Damned
20 Fogo Selvagem
Os lobos tinham vasculhado a reserva por completo e se preparavam para partirem rumo ao território humano. Seth ainda não tinha parado para descansar e passava menos tempo em sua forma humana do que jamais antes.
— Não faz tanto tempo assim que ela sumiu, ela pode só estar por aí...todo mundo às vezes precisa ficar sozinho um pouco. — Jacob tentou o tranquilizar.
Seth o olhou com olhos cansados.
Não podia se lembrar a última vez que tinha comido ou descansado.
— Você não é um deles, ainda precisa cuidar da sua saúde se quiser estar vivo quando ela aparecer. — Jacob passou a mão nas costas do amigo.
Seth sabia que uma parte de Jacob não aprovava aquele relacionamento. Assim como os outros.
“O lobo e a sanguessuga,” era como a tribo toda os via.
Jacob estava protegido porque tinha se apaixonado contra sua vontade. Seth não teve a mesma sorte. De qualquer maneira, sentia-se grato pelo amigo e líder, não deixar transparecer o que pensava e por o ajudar. Os outros lobos procuravam Kate porque tinham medo que ela matasse alguém, mas Jacob o fazia por Seth e Nessie.
Vampiros e lobos eram como água e óleo e não deveriam se misturar. Entendia isso, mas não ligava.
O faria de qualquer maneira.
— Onde vai? — Jacob perguntou ao ver o outro lobo lhe dar as costas.
— Tenho que resolver algumas coisas! — Seu rosto deixou a entender que, mesmo se jacob perguntasse, Seth não diria do que se tratava e iria embora antes que Jacob pudesse ler seus pensamentos. — Me avise se encontrar alguma coisa...qualquer coisa.
***
Katerina tinha o trazido para seus braços e o segurado até que o sol nascesse. Caius não tinha dito uma sequer palavra ou se movido desde que ela disse que o amava. Ele não precisaria lhe dizer nada, ela sabia exatamente como ele se sentia.
Esperava que ele tivesse um passado sombrio e, sinceramente, tinha adiado aquele momento. Por mais que tivesse consciência da escolha que tomou, mesmo que soubesse onde seus pés se firmavam quanto a seus sentimentos, parte dela, mesmo que pequena, não sabia se suportaria a verdade que ele guardava.
Não saberia se aguentaria saber. Quando Elijah a perguntou se ela o aceitaria como ele era, não conseguiu responder.
Em algum momento, aquilo tudo havia se tornado um jogo perigoso. Soube ter perdido quando ele a tocou pela primeira vez, mas jamais esperou que a queda fosse letal.
Ele tinha a assassinado brutalmente. Matou nela qualquer parte que não o desejasse, deixando restar apenas a parte que seria incapaz de resistir a ele.
Caius Volturi era a sua ruína e agora, enquanto ele descansava contra seus braços, coberto pelo sangue de alguém que não merecia ter morrido, soube que não poderia o deixar. Finalmente conseguiria responder.
Ele poderia ser pior do que a disseram, ter feito mais do que pudessem imaginar e cometido pecados capazes de o condenar a sete vidas no inferno, mas ela o escolheria mesmo assim.
Não porque era o certo.
Não porque aquilo lhe traria a garantia da felicidade.
Mas, por ela não poder escolher qualquer outra coisa.
Sim! Ela o aceitaria mesmo assim, ainda que aquilo significasse que agora ela era algo ruim.
— O cheiro te incomoda? — Ouviu-o sussurrar. Era a primeira coisa que ele dizia em horas.
— Não! — Ela sorriu. Kate sabia que ele falava do sangue, que já havia secado contra a sua pele, e dos resquícios de carne que ficaram presos contra o tecido de sua roupa, que começavam a apodrecer.
O cheiro era horrível.
Mas, não a incomodava.
Ele se levantou, seus olhos ainda presos à janela que não mais trazia a noite, mas a imagem de um claro dia, sem qualquer nuvem no céu.
As nuvens enfim haviam passado.
— E se eu não for mais do que isso? — Suas palavras traziam um pesado tom de melancolia.
Kate se levantou. O tecido do vestido que usava, ajeitou-se em seu corpo até que cobrisse seus pés. Era longo, branco como o algodão e transparente. Faziam-na parecer o perfeito anjo. O anjo que Caius sabia que seria o responsável por sua queda.
***
Ela o puxou pela mão e ele se deixou conduzir. Caius ficou parado em pé, enquanto a via preparar o banho na banheira.
Ele não tinha escrito para Aro o que tinha encontrado, porque não haviam palavras que pudessem a descrever. Katerina conseguia ser mais surpreendente do que todas as obras de arte com as quais tinha se deparado durante sua vida.
Dois mil anos e nunca tinha encontrado nada parecido.
Nada que fizesse jus a ela.
Não queria que ninguém a visse daquela maneira ou que a tivessem como ele a tinha. Furtuna nenhuma seria capaz de a cobrir. Poder algum compensaria por sua perda.
Ela o despiu com cuidado, sem tirar os olhos dos dele. Trouxe-o para a água e aos poucos entrou junto a dele, fazendo com que seu vestido se tornasse ainda mais transparente, emoldurando seu corpo como se cobrisse em nuvens.
Abraçou-o por trás e, lentamente, limpou-o da sujeira.
A água aos poucos tornando-se carmesim.
O tecido de seu vestido aos poucos mudou de cor, manchando-se permanentemente.
Enfiou os dedos em seu cabelo, fazendo-o fechar os olhos mediante ao seu toque, entregando-lhe as poucas armas que ainda lhe restavam.
— Você disse que eu não serviria...se eu não fosse nada além disso… e se eu não for? — Ele retomou o assunto.
Ela se moveu, colocando-se por entre suas pernas, permitindo que ele visse o fogo em seus olhos.
— Você é tudo o que eu preciso. — Disse, rastejando até que seus lábios encontrassem os dele.
O sabor nos lábios dele, o calor que ele pôde sentir vir dela, o fez perceber que… não era tão diferentes um do outro.
Katerina era como fogo selvagem.
Um fogo que havia sido contido por tempo demais e que agora precisava queimar.
Caius era o amante das chamas, o animal fora da jaula que ela procurava sem saber procurar. Ele era exatamente o monstro que a faria ferver.
***
Um lobo não deveria indagar sobre vampiros e, certamente, não deveria o fazer para quem odiava ambos. As bruxas. No entanto, Seth não sabia a quem procurar e a cada hora que passava, não sentia nada além de desespero. Tinha procurado pela mulher tendo como referência somente as histórias que ouviu enquanto criança, se escondiam muito bem. Bruxas não queriam ser encontradas e, rezava a lenda, que se as encontrasse, deveria fazer parte de seu destino.
— Consegue fazer? — Perguntou, impaciente, à mulher que já nãos mais aguentava sua presença. Tolerava-o por se tratar de um mestiço, não filho da lua propriamente dito, ainda sim, o cheiro de lobo era tão repugnante para ela quanto seria para um vampiro.
— Me ofende com sua desconfiança, cachorro. — Fechou os olhos por um instante. — Não é algo que eu aconselharia...no entanto.
— E o que eu tenho que fazer para…você sabe.
— Primeiro precisa trazer até mim o que eu quero e depois precisa se preparar para sentir a pior dor de toda a sua vida. — A mulher era rude e cheirava a alfazema.
— Veneno de vampiro...vou conseguir. — Seth não fazia a menor ideia de como arrancaria isso de algum dos vampiros que conhecia sem levantar suspeitas.
— Até a próxima lua cheia!
— Até a próxima lua cheia. — Concordou.
— Sabe cachorro… de todas as escolhas estúpidas que já vi fazerem e de tudo o que já pediram, a sua leva o crédito como a pior de todas.
Seth não queria saber.
Tinha se decidido e não mudaria de ideia. Kate seria dele de uma vez por todas e ele mudaria o destino que os aguardava.
***
— Eu também não tive família. — Disse ao se lembrar de ter o visto crescer só. Katerina passava o roupão pelos braços. Seus olhos encontraram sua pele. Hesitou por alguns segundos. — Nunca conheci meus pais e os Cullen são o mais próximo que já tive de uma família...antes deles não havia ninguém além de médicos, enfermeiros e...freiras assustadoras.
— Sua doença...— Caius estava de costas para ela, vestindo-se.
— Sim?
— Nunca descobriram o que era?
— Não! Nada aparecia nos exames. Lembro de acharem que eu estava louca...até eu começar a piorar.
— E doía?
— Como se meu corpo tivesse sua pele arrancada todos os dias e as feridas tratadas com vinagre. — Kate sorriu. — Não sinto mais qualquer tipo de dor, mas me lembro da sensação como se ainda pudesse a sentir.
— E não faziam nada sobre isso? — Ele se virou, encostando-se contra a pia de ouro. Os cabelos dourados e molhados contornavam suas feições. Ele era lindo.
— Não podiam fazer nada! Eu estava condenada desde que nasci… meus pais sabiam disso e me deixaram antes que eu começasse a causar problemas.
— Isso não é verdade! Eles não te deixaram.
Katerina parou. Precisava ter certeza de ter ouvido certo o que Caius tinha dito. Demorou até enfim entender.
— Não teria como você saber disso. — Ela se virou para que pudesse se olhar no espelho e pentear os cabelos.
Ninguém poderia lhe dizer nada daqueles que nunca tinha chegado a conhecer. Nenhum nome, características físicas ou qualquer outra coisa. Uma marca de nascença no peito, que quase nunca falava sobre e nada mais do que isso.
— Gostaria de lhe mostrar algo.
***
— Você acredita que ele a machucaria? — Esme perguntou a Carlisle.
— Dos três, ele é de quem eu mais tenho medo. — Carlisle disse, seu semblante cansado demais para o de um vampiro.
— Vamos a encontrar. — Alice tentou o confortar. — Precisamos manter a calma.
— Manter a calma? — Rosalie explodiu. — Ela está por aí, sozinha, com aquele monstro que mata qualquer um que sequer o olhe torto, sem qualquer pista de como a encontrar e você pede calma?
— Ficar nervosa não vai a salvar. — Emmett segurou-a.
Todos se mostravam inquietos, no entanto, Nessie não dizia coisa alguma. Parte dela gostaria de se manter leal a Kate e segurar o que ela não gostaria que os outros soubessem, mas por outro, a culpa de ver todos daquela maneira e não por um fim em toda aquela confusão, contando o que sabia, a sufocava.
Talvez não fosse nada do que suspeitasse e contar não fizesse diferença, mas ela tinha de dizer, ainda que Kate não a perdoasse depois.
— Eu não acho que ela tenha sido sequestrada. — Disse, forçando todos os olhares em sua direção.
— Como assim.? — Bella a perguntou.
— Kate me disse que tinha conhecido alguém… e ela me pareceu gostar dele. Eu sei que se tratava de outro vampiro e a maneira como ela agia...eu poderia dizer ser alguém em quem não deveria confiar.
— Quer dizer que acredita que ela possa ter fugido? — Edward perguntou. — Com Caius?
— A maneira como ela me falou dele...Eu não sei, achei que deveriam saber.
— E por quê não disse antes? — Esme perguntou.
— Kate não queria que soubessem.
— Espera...Caius Volturi? — Alice estava confusa. — Vocês acham que Kate fugiu com Caius Volturi?
— Por que ela fugiria? — Rosalie perguntou.
— Gente! Estamos falando de Caius Volturi! — Alice manteve sua confusão.
— Precisamos a encontrar. — Carlisle se colocou de pé. A situação tinha acabado de se tornar mais complicada.
— Só eu que acho isso não faz sentido? — Alice insistiu.
— Do mesmo jeito que não fez sentido quando Edward se apaixonou por uma humana? — Jasper sussurrou.
— Não! Não! Sem chance. — Alice o cortou. — Estamos falando de Caius Volturi!
— Nojento. — Emmett apertou os lábios.
***
— Pronta? — Caius abriu a porta do quarto.
— Quase. — Kate terminava de vestir-se quando Caius se aproximou para a ajudar a fechar o zíper do vestido. Era justo e preto, mangas e gola comprida para esconder o máximo de pele caso houvesse sol. Iam bem com as meias pretas e botas que ela tinha escolhido.
Caius sabia faltar algo.
Depois de segundos no closet, voltou com algo parecido com o que ele usava. Um casaco longo o suficiente para cobrir o vestido todo, de veludo grosso. Preto por fora, com botões prateados e vermelho vivo por dentro.
— Vamos? — Ele lhe deu o braço.
Ela sorriu e passou seu braço ao dele.
Desceram as escadarias juntos.
Katerina pôde sentir o olhar de Elijah, que os esperava, preso sobre ela.
— Katerina, nos espere lá fora. — Caius estava acostumado a dor ordens. Preferiu não discutir. Concordou em silêncio e os deixou a sós.
— Impressionante. — Elijah cruzou os braços.
— Elijah! Cuidado! — Caius passou por ele enquanto abotoava as abotuadoras no pulso do paletó.
— Não tem quem diga que ela já tenha sido uma Cullen...sabe, quem a vê dessa maneira, acreditaria que ela é uma Volturi.
— O que quer dizer com isso?
— Se o seu plano é transformar a garota em uma réplica da Athenodora, por que se incomodar? Já tem uma casa. — Haviam momentos em que o servo passava dos limites e Caius já tinha o alertado sobre tals, mas Elijah não parecia se incomodar e continuava a dizer qualquer coisa que lhe passasse pela cabeça.
— Diz isso pela maneira como ela se vestiu? — Caius pareceu se divertir.
— me pergunto quanto tempo vai levar até que ela aceite ser trancada em um quarto de pedra.
Caius cortou a distância entre os dois.
— Ela não é nada como Athenodora! — Elijah pôde sentir a energia de Caius o ferir. — Katerina não precisa ser uma Cullen ou uma Volturi! Katerina pode ser o que ela quiser e eu a seguirei se for preciso. — Caius limpou os dentes e sorriu.
Fez um sinal para que Elijah o seguisse.
Sem que Caius pudesse ver, Elijah sorriu. Agora ele conseguia entender a extensão dos sentimentos de seu mestre.
E o tamanho do problema que teriam de enfrentar.
Kate estava encostada no carro e sorriu ao vê-lo finalmente aparecer. Caius não tinha lhe dito nada sobre o que precisava lhe contar, mas ela tinha um pressentimento. Perguntava-se o que poderia ser que não tinha visto em suas memórias. Talvez não fosse tão boa assim com o seu dom ainda.
Caius abriu a porta para ela e a acompanhou no banco de trás. Elijah seria o motorista. O carro era enorme e Kate poderia dizer ser blindado, na verdade, lhe parecia uma prisão sobre rodas. Ninguém entrava ou saía se não fosse do desejo de Caius.
— Para onde vamos?
— Eu não apareceria aqui sem saber exatamente quem você é...mas, por algum motivo, não parecia haver muito por aí sobre você.
— Eu te disse, não tive uma vida muito divertida.
— E eu precisaria saber o porque. — Caius cortou o contato visual. — Estamos voltando para Portland.
— Os Cullen moram em Portland! É perigoso demais. — Kate não temia que os Cullen os encontrassem, mas temia que aqueles que perseguiam Caius, encontrassem os Cullen.
— Lobos são a espécie que eu mais odeio por entre todas as outras...inclusive humanos.
— Seth não…
— Não estou me referindo ao seu brinquedinho, que não passa de um cão sarnento.
— Caius! — Lembrar de Seth a angustiava. A maneira como ela tinha o deixado foi cruel e ela não se perdoaria por isso.
— Lobos são uma espécie antiga. Não conseguimos conclusão precisa de como surgiram, não muito além do que sabemos de nossa própria história como vampiros. — Caius falava como se possuísse todo um acervo histórico dentro de si, decorado letra a letra. — São nojentos, sem controle...feras que jamais aprenderiam a viver! Matar o que quer que cruze seu caminho, com um veneno forte o suficiente para competir com o nosso.
— Não parecem tão diferentes.
— Exceto que, quando transformados, não há qualquer humanidade que seja. Reduzidos a animais. É uma maldição.
— E eu suponho que seja trabalho dos Volturi caçar essas criaturas.
— Eu os cacei por muitas décadas.
— Por que está me contando isso agora?
Caius puxou do bolso de dentro de seu casaco, uma fotografia. A foto parecia antiga e estava mal cuidada, quase como se tivesse sido esquecida por muito tempo. Kate a tomou por entre os dedos, observando com cuidado a mulher que retratava.
Cabelos escuros, mais escuros do que os dela, pele que julgaria ser alva e olhos que poderiam ser claros...talvez azuis? Verdes! A fotografia não a ajudava a ter certeza.
— Como conseguiu…? — Segurava a foto com cuidado com medo de a romper.
Katerina nunca tinha a visto, mas seu coração morto a reconhecia. Uma doce melodia, que apenas ela era capaz de escutar, lhe preencheu os ouvidos.
— Você é tão linda quanto ela, mas tem os olhos do seu pai...eu presumo.
— Caius...— A palavra se formou com dificuldade por entre seus lábios.
— Estou a levando para Portland para lhe mostrar o que eu consegui encontrar.
Depois que ele lhe disse isso, a viagem pareceu se arrastar por horas. Já não tinha nem mais ideia do caminho que tomavam.
Nunca haviam lhe dito nada. Nunca, ninguém, tinha lhe dito coisa alguma sobre aqueles que a trouxeram para o mundo.
— Sou uma criança deixada em uma escadaria em uma noite de chuva, em uma cesta com nada, a não ser um nome entalhado…”Katerina Karizma,” sem sequer um sobrenome. — Murmurou, encolhendo-se contra o peito de seu amado.
Deixou que ele lhe mostrasse o caminho em uma casa que ela já conhecia. Precisava que ele a guiasse agora. Katerina se sentia no escuro.
Ele a deixou no sofá e voltou pouco depois com uma pasta de couro em mãos.
— Fiquei surpreso ao perceber que você não era daqui, mas...com seus traços, não poderia ser mesmo. — Ele falava enquanto ela passava os olhos pelo conteúdo da pasta. — Você nasceu em algum lugar da Grécia, um pequeno vilarejo e seus pais eram comerciantes.
“Sua mão estava grávida, por isso estava em casa e não tinha acompanhado seu pai em uma entrega quando…
— Quando ele foi surpreendido por um lobo. — Os olhos dela estavam presos aos documentos.
— O período de transformação é de uma lua cheia a outra...seu pai mal sabia o que tinha o atacado quanto mais…
— Ele a machucou? — Kate se engasgou.
— Ele não queria ter a machucado, eu suponho.
— Não...isso não...ele deveria ter a matado! Você disse que essas coisas matam qualquer coisa…— Seu corpo petrificado, agitava-se sem deixar o mesmo lugar, o veneno fazendo com seus lábios formigassem e seus olhos a procurarem por algo que roubassem sua atenção.
— Ele deveria. — Caius fechou os olhos. — E eu só posso agradecer por ele, por algum motivo, não ter matado.
Haviam notícias, denúncias sobre ataques de animais, incontáveis mortes e um rastro de sangue incerto. Pelos documentos, as pessoas não sabiam o que as atormentavam e não tinham por onde começar a procurar ou como se proteger do que quer que corresse pela noite.
Tudo aconteceu rápido demais. A vida daquele casal que não deveria ser muito mais velho do que Caius era quando foi transformado, precisou de uma única noite para ruir.
Como em um raio que não poderiam prever, um único encontro acidental com uma criatura que poderia ter cruzado o caminho de qualquer outro, bastou para que a vida de seus pais e a sua fosse condenada.
— Ele não a matou mas a contaminou e isso provavelmente causou a morte de sua mãe depois de dar a luz. — Kate tomou suas próprias conclusões.
— Sim! Não são todos os humanos que sobrevivem à transformação de lobo ou que cheguem vivos até a próxima lua cheia.
— E alguma chance de que eu tenha sido contaminada?
— Eu diria que o veneno foi o que a deixou doente e por esse motivo, médicos não souberam tratar...é difícil que vampiros encontrem lobos, mas humanos? É uma hipótese.
Kate ficou de pé. Dentro de si, aos poucos, sentia-se partir. Mais uma vez.
— E meu pai?
— Não consegui muito mais do que rumores passados de um vizinho para o outro! Disseram que ele ficou louco, deixou você na escadaria de uma igreja e se matou depois disso. — Kate podia dizer que não era fácil para Caius lhe contar isso.
— Chega! — Ela sabia o suficiente.
— Você não foi abandonada...na verdade, seus pais a queria muito. — Caius colocou sobre a mesa uma pequena agenda de couro. — Acho que era da sua mãe.
— Você não tinha o direito de esconder isso de mim. — Ela permanecia de costas para ele.
— Eu sinto muito! Eu precisava de algo contra você antes...eu sinto muito!
— Eu nunca vou me acostumar a não ter lágrimas. Queria ter lágrimas para poder chorar por eles...ainda que não tenha os conhecido.
Kate se virou mostrando-se para Caius. Caius ficou de pé, em posição de defesa. Katerina havia sido consumida e certamente não estava mais ali.
Olhou-o com olhos vazios.
— Katerina, precisa se acalmar.
— A minha vida toda… eu fui muito boa. — Seu rosto, por inteiro, tinha se tornado pedra. — Mas agora eu sinto tanta fome.
Foi a última coisa que disse antes de o deixar sozinho.
***
— Alice, tem certeza do que viu? — Carlisle perguntou enquanto se ajeitava rapidamente.
— Tanto quanto eu poderia ter.
— E ela está perto? — Esme perguntou.
— Tão perto que me pergunto como não a achamos antes.
— Talvez ela tenha voltado. — Rosalie se preparava para sair com Carlisle.
— Vamos lá. — Emmett se mostrou pronto. — Vamos trazer nossa menina de volta para casa.
— E se ela não quiser voltar? — Nessie, que assistia tudo do topo da escada, já que tinham proibido-a de os seguir, disse.
— Não vamos sequer questionar isso. — Rosalie se mostrou firme. — Ela vai voltar para nós.
***
Nada a mataria e certamente nada ficaria em seu caminho. Ela estava preparada para qualquer coisa. Despida de sua humanidade, dominada pelo frenezi que ela jurava ter abandonado. Não podia ouvir sequer seus próprios pensamentos.
Os outros que temessem o fogo que parecia vir de sua alma condenada.
Não tinha caminho ou direção. Seu corpo a conduzia. Até que seus ouvidos captassem o que ela procurava.
As batidas do coração despreocupado daquela que não sabia que seria sua vítima, eram pesadas o suficiente para que fizesse seu corpo vibrar em um mesmo ritmo.
O sangue corria por entre suas veias e artérias, enquanto seus orgãos sussurravam um para o outro, fazendo-a aos poucos perceber que estava em perigo.
E então…
Começou a tocar a canção com a qual desejava se mover.
O medo e ansiedade foram liberados e forma de adrenalina, aos poucos temperando a sua carne. Kate deixou-se guiar pelas sombras, enquanto se movia graciosamente, em uma melancólica dança para um só telespectador.
Pintar a noite de escarlate…
—O que você quer? — A garota perguntou ao ser encurralada.
“Um único encontro..” Katerina sussurrou por entre os pensamentos de sua presa. “É o suficiente para fazer sua vida ruir..” Continuou, confundindo-a.
— Por favor...— A garota clamou, quando percebeu já não ser capaz de mover suas pernas.
“A morte é fria, fácil...e sozinha.”
— Eu não quero morrer.
Kate enfim revelou seu rosto depois de ter paralisado sua caça em perfeição com o seu dom.
— Você...— A garota sussurrou com lágrimas nos olhos. Kate rompeu a distância, colocando-se perto o suficiente para ouvir o coração da garota bater como se fosse o seu próprio. — É linda…
***
— A escolha é sua! — Elijah sussurrou a Caius. Observavam a cena do telhado, não longe. — A deixa matar e a transforma para sempre...ou…
— Ela é perfeita! — Caius sorriu, como o sádico que conseguia ser.
***
Katerina descansou seus lábios contra os da garota por alguns segundos e a sentiu se acalmar sob seu toque. Não havia sequer um pequeno pedaço daquela criatura que não a quisesse.
— Vou precisar que grite para mim. — Sussurrou em seus ouvidos antes de romper a pele com seus dentes.
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