Elena narrando


Abri os olhos e me assustei ao ver uma enfermeira ao meu lado, injetando algo na veia do meu braço. Eu ainda tinha forças o suficiente para perguntar:

-- O que aconteceu? Onde estou?

-- Fique quieta querida, você está a salvo.


***

Continuei acordando e dormindo de novo por pelo menos três dias, segundo os médicos. Então, quando eu acordei definitivamente, pude perguntar:

-- O que aconteceu?

A enfermeira lançou-me um olhar triste e disse:

-- Você sofreu um acidente de carro, Elena.

Eu realmente não tinha sorte com carros, pensei. Perdi meus pais quando nosso carro caiu da ponte, direto para o fundo de um lago. A lembrança era antiga, mas ainda assim me visitava em sonhos. Agora eu é que quase tinha morrido — novamente.

O quarto do hospital era inteiramente branco e desanimado. Havia uma cama — onde eu estava deitada -, uma porta à minha direita, uma janela à esquerda e alguns equipamentos. Nada além disso.

-- Acidente? — perguntei, ainda não lembrando de nada.

-- Sim. Seu carro capotou na estrada.

-- Como eu vim parar aqui?

Naquele exato instante um jovem de uns 20 anos entrou no recinto, fazendo meus batimentos cardíacos acelerarem — o que era constrangedor, já que eles estavam sendo monitorados por um aparelho que mostrava tudo.

O jovem se aproximou de mim e sentou-se no pé da minha cama. Eu sinceramente não fazia ideia de quem ele era, apesar de ter uma vaga lembrança sobre seu rosto. Seus olhos intensamente azuis olharam para mim e depois para a enfermeira.

-- Ela está bem? — perguntou.

-- Não falem de mim como se eu não estivesse aqui — protestei. -- E sim, estou bem. Só um pouco confusa...

-- Fico feliz em saber que está tudo bem, Elena. Tenho que resolver uns assuntos... volto mais tarde. — Ele saiu do dormitório, lançando-me um olhar que me deixou constrangida. Como diabos ele sabia meu nome?

-- Quem é ele? — perguntei à enfermeira, que ainda estava do meu lado.

-- Ele te salvou do acidente e te trouxe aqui. Deveria ser grata por ele ter vindo tão rápido, ou você não teria sobrevivido.

Ela ofereceu-me o almoço e eu comi, fazendo cara feia por causa do gosto da comida.

-- Há quantos dias estou aqui? Quando poderei sair?

-- Você está aqui há uns cinco dias. Só sairá quando tiver alta, provavelmente na terça-feira.

-- E em que dia estamos? — perguntei, colocando a bandeja de lado.

-- Domingo.


***

O jovem voltou a me visitar mais tarde naquele mesmo dia. Dessa vez ficamos sozinhos na sala, mas nem assim eu consegui arrancar alguma informação dele.

-- Qual seu nome?

-- Não é importante — ele respondeu. Suas respostas eram sempre vagas e isso me irritava muito.

-- Como assim não é importante? Mas é claro que é!

-- Elena, só vim aqui para saber como você está. Por favor, não me aborreça.

-- Por que você me salvou? — perguntei.

-- Apenas fiz o que qualquer um teria feito.

-- Se você veio aqui para ficar me dando respostas vagas então pode ir embora, okay? -- falei. Soou um pouco criança, mas não me importei.

-- Lamento que tenha que ser desse jeito. Tenho que ir. Tchau, Elena — ele me deu um beijo na bochecha e saiu do quarto, sem nem olhar para trás.


***

A enfermeira me acordou cedo na terça-feira. Eu estava feliz que sairia do hospital, mas antes tinha que fazer alguns exames.

O jovem viera me visitar na segunda-feira também, mas continuou com as respostas vagas. E novamente saiu com a promessa de me visitar no dia seguinte. Por sorte eu não estaria aqui quando ele viesse. Ainda não confiava nele, mesmo que ele tenha me salvado.

-- Foco, Elena. Precisamos que você esteja atenta para fazer os exames.

Saí do hospital quando era duas horas da tarde. O jovem ainda não tinha vindo me visitar. Jeremy — meu irmão — fora me buscar.

-- Não temos sorte com carros, hein? — comentou ele no caminho para nossa casa.

-- É... — falei, cutucando a faixa que enrolava meu antebraço direito, indo até o pulso. Meus ferimentos eram, na maioria, arranhões e cortes. Mas eu ainda não me lembrava de quase nada naquela noite. -- Jer, o que aconteceu?

-- Você havia discutido com Matt e saiu brava da casa dele. Então veio um carro na contra-mão e você desviou para o lado, mas acabou se acidentando.

Matt... meu ex-namorado. Agora eu me lembrava de mais uma parte da história. Eu havia terminado com ele no dia anterior ao acidente porque ele estava gostando da Caroline — uma das minhas melhores amigas. Eu não a culpava, claro. Terminei com ele e, no dia seguinte, voltei à sua casa para pegar algumas coisas minhas. Fiquei irritada quando vi Caroline e ele dormindo juntos no sofá e saí nervosa.

Fiquei no meu quarto durante o resto do dia, escrevendo, lendo e assistindo à televisão. Jeremy me levou comida no quarto e ficou comigo durante algum tempo.

-- Elena, tudo bem se eu sair por algumas horas? — perguntou ele. -- Uns amigos me chamaram para uma festa e...

-- Claro, Jer. Pode ir. Ficarei bem por aqui — respondi.

-- Qualquer coisa me ligue.

-- Okay.

Ele tomou banho e saiu de casa lá pelas oito horas da noite. Eu não gostava muito de ficar em casa sozinha, mas por outro lado era bom. Privacidade total e ninguém para me incomodar.

Tomei um banho com muita cautela — já que estava toda machucada — e vesti meu pijama. Às nove horas fiz espaguete com queijo e comi-o vendo televisão na sala. Pensamentos sobre o jovem visitavam minha mente de tempos em tempos, mas logo iam embora.

Então a campainha tocou. Estranhei, pensando quem poderia ser, e fui até a porta. Abri-a hesitante e quase caí para trás de susto. Adivinhem quem estava lá? Sim, o jovem que me visitara no hospital.

-- Ah! Que susto! Idiota!

-- Desculpe-me.

-- O que faz aqui, Sr. "Sou-lindo-demais-para-lhe-dar-respostas"? — perguntei. Ainda estávamos na soleira da porta.

Ele lançou-me um olhar sedutor, riu e disse:

-- Você me acha lindo?

-- Ah, faça me o favor... Foi só um apelido, okay? — respondi constrangida. -- O que faz aqui?

-- Vim ver como você está.

-- Novamente com respostas vagas... Bom, agora que já viu, pode ir embora.

-- E se eu não quiser?

-- Então eu ligarei para a polícia e você resolverá isso com a xerife — ameacei, no fundo brincando. Ele riu e despediu-se de mim.

Quando ele estava descendo as escadas da varanda, chamei-o novamente.

-- Não vai me dizer o seu nome?

-- Não é importante. -- Continuou a descer as escadas, entrou em seu carro e foi embora.

Fechei a porta com um sorriso no rosto, subi as escadas e dormi.


Damon narrando

Elena... Como ela era linda!

Me doía muito não poder responder todas as suas perguntas, mas eu tinha que manter segredo por enquanto.

Fui para casa, onde eu morava sozinho. Meu irmão partira para sabe-se lá onde e me deixara com toda a responsabilidade. Fazia muitos anos desde que nós não ouvíamos falar de Katherine, mas assim que ele vira Elena, saiu correndo. Sim, elas eram exatamente iguais. Mas só por fora.

Katherine quebrara o coração de Stefan de muitas maneiras e ele ainda não a superara. Então Elena apareceu. Tentei provar a ele que ela era diferente, mas meu irmão não deu ouvidos. Fiquei na cidade para protegê-la. Como doppelganger, viver já era um risco. Muitos pagariam milhões por sua cabeça, mas eu estava mais do que disposto a protegê-la. Protegê-la como havia feito naquele dia.

*Flashback*

Eu estava dando um passeio de carro pela cidade, garantindo que não havia nada errado, quando ouvi uma porta bater furiosamente. Dirigi para lá com cuidado e cheguei a tempo de ver Elena entrando em seu carro, furiosa. Tentei entender o que havia acontecido, mas não conhecia o morador daquela casa.

Ela ligou os faróis do carro e saiu acelerando pela rua. Alguém a havia magoado. E muito.

Esperei uns dois minutos e voltei a andar pela cidade, dessa vez vasculhando as estradas. Foi então que ouvi o acidente. Aposto que até um humano normal o teria feito. Acelerei o carro e cheguei lá em menos de 1 minuto. Havia um carro de ponta cabeça na parte mais afastada da estrada. Desci do meu automóvel e corri para lá. Então percebi que era o carro de Elena.

-- Oh Meu Deus...

Tirei-a do meio das ferragens e segurei-a em meus braços.

-- Elena?

Ela não respondeu e aquilo me preocupou. Carreguei-a até meu carro e levei-a ao hospital. Os médicos cuidaram de seus ferimentos e eu fiquei lá até ter certeza de que tudo estava bem — na medida do possível. Vi-a acordar duas vezes e dormir de novo. Ela murmurava coisas sobre traição e algo sobre Matt ser um idiota.

Fiz as enfermeiras e os médicos esquecerem de minha visita e voltei para casa. Eu visitava o hospital a cada três horas, pelo menos. Tinha que me certificar de que ela ainda estava viva.

Então descobri o que havia acontecido entre ela e Matt. Tive vontade de ir à casa dele e lhe bater até que ele implorasse por vida. Mas não o fiz. Elena sabia tomar suas próprias decisões. Era elaquem tinha que bater em Matt, se quisesse. Eu não tinha o controle sobre sua vida.

*Fim do Flashback*


E depois de tudo isso, eu ainda estava disposta a fazer tudo por ela.

Notas finais
Deixem comentários, se possível. Obrigada por acompanharem.