Dançando

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Yaaay, não me culpem, esta música estava na minha cabeça e... é, eu tive que fazer isso. Well, boa leitura.~ As coisas em itálico são pensamentos das personagens.

Sentada no chão amadeirado, com os pés roçando levemente no gramado verde da parte de trás da grande casa japonesa, chinelos ao lado do corpo da adolescente, balançando a cabeça para os dois lados, não chegando a encostar nos ombros relaxados, mãos encostando no final do piso, onde apoiavam-se para sustentar o corpo. Cantarolava uma canção não muito conhecida pelas pessoas de seu país, havia aprendido português desde pequena e agora com seus dezesseis anos – ainda com o corpo aparentemente infantil como também a mente – deixava as palavras sem sentido para quem não falasse a língua.

Eu sei que lá no fundo

Fundo de onde? Do inferno?

Há tanta beleza no mundo

No País das Maravilhas, você diz.

Eu só queria enxergar

Que o mundo é uma porcaria, onde as pessoas são tratadas como lixo mesmo sendo as mais humildes possíveis.

Talvez sua mente não fosse tão infantil assim, mas havia a infantilidade em seus atos como também em seu rosto, características, olhos e até no cabelo chegava a deixá-la assim. Cabelos verdes curtos com duas mechas grandes passando os ombros e uma franja um pouco em cima dos seus olhos, estava Horei Megumi, mais conhecida como Gumi.

Culpava-se por sempre escutar e cantar aquela música, mesmo ainda que não fizesse sentido para si. “O que diabos ela queria dizer com o refrão da música?” Era o que seu subconsciente vivia a lhe perguntar todas as vezes que teimava em cantar ou ouvir tal música. Um dia, ainda iria xingar-se bastante por discutir com si mesma por motivos tão idiotas.

Queria apenas poder voar longe, sair daquela casa, conhecer alguém em especial – apesar de achar que já conhecia alguém que fizesse seu coração pulsar com mais intensidade, chegando a fazê-la achar ser uma parada cardíaca – e se livrar do peso de ser a “filha rejeitada” da família.

As tardes de domingo

Nunca foram tão emocionantes quanto está de hoje, porque estou descobrindo algo novo.

O dia me sorrindo

Você está de brincadeira com a minha cara, não está? Se a vida não sorri para mim, imagine o dia!

Eu só queria enxergar

Que não vou ser feliz até você ser… meu.

Suspirou cansada, deixando seus pés em contado com a grama verde, a terra estava um pouco molhada, porém não se importava se sujaria o quimono dado pela sua avó – que, para falar a verdade, nunca gostou dela por ter nascido com os cabelos verdes – ou se fosse pegar alguma doença por andar descalça pelo jardim dos fundos. Seu único ponto de paz, onde a solidão sempre lhe dava boas vindas, como se dissesse “a porta é a serventia da casa” ao se deparar com a árvore de cerejeiras.

— Se você estivesse aqui, acho que não estaria assim. — falou ao vento, sua voz saiu mais firme do que queria, mas ainda conseguiu ser calma, um pouco fina e melodiosa.

Seus pensamentos foram direcionados à grande árvore de pétalas rosas que caiam suavemente no chão ao encontro das suas irmãs e primas. Aproximou-se inconsciente de seus atos, parando logo abaixo dela, sentindo as gotículas presentes nas folhas caírem em seu cabelo e em sua face, deslizando rapidamente como uma lágrima, aproveitando seu momento de modelo por alguns segundos.

Qualquer coisa pra domar

E eu seria feliz assim.

O peito pegando fogo

Um futuro ataque cardíaco com estadia no hospital por um período de tempo, mas isso não me impede de agradecer pelo mini ataque que poderei ter, já que meu coração a você pertence.

Algo pra justificar

O que sinto por você, estou precisando justificar esses sentimentos.

Uma vida morna

Uma vida doce, sem conflitos, somente paz. Isso que espero quando ficarmos juntos.

Um sorriso bobo apossou seus lábios ao sentir um par de braços rodearem sua cintura, não muito malhados, porém quentes e fortes. A cabeça do dono foi apoiada em seu ombro esquerdo, fungando o perfume impregnado no pescoço da moça.

— Cheirinho de cenoura… como sempre. — resmungou o rapaz após dar-lhe um beijo na pele branca exposta, dando um sorriso travesso após senti-la tremer, abafando um gemido ao morder o lábio inferior sem força — Não sei como ainda me surpreendo se sei melhor do que qualquer um que seu cheiro de cenoura não irá mudar.

— Você sabe, cenoura é minha comida preferida. — comentou a esverdeada com um sorriso meigo nos lábios ao ser virada gentilmente pelo japonês de cabelos do mesmo tom que os seus.

— Não somente sua, minha também.

O sorriso aumentou, fazendo-a pular em seu pescoço, pendendo as pernas no ar ao flexionar os joelhos, abraçando firmemente o que lhe segurava ao chão. Rapidamente sua cintura foi rodeada pelos braços masculinos, agora com mais força para evitar o desastre de sujar o belo quimono laranja claro com alguns detalhes em vermelho sangue.

— Doida.

— Maluco.

— Idiota.

— Louco.

— Por você. — provocou ao proferir a tal cantada velha, fazendo-a rir.

Retirou uma de suas mãos da cintura da moça como também um dos braços dela de seu pescoço, entrelaçando seus dedos, começando assim uma leve valsa no gramado, apesar de nenhuma das roupas ser apropriada para tal dança e não ter música para acompanhar.

O mundo acaba hoje e eu estarei dançando

Eu estarei morrendo.

O mundo acaba hoje e eu estarei dançando

Eu estarei morrendo.

O mundo acaba hoje e eu estarei dançando com você

Eu estarei morrendo por você.

Gumiya riu descontraído ao perceber que a garota cantava em outra língua, sabendo que não era japonês e muito menos inglês, resolveu não perguntar naquele momento, somente aproveitar aquela dança como se fosse the last dance. Teve que admitir a si mesmo que andou ouvindo bastante música em inglês para pensar em palavras naquela língua.

Inclinou Megumi um pouco para a direita, onde seu braço apoiava-a pela cintura, vendo suas costas inclinarem para trás, afastando seus rostos. Levantou-a novamente, aproximando as faces até suas testas tocarem uma na outra, sorrisos cúmplices em suas faces.

— Meu idiota.

— Minha boba.

Xingamentos eram mais como pequenos apelidos direcionados para si mesmos, para rirem e abraçarem-se de forma protetora, redescobrindo os sentimentos um do outro, aproveitando como se fosse os últimos minutos juntos. Kinya Gumiya depositou um beijo na ponta do nariz da moça, vendo-a fechar os olhos com um pouco de força, sorrindo para logo em seguida roubar-lhe os lábios quase de forma possessa. Lábios somente seus, pertencentes a ele, propriedade de Kinya.

Não esqueço aquela esquina

Onde nos conhecemos após seu pé pisar no meu e esbarramos, derrubando nosso material no chão, olharmos furiosos um para a cara do outro até percebemos nossas semelhanças e que nossos pais conversavam calmamente.

A graça da menina

Kai Yuki realmente parecia considerar a possibilidade de ter nascido do meu útero e ser nossa filha, lembro que você pintou os cabelos de verde para não me sentir estranha nesse mundo. Seus cabelos antigamente pretos ainda me fazem falta quando passo os dedos entre os fios desgrenhados de seu cabelo revoltado.

Eu só queria entender

Como você se apaixonou por mim do mesmo jeito que eu me apaixonei por você.

O beijo começou com aquele leve roçar de lábios inexperientes até o esverdeado pedir passagem, que foi logo concedida, já que Gumi entreabriu-os para a língua do rapaz penetrar em sua boca, vasculhando cada canto alcançado, chegando a dançar com a língua da garota, gerando uma mini guerra entre os dois adolescentes.

A falta de ar fez com que se separarem, fazendo com que Horei escondesse seu rosto na curva do pescoço do mais alto enquanto este ria, trazendo um sorriso sapeca aos lábios enquanto voltando a se movimentar de acordo com o ritmo da valsa que dançavam.

— Acho que estou apaixonado.

Por isso eu me entrego

De coração e alma para ver o seu sorriso, fazer de tudo para mantê-lo em seu rosto mesmo que lágrimas tenham que escorrer dos meus olhos.

À um imediatismo cego

Serei cega por você, meu confidente. Não irei intervir em algo que possa nos afastar, não quero ficar longe novamente.

Pronta pro mundo acabar

Ele só irá acabar assim que você me dispensar, pelo menos o meu mundo de sonhos destruídos.

— Sabe de uma coisa, Megumi? Acho que nunca cheguei a lhe contar isso, mas tome cuidado, guardei-o para uma ocasião muito especial e preciso utilizá-lo agora. — pediu Kinya parando a dança, encarando-a nos olhos, recebendo uma leve confirmação para prosseguir — Há dias venho esperando para que hoje chegasse, há meses venho sonhando com este dia, há anos me iludo com ele.

Parou de falar, esperando a outra digerir os pensamentos e as informações.

— Hoje acho que finalmente consigo dizer o que quero há um bom tempo.

Você acredita no depois?

Pois eu acredito, sei que depois estaremos juntos com as mãos entrelaçadas, dedos se acariciando automaticamente, sorrisos e risos cúmplices, beijos e cafunés serão normais.

Prefiro o agora

Ele me mostra a realidade e desmente minhas expectativas de ter sonhado uma mentira durante minha vida inteira.

Se no fim fomos só nos dois

O que sei que será.

Que seja lá fora

Onde poderei gritar ao mundo que lhe amo mais do que minha própria vida.

— Horei Megumi, eu lhe amo. Amo mais que tudo que me ofereceram na minha vida, amo-lhe mais do que a mim mesmo. Seu sorriso me encanta, seus cabelos naturais me deixam loucos de vontade de roubá-los para mim somente para dizer “tenho uma lembrança de você”. Seus olhos verdes expressam seus sentimentos de forma tão linda e simples que não sinto vontade de vê-los embargados em lágrimas. Sua personalidade então, me atraiu completamente, seu jeito infantil e adulto misturado com a rebeldia adolescente, cara… como eu lhe amo.

Pausou seu discurso para fitá-la, esperando uma resposta para continuar. O par de olhos verdes brilhavam tanto pelo encanto quanto pelas lágrimas que haviam se formado ao seu redor, balançou a cabeça positivamente para que o mesmo continuasse.

— Megumi, minha cenourinha… — começou tirando-a uma risada com o apelido — Você quer… namorar comigo?

O mundo acaba hoje e eu estarei dançando

Com você.

O mundo acaba hoje e eu estarei dançando

Com você.

O mundo acaba hoje e eu estarei dançando com você

Para todo o sempre.

— Quem você pensa que eu sou para dizer não? — sacaneou, pulando novamente nos braços do esverdeado, dos quais não soltou mais. Juntou seus lábios aos dele para selar ali a promessa, sendo transmitida tanto pelas palavras dele quando pelos olhos dela.

E pensar que, se não fosse por uma esquina onde se esbarraram, nada disso teria acontecido.

Notas finais
Fim~
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