Dança
18 Capítulo 18 - "Espátula"
Notas iniciais
No quase-escuro do seu quarto, Miyuki decidiu tentar pintar alguma coisa.
O cômodo ficava ao lado da dispensa; não foi difícil surrupiar galões de tinta e uma espátula dos suprimentos do pai. Nem chegou a olhar as cores antes de recolher os baldes, temerosa de que o acordaria e teria que suportar seu encarar, cansado, pesado e, principalmente, decepcionado.
Já sentada no chão, examinava a parede branca. Pensava no céu, nas constelações e nos inspiradores ápices do dia.
Acabou por escolher o crepúsculo — bem naquele ponto, entre o laranja e o roxo, onde as estrelas surgiam e a lua cheia despontava, muito brilhante. Animada para sua primeira experiência com pintura, abriu os baldes.
Por algum motivo, lembrou-se da briga com a mãe. Do olhar triste e lotado de desapontamento, fixado somente nela, e nunca para o espelho. Rangendo os dentes, agarrou os dois lados do recipiente mais próximo, impulsionando-o com os braços e quase o arremessando contra a parede.
Uma rajada arroxeada de tinta percorreu o branco. Logo, foi coberta por uma alaranjada e uma prateada; e assim o processo se repetia, até Miyuki ter uma mistura bizarra e abstrata de cores celestiais preenchendo o que antes era apenas vazio.
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