Dance Made
17 #17- Hora de acordar.
Notas iniciais

***POV: Elin***
Eu e Breno saímos do quarto. Ele estava com sua camiseta devidamente abotoada e cabelo arrumado. Ah sim, e um belo perfume também. É como se nada tivesse acontecido. Também me arrumei, não é muito normal estar descabelada e com o batom borrado ao sair do quarto com um garoto.
Fomos andando até a praça juntos. Ele com suas mãos nos bolsos, olhando para qualquer lugar menos para mim, e eu com as mãos soltas, olhando apenas para ele. Andar com o Breno é extremamente irritante. Não por culpa dele, mas sim por sua beleza. Toda garota que passava dava uma risadinha ao olhar para ele, mesmo ele ignorando elas. Talvez garotas gostem de ser iludidas. Talvez eu goste de ser iludida. Até porque, sinto ciúmes de alguém que não me pertence.
Não falamos nenhuma palavra no caminho inteiro. Isso me deu uma sensação ruim. Ele não se aproveitaria de mim, certo? Não sei. É o Breno. Andar com ele é como uma montanha russa. Misterioso. Talvez seja isso que me atraia tanto nele.
Me pego olhando para seu sorriso. Um sorriso para mim. Só para mim. Sem motivo algum. Sem mudar a expressão, ele perguntou alguma coisa que não consegui ouvir. Meu Deus, garoto. Que sorriso é esse.
—Elin?
Nota mental: Não se distraia. As pessoas gostam de comunicação.
—Oi! Desculpa, eu tava....
—Você tava...?
—Nada. Só.... Pode sorrir mas vezes?
—Por que? —Outro sorriso. Ele quer me matar. Certamente.
—Por isso mesmo.
—Hm?
—Você consegue qualquer coisa sorrindo assim.
—Qualquer coisa? —Malicia na voz. Sempre.
—Não.
—Que pena.
—Que pena.
Silêncio de novo. Mas, dessa vez, ele me acompanhou tocando gentilmente a base das minhas costas com uma de suas mãos. Não era para ser nenhum contato caloroso, mas sua mão queimava. Minha respiração aumentou. E ele notou. Sei porque abriu um sorriso no canto da boca e depois mordeu seu lábio, olhando para cima.
Finalmente chegamos. Todos estavam sentados em uma roda, apenas esperando a nossa chegada. Nos sentamos ao lado da Bea, que sussurrou algo extremamente irritada no ouvido do Breno. Ele começou a rir e depois deu um beijo na bochecha dela. Eu amo esses dois.
—Que houve? —Sussurrei para o Breno.
—Eu esqueci o saquinho azul que ela me pediu para trazer. Era muito importante?
Comecei a rir. Sim. Era muito importante. Muito mesmo. Ele deu de ombros, sorrindo. Acho que estou derretendo.
Yan começou a explicar o que viemos aqui para ouvir.
—Seguinte, povo. Hoje será nosso último dia no hotel. Como ainda são 17 horas, dá tempo de vocês jantarem e arrumarem suas malas. O ônibus sairá às 22 horas.
Murmurinhos de reclamação se espalharam por todos da roda.
—Calma, galera. —Ele continuou. —Vocês estão indo embora hoje, porque ganharam o campeonato regional. Parabéns, estou extremamente orgulhoso.
Todos começaram a comemorar e se abraçar. Foi muito meloso, mas eu gostei.
—Então, —Continuou Yan, depois que a turma se acalmou. —Vou colocar o troféu lá na nossa sala. E agora.... —Ele se virou para pegar algo na sua mochila. —Aqui. Vou entregar as passagens de vocês. Não percam, ou não voltem para casa.
Vou guardar com a minha vida.
—Eita.... Elin e Jake, as passagens de vocês não estão aqui.
Mentira.
—Como assim? —Estou tendo um mini ataque cardíaco.
—Não se preocupe, Elin. Talvez a recepcionista tenha se esquecido dos seus tickets. Eles devem estar no quartinho do salão principal.... Sabe onde fica, Jake?
—Sei sim.... Estão nas gavetas, certo?
—Sim senhor! Se não acharem me chamem, ainda preciso dar uns recadinhos para a turma.
Assentimos e começamos a ir até o salão. Não pude deixar de notar o olhar penetrante de Breno ao me ver saindo com Jake.
Estávamos andando no mesmo passo. Sem trocar nenhum olhar ou toque. Jake às vezes parava para olhar para cima e suspirar, eu não sabia o que significava, mas com certeza não era algo bom.
O caminho foi extremamente desconfortável, mas finalmente chegamos no quartinho. Era uma pequena sala cheia de armários com papéis. Jake sabia exatamente onde procurar, então apenas fiquei atrás dele, aguardando uma resposta.
De repente, escuto a porta bater atrás de mim. Jake olha para trás, preocupado.
—Ah, não. Isso não. —Ele disse, indo até a porta. —Droga!
—O que houve?
—Alguém trancou a gente aqui dentro.
—Trancou?
—Sim. Essa porta é emperrada. Quando alguém fecha, só abre por fora.
—Nossa! Mas.... É só chamar alguém, né?
—Tá com seu celular?
—Não, mas—
—Então vamos ficar aqui. Até alguém aparecer.
—E se a gente gritar?
—É inútil. O quarto é muito isolado de tudo.
—Então....
—Então vamos ficar aqui.
Jake encosta as costas na parede e desliza, até tocar o chão. Esticando suas pernas e encostando a cabeça na parede. Me junto a ele, mas me sento na parede em sua frente.
O silêncio é discrepante. Segundos parecem horas. E nenhum olhar é trocado. Tento cortar esse clima pesado, mas não dá muito certo.
—Hm.... Conseguiu as passagens?
Ele não responde, mas joga meu ticket para que eu o guarde.
—Obrigada....
Desconforto. Essa é a palavra.
Eu entendo ele não estar confortável ao meu lado. Fui muito fria com ele na última noite que conversamos. Não quero voltar a ter nada com ele, mas não quero um inimigo.
Levanto o rosto, olhando para seus pés.
—Desculpa.... —Digo, esperando uma resposta.
Jake não se move. É como se eu não tivesse dito nada. E talvez não tenha mesmo.
Dessa vez, eu me levanto e paro na sua frente. Olho para baixo, fazendo meus olhos encontrarem os dele.
—Me.... Me desculpa, Jake. Eu não....
Paro de falar ao notar que ele está se levantando. Jake para na minha frente e olha no fundo dos meus olhos. Sua expressão é indescritível, mas é algo triste. Na verdade, é a mesma expressão que eu tenho.
—Desculpa. —Digo, pela terceira vez.
Quando penso que ele vai se afastar, estou completamente enganada. Ele me envolve gentilmente com um abraço. Enquanto acaricia meu cabelo. Como senti falta do seu abraço. Como senti falta da sua amizade. Como senti sua falta.
Inevitavelmente, as lágrimas começam a cair. Não sabia o quanto sentia falta do Jake, até ele me abraçar. Jake nos afastou um pouco, mas sem parar com o abraço. Sua mão saiu do meu cabelo e foi para minha bochecha, limpando as lágrimas.
Jake olhou para minha boca, e depois para meus olhos, dando um sorriso. Ele se aproximou, beijando minha testa.
—Tudo bem. —Voz doce, mas não foi uma aceitação sincera. Infelizmente é tudo o que eu posso tirar dele agora.
Nos soltamos do abraço e sentamos lado a lado. Encostei minha cabeça no seu ombro. Não sei exatamente o porquê, nossa intimidade está totalmente apagada para eu fazer algo assim, mas, de alguma forma, me sinto confortável com ele.
—Faz tempo né.... —Digo, me referindo à última vez que passamos tempo juntos.
—Foram só três dias.
—Pra você.
Silêncio novamente. Decidi mudar o assunto.
—Como você e a Jane estão?
—Essa pergunta é séria?
Me posiciono de frente para ele, confusa.
—Por que não seria?
—Talvez porque seu namoradinho teria destruído qualquer chance que eu tinha com ela?
—Que? Como assim?
—Depois que você acabou comigo naquela noite, e a Jane estava lá por mim, descobrimos que temos muito em comum. Até aí, tudo certo. Mas, foi só o Breno falar bosta pra ela que ela parou de falar comigo.
—O Breno? O que ele fez?
—Disse que eu só queria me aproveitar dela. O que é completamente mentira, mas a Jane não acredita em mim. —Uma pausa. —Não sei porque to te falando isso. Você fez a mesma coisa.
Engoli em seco.
—Jake. Você mesmo admitiu que gostava da Jane. Foi só por isso que eu me afastei. Senti que eu estava atrapalhando vocês dois. Que eu era o único motivo de vocês não estarem juntos.
—É, Elin. Você tá certa. O único motivo de eu não ter ficado com a Jane antes, era você.
—Bom, eu pensei que....
—Eu te amei. Com tudo o que eu tinha. Mas, naquela noite, descobri que tudo o que eu senti foi em vão. —Ele se levantou, indo em direção à porta.
—Não foi em vão!
—Não? —Ele se virou para me olhar. —Então vai dizer que o Breno não mexeu com você, ou melhor, vai dizer que o Breno não mexe com você? Que eu sou o único que te faz bem? Me poupe, Elin.
—Não vou dizer isso.
—Claro que não vai.
Me levanto.
—Mas.... Por que não posso ser nem sua amiga? Meu objetivo com essa conversa era me reaproximar de você.
—Reaproximar? E alguma vez já fomos próximos de verdade?
—O que houve com você, Jake...?
—Olha, Elin. Quando duas garotas quebram seu coração, você vai mudando um pouco.
—Desculpa....
—É, você já disse isso.
—Eu sei, vou repetir até você aceitar de verdade.
Jake está sério. Minhas palavras não importam agora.
Ouvimos passos distantes se aproximando pelo vago salão. Talvez alguém venha nos tirar desse sufoco. Ambos olhamos para a porta.
***POV:Breno***
Trinta minutos.
Elin e Jake estão em uma sala por trinta minutos. Eu teria que ser muito idiota para não achar que aconteceu alguma coisa.
Disse para Yan que eu iria atrás deles. Ele deixou, então aqui estou eu. Andando em direção a uma sala fechada. O salão de dois mil metros quadrados fica pequeno para o ódio que eu estou sentindo do Jake. E não, eu não sei se ele fez algo com a Elin.
Agora a porta está na minha frente. Consigo notar o silêncio na sala, o que é assustador, porque pode significar muitas coisas.
Abro a porta devagar, mas sem receio algum.
—Eaí? É legal brincar de esconde-esconde com as passagens?
—Não foi isso, Breno. —Elin parece irritada. Beleza, hora de irritar mais.
—Não? Legal.... Então.... Tavam brincando de pega-pega?
—Vê se cresce, Breno. —Jake sai da sala, me encarando.
Olho para Elin, com um sorriso satisfeito. Elin está séria, olhando para seus pés. Provavelmente pensativa. Eles devem ter conversado.
Bom, agora seria a hora de alguém ajudar a Elin a desabafar. Mas, todo mundo sabe que eu não sou esse alguém.
Vou até ela, levanto seu queixo com a ponta dos meus dedos e depois lhe dou um sorrisinho. Elin aproxima sua boca da minha, mas ela não está pensando direito no que quer.
—Te vejo no jantar. —Digo, encostando a mão em sua boca, e saindo da sala. Ela não se mexe, mas parece confusa. Tudo bem, estou acostumado com essa reação.
No caminho para o quarto, encontro a Jane. Ela está encostada na porta do seu apartamento. Eu até perguntaria o que houve, se não soubesse que ela iria me chamar.
—Breno.
Me viro.
—Tem um tempinho?
—Não.
—Ótimo. Pode se sentar aqui?
Sento ao seu lado, aguardando a nuvem de tédio que eu vou sentir.
—Lembra quando você disse que o Jake só queria se aproveitar de mim?
—Eu não disse isso.
—Tá.... Enfim, foi o que eu entendi.
—Entendeu errado.
—Breno, o que eu quero dizer é..... Você realmente acha que ele não gosta de mim?
—Não, acho que ele te curte. Só não do mesmo jeito que você curte ele.
—Como assim?
—Daria sua vida pela dele?
—Sim.
—Pronto, respondeu sua pergunta.
—Acha que ele não daria a dele por mim?
—Não. —Me levanto, tentando encerrar a conversa. —Essa coisa de dar sua vida por uma pessoa é idiotice. Você tem que estar muito fora de si para pensar algo assim.
—Fora de si?
—Apaixonado.
—Você acha que pessoas apaixonadas estão fora de si?
—Você não acha?
—Não....
—Então acha normal pensar que a vida de alguém vale mais que a sua?
—Não, mas—
—Você já respondeu de novo, Jane.
Ela abaixa a cabeça em seus joelhos, pela primeira vez ela está me escutando.
—Jane.
—Hm?
—Quando as pessoas estão fora de si, elas precisam de algo que as faça cair na realidade.
—E o que me faria cair na realidade?
—Acordar.
—Que?
—Você fica endeusando uma pessoa que não merece isso.
—Por que ele não merece?
—Vai ter que descobrir sozinha.
—E se eu não descobrir?
—Então fique fora de si para sempre.
Ela se levanta, parando na minha frente.
—Você também está fora de si.
—Por que acha isso?
—Você está apaixonado pela Elin.
Dou uma risada, ela parece não acreditar.
—É sério, Breno.
—Não estou apaixonado pela Elin.
—Não? Então você conseguiria sair com outra pessoa agora mesmo? Deixando ela de lado? Destruindo o coração dela?
—Preciso responder?
—Precisa. Eu não consigo acreditar que você seja tão babaca assim.
—Antes quero que você responda outra pergunta.
—Fala.
—Você acha que o Jake conseguiria sair com outra pessoa agora? Te deixando de lado? Destruindo seu coração?
Ela abaixou a cabeça, suspirando.
—Não quero responder isso, Breno.
—Tudo bem, então não respondo sua pergunta.
Ela assentiu. Fui para o quarto, arrumei minha mala, e troquei de roupa depois de tomar banho. Diego já havia descido pro jantar, e a Elin está em seu quarto com a Bea. Bati na porta para chamá-las, pois faltava uma hora para o fim do jantar.
Bea abriu, me olhando, séria. Ignorei.
—Vocês vêm?
—Pro jantar?
Franzi a testa, com um olhar de desprezo.
—Tá, óbvio que é pro jantar. —Que bom que ela reconheceu sua lerdeza. —Elin, vamos?
—O Jake vai? —Ela perguntou.
—Vai né, Elin.
—Então eu não quero comer.
Bea revirou os olhos.
—Bom, —Continuei. —Vou esperar aqui no sofá enquanto vocês se decidem.
—Não precisa, a Elin vai. —Bea entrou no quarto, e saiu puxando a Elin pelo braço.
—Belo moletom. —Brinco.
—Cala a boca, Breno. —Ela responde, indo para a porta.
Elin vai andando na frente, enquanto acompanho Bea, enlaçando nossos braços.
—O que houve?
—Conversa de menina, Breno.
—Adoro quando você é específica. —Ironia.
—Tá, eu fiz ela cair na real em relação às coisas que estão acontecendo na vida dela.
—Hm.... Tipo?
—Ela falou sobre você.
—O que?
—Essa parte eu não falo, né?
—Não custa tentar.
—Ela também falou sobre o Jake.
—Jake?
—É.... Eles conversaram hoje, daí ela queria voltar a ser amiga dele, mas ele só deu patada nela.
Balanço a cabeça.
—Que foi? —Ela pergunta, confusa.
—Nada, só lembrei da conversa com a Jane.
—O que ela te disse?
—Ela tá apaixonada pelo Jake.
—Qual o problema de se apaixonar?
—Quando o Diego te destruir, você vai saber.
—Ai ai, Breno.... Você não pode pensar que todo relacionamento acaba de um jeito ruim.
—Vou parar de pensar isso quando você parar de pensar que é algo perfeito.
—Então nunca vai acontecer.
—Nunca.
Eu gosto da Bea. Ela é minha melhor amiga, mesmo tendo opiniões opostas às minhas. Acho isso legal, me faz rir.
Chegando no restaurante, há uma mesa principal enorme só para nossa turma. Elin senta perto da Jane, elas querem conversar. Eu pensei que a Bea fosse se juntar a elas ou ao Diego, mas ela sentou do meu lado.
—Algum motivo para eu ter sua presença?
—Não.... Só achei que seria legal sentar perto de um idiota, é engraçado ouvir o que idiotas pensam.
—Me sinto honrado.
A turma inteira conversa sobre coisas fúteis, mas todos estão rindo e se divertindo. Quando o jantar chega ao fim, Yan pede para pegarmos nossas coisas e irmos para o estacionamento, o ônibus chega em dez minutos.
Todos sobem cantando músicas das nossas coreografias e fazendo passos aleatórios no caminho, acho que eu fui o único que ouvi a parte do “o ônibus chega em dez minutos”.
Por sorte, todos conseguem chegar na hora certa. O Yan pede para que formemos nossas duplas, assim a gente pode fingir pelo menos para o motorista que somos organizados.
Minha dupla é a Elin. Ela não parece feliz nem triste com isso. Ela está séria, indiferente. Não sei o que a Bea disse para ela no quarto, mas com certeza fez ela esquecer o significado de emoções.
—Vai usar a meia de gatinhos de novo?
—Não, Breno. Depois que você criticou, eu joguei elas fora imediatamente, tudo para te agradar, porque meu mundo gira em torno de você! —Ironia.
—Sério? Você não precisava fazer isso! Eu ainda te acharia bonitinha de qualquer jeito! —Mais ironia.
—Ah, que incrível.
Acho que eu gosto dessa Elin indiferente.
—Vai sentar na janela, Breno? —Uma pausa na ironia.
—Onde você quer sentar?
—No chão, mas a sociedade não permite. Então, vou na janela.
—Sim senhora.
Entramos no ônibus. São dez horas da noite. Todos estão se preparando e organizando seus assentos. Dessa vez, eu prometi para Bea que não vou zoar ela enquanto ela estiver dormindo.... Mas, ela não disse nada sobre zoar ela enquanto estiver acordada.
As luzes se apagam e a viagem começa. Elin tira seu moletom, revelando um pijama neutro, mas, de alguma forma, intrigante. Arqueio as sobrancelhas. Ela responde revirando os olhos.
Não sei porque estou notando tantos detalhes nela ultimamente. Alguns diriam que eu estou apaixonado, mas eu sei que não.
Prometi para mim mesmo que não deixaria isso acontecer novamente. E não vai acontecer.
Essa viagem vai ser longa....
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