Damnation

17 Chapter Sixteen: First Kill


Ele agoniza em minha frente. É tão estranho ver uma pessoa morrendo, ainda mais se você a mata. É a primeira vez que mato alguém e me sinto tão bem. Eu sei que isso não é normal, sentir prazer em matar uma pessoa, mas eu nunca fui normal mesmo, e nunca quis.

O sangue continua escorrendo, mas a vida já deixou seus olhos. Ninguém nunca irá descobrir que isso aconteceu. Escolhi um lugar isolado para mata-lo, uma mata fechada, um pouco distante da cidade. Aluguei um carro em Ashfield para trazê-lo até aqui, para que nem as marcas do pneu sejam do meu carro. Dei um nome falso para pegar o carro, é claro. Em seu corpo, nenhuma digital minha poderá ser encontrada nele, usei luvas o tempo todo. E a pistola? Jogarei no rio, junto com o corpo. Não há identificação, logo não poderão chegar até mim por ele.

Faço um curativo para o sangue parar de escorrer, afinal não quero sujar o carro. Começo a “embrulhar” o corpo em uma lona amarela. Enquanto embrulho, tento me lembrar porque o matei. Pensando agora, ele nunca me fizera nada, era um simples mendigo. Nunca me incomodara pedindo dinheiro, ou tentou limpar o vidro do meu carro. Eu o matei simplesmente porque quis. Saciar minha vontade doentia. No final, é por isso que fazemos as piores coisas em nossas vidas, por nossa vontade.

Termino de embrulha-lo junto com a arma e o coloco no porta-malas. Ligo o carro e pego a estrada para Silent Hill. A cidade é perfeita para eu jogá-lo no rio. Além das histórias de ser assombrada, várias pessoas desapareceram ali, algumas foram encontradas mortas e apenas uma mulher foi encontrada viva. A polícia desistiu da cidade e mesmo que procurem por esse corpo lá, vão pensar que é mais uma vítima da cidade.

Não temo a cidade, não acredito em fantasmas ou qualquer tipo de coisa sobrenatural. E, se há um assassino por ali, não tenho medo da morte, não há nada que me prenda a esse mundo mesmo. Bom, talvez ele...

Cheguei a Silent Hill. Não vejo nenhum fantasma arrastando correntes, ou o chão abrindo e demônios surgindo. Não vejo nada, apenas uma cidade deserta. Vou até o rio mais para o sul. Ele é calmo, porém profundo. Talvez há mais pessoas jogadas no fundo desse rio, companhias gélidas para a minha vitima.

Pego o corpo do porta-malas e o jogo no rio. Em poucos segundos ele afunda. Eu sei que a maioria dos psicopatas fica com algo da vítima, mas não sou um... ainda.

Observo o rio por mais alguns minutos. Sua imensidão guarda o meu segredo, um segredo que nunca compartilharei com ninguém. Apenas esse rio saberá disso, o confidente perfeito, que não fala e não julga. Tudo que eu preciso.

Viro-me para o carro e levo um susto. Há um homem parado ao lado dele. Ele é um pouco mais baixo que eu. Pele pálida e cabelos escuros. Em seu rosto, um sorriso debochado.

- Eu vi o que você fez. – disse ele.

Nada falei. Não sei o que faço, minha única arma eu joguei no rio junto com o corpo. Talvez consiga dominá-lo numa luta corpo a corpo...

- Um corpo no fundo do rio, mais um. Já estou acostumado.

Ele deu um passo em minha direção. Será esse o homem que vem matando todas essas pessoas que desaparecem por aqui?

- Não vejo remorso em você. Ou culpa. Não vejo nada além de alívio dentro de você, por quê?

Como ele sabe isso tudo?

- Um assassinato premeditado, um plano perfeito para nunca ser pego. A frieza para matar uma pessoa sem pestanejar e o prazer de vê-la morrendo nos seus olhos. Algo único, sublime. Uma satisfação sem igual. Tudo isso, eu vejo dentro de você.

Agora isso já está ficando estranho demais. Tomo coragem e pergunto:

- Quem é você?

- Eu? Sou o fim para muitas pessoas, mas para você, posso ser o começo.

- O que você quer dizer com isso? Você é o assassino dessa cidade?

- Não gosto do termo de assassino. Eu apenas mostro a verdade dentro das pessoas para as próprias. Afinal, a única coisa que tentamos esconder é a nossa verdade. Temos medo do que possamos encontrar, do que realmente somos. Mas você... você não tem.

Ele deu mais um passo em minha direção.

- Você sabe o que realmente é. E hoje, se libertou pela primeira vez. Dou-lhe os parabéns. Muitas pessoas morrem sem saber o que são ou com medo de se libertarem.

- Você vai me matar ou não?

- Você quer que eu lhe mate?

Porque ele iria perguntar isso pra mim? Será uma espécie de jogo mental doentio dele?

- Não temo a morte.

Ele soltou uma gargalhada.

- É tão bom ver alguém como você, único. Não irei mata-lo. Você está livre para ir.

Essa não era a reação que eu esperava.

- Por quê? O que eu tenho de tão especial para você não me matar? Você não teme que eu vá até a policia e conte que conversei com você?

- Claro que não, pois você não vai.

- Como você sabe tudo o que eu penso e o que eu sinto? RESPONDA!

Não sei por que gritei com ele. Apenas sinto raiva dele, nunca gostei de pessoas “sabe-tudo”.

- Porque eu sou como você. Alguém que nunca foi normal, que nunca pode se libertar. Que sempre quis ver a morte proveniente de suas próprias mãos. Um assassino, um louco, um psicopata.

Parece que estou me vendo através de um espelho.

- Então é por isso que está me deixando ir? Simplesmente porque somos iguais?

- Não. Vejo potencial em você.

- Que tipo de potencial?

- Fique... E descubra.

Ficar? O que ele está tentando dizer.

- Desculpe, não entendi o que você disse.

O sorriso em seu rosto some. Ele se aproxima ainda mais de mim.

- Fique e me deixe fazer você alcançar todo o seu potencial.

Ele está louco se vai me fazer ficar aqui. Mas, algo dentro de mim quer isso mais do que tudo. Por quê?

- Imagine um lugar que não importa qual ninguém vai procurar por assassinos. Um lugar deserto, sem vida, que atrai suas vitimas pacientemente. Esse lugar é Silent Hill.

Há um duelo dentro de minha cabeça. Seria insanidade minha aceitar tal proposta de um estranho, porém nunca me senti tão calmo, confortável e seguro como me sinto agora.

- E o que você fará para eu chegar ao meu potencial?

- Tudo que for necessário.

Uma resposta comum, porém poderosa.

- Mostre-me.

Seu sorriso volta ao seu rosto e então diz:

- Que comece o treinamento