Dança de Dragões
1 Capítulo único
Notas iniciais
Rainha será, dissera a profecia, e rainha ela foi. De ouro foram as coroas de seus filhos, e de ouro foram suas mortalhas. Seus filhos, tudo que ela mais amava, todos os três levados de forma indireta por uma rainha mais bela e mais jovem, que naquele instante marchava rumo à Porto Real para tomar-lhe também o Trono de Ferro. Naquele momento, depois de tudo acabado, Cersei finalmente via como a profecia viera a se realizar sempre das formas que ela menos esperara, via agora não só seus erros na interpretação, mas seus erros na vida e no jogo.
Foram tantos erros, incontáveis, e ela sofreu as consequências de cada um deles, viu seus triunfos se transformarem em derrotas e sua confiança transformada em traições. Sempre pensara ser a versão feminina de Lorde Tywin, mas agora que tudo estava destruído, percebia que havia sido muito mais uma versão feminina de Aerys, o Louco, ou de Robert, o Tolo, do que de Tywin, o Leão.
Tudo aquilo já era passado, porém, e ela sabia que já não importava, apenas o presente e o que ainda viria a acontecer deviam ser considerados. Sentada no Trono de Ferro, sozinha no salão exceto por dois homens da guarda Lannister, invisíveis nos cantos, Cersei pensava no futuro, no que ainda havia para ela. Segurava uma taça entre os dedos, e o vinho se transformava em sangue e amargura em sua boca ao pensar no fim que lhe estava reservado. Toda a profecia havia acontecido de um jeito diferente do que ela imaginava, mas o final era inequívoco: depois que se afogasse em lágrimas, seu irmão mais novo a sufocaria até a morte. A ideia de ter sua vida tirada por aquele anão desprezível ainda a enchia de repúdio, mas suas lágrimas já haviam a afogado, e ela sabia que o destino se aproximava.
Quanto mais divagava sobre isso, e sobre tudo que lhe ocorrera, mais sua mente insistia em recair sobre Jaime. Sua outra metade, a única pessoa que Cersei pensou que jamais voltaria as costas para ela, o grande amor da sua vida, havia a abandonado no momento que ela mais precisara. Fazia um bom tempo que não via seu irmão gêmeo, tempo mais que o bastante para que ela sentisse sua falta. Sempre havia se sentido incompleta sem ele, mas antes, quando estavam longe um do outro, sempre havia a certeza de que voltariam a se ver para se tornarem um só novamente. Daquela vez, não. Ela não sabia o que seria deles, não sabia se um dia eles se perdoariam, nem mesmo se voltariam a se ver, tudo que sabia é que ela o queria ao seu lado naquele momento.
Ainda estava brava com ele, se enfurecia e entristecia ao se lembrar da forma como ele a deixara, mesmo que sabendo que detinha parte da culpa. Ele a feria, e ela queria feri-lo com o dobro da força, e tinha sua réplica também potencializada, de modo que a ferida em seu peito nunca chegou a cicatrizar, apenas se aprofundou cada vez mais. Ela achou que sempre poderia se apoiar nele, achou que ele sempre a entenderia e a completaria, mas estava enganada, Jaime foi capaz de machucá-la como nem o duende havia sido, logo ele. Jaime fora tudo que ela queria ser, ele fizera por ela tudo que, por ter o azar de nascer mulher, Cersei não pudera fazer. Isso até perder sua mão. Então se tornou apenas um fantasma do homem que era, e ela nunca havia se sentido tão desamparada sem seu Jaime para defendê-la.
Como se seu pensamento tivesse o poder de atraí-lo, a porta do salão se abriu, e seu irmão gêmeo adentrou o salão. Cersei levantou-se de um salto ao vê-lo, a taça da vinho escorregou de sua mão e se espatifou-se no chão, o líquido escuro molhando a barra do seu vestido, mas a mulher não se importou.
- Jaime! O que faz aqui? — ouviu-se dizer, chocada demais para formular uma pergunta melhor.
- Vim acertar nossas contas, minha doce irmã. — ele disse, com um sorriso sem humor no canto dos lábios. Percebeu que Jaime não usava sua armadura e manto braco da guarda real, mas sim um gibão simples com as cores Lannister. Sua mão de ouro estava presa, mas não havia espada em sua cintura.
- Deixem-nos. — disse aos guardas, num tom imparcial.
Assim que os dois homens saíram e a porta da sala foi fechada, um silêncio denso e pesado se instalou no lugar, aquele silêncio que dizia muito mais que uma longa conversa. Olhos verdes fitavam olhos verdes, a tensão entre os dois palpável mesmo à distância. O espaço de alguns metros que os separava parecia intransponível, e naquele momento parecia representar todas as palavras não ditas, todas as mentiras, todas as brigas, todas as feridas abertas, e nenhum dos dois tinha coragem para dar o primeiro passo para atravessar tudo aquilo.
- É você. — ela disse por fim, quebrando o silêncio. Cersei não soube como aquela consciência a atingiu, mas algo nas palavras dele a fizeram compreender que era Jaime o seu valonqar. Obviamente, o homem não entendeu o verdadeiro significado de suas palavras.
- É claro que sou eu, quem mais poderia ser? — disse, levantando os ombros. Ele não precisou falar mais nada, embora Cersei soubesse que ele não se referia à profecia, ela tomou aquilo por confirmação.
Sempre achou que, quando chegasse o momento de sua morte, ela tentaria com todas as suas forças fugir e se salvar, mas novamente estava errada. Seus pés a levaram em direção a Jaime, atravessando a distância entre eles em passos firmes. Surpreendentemente, naquele momento ela não sentia medo ou angústia, tudo o que havia em seu peito era alívio. Ela não teria o terrível destino de ter a vida arrancada por aquele que sempre desprezou, seu maior medo não seria concretizado. No fim, seu Jaime viera por ela, e ela morreria nos braços da sua outra metade.
Jaime apenas ficou parado ali, surpreso por vê-la ir até ele com aquele leve sorriso nos lábios. Cersei nunca viera até ele, nunca, era sempre ele a ir até ela. Aquilo fez seu coração disparar de uma forma que ele não achara ainda ser possível. Depois de todas as traições, de todas as vezes que ela o machucara, Jaime chegou se iludir pensando que não a amava mais. Sempre a amaria, ele sabia disso agora, sempre soube, embora houvesse por um tempo enterrado esse amor no fundo de sua alma. Quando chegara aos seus ouvidos que marchavam para tomar Porto Real, soube que Cersei não venceria, e que ele tinha que chegar primeiro à cidade para ficar ao seu lado e morrer com ela. Vieram ao mundo juntos, e ele não deixaria que ela morresse sem ele. Não era, porém, a única coisa que tinha em mente. Queria conversar com ela uma última vez e lhe dizer tudo que tinha que ser dito.
Quando os dois estavam finalmente próximos, Cersei surpreendeu a ambos jogando-se nele e juntando seus lábios. Jaime correspondeu prontamente ao beijo, apesar de sua cabeça mandar que se afastasse, tudo o que seu corpo queria era unir-se novamente a ela. As mãos dela estavam em sua nuca, aprofundando o beijo, ele a puxava pela cintura para colar seus corpos, e suas bocas lutavam furiosamente, descontando todas as mágoas guardadas e todo o desejo reprimido. De repente, Jaime se deu conta do que fazia, sua mão subiu para o ombro dela e a afastou abruptamente.
- Cersei… — começou a falar, com o cenho franzido, mas ela não deixou que ele continuasse. Agarrou a gola de sua camisa como um náufrago se agarra à madeira.
- Você veio, Jaime, veio me salvar. — ela disse, com um sorriso aliviado. Ele a salvaria do cruel destino de morrer nas mãos de Tyrion, ele a salvaria de ver seu trono tomado, a salvaria da dor e da amargura que havia se tornado sua vida, e a levaria para o outro lado, onde ela poderia ver seus filhos novamente.
- Não, eu não vim te salvar, ninguém pode te salvar agora. — o homem falou, olhando em seus olhos. Sua irmã não estava bem, ele percebia um brilho estranho em seus olhos, algo que ele não sabia identificar, e aquilo o preocupava. Sacudiu o sentimento para fora de sua mente. Estava ali para acertar as contas com ela, não para ampará-la.
- Você é o único que pode me salvar. — ela segurou a mão dele e a levou aos lábios, beijando seus dedos suavemente. — Me salve dessa vida, Jaime, por favor. — levou a mão dele até seu pescoço,para que ele segurasse ali, e só então Jaime compreendeu.
- Não. — ele disse por fim, sua voz dura pairando no ar por vários segundos. Ela o olhava incrédula, todas as vezes que ele a havia recusado e virado as costas para ela repetindo-se em sua mente. As feridas se abriram novamente, uma por uma, dilacerando seu peito. Não aqui, ele dissera na Torre Branca; Não serei Mão, ele dissera no Septo; e o pior não de todos, aquele que nunca fora dito, o silêncio quando ela mais precisara. Sua mão levantou-se para acertá-lo no rosto, mas ele a parou com seu braço direito, e ela se afastou imediatamente, com certa repulsa. Aquilo só fez com que a raiva se apoderasse do homem. Em um instante a mão dele agarrou seus cabelos, puxando-os com força para si, seus rostos ficando muito próximos. — Não ainda. — disse, a ira o invadindo novamente e abrindo nele também todas as feridas. — Primeiro preciso saber, você realmente me amou um dia como te amei, ou foi tudo uma mentira?
Ela quis mentir, quis dizer que o desprezava, que o fizera de tolo por toda a vida, mas naquele momento ela sabia que não adiantava feri-lo. Sua vida chegava ao fim, e não havia mais espaço para mentiras.
- Eu te amo, Jaime, nunca deixei de te amar. — as palavras escaparam de seus lábios, mas ela conseguiu conter as lágrimas. Havia tentado com todas as suas forças não amá-lo, havia tentado suprimir aquele sentimento, pois o amor é uma fraqueza, e ela nunca quis ser fraca. Sabia que o havia machucado tentando fazer aquilo, havia machucado a si mesma.
Ele a soltou abruptamente, a raiva em seus olhos fazendo com que ela recuasse um passo. — Se me amasse, não teria me traído como fez. — disse, com o punho cerrado. Aquilo fez a ira aflorar na mulher, que avançou novamente para ele.
- Eu te traí? Você me abandonou quando eu mais precisei! — ela já estava gritando, sem se importar com o que os guardas do lado de fora poderiam ouvir.
- Claro, tudo gira em torno de você! Tenho a obrigação de viver minha vida em função da sua, mas você não precisa se preocupar comigo nem por um segundo não é? Você apenas me quer quando precisa de mim! — retrucou, sua voz também alterada.
- E eu preciso de você em cada segundo da minha vida, sempre precisei! — ela disse, desesperada, e dessa vez foi a mão dele que acertou seu rosto. Ela caiu no chão, mais pelo choque do que pela força do tapa.
- Chega! Acha que vou continuar engolindo suas mentiras? — ele esbravejou, furioso.
- Não são mentiras! Você é minha outra metade, minha melhor metade. Você foi meu escudo e minha espada, mas me deixou sozinha! Você deixou seus filhos morrerem! — Ela gritou, levantando-se, as lágrimas finalmente começando a escapar de seus olhos
- Não. Você deixou seus filhos morrerem. — ele retrucou, sua voz fria e dura. Dessa vez Jaime não conseguiu evitar o tapa que ela acertou em seu rosto, mas sua mão segurou o braço dela quando sentiu a ardência em seu rosto, e puxou o corpo da irmã para junto do seu de forma agressiva. Cersei se debateu, tentando soltar-se dele, mas não era forte o bastante, e acabou por aquietar-se. — Olha o que você fez conosco, Cersei, olha no que você nos transformou!
- Fala como se apenas eu tivesse culpa. — ela resmungou, embora no fundo soubesse que boa parte da culpa era mesmo dela, o que fazia as lágrimas se tornarem cada vez mais difíceis de segurar.
Olhavam-se intensamente, naquele momento enxergando a alma um do outro. Haviam ambos mudado de formas diferentes durante o tempo, ambos haviam sofrido, mas ainda eram iguais de algum modo. As máculas que haviam nele se assemelhavam às que haviam nela, o vermelho havia desbotado e o brilho dourado se apagava.
- Entreguei minha vida a você, fui seu, e você nunca foi minha. — afrouxou um pouco a forma como a segurava, e a mágoa em sua voz cortou profundamente a alma dela.
- Você não entende? Não pude me permitir ser sua, mas a única coisa que quero fazer agora é entregar minha vida a você. — Ela soltou-se e voltou as costas para o irmão, querendo esconder o choro, mas ele acabou com a distância entre os dois e a abraçou por trás, colando o corpo em suas costas e a segurando com firmeza. Deixou o rosto afundar por um segundo em seus cabelos, aspirando seu perfume e todas as doces memórias que o cheiro lhe trazia. Cersei inclinou o rosto para o dele, roçando os lábios em sua pele, mas o irmão não a beijou. Olhava fixamente para frente, e ela acompanhou seu olhar, percebendo que ele encarava o Trono de Ferro.
- Estamos de frente para a causa disso tudo. Como nos deixamos arruinar por uma maldita cadeira? — ele murmurou, em tom reflexivo, e Cersei não soube definir se ele se referia a eles dois ou a todo o reino.
- Não é pelo trono, é pelo poder que ele traz. — respondeu, admirando fascinada as lâminas afiadas que reluziam refletindo as chamas das velas.
Uma forte batida na porta do salão fez com que seus corpos se afastassem, e então um guarda entrou pela porta — Majestade, avistaram a linha de frente de um exército se aproximando pela Estrada do Rei, e uma frota vindo pelo Água Negra. Em poucas horas estaremos sob cerco. — disse o homem, de olhos arregalados.
- Mande Sor Meryn organizar as defesas, e Sor Boros vigiar essa porta e matar qualquer um que tente entrar, amigo ou inimigo. — ela ordenou, e o homem assentiu, saindo novamente.
- É tarde demais para defesas. — Jaime disse quando o guarda se foi.
- Eu sei, e é tarde demais para nós, nunca iremos nos curar das feridas que nós mesmos abrimos. — ela disse, virando as costas para o irmão e voltando a encarar o trono.
- Mas ainda há tempo para uma última vez. — disse Jaime, percebendo que chegara a hora de cumprir seu propósito ali. Cersei virou-se para ele, e antes que pudesse dizer qualquer coisa, seus corpos estavam novamente juntos, e ele a trouxe para um beijo que misturava o alívio do desabafo com a raiva que guardavam um pelo outro.
Ela agarrou os cabelos do irmão, ao mesmo tempo o puxando para si e o machucando, convergindo o amor e o ódio que sentia. Jaime a segurava com força, os braços colando seus corpos enquanto sua mão encontrava as amarras do vestido dela e as puxava até que arrebentassem. Quando suas bocas se separaram, os lábios de Jaime foram diretamente para o pescoço da irmã, devorando-o com igual voracidade e puxando seu vestido para baixo com força, sem se importar em rasgar as caras sedas e rendas, até vê-la livre de qualquer pano.
As mãos de Cersei desceram por seu pescoço, arranhando cada pedaço de pele que encontrava, e rasgavam também as roupas dele, enquanto Jaime a apertava e mordia e arranhava. Tentando dar vasão a todos os sentimentos contraditórios, os irmãos dançavam e lutavam, causavam dor e prazer, se atraíam e repeliam. Não se importavam mais com nada que pudesse haver além dos dois, nada que pudesse acontecer depois, porque para eles nada haveria e nada aconteceria.
Cersei enlaçou as pernas na cintura do irmão, que a sustentou com os braços, e caminhou com ela no colo até o Trono de Ferro, a boca dela distribuindo beijos e mordidas no pescoço e nos ombros dele, fazendo com que tivesse dificuldade em subir a pequena escadaria. Sentou-se por fim no trono, com a irmã montada em seu colo, e ela levantou um pouco o corpo para terminar de despi-lo da calça, movimento do qual Jaime se aproveitou para abocanhar um seio da mulher, fazendo-a soltar um pesado suspiro. A mão dele foi até o vértice da irmã, tocando-a ali e sentindo sua umidade crescer, sorrindo de leve ao ouvir um leve gemido escapar dos lábios dela. Cersei segurou então o braço direito dele e arrancou a mão de ouro, que fez com que ele parasse tudo e a encarasse, confuso.
- Quero você, nenhum adorno, nenhuma mentira, só você. Quero sair do mundo do mesmo jeito que viemos a ele. — ela disse, olhando em seus olhos. Ela mesma se impressionava com a calma que sentia naquele momento. O valonqar que ela temera por toda a vida não era seu carrasco, era seu salvador, sua morte não seria um pesadelo, mas um sonho, uma libertação. De alguma forma Jaime sentia o mesmo, ele sempre soubera que eles teriam que morrer nos braços um do outro, e naquele momento de suas vidas a morte seria mais que um excelente refúgio, seria a única forma que eles teriam de se unir novamente depois de tudo que haviam causado um ao outro.
A mão dele agarrou sua cintura e a puxou para baixo, ávido para fundir seus corpos e tentar fundir suas almas. Soltou um gemido rouco ao sentir-se inteiramente dentro dela, gemido que foi ecoado por Cersei, num sentimento de completude que os dois há um bom tempo não tinham. Suas bocas se encontraram num beijo voraz quando começaram a se mover, e a consciência de que aquela era sua última vez os impulsionava para um ritmo frenético e deixava tudo mais intenso. Não havia o que reprimir, não podiam guardar nada para depois.
Ele sentia as lâminas do trono incomodarem suas costas, em contraponto com as unha de sua irmã que por vezes se cravavam em seu peito, mas Jaime não se importava, tudo que havia no momento era a união dos dois, aquela tentativa desesperada de se tornarem um só. Ele a segurava com força, a puxava para si e beijava seus lábios, mordia sua pele, chupava seus seios, enquanto sentia as mãos e a boca da irmã passeando também por seu corpo e o puxando para ela. O tempo se dissolveu, tudo que os orientava era o ritmo intenso e incessante dos seus corpos se chocando.
Jaime sentiu às paredes dela se contraindo e aumentou ainda mais o ritmo de seus quadris, afastando um pouco o rosto para observar o orgasmo de sua irmã. A forma graciosa como ela arqueava as costas e como seus lábios cheios e vermelhos se partiram para soltar um gemido agudo quase foram suficientes para fazê-lo unir-se a ela também naquele clímax, mas o homem não se permitiu aquilo, apenas continuou a conduzindo no mesmo compasso. Cersei nunca sentira prazer a não ser com seu irmão, e daquela vez todos os seus sentidos pareciam ampliados, o orgasmo a arrebatou de uma forma tão intensa que ela por um segundo perdeu a noção de si mesma e do mundo, e por esse pequeno segundo, sentiu realmente que eles eram apenas um. Quando aquela sensação a deixou, ela desabou sobre o irmão, fazendo com que ele se recostasse mais nas lâminas do trono.
Ele sentiu as pontas das espadas furando sua pele ao mesmo tempo em que sua mão envolveu o pescoço da irmã, cortando seus últimos tremores. Os olhos deles se prenderam um ao outro e ela voltou a cavalgar sobre ele, num ritmo agora mais lento porém ainda mais intenso. Suas mãos seguravam os ombros do irmão, e cada vez que a mulher descia o corpo, empurrava o dele para trás, fazendo com que as lâminas entrassem um pouco mais em suas costas, e ao sentir a dor Jaime apertava cada vez mais o fino pescoço dela. O sangue escorria de seu corpo na mesma medida em que a cor se esvaía do rosto dela, seus corpos não deixando de se mover nem por um segundo. Nunca uma combinação de dor e prazer fora mais sublime e perfeita, o impulso de vida e o impulso de morte em suas formas mais puras se misturando e caminhando juntos para o mesmo lado. O vermelho desaparecia da face e dos lábios dela e vinha desaguar nas costas dele, como se fossem de fato a extensão um do outro.
- Jaime... — ela sussurrou com seu último fio de voz, os lábios trêmulos e arroxeados, e ele a apertou um pouco mais quando ela desceu mais uma vez o corpo sobre o dele.
- Cersei — a voz dele foi um gemido rouco ao sentir as lâminas adentrarem mais sua carne e as paredes dela se fecharem mais contra ele. Não restava nada mais a dizer.
Quando ela desceu mais uma vez sobre ele, já claramente sem forças, deixou seu corpo ir todo de encontro ao dele, e seus lábios se tocaram uma última vez antes que ele fechasse ainda mais sua mão e deixasse o próprio corpo afundar nas espadas do trono. Não viram a vida deixar os olhos um do outro, suas almas foram juntas, como uma só, para o lugar reservado a eles em algum dos sete infernos, deixando para trás seus corpos de amantes unidos pela morte, o dourado e o carmesim sobre o Trono de Ferro.
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