Dance With Me
1 Watson, dance comigo.
Notas iniciais
Doutor John Hamish Watson era um médico conceituado em sua cidade, Londres. Seu consultório era um dos mais frequentados pelas pessoas abastadas da cidade.
Era.
Até que em sua vida surgiu alguém chamado Sherlock Holmes.
Seu consultório agora era frequentado por aqueles que queriam ajudar o médico a reerguer sua carreira. Sua amizade com Holmes era bem vista pela Scotland Yard, mas as pessoas comuns não achavam muito bom adentrar num recinto onde coisas estranhas aconteciam.
Como um tiro. Ou uma cobra descendo as escadas. Às vezes até um cadáver sendo carregado para o último andar da casa.
Apesar de todos os conselhos que recebeu, era simplesmente impossível Watson dizer não as extravagâncias de Holmes. Pois este usava sua lógica irrefutável para se fazer aceito e a opinião de Watson costumava ficar vagando pelo ambiente até encontrar a saída mais próxima e nunca mais ninguém ouvia falar dela.
Por mais que odiasse quando isso acontecia, John estava acostumado a ser contrariado. Podia até ser submisso, mas nunca, nunca ele pediria ajuda em algo.
Fora uma promessa feita a si mesmo na segunda semana de convívio no apartamento com o moreno.
E passados todo o tempo que dividiram o apartamento, agora ele se encontrava em uma situação onde teria que quebrar a promessa feita a si mesmo.
Um de seus pacientes mais fiéis, Sir Damon Richard lhe convidou para um baile beneficente em favor de angariar fundos para a reforma do Hospital de St. Mary, em Paddington. Como médico, ele não pode recusar.
A grande questão era: Watson não sabia dançar.
John sempre esteve envolto com a faculdade, e depois disso com a guerra, e depois disso com seus pacientes e os casos de Holmes que ajudava a solucionar. Nunca teve tempo para a normalidade. Mas agora ela batia a sua porta, sem chance para dizer não.
Saiu de seu consultório no primeiro andar e subiu as escadas, em direção ao segundo. Parou em frente à porta do estúdio de Holmes, ainda pensando se devia realmente fazer isso.
Seria como assinar um atestado de incompetência.
Encheu os pulmões de ar e abriu a porta. O ambiente estava escuro, pois as cortinas estavam fechadas. Havia um cheiro forte no ar, que o doutor logo reconheceu ser formaldeído.
− Se você quer se matar, devia tentar dar um tiro na própria cabeça – disse John, abrindo as cortinas, deixando a luz do sol entrar através do vidro embaçado – seria mais eficiente.
Holmes estava deitado no sofá próximo a janela. Tentou abrir os olhos, mas era difícil com toda aquela claridade. Esfregou os dedos no globo ocular e sentou-se, ainda meio tonto.
− É sempre um prazer vê-lo, Watson.
− Eu não diria o mesmo. Você está péssimo, um trem o atropelou ontem à noite?
− Quase isso. – respondeu Holmes, bocejando – Havia um trem e um morto. Você já deve imaginar, claro, onde tudo isso me levou.
− Claro. A alguma perseguição que terminou não muito bem para ambas as partes. – disse Watson enquanto pegava o kit de primeiros socorros de Holmes sobre a lareira e lhe fazia um curativo no supercílio.
Holmes observava Watson, divertido. O doutor parecia estar pronto a falar algo para ele, além das trivialidades do caso resolvido por Holmes na noite anterior. Mas sempre que pretendia, prendia a respiração e voltava a falar da forma descuidada que Holmes levava a vida.
− Eu não preciso me preocupar comigo, quando tenho alguém que parece mais minha mãe dando ordens.
− Ela devia ter te amarrado aos pés da cama quando era criança.
− Ela fez, meu caro – riu Holmes – mas você sabe que uma corda não seria capaz de me segurar.
− Ela devia ter te acorrentado.
− Ela fez isso, também. – replicou, desviando a cabeça quando Watson terminou o curativo – Mas não estamos aqui para falar de mim, estamos?
Watson olhou para Sherlock e viu que o moreno o olhava com aquele tipo de olhar que seria capaz de desvendar qualquer alma. Ele sabia que era impossível guardar dentro de si mesmo a verdade por muito mais tempo.
− Eu preciso que me ensine a dançar.
Simples. Prático. Rápido. Sem dor ou tempo para pensar. Disse logo de uma vez o que deveria ter dito desde o princípio.
− Seria para o baile de caridade? – disse displicentemente Holmes.
− Não vou me dar ao trabalho de perguntar como você sabe disso. Mas é. Não sei dançar, você sabe que não, mas eu preciso aprender alguns passos apenas, para não fazer feio esta noite.
− Você precisa pedir com jeito. Diga “por favor”.
− Mas por quê? – Watson estava desesperado.
− Não creio que você tenha o que no novo continente eles chamam de “molejo”. Um soldado normalmente não tem.
Holmes se divertia olhando para Watson. O loiro massageou as têmporas, soltando o ar que inspirava pela boca.
− Você quer, por favor, me ensinar a dançar? – disse Watson, dirigindo a Holmes um olhar quase assassino.
− Mas é claro! Antes temos que preparar o ambiente. Retire todos os moveis num raio de três metros, precisaremos de espaço.
Watson ouviu aquilo, desanimado. E constatou que, se quisesse aprender a dançar de verdade, teria que fazer tudo o que Holmes lhe dissesse.
Resignado, retirou os móveis da sala, que consistiam em algumas mesas e poltronas espalhadas. Deixou o carpete completamente livre. Olhou em volta e Holmes não estava na sala. Ouviu um barulho de coisas caindo e o moreno adentrava o recinto com uma vitrola portátil e um disco de vinil.
Holmes instalou o equipamento na mesa próxima a porta, pôs o disco sobre o prato e girou a manivela. Depois que o disco começou a girar, colocou a agulha delicadamente sobre o vinil e um som suave saía dele.
− Danúbio Azul. Ótima valsa para os não iniciados nas artes da dança, meu caro. – Holmes andou até o centro da sala e puxou John pela mão. – Watson, veja, para dançar valsa você deve ter em mente que o homem conduz a mulher, nunca o contrário. Nesse caso, eu farei o papel do homem e você o da mulher.
O doutor queria socar a face de Holmes, mas se controlou.
− Observe e guarde todas estas instruções. A mão direita do homem vai estar sempre nas costas da mulher, na região da omoplata. Às vezes, dependendo das intenções do homem, ela pode escorregar para a cintura. – disse Holmes, escorregando a mão pelas costas de Watson, aconchegando-a na cintura do loiro.
Watson sentiu um arrepio percorrer sua nuca, e esperou que Holmes não tivesse notado esse pequeno espasmo involuntário de seu corpo.
− A mão esquerda da mulher sempre estará sobre o ombro direito do homem. Portanto Watson, não se envergonhe, pode tocar meu corpo. – falou Holmes, levando a mão de Watson até o próprio ombro – A mão direita da mulher e a mão esquerda do homem ficam unidas durante a dança, desse jeito.
Holmes segurou a mão de Watson com força, prendendo a atenção de Watson completamente. O moreno observou que o doutor suava um pouco. Sua pulsação estava acelerada e sua respiração havia aumentado com a proximidade de seus corpos.
− E depois? – perguntou John, tentando distrair a mente, focando apenas na dança.
− Depois o casal dá um passo para o lado e um para o outro, seguindo o ritmo da valsa tocada em questão.
Holmes deu um passo para a esquerda, seguido por Watson. Depois para a direita. Explicou a Watson como marcar o tempo entre um passo e outro. Não era algo muito complexo, Holmes achava até um pouco enfadonho o fato de estarem dançando, ainda mais valsa.
Mas não pode deixar de notar uma pequena vermelhidão surgir na face do loiro enquanto executavam os passos, cadenciando o ritmo da dança, rodopiando pela sala.
Aproximou o rosto um pouco na direção de Watson, observando a pulsação dele acelerar sob sua mão e sua respiração estar num nível quase ofegante. Não demorou muito para chegar a conclusão óbvia de sua experimentação acompanhada de análise dos dados observados nesse curto período de tempo.
Olhou no fundo dos olhos do doutor e deu seu sorriso triunfante, aquele sorriso dispensado apenas quando resolvia seus casos mais complexos.
Watson conhecia bem demais aquele sorriso e quando se deu conta do que via, desfez a parceria e andou em direção ao aparelho de som, desligando a música.
− Acho que já está bom por hoje, Holmes.
− Eu ainda nem comecei, Watson. Nem lhe ensinei a dançar tango.
− Não é necessário, e além do mais, eu preciso me aprontar para o baile.
Holmes respirou fundo, enquanto olhava Watson se aproximar da porta. Ficava abismado com a falta de capacidade dedutiva vinda do loiro. Tinha dias que preferia ficar trancado num quarto escuro a ter que olhar para Watson.
Será que ele não enxergava que Holmes preferia a solidão porque os sentimentos de Watson não eram claros para Sherlock?
O moreno sabia que a amizade de Watson por ele não teria fim, mas ele não queria apenas amizade. Ele esperava um sinal mais claro do doutor, só um, para que pudesse enfim agir como queria.
− Pode ser que você mesmo não seja luminoso, Watson, mas é certamente um condutor de luz. Algumas pessoas, sem possuir a genialidade em si, têm um notável poder de estimulá-la.¹ — disse Holmes, andando em direção ao doutor, impedindo que ele saísse da sala.
Abraçou-o com força, querendo sentir todos os músculos, articulações e ossos de Watson contra si.
Watson apoiou a cabeça entre o ombro e o pescoço de Sherlock, retribuindo o abraço, e aspirou o perfume que vinha dele. Era algo como a mistura de tabaco e uísque. Ele adorava.
O doutor queria ficar assim, sentindo todas as pequenas vibrações do corpo de Sherlock contra o seu. Como se finalmente se dessem conta de algo que ambos tinham certeza há muito tempo.
Holmes jogou a cabeça para trás a fim de enxergar os olhos de Watson. Eles eram sinceros, gostava de ver a verdade neles. E o que lia era uma vontade louca de Watson ser beijado pelos seus lábios. Tocou de leve sua boca contra a dele, sentindo toda a emoção provinda de um sentimento há muito guardado e não compartilhado.
Watson abriu seus lábios e sentiu sua boca ser totalmente preenchida por Holmes. Suas línguas se chocavam e ambos traziam o corpo um do outro cada vez mais pra perto, como se a vida deles dependesse de nunca mais se separarem.
Holmes passou a mão pela nuca de Watson, sentindo a respiração dele falhar. Separaram seus lábios por um momento, tentando recobrar o fôlego perdido, sem desvencilharem-se do abraço quente que ambos compartilhavam.
− E-eu acho que podia praticar mais um pouco de valsa, se você não se incomodar. – disse Watson, um pouco incerto, olhando para Holmes.
− Meu incômodo seria se você não pedisse uma aula extra, Watson.
–
¹ Citação de O Cão dos Baskerville, Arthur Conan Doyle.
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