, pelo tempo que eu puder controlar...
Luca compreendeu. No fundo, havia uma forte semelhança entre eles. Muryel não se preocupava em controlar o futuro. Ela sabia que não poderia dominar o momento que ainda não havia chegado. Então ela se satisfazia controlando o agora, o momento presente.
Ela vivia o presente, sem se preocupar se, no futuro, conseguiria continuar agindo do mesmo modo.
— E o que você queria de mim? – indagou o rapaz, subitamente.
— Bom... No começo, você me parecia um interessante passatempo. Não me leve a mal, mas eu gosto de ser sincera. No nosso ambiente de trabalho, eu gosto de focar no trabalho. Mas você era uma interessante distração. Quando começou a vir com aquelas desculpas esfarrapadas ridículas para ter sobre o que falar comigo, eu quis flertar.
— Aquilo era flertar para você? Daquele jeito...?
— Era, oras. E funcionou, não? Você continuava vindo atrás de mim, dia após dia...
— Certo, certo... – Luca reconheceu que ela tinha razão – Mas e hoje? O que você queria de mim hoje?
— Como eu disse... esperava que nós dois fôssemos nos divertir. Porém, quando você começou a dançar devagar comigo, começou a me olhar de um jeito e depois foi se aproximando de uma forma que... – Mayra soltou um profundo suspiro – Era um cenário romântico demais. E isso eu não queria.
— Não queria romantismo?
— Eu não quero nada sério. E aquele momento estava sério demais. Eu não queria beijar você daquele jeito; aquilo teria significado demais. O que eu queria era só isso: Um beijo no calor do momento, que fosse motivo o bastante para a diversão se prolongar pelo resto da noite.
— Ah... – Luca finalmente parecia compreender – Se eu soubesse...
— É. Mas agora o momento já passou. – Mayra disse, dando a entender que finalizava aquela conversa. Então fez um gesto, pedindo com isso que Luca saísse da frente do carro, abriu a porta e entrou. Contudo, antes que pudesse fechá-la, Luca segurou a porta.
— Escuta, você não quer dar uma volta no meu carro?
Mayra olhou confusa para Luca. Ele não havia entendido o que ela tinha falado?
— Eu reparei que seu carro tem câmbio automático. O meu, não. Se você está precisando se livrar da frustração que está sentindo, acho que é mais interessante dirigir com a emoção que somente a troca de marcha manual pode oferecer a você.
Mayra riu, com certo desdém:
— Não acho que isso vá me fazer qualquer diferença...
— Sabe, eu também gosto de sentir que controlo o momento. Eu acredito na felicidade construída a cada instante e o maior responsável por ser feliz a cada segundo que passa é a própria pessoa. Essa é a minha filosofia de vida. Eu sei que não posso ter a ingenuidade de achar que minha vida será feita apenas de momentos felizes e que, por mais que eu me esforce em construir minha felicidade a cada momento, haverá aqueles em que isso não será o bastante. Mesmo assim, sigo com essa forma de enxergar a vida. Quando um momento complicado e inevitável chegar, eu lido com ele. Mas, até lá, eu estou no controle.
Com essas palavras, Luca se revelou para Mayra, assim como ela também havia feito. A garota compreendeu aquelas palavras, especialmente por parecerem tão suas quanto dele. Luca, percebendo isso, prosseguiu:
— O que será que pode acontecer quando se juntam duas pessoas que têm essa obsessão por viver cada momento como se fosse único, sentindo que tem pleno controle sobre ele?
— Não faço a menor ideia.
— Nem eu. Não é incrível? – Luca riu e Mayra acabou sorrindo também.
— Ei, você está sorrindo. E tem um sorriso bonito. Deveria sorrir mais.
— Não me diga o que fazer.
— Não pretendo. Mas adoraria criar momentos em que sorrisos assim surgissem naturalmente.
— E como pretende fazer isso?
— Duas pessoas que querem controlar o momento, se colocadas juntas, ou vão dar muito errado, ou...
— Ou...? – repetiu Mayra.
— Ou podem funcionar muito bem. Sabe, duas pessoas assim vão estar sempre disputando o controle. As batalhas serão contínuas e uma hora, um deve vencer. Mas, em outro momento, é o outro quem vence. Isso pode ser interessante...
— Não sei. Gosto de estar sempre no controle. Quando não é possível, eu aceito, mas apenas porque não houve outro jeito. Então...
— Nós dois podemos dirigir o carro, sabe? Às vezes, quando você estiver na direção, eu posso mudar a marcha... — atalhou Luca.
— Essa seria uma tentativa de controlar o meu controle?
— Nossa, Mayra... Você pensa demais. – Luca riu, e Mayra acompanhou seu riso uma vez mais.
— Está bem... Nós podemos tentar.
— Ótimo!
— Afinal, é só uma tentativa. Vamos viver o momento. Se der certo, legal. – disse a garota, em um tom tranquilo.
— E, se der errado, quem se importa? Não precisamos nos chatear com um momento errado na vida. Tem tantos outros pela frente...
— É... Mas, se por acaso, em um primeiro momento, isso funcionar bem... Podemos até, sei lá, continuar com isso em um segundo momento. – acrescentou Mayra.
— Claro. Podemos seguir por um terceiro e quarto e quinto momentos... Até quando der errado.
— Sem nos preocupar em ficar esperando pelo momento em que der errado.
— Exato! Vamos viver o momento, cada um de uma vez. – finalizou Luca.
Os dois sorriram-se com esse acordo. Parecia bom. Acabavam de planejar um futuro sem se preocupar com o que seria, de fato, esse futuro. Planejaram viver os momentos, sem se preocupar necessariamente com o que seriam esses momentos.
E assim, vivendo de momento em momento, eles ficaram juntos por um período de tempo correspondente a uma eternidade de momentos.
Ou, da forma mais clichê: Ficaram juntos para sempre.
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Moves Like Jagger (feat. Christina Aguilera) (Maroon 5)
(Adam Levine)
Oh
Oh
Just shoot for the stars if it feels right
Then aim for my heart if you feel like
Take me away and make it okay
I swear I'll behave
You wanted control, so we waited
I put on a show, now I make it
You say I'm a kid, my ego is big
I don't give a sh*t
And it goes like this
Take me by the tongue and I'll know you
Kiss me 'til you're drunk and I'll show you
All the moves like Jagger
I've got the moves like Jagger
I've got the moves like Jagger
I don't need to try to control you
Look into my eyes and I'll own you
With them moves like Jagger
I've got the moves like Jagger
I've got the moves like Jagger
Maybe it's hard when you feel like you're broken and scarred
Nothing feels right
But when you're with me, I'll make you believe
That I've got the key
So get in the car, we can ride it
Wherever you want, get inside it
And you wanna steer, but I'm shifting gears
I'll take it from here
And it goes like this
Take me by the tongue and I'll know you
Kiss me 'til you're drunk and I'll show you
All the moves like Jagger
I've got the moves like Jagger
I've got the moves like Jagger
I don't need to try to control you
Look into my eyes and I'll own you
With them moves like Jagger
I've got the moves like Jagger
I've got the moves like Jagger
(Christina Aguilera)
You wanna know how to make me smile
Take control, own me just for the night
And if I share my secret
You're gonna have to keep it
Nobody else can see this
So watch and learn, I won't show you twice
Head to toe, ooh baby rub me right
If I share my secret, you're gonna have to keep it
Nobody else can see this
And it goes like this
Take me by the tongue and I'll know you (take me by the tongue)
Kiss me 'til you're drunk and I'll show you
All the moves like Jagger
I've got the moves like Jagger
I've got the moves like Jagger
I don't need to try to control you
Look into my eyes and I'll own you
With them moves like Jagger
I've got the moves like Jagger
I've got the moves like Jagger
[TRADUÇÃO:]
(Adam Levine)
Oh
Oooh
Atire nas estrelas se achar que é o certo
E mire no meu coração se sentir vontade
Leve-me embora e faça tudo ficar bem
Prometo que vou me comportar
Você queria ter controle, então esperamos
Eu dei um show, agora eu faço
Você diz que eu sou infantil e que o meu ego é grande
Eu não estou nem aí
E é mais ou menos assim
Leve-me pela língua e eu conhecerei você
Beije-me até estar embriagada e eu te mostrarei
Todos os movimentos como de Jagger
Eu tenho movimentos como os de Jagger
Eu tenho os movimentos de Jagger
Eu não preciso tentar controlar você
Olhe nos meus olhos e você será minha
Com esse movimentos como os de Jagger
Eu tenho movimentos como os de Jagger
Eu tenho movimentos como os de Jagger
Talvez seja difícil quando você se sente ferida e machucada
Nada parece certo
Mas quando você está comigo, eu a farei acreditar
Que eu tenho a chave
Então entre no carro, podemos sair por aí
Para onde você quiser, só entre logo
Você quer guiar, mas eu mudo as marchas
Eu assumo aqui
E é mais ou menos assim
Leve-me pela língua e eu conhecerei você
Beije-me até estar embriagada e eu te mostrarei
Todos os movimentos como de Jagger
Eu tenho movimentos como os de Jagger
Eu tenho os movimentos de Jagger
Eu não preciso tentar controlar você
Olhe nos meus olhos e você será minha
Com esse movimentos como os de Jagger
Eu tenho movimentos como os de Jagger
Eu tenho movimentos como os de Jagger
(Christina Aguilera)
Você quer saber como me fazer sorrir
Assuma o controle, me possua só por essa noite
E se eu compartilhar o meu segredo
Você vai ter que guardar
Ninguém mais pode ver
Então veja e aprenda, não vou mostrar duas vezes
Da cabeça aos pés, uuh baby, esfregue-me direito
Se eu compartilhar o meu segredo, você vai ter que guardar
Ninguém mais pode ver
E é mais ou menos assim
Leve-me pela língua e eu conhecerei você (leve-me pela língua)
Beije-me até estar embriagada e eu te mostrarei
Todos os movimentos como de Jagger
Eu tenho movimentos como os de Jagger
Eu tenho os movimentos de Jagger
Eu não preciso tentar controlar você
Olhe nos meus olhos e você será minha
Com esse movimentos como os de Jagger
Eu tenho movimentos como os de Jagger
Eu tenho movimentos como os de Jagger
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