Damned
22 Athenodora
Dia 1
Mais cedo, quando Caius foi informado do acontecido, não precisou de muito para chegar à suas conclusões. Aquela, da qual sequer conseguia pronunciar o nome agora, tinha ido atrás do Stefan. Dono de uma arquitetura magnificente, detalhando em pedra a junção do céu em terra, não era somente um museu, mas um tesouro em mármore e calcário.
“Stefan,” era Romênio vindo do grego “Stephanos,” e significava “Coroa.” Também, era o sobrenome humano que um dia Athenodora havia carregado e a construção, havia sido por ela batizada.
Tinha o escolhido pelo prazer do humor e para lhe mostrar que estava perto.
Caius já a aguardava. Não percebeu que o fazia até então.
Aro não estaria em seu juízo perfeito se não o fizesse.
Era o começo de seu castigo.
Não precisou entrar para saber como deveria estar seu interior. A fachada, parcialmente desmanchada, gritava o resultado. Moveu-se pelos escombros que haviam restado da bela estrutura, com cuidado para afastar-se daqueles que ameaçavam ainda desabar.
— É um desastre! — O gerente do lugar, que o acompanhava, disse. Não estava sozinho e por isso tinha cuidado.
— Deixei o lugar vulnerável quando deixei de o visitar. — Caius lamentou. — Peça que os outros verifiquem quais peças podem ser salvas.
— Eu não acredito que alguma tenha sido salva.
— Eu imagino que não. — Não esperava que ela tivesse feito o serviço incompleto. — Mesmo assim, revistem cada peça.
— Sim, Senhor!
Os humanos, aqueles que trabalhavam ali para não levantar qualquer suspeita, sabiam quem ele era e o que havia acontecido. Também era parte do trabalho deles arrumar uma justificativa para os jornais.
Grande parte do septo de vampiros não fazia ideia da relação por entre os Volturi e Humanos. Felizmente, o “coven,” como Caius ironicamente os chamava em segredo, tinha aprendido a séculos que o segredo para o poder estava em manipular ambas as criaturas. Ainda que suas próprias leis os proibissem. Era uma das maneiras que Aro possuía para sempre estar dois passos adiante de qualquer um. Caius não costumava socializar com a raça inferior por muito tempo, Elijah o fazia, no entanto, agora parecia ser uma questão da qual não poderia fugir.
Além do mais, era essencial que Elijah protegesse Katerina.
— Senhor? — Caius virou-se, o semblante contorcido, demonstrando seu desconforto perante tal interação.
O homem lhe entregou o cartão vermelho.
“Cel Tradat…”
A caligrafia rebuscada era a mesma que lhe havia transcorrido poemas durante os séculos. Agora, as letras pequenas e arrastadas, formadas em meio à tinta que havia sido tirada do que corria nas veias de quem quer que tivesse tido o desprazer de lhe cruzar o caminho, sussurravam uma singular acusação… “A traída.”
Percebeu então, que sua fragrância estava por toda a parte. Além de qualquer essência que pudesse exalar, o peso de sua densa presença.
Mirtilo, baunilha e uva, dançavam pelos ares enquanto preenchiam seus pulmões mortos, levando-o de volta à pequena valáquia, de onde havia arrancado uma de suas flores.
Sentiu-a por entre os espaços onde a luz não era capaz de alcançar e, fechando os olhos por alguns segundos, viu novamente seus olhos leitosos.
Das sombras traiçoeiras, ouviu sua risada baixa, aveludada e zombeteira, ecoando pelos pedaços de pedra e perdendo-se por entre a imensa extensão.
Ela, então, surgiu. Sua silhueta um espectro de assombrosa beleza. A figura flutuante de uma imponente criatura. Lábios em um tom de goiaba, que um dia foram rubros, dignos de um artista, de longos cabelos loiros acinzentados pelos séculos, que lhe cobriam o corpo de aparência frágil em uma espécie de manto acetinado e pele fina e delicada que mal parecia lhe cobrir as veias.
Os olhos vermelho-escuro, sabiam o que Caius enxergava.
Sua própria imagem. Um era o reflexo do outro como duas partes perfeitas.
Aproximou-se dele como a própria morte rubra e, cerrando seus seios contra seu peito, envolveu-o no transe no qual havia o capturado a primeira vez em que encontraram-se. Sorriu como a menina que um dia havia sido e descansou seus lábios aos de seu eterno parceiro.
Fazendo-o sentir o sabor dos sete infernos.
Caius não a afastou, no entanto, contra seus lábios, sussurrou:
“Eu sinto muito.”
Não era muito.
Não era o bastante.
Mas, era o que tinha para oferecer. E foi o bastante para que sentisse o demônio o deixar...com a promessa de um retorno.
***
Nem sua rapidez sobrenatural era o suficiente para ajudá-la a acompanhar a quantidade de livros que tinha encontrado. Qualquer coisa sobre o tema lobo, lobisomem, veneno ou doença.
A biblioteca de Caius era impressionante e com seus vinte e cinco séculos, Katerina não duvidava de que haviam outras como aquela, com mais livros, em várias partes do mundo.
Cada página de cada novo exemplar no qual colocava as mãos, uma nova decepção. Muitos deles diziam a mesma coisa e não iam muito além do que já sabiam.
“Os filhos da lua raramente se movem em bando, e nunca possuem muito controle sobre si mesmos.”
— Edward, sobre lobisomens.
Transformando-se na fase mais cheia da lua, possuem a força e poder suficiente para matar um vampiro. Provavelmente a razão que levou os Volturi a os caçarem à quase extinção.
A condição de lobisomem não é passada de mãe para filho, muitos livros deixavam claro, no caso de reprodução por entre dois filhos da lua, sendo impossível a reprodução durante uma transformação. A herança é passada como a transformação de um vampiro, através da mordida.
No entanto, não havia qualquer registro de qualquer pessoa que tenha sido infectada enquanto grávida ou muito menos do que resultaria na mistura deste com o veneno de um vampiro.
Filhos da lua são imunes ao veneno de vampiro, enquanto para metamorfos, o veneno é letal. Filhos da lua e vampiros cobiçam a mesma presa, são, portanto, inimigos naturais.
Com a punição vampírica, estipulada pelo clã de Volterra, de morte, no caso de qualquer relação por entre as raças.
Kate estava no escuro. Ao menos isso era claro.
Juntou tudo o que considerou plausível em uma pasta e expulsou o terror de seu rosto. Uma vida doente tinha lhe ensinado muita coisa, o suficiente para lhe fazer perceber não ser vítima alguma agora.
Seus passos cruzaram os de Elijah. Em um outro dia, teria esperado que o acompanhasse, hoje sabia que Caius não a deixaria sozinha. Nem se fosse o que desejasse.
— Onde ele foi? — Elijah não a responderia se tivesse escolha. No entanto, Katerina não precisava o olhar nos olhos para lhe arrancar a verdade.
Em íntegra, finalmente sentia que seu dom fazia parte de si tanto quanto qualquer outra parte de seu corpo. Sentia-o fluir, indo do topo de sua cabeça à ponta dos dedos de seus pés, em uma espécie de manto espesso.
O instinto vindo de suas entranhas, lhe dizia haver mais.
O tempo para explorar era a parte traiçoeira. Não sabia quanto tempo tinha. Suspeitava e tinha suas teorias, mas poderia estar errada. Tinha errado antes.
Ouviu as palavras deixarem o vampiro, como se tal não fosse capaz de segurar e sorriu.
— Faça com que isso chegue às mãos de Carlisle. — Entregou a pasta à Elijah. — E não conte a Caius. Sua voz era firme e inebriante. Elijah não poderia dizer, mas ela havia penetrado cada pequeno pedaço de sua cabeça e preenchido-a com sua influência.
Tinha o controle sobre seus movimentos, suas lembranças e suas palavras.
Ele não só faria exatamente como tinha lhe pedido, como também dificilmente se lembraria do que havia acontecido uma vez que terminasse sua tarefa.
Transformar pessoas em fantoches era o resumo perfeito para o que seu dom era. Era surreal e fazia com que se sentisse poderosa, porém, a culpa a corroía não muito depois. Não era e não parecia ser certo. Infelizmente, não tinha qualquer outra escolha.
Desceu as escadas, mal sentido seus pés tocarem o chão devido à agilidade de seus movimentos.
Era como se ainda fosse si mesma em cada sentido do que significava ser “si mesma,” mas, sentia seu corpo mudar a cada instante.
A sensação era a de ter um milhão de anos vividos e, aos poucos, o tempo vem alcançando para lhe cobrar a dívida.
Apodrecer...ruir...definhar.
Sentou-se ao piano de madeira. O branco da peça destoando do chão manchado, feito leite, no qual havia colocado para descansar o único pedaço de memória do passado do qual dificilmente tinha feito parte.
Aquilo que julgava ser o diário de sua mãe. Não tinha lido-o. Não o faria. Não até poder lhe dedicar o tempo que merecia, o tempo e a dedicação que teriam sido gastos para o formar. Kate não sabia o que sentir quanto à mulher que tinha acabado de conhecer por foto. Quando descobriu, a história a angustiou e doía como gado marcado por ferro a maneira como tinha crescido sabendo que tudo poderia ter sido diferente, o amargo sabor da injustiça de saber que simplesmente tinha acontecido de acabar daquela maneira, porém, ainda se tratava de pessoas que não conhecia e pouco mudava.
Ao menos o tempo de ler suas palavras com cuidado, parecia ser sua obrigação.
Mal se lembrava da última vez em que seus dedos tocaram as teclas de um piano, ainda sim, pareciam se lembrar da melodia com perfeição.
A melodia vinha de uma canção antiga, de origem desconhecida, que Rosalie costumava cantar para a colocar para dormir quando a visitava no hospital. Ela e Esme eram a figura materna que conhecia, Carlisle era seu pai e os Cullen, sua família.
A melodia, aquela música por si só, era o suficiente para encher sua alma, enroscando-se, dançando e harmonizando, pouco antes de ser levada adiante, fazendo-a enxergar o que se recusava.
Seu estômago revirava e por dentro, não era mais um reflexo do que era por fora. Era como se suas vísceras estivessem em rebelião e o pior de seus medos se tornava real.
Não estava livre de sua doença.
E agora, os dois venenos em sua veia, finalmente entraram em batalha.
Esparramou os dedos com força sobre as teclas, fazendo com que formassem um barulho assombroso que ressoou com facilidade pelo teto em abóbada.
Era o lamento que sua voz não tinha sido capaz de exclamar.
Sentiu-o atrás de si, observando-a. Quase pôde dizer a maneira como a olhava. Se tornou tensa e desculpou-se em silêncio.
— Duas partes perfeitas. — Repetiu o que os pensamentos dele ecoavam. Ela não tinha desejado os ler sem permissão, mas eles eram altos demais para que ignorasse.
— Katerina…
— Consigo sentir o cheiro dela em você. — Ou ao menos o cheiro que sabia não ser dele. — Se fechar os olhos, não preciso nem entrar na sua cabeça para adivinhar o que fizeram.
— Como sabe…?— Caius se interrompeu. — Elijah!
— Ele não teve escolha.
— Ele também não vai ter escolha.
— Não pode me esconder nada! — Colocou-se de pé. — Nem se quiser.
— Uma hora ou outra teríamos de lidar com isso! Eu nunca lhe escondi a verdade.
— Eu consigo ver a bagunça que ela causou em seus pensamentos, a ponto de o deixar sem qualquer direção…
— Eu fiquei surpreso.
— Surpreso quando já esperava que ela fosse o alcançar?
— Eu...— Caius perdeu as palavras que o restavam.
Katerina se colocou de pé. Não tendo nada além do roupão de seda vermelha para esconder a verdade em seu corpo. Permaneceu de costas e não permitiu que capturasse seus olhos.
— Me pergunto quando percebeu que foram feitos um para o outro...antes ou depois de me arrastar para cá.
— Você melhor do que ninguém deveria saber! Você...deveria...saber. — A dor em sua voz, a cortava aos poucos. Queria lhe confortar e dizer que sabia, mas agora, tinha que terminar o que começou.
Caius estava vulnerável e qualquer movimento poderia não poder ser desfeito depois.
Katerina tinha pensado por isso em cada fração de segundo antes de ele retornar.
— Eu deveria ter imaginado que ver Athenodora mais uma vez, bastaria para destruir tudo. É quem você é, afinal.
— O beijo...você entendeu tudo errado. — Então tinha acontecido um beijo…
— Não, Caius! Você é quem entendeu tudo errado. Eu estava enganada, sou uma Cullen no final das contas. — Por fora, parecia calma, liberta de qualquer sentimento, por dentro estava em erupção.
Desapareceu. Era tudo o que podia fazer.
Fechou-se no quarto da outra e permitiu-se desabar. Queria o dizer que sentia muito e que entendia. Tudo o que ele precisava era saber ser entendido, no entanto, ela tinha acabado de perturbar a mente de um perturbado.
Katerina sabia que aquilo colocaria em risco o fio de humanidade que encontrou ainda vivo nele, por mais precioso que fosse. Mais uma vez não tinha escolha, precisava que ele a deixasse ir.
***
Chovia mais uma vez, anunciando o fim do outono. Seria um longo inverno em Forks e o asfalto escuro, assim como a terra instável, alertava quem quer que prestasse atenção. Carlisle virava a esquina quando notou a figura longa e obscura se aproximar da entrada de sua casa. Diminuiu a velocidade, não era algum rosto que conhecesse, mas reconhecia o manto que o cobria.
A figura já não estava mais lá quando Carlisle finalmente o alcançou. Notou o enorme envelope que o aguardava. Aquele que tinha visto, definitivamente pertencia à guarda Volturi, mas o que ele trouxera não havia vindo de Volterra.
Não procurou ninguém e dirigiu-se direto ao seu escritório. O que quer que houvesse ali, seu instinto lhe dizia que era direcionado somente a ele. Talvez o motivo estivesse relacionado com o encontro recente. De qualquer maneira, a curiosidade o devorava por dentro.
Para sua surpresa, Edward o esperava. Carlisle sabia que o filho não deixaria descansar o que tinha lido em seus pensamentos, mas esperava que o fizesse. Ele mesmo ainda não havia terminado de debater-se consigo mesmo a respeito de sua escolha.
— Carlisle.
— Agora não, filho. — Jogou o envelope sobre a mesma.
— Isso…?
— Sim! — Carlisle o compreendeu. — Acredito que tenha vindo de onde quer que ela esteja.
Abriu sem exitação.
— O que é isso? — Edward pareceu instantaneamente confuso.
— Me parece ser uma pesquisa enorme sobre...lobos.
— Metamorfos?
— Filhos da Lua!
— E qual poderia ser o interesse de Caius em Filhos da Lua?
— Caius não, Kate!
Mesmo tendo tido o que poderia ser considerada a pior educação de todas, um dos motivos que fizeram Carlisle insistir para que Kate tivesse a experiência da escola e do ensino médio, Kate era impressionantemente inteligente e aquela era uma pesquisa muito bem selecionada. Podia notar que ela tinha tido pouco tempo, mas ela parecia ter um ponto a justificar.
Nada fez muito sentido, até Carlisle colocar as mãos nos últimos papéis das centenas de páginas.
Congelou por alguns segundos.
Uma reação que não costumava ter.
— Carlisle...— Edward murmurou assim que terminou de ler seus pensamentos.
— Ela está doente. — Suspirou.
— Ela adoeceu mais uma vez?
— Não! Ela continua doente.
Finalmente confirmou as suspeitas que tinha formado quando os primeiros sintomas começaram. Podia dizer haver algo dentro dela que deveria progredir com o tempo, mas esta era a pior das hipóteses e ele esperava não ter de ir tão longe. Agora poderia dar um nome à doença.
Quando Kate ainda era humana, os remédios pararam de funcionar à medida que ela se tornava mais velha e por fim, até controlar sua dor se tornou uma tarefa muito difícil. Não funcionava porque aquilo não era humano, deveria ter desconfiado. Porém, jamais tinha se deparado com nada parecido. Carlisle não tinha qualquer experiência com lobisomens.
Lembrou-se da carta que tinha esperado por muito tempo e em seguida a esquecido, devido às circunstâncias. Não tinha conhecimento do conteúdo, mas a esta altura, qualquer coisa já seria algo.
— Está na hora de contarmos para os outros. — Carlisle concluíu.
— Tem certeza?
— Precisamos de ajuda.
***
Tinha ido mais uma vez ao encontro do demônio. Desta vez preparado para o que poderia encontrar nas sombras. Rastreando seu cheiro e as pequenas coisas, que ninguém mais notaria, mas que ele conhecia, que somente ela poderia deixar preso no ar.
Ela tinha se dado o trabalho de se esconder. O lugar poderia facilmente ser confundido com um matadouro. Cheirava a estrume, couve, brócolis, capim...todo o tipo de folhagem que não gostaria de ter o desprazer de ingerir qualquer outra vez.
A dieta que um animal leva é a responsável pela essência e o tempero de seu sangue. Por tal motivo, carnívoros por entre os outros são os mais suportáveis e Humanos, que estão no topo da cadeia alimentar, os mais apelativos enquanto animais que se alimentam da base da pirâmide, são intragáveis a qualquer vampiro que tenha sobrevivido de sangue humano.
Com carcaças penduradas pelo teto, em ganchos metálicos, o resto de vacas e porcos, alguns desmembrados, despelados e livres de suas tripas.
Explicava o cheiro.
Ruminantes tinham o pior cheiro.
Seguiu o rastro de sangue que havia sido formado no chão. Nem o cheiro de carne prestes a apodrecer esconderia tal pista. O cheiro era intenso o bastante para se destacar. Outro vampiro talvez não tivesse percebido, mas ele conhecia as peculiaridades daquela.
Era o sangue de virgens.
Mais de uma, ele podia dizer.
— E você está aqui...de novo. — Ouviu a voz dela. — Eu nem preciso chamar, não tem graça.
Seu corpo pálido, alvo como a cerâmica da banheira que a envolvia, nu, estava parcialmente mergulhado. O líquido vermelho e espesso, movia-se em ondas à medida que ela se mexia e logo se acomodava sobre sua pele. Seus cabelos dourados, agora tingiam-se no vermelho e seus olhos, diabólicos e traiçoeiros, o acolhiam com diversão.
— Poderia ser presa por isso. — Ela riu.
— Dizem que banhar-se em sangue faz-lhe rejuvenescer.
— Não que você precise disso, já que tem a imortalidade ao seu alcance.
— Ainda sim...me trocou por uma garota mais nova. — O sorriso em seus lábios, o dizia o quanto ela se divertia.
— Athenodora…
— Caius! — Era um jogo para ela. — Tem espaço para dois aqui...como nos velhos tempos.
— Athenodora! — Foi firme, pela primeira vez. — Vamos parar com o teatro por aqui! Nunca tivemos muito mais do que uma transação de interesses durante todos os séculos e agora parou de ser benéfico para mim e parou de ser para você a muito tempo.
— Certamente não pareceu assim quando decidimos passar a eternidade juntos.
— Ah por favor! Você era eu em um outro corpo, não vê isso? Me atraí pelo o que você representava e por…
— Por eu te lembrar a Agatha... destino.
— Não vamos falar de Agatha agora.
— Com certeza o seu querido e falecido pai ficaria muito feliz agora.
— Também não gostaria de falar dele agora. — Aquilo não importava mais, tinha acontecido a muito tempo. — Os mortos não podem se defender. Nem meu pai, nem Agatha.
— E aparentemente eu não tenho o direito de me defender quanto a sua decisão de simplesmente ir embora do nosso casamento! Sinto muito, Caius, não acredito em divórcios.
— Nunca fomos verdadeiramente casados, para começar.
— Eu fui! A você, por inteiro.
— E eu nunca vi você amar ninguém a não ser a si mesma, Athenodora.
— Assim como você nunca amou ninguém além de si mesmo, Caius.
— Bom...isso mudou.
— O que pretende fazer? Hã? — Colocou-se de pé, sem qualquer pudor por sua condição. — Deixar Volterra? — Deu um passo em direção a ele enquanto seu corpo pingava a sangue. — Desistir de tudo o que sempre desejamos? Parar de se alimentar de humanos? — Ela o atacava à medida que se tornava mais próxima.
Ouvir ela dizer, realmente lhe soava absurdo.
— Não cabe a você saber. — Fechou os olhos. — Vim aqui para me desculpar…
— Se desculpar? Você? — Pareceu incrédula. — Não faça algo que vá se arrepender, para começar.
— Me desculpar por ter concordado com o plano de Aro em a trancar e ter as suas emoções manipuladas por todo esse tempo.
— Minhas emoções…?
— Ficar trancada, logo você? Quando é que concordaria se não fosse do contrário? — Tinha muito para ser dito e pouco tempo para falar. — Você também não deveria voltar! O mundo mudou desde a última vez que saiu.
— Não vai sentir falta? — Passou a mão suja por entre os lábios dele e assistiu seus olhos se tornarem escuros. Athenodora não se daria por vencida — Coelhos e esquilos? Caius Volturi! O terrível e abominável...caçador de servos.
Ele a apanhou pelos braços.
— É um limite que não vai querer ultrapassar. — Soltou-a.
— Ela o deixou fraco!
— Não, ela me fez mais forte! — Caius finalmente admitia para si mesmo. — Forte o bastante para me afastar de você.
Athenodora era o seu único calcanhar de aquiles em Volterra. Essa era a verdade. Athenodora era a sua coleira e o que tinha o impedido de colocar o belo Palazzo Del Priori no chão a muito tempo atrás. Aro sabia muito bem disso.
O plano dele tinha falhado.
— Tudo bem! — Ela estava verdadeiramente irritada. — A garota não vai sobreviver mesmo.
— O que?
— Me diga quantas vezes lobos e vampiros deram certo...quanto mais em um só corpo. — Sorriu. — Consigo sentir o cheiro de carne podre daqui… é uma sentença de morte.
— O cheiro vem de você, minha querida. — Caius lhe deu as costas.
Ela sabia. Mais do que ele, aparentemente.
***
Dia 2
Katerina tocou a campainha.
— Carlisle...
O vampiro de olhos dourados, que ela já não via a tempos, mal deixou-a terminar de falar. Trouxe-a para os braços em um abraço apertado. Kate sentiu seu corpo estremecer.
— Eu ouvi...— Rosalie chegou a porta. — Kate! — Puxou-a dos braços de Carlisle.
O cheiro deles era diferente. Aquele lugar era mais claro.
Queria dizer o quanto sentia por ter os deixado e de quanta falta tinha sentido. Queria os dizer que sabia ter sido egoísta antes e mais egoísta ainda agora que tinha retornado. Não conseguia dizer nada.
A realidade aos poucos a atingindo, fazendo-a perceber o que tinha deixado para trás.
Ele ainda não havia voltado quando Katerina foi embora. Ao cruzar pela casa, viu o enorme dano que ele tinha causado aos móveis, cortinas e paredes depois da “briga” que tiveram. Não levou muito mais do que a roupa que tinha no corpo, que já não era dela.
Encontrou seu caminho do esconderijo até Forks e ficou surpresa do quão fácil havia sido, fazendo-a imaginar o porque de Caius ter escolhido aquele lugar.
Sentada no sofá dos Cullen, encolheu-se sob os olhares. Ninguém dizia nada. Todos em silêncio enquanto Carlisle examinava as veias em seus braços. Agora, elas haviam tomado conta do pescoço e Katerina se perguntava se chegariam ao rosto também. Não havia mais muito espaço no corpo.
— Apareceram do nada? — Carlisle perguntou.
— Sim! E depois que vi a primeira, não demorou muito para que crescessem rapidamente.
— Então você voltou, não porque quis voltar, mas porque está doente? — Renesmee questionou. Kate pôde dizer o quanto ela estava brava pelo tom de sua voz.
Realmente parecia ser daquela maneira. Acabava sendo muito mais complicado do que ela jamais seria capaz de explicar. Como os diria que não parecia certo voltar? Tinha medo que quem quer que estivesse atrás de Caius, e dela, pudesse atingir os Cullen… e também tinha medo de deixar Caius para nunca mais o ver.
— Renesmee! — Bella a repreendeu.
— É verdade! Se não fosse por isso, talvez eu não tivesse voltado.
— Kate...— Carlisle disse.
— Athenodora está aqui! Logo mais, os outros estarão aqui e por minha causa, vocês serão colocados sob julgamento mais uma vez, então, não! Eu não queria ter voltado.
— Agora...você precisa se livrar dessas roupas. — Alice a interrompeu. — Castiguem a pessoa que escolheu isso para você.
— Fui eu mesma. — Kate sorriu.
— Quando eles chegarem, nós lidaremos com isso. — Carlisle encerrou o assunto. — Ninguém aqui vai ser julgado, já que crime nenhum foi cometido.
— Não podemos dizer isso pelo outro...— Emmett brincou.
Katerina se encolheu mediante suas palavras. Alice a levou para o andar de cima. Desejava esfregar para longe tudo aquilo do corpo da jovem da vampira, não somente as marcas, mas qualquer sinal que o Volturi tivesse deixado nela.
— Ele não me machucou. — Katerina disse ao sentir os pensamentos da irmã. — Caius nunca me machucaria.
Alice entendia o que aquilo significava. Não gostaria de acreditar ou sequer ter entendido, mas sabia. Carlisle tinha os preparado, mesmo assim continuava inacreditável.
Lavou-a e a colocou em um vestido azul claro, a cor preferida de Kate. As mangas ajudavam a esconder os braços, mas o decote, mesmo que mínimo e a saia, não faziam jus às pernas e ao pescoço. Eram como rabiscos a manchar uma pintura perfeita. Ainda sim, para ela, Katerina não falhava em ser deslumbrante. Penteou-lhe os cabelos enquanto a assistia permanecer em silêncio. Os olhos de Kate procuravam pela janela como se aguardassem por algo, a qualquer instante.
Sabia que ele viria. Tinha deixado o lugar sabendo que ele a encontraria e tentaria a clamar de volta. Teria que se preparar, para o fazer ir embora.
Usar seu dom…
Para o que fosse preciso!
— Você não pode...— Ouviram a voz de Jasper vindo do andar de baixo.
— KATERINA! — O grito veio em seguida.
— Ele veio mais rápido do que eu esperava. — Alice revirou os olhos.
Katerina se moveu o mais rápido que pôde.
Caius era segurado por Emmett, Edward e Jasper.
Os olhos dele encontraram as manchas em sua pele. Katerina o alcançou e apanhou seu rosto nas mãos.
— Soltem-o. — Pediu, em um tom baixo.
Os vampiros a obedeceram. Não tinham escolha. Sabia que a esta altura, os Cullen os assistiam. Os dois mundo que havia tentado não deixar que se encontrassem, enfim tornavam-se um só.
— Como pôde ir embora? — As mãos dele, agora livres, foram direto à sua cintura.
— Posso fazer com que vá embora...— Kate sussurrou. — Posso fazer com que me esqueça…
— Mas não vai! — O cheiro de Athenodora estava mais uma vez nele, desta vez, trazendo o de sangue para o acompanhar.
— Não vou?
Ele a beijou.
— Não vai!
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