Damnares
1 Prólogo
Os gritos agudos aguçavam a apreensão palpável que circulava entre cada corredor daquele castelo. Nobres andavam de um lado para o outro com a agonia da espera enquanto servos caminhavam nervosos com bacias contendo água, panos e ervas.
Até mesmo o Rei esquecera-se de demonstrar altivez perante os súditos demonstrando fraquezas humanas como insegurança e impotência. Os gritos se intensificaram e a apreensão estava à beira de se tornar desespero quando por meros segundos os gritos cessaram.
Todos voltaram sua atenção em direção ao quarto real enquanto o rei correu em direção ao mesmo ouvindo um grito estridente no caminho, um grito que curiosamente não era de sua esposa e em segundos um choro infantil acalmou apenas os que não viam a cena que o rei agora presenciava.
A parteira estava em choque deixando claro de quem havia sido o grito enquanto olhava com horror para o ser que ela havia deixado cair no chão ao ver sua aparência.
-Mas que diabos... – Murmurou o rei querendo saber por que o seu filho estava jogado no chão até conseguir identificar melhor a criatura que chorava.
As orelhas eram pontiagudas e os olhos vermelhos. O rei sentiu a necessidade de regurgitar ali mesmo enquanto olhava com nojo não só para a criança, mas também para a mulher extasiada na cama que buscava entender o que estava acontecendo.
-O que... por que deixas nosso filho a chorar em desespero? – A rainha perguntou com a voz fraca, porém firme enquanto o rei se aproximava da cama apenas para cuspir na criaturinha que estava jogado ao lado dela.
-Isso não é meu filho. – Ele murmurou fazendo a esposa tentar mover o corpo fragilizado em desespero. – Tirem o monstro daqui antes que ele amaldiçoe o ambiente mais do que já o fez por nascer aqui.
Hesitante a parteira se aproximou com uma manta cobrindo parte do corpo da “coisa” que apavorada pegava nos baços.
-Meu... – A rainha foi interrompida pela figura da parteira levantando com o seu “filho” fazendo com que até ela mesma demonstrasse pavor.
-Isso não foi culpa minha meu rei, devo ter sido amaldiçoada por certo. – Ela gritou ao ver o marido caminhar pra fora do quarto acompanhado pela parteira com o recém-nascido.
-O que não te faz menos suja que ele. E que os deuses me perdoe por ter deitado com alguém como tu, o que a partir de hoje não mais farei.
-Mas e o acordo, meu senhor? Todo o meu reino conta com a nossa união!
-Devia pensar nisso antes de criar um demônio no teu ventre.
-Mas eu... – Ela não terminou ao perceber que não era mais ouvida.
Assim como o rei todos que acompanhavam o parto deixaram o quarto sem nem perguntá-la como se sentia, provavelmente haviam percebido que não era mais a rainha a qual deviam serventia. Ela permitiu que as lágrimas rolassem pelo seu rosto com o peso de todo o próprio reino sobre si. O que seria de Belzor sem Alzof? Uma terra de demônios como o que acabava de conceber. Nada mais.
-§-
O salão coberto pelo breu só tinha como iluminação pequenos feixes de luz que invadia vindo de bifurcações na janela. Dois damnares eram os únicos presentes no ambiente e tinham sobre si o mesmo aspecto sombrio que cercava o lugar.
O altivo senhor das terras do oeste conhecido como Aodh estava sentado com sua atitude soberana observando o ser que curvava diante de si, cabelos negros até a cintura e olhos violetas instigantes, era uma criatura interessante na opinião do Lorde e definitivamente um de seus melhores servos.
-E sobre o que é que tens tanta urgência em me falar?
Chad ergueu-se tomando a frase como permissão pra se dirigir ao lorde.
-O tempo para o desenvolvimento “dele” dentro dela chega ao fim meu Lorde. – Informou a criatura de longos cabelos negros e olhos violetas fitando a figura imponente do ser ao qual servia com a própria vida.
-Será hoje o fim da aliança pra alegria de nossa raça, Chad? – Perguntou o Lorde invadindo o olhar do súdito ansioso pela resposta.
Chad sentiu as orbes vermelhas penetrarem dentro de si enquanto afirmava com a cabeça fazendo o Lorde sorrir, era contagiante a satisfação na expressão dele ao imaginar que conseguiria realmente acabar com uma das únicas opções que os humanos de Azolf tinham pra se recuperar da Grande Guerra.
-Imaginas o destino dessa criatura meu Lorde? – O servo perguntou ainda fitando o mestre nos olhos.
-Terá sorte se nascer viva meu caro. – Aodh murmurou desviando os olhos dos do servo fazendo a voz parecer menos preocupada possível. – Nada tenho a pensar sobre o que sai do ventre de uma humana. Contando que ele cumpra o papel que escrevi pra ele não me atento muito a seu bem estar.
-Ainda me falta convencer de que sairá um de nós de um corpo tão frágil como o de uma mulher humana.
-Não me importune com asneiras como essa Chad, ele não será uns de nós! Será apenas uma aberração indefesa sem chance alguma de sobrevivência.
-Mas ainda se for de acordo meu senhor, seria de minha vontade conferir a possibilidade de conceber tal criatura e lhe trazer em retorno mensagens sobre a fim da Aliança entre Alzof e Belzor.
Aodh voltou sua atenção a Chad que agora mantinha a cabeça baixa a espera da resposta do soberano daquela terra.
-Pois que faça como quiser Chad. – Murmurou o Lorde fazendo-o erguer-se com um meio sorriso. – Só volte rápido pra dizer o que eu quero ouvir.
O ser sombrio dos olhos violeta apenas reverenciou o seu senhor antes de deixar o aposento particular do Lorde Aodh.
-§-
Uma tempestade se aproximava e em frente a um dos precipícios de Alzof uma senhora tremia tomada por desespero e arrependimento. A senhora conhecida por ser a mais experiente das parteiras do reino segurava inconstante a criatura em seus braços.
-Que nosso reino seja perdoado pelos deuses por permitir que algo como tu tenha ganhado vida em nossas terras... – Ela começou se preparando pra soltar a criança como seu rei ordenara.
Mas antes que afastasse as mãos permitindo que o ser minúsculo fosse entregue a morte sentiu um calafrio percorrer suas espinha e Algo “pousar” atrás de si.
-Largue a criança, humana. – A voz soou fria e impiedosa e ao virar pra fitar o damnare que a ordenara sentiu seus braços perderem a força.
Os olhos violetas e as asas negras foram às únicas coisas que ela precisou ver antes de desmaiar sem a criança já que o ser já havia se adiantado tirando a criança dos braços da senhora.
Chad observou a criança por meros segundos enquanto a mesma dormia ignorando a realidade ao seu redor. Inspirou longamente pra ter certeza de que não confundia os odores, não, estava certo. A pequena criatura não cheirava como um damnare e muito menos como um humano. Era único.
Tirou a atenção da criança pra senhora no chão, em um golpe viu o corpo dela cair pelo mesmo precipício no qual ela jogaria a criança minutos atrás.
Abriu as asas colocando o bebê entre sua capa, o frio da altitude podia ser demais pra alguém tão prematuro. Mas não havia lugar pra ele em Alzof, e assim que parou pra pensar Chad percebeu que não havia lugar pra ele em lugar nenhum. Seria uma questão de tempo até que a mãe fosse executada e nada queria o pai com um filho mestiço.
Sentiu uma sensação estranha invadir seu corpo enquanto continuava sobrevoando Alzof. Ele não merecia morrer. Tinha muita sorte por estar vivo pra morrer por sua singularidade, mas o que faria então? Entre os humanos seria temido e entre os damnares enojado.
Chad suspirou enxergando uma floresta conhecida e descendo em direção a uma conhecida habitação. Se Lorde provavelmente não pestanejaria em matá-lo se soubesse o que estava prestes a fazer, mas por algum motivo que até o próprio damnar desconhecia, isso não importava tanto.
Alcançou o chão já conseguindo visualizar a moradia rústica montada as pressas por uma das únicas que ele considerava capaz de pensar como ele no momento. Entrou sem pensar duas vezes fitando a figura feminina que cortava um animal morto sobre a mesa.
-Que diabos Chad? – Gritou a jovem ao ver a casa ser invadida pelo damnare de cabelos pretos.
O ambiente era simples sujo e desorganizado, o cheiro de animal morto impregnado e móveis desgastados jogados de qualquer jeito e a jovem de cabelos roxos e olhos vermelhos não parecia nada satisfeita com a presença dele ali.
-Não era minha intenção invadir, Astrid. – Ele informou se aproximando fazendo-a tirar a faca de entre as entranhas do animal e apontar para o damnare.
-Não importa o que o maldito tenha te mandado fazer eu não vou... – Ela foi interrompida quando percebeu a pequena cabecinha que saia de entre a capa dele.
-De quem você sequestrou Chad? Mais um capricho do seu miserável Aodh?
-§-
A rainha suspirou pela última vez antes de naquela mesma noite ter seu corpo jogado pelo mesmo precipício que acreditava que seu filho havia sido jogado também.
Em uma cerimônia que contava com a presença de muitos inclusive servos, nobres e o próprio Rei que por sua fez não demontrou nenhum remorso ao ver sua esposa ser jogada no abismo sob sua ordem, apenas suspirou ao ve-la gritar na queda por lembra-lo de que agora seu reino precisava de uma nova rainha porque ele precisava de um herdeiro.
Seu reino precisava de um nascimento digno pra que todos esquecessem aquele dia que pra sempre seria conhecido como o mais nebuloso e aterrorizante de Alzof por muitos anos.
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