Dame Jolie
7 Sobre anjos e rosas
Notas iniciais

Era como se o tempo tivesse parado. Por mais que no fundo de suas consciências algo gritasse que NÃO, que aquilo NÃO MAIS era uma simulação – se é que em algum momento havia sido – nenhum dos dois jovens conseguia cortar o contato. O calor emanado de seus corpos parecia fundir a ambos. E tão somente estavam unidos pelos lábios, que moviam-se de forma a permitir o contato proibido entre suas línguas. E, claro, havia o fato de que Milo ainda segurava com firmeza os braços de Camus, mas o filho do duque já se encontrava imobilizado por outra razão... a mesma que mantinha o cavaleiro entregue... tão próximo a ele.
Muito embora não aprofundassem o beijo (era um mero disfarce, não era?), a sensação única de langor mantinha-nos naquela posição.
Milo não compreendia o porquê de seu coração bater tão rapidamente; contudo, não se encontrava em condições de se entregar a conjecturas naquele momento. Tudo que sabia é que sentia nos lábios uma doçura irresistível, suave, magnética. O sutil perfume de água de lírios e violetas do ruivo contribuía para inebriá-lo ainda mais. Por sua vez, Camus sentia-se como se fosse desfalecer a qualquer instante. O torpor que dele se apoderou era algo diferente de tudo que havia experimentado na vida... não era como o torpor do vinho, nem como as vertigens de sua adolescência mal nutrida, tampouco o efeito das ervas curativas de Afrodite quando de suas febres e enfermidades...não! Do loiro emanava um instigante aroma de almíscar. E de algo mais que ele não identificava, provavelmente proveniente das distantes terras por onde o guerreiro vivera e lutara. O peito largo de Milo junto ao seu esmagava-o quase sem tocá-lo; sentia-se quente, fraco, ansioso.
Como que despertando de um sonho, Milo abriu repentinamente os olhos turquesas. Apartou-se, de modo um tanto brusco, do jovem ainda imprensado contra a árvore. Buscou o ar, assustado, parecendo finalmente estar se dando conta do que ocorrera. Viu Camus abrir lentamente os olhos castanhos avermelhados, como se também retornasse do mundo de Oneiros (1). Um tanto ofegante, o ruivo encarou-o, enigmático. Malgrado o rubor que tingia-lhes as faces... não parecia ultrajado.
Sequer incomodado.
Apenas... confuso.
Por alguns segundos, Milo sentiu-se da mesma maneira. Suas mãos escorregaram devagar pelo tecido delicado que cobria os braços do ruivo, sentindo bem sua pele, seus músculos. Camus suprimiu um gemido: a proximidade cálida do noivo e o primeiro beijo de sua vida deixaram-no sensível a ponto de fazê-lo sentir aquilo como uma carícia.
Sem saber o que dizer, o loiro afastou-se mais, dando pleno espaço ao mais novo. Este procurou se recompor, inconscientemente passando a língua pelos lábios levemente dormentes, sem desviar do celeste seu olhar escarlate. Tal imagem provocou estranho efeito em Milo... não se agradou da ardência que ondulou em suas entranhas. Engoliu em seco, entre apavorado e revoltado. O rapaz diante de si tampouco entendia a quentura que descia-lhe pelo baixo ventre. Corou violentamente ao sentir que crescia... entre as pernas...
Olharam-se, constrangidos. Então Camus limpou a garganta e enunciou em alto e bom som:
— Querida irmã, não sabes que os coelhos não aparecem por estas áreas? – a voz modificada sem ficar necessariamente fina; Milo chegou a arregalar os olhos, surpreso.
Os arbustos moveram-se e deles saiu uma jovem vestida com esmero, como se fosse a alguma festa; nos cabelos dourados e muito longos algumas folhinhas permaneceram. Camus não se lembrava de Hilda estar usando aquele vestido luxuoso, de puro veludo púrpura com detalhes em dourado, assim como a frente de seu apertado corpete, que elevava ainda mais os vistosos e róseos seios.
— Ora, Camille, por que achas que estou a procurar coelhos? – fez uma careta, enquanto vinha até os dois.
O ruivo cruzou os braços e a fitou com fria reprovação ao dizer:
— É o que raposas como TU costumam fazer ao se embrenharem em matos como esses.
A menor apressou-se a procurar uma desculpa:
— E-eu não procurava coelhos...
— Oh, sim? Espiavas algo, então? – agora Camus pôs as mãos na cintura, representando incrivelmente bem o papel de uma irmã mais velha.
“Por Deus, o maldito REALMENTE VIRA OUTRA PESSOA” , pensava Milo, assombrado.
— Não, não, não – Hilda sacudiu a cabeça em uma negativa – eu estava apenas... apenas passeando por aqui... e... e quis pegar aquelas lindas framboesas...
— Em um pé de mirtilos?
— ....!
Observando o pequeno embate, o cavaleiro percebeu que Hilda não lograra nada descobrir. Havia apenas visto o beijo...
O BEIJO!
Se aquela garota fosse fofoqueira como Camus afirmara ser... aquele flagra se espalharia e... quem sabe...
Seu coração pareceu parar ante a apavorante possibilidade de SEU PAI ouvir o mexirico da futura cunhada.
POR DEUS!
JAMAIS que seu pai poderia saber que aquilo acontecera!
“Até porque NÃO aconteceu”, gritava internamente para si mesmo, “foi um CENA armada por nós dois, para frear a língua dessa menina... uma situação armada por nós dois que, miseravelmente, acabou assim... nem sei como!”.
— Senhorita... Hilda, não é?
Os dois irmãos voltaram-se para o filho do conde, curiosos.
— S-sim, meu senhor?
Ele fez uma mesura galante, estendendo-lhe a palma da mão.
— Peço-vos perdão, cara senhorita. Como cheguei deveras fatigado, não tive tempo de cumprimentar-vos.
Atônito, Camus viu a pequena mão da irmã unir-se à grande de Milo. O filho do conde depositou-lhe um beijo no dorso branco. Hilda deu um sorrisinho coquete (2):
—Jamais reprovar-vos-ia, meu senhor. Vi em vosso honrado semblante o quão estáveis lasso (3) e... – fitou “Camille”, atrevida.
Milo e Camus se entreolharam, e logo o loiro riu, sem graça:
— Oh, AQUILO! Perdoai-me... a fadiga que assola a minha pessoa já há alguns dias tem somente relação com a ansiedade em contrair matrimônio.
— Se me permite a audácia, meu senhor, não parecíeis comprazer-vos em rever Camille – insistiu a insolente moça, fazendo por merecer um olhar indignado do jovem de vestido verde.
— Enganai-vos, cara cunhada. Como o poderia? Aquele que desposar tão perfeita dama como vossa irmã é afortunado como os Santos que se assentam ao lado de Nosso Senhor nos céus. Se bem que – encarou a loira, sorrindo com malícia – assim também o será o homem que vos desposar. Sois verdadeiramente um anjo, bela Hilda!
Ao ouvir tal galanteio, o ruivo contraiu os punhos. Cuidava de disfarçar o mal estar que lhe causava aquele flerte bem diante de si!
— Oh, vossos belos olhos de céu primaveril enganam-vos, estimado cunhado... pois que este anjo aqui é impedido de alçar voo. Não tenho eu noivo, por causa da recusa de meu pai em entregar logo a mão de minha querida irmã Camille em casamento, durante todos estes anos. Vós conheceis as tradições, por certo – alegava a jovem, adoçando o tom da voz ao mirar o ruivo.
— Bem, como serei eu a desposar vossa irmã mais velha, logo sereis entregue a algum garboso... e sortudo fidalgo – riu o loiro, fazendo-se simpático.
— Pretendo lançar-me a promessas a fim de que tenha esse vindouro fidalgo metade de vossas qualidades, senhor Milo...
Os dois loiros sorriram um para o outro, quase reluzindo de encanto mútuo. Quase sem acreditar naquela ousadia, Camus virou o rosto, desviando seu olhar estupefato deles. Hilda costumava derramar seu charme aos rapazes sem maiores reservas... entretanto, daquela maneira... era algo inédito! Por sua vez, o nobre não deixava de se sentir lisonjeado com a investida de tão bela donzela. Que lindos e sedosos cabelos, da cor do Sol, como outrora havia sonhado em ver na cabeça de sua gloriosa esposa! Que pele de pêssego... totalmente desprovida de quaisquer manchas... ao contrário de Camus, que possuía umas poucas, é verdade, mas as tinha... sardas por sobre o nariz arrebitado... quanto a Hilda... que criatura delicada, esbelta, fina... que busto alvo e generoso... uma singela pinta em cima do seio esquerdo seria a assinatura do deus da beleza, almejando reconhecimento eterno pela criação de tão mimoso ser.
O silêncio dos dois forçou o ruivo a voltar a observá-los; antes não o tivesse feito. Vê-los ali, perdidos um diante do outro, configurava uma afronta quase dolorosa.
“Por que me sinto assim?”, questionava-se, em pensamento. O aperto em seu peito, porém, respondia-lhe com mais propriedade que qualquer epifania.
— Creio que é hora de retornarmos – sugeriu ele, neutro – logo vai escurecer.
— Sim, tens razão, minha querida irmã... aai!- fez a mais nova, falseando o passo. Apoiou-se em uma árvore para não cair. Milo prontamente perguntou:
— Que tendes, senhorita Hilda? Senti-vos mal?
— Ai! Oh... meu pé! – gemeu, contorcendo o rosto em dor imaginária – creio que o virei quando abaixei-me para pegar as framboesas...
— Mirtilos – corrigiu Camus, secamente.
— Que diferença isso faz?
— A diferença é que são frutas diferentes.
— Arre, que me molestas, Camille! Mal aguento-me de dor, e tu a confundir-me como trivialidades – Hilda choramingou, “sem conseguir” ficar ereta. Milo adiantou-se e amparou a menina.
— Não vos esforceis, senhorita. Eu vos levarei.
Solícito como o cavalheiro que era, tomou a dama em seus braços. Esta prontamente enlaçou o homem com seus braços, crivando nos olhos azuis seus olhos semicerrados de pura sedução. Agradeceu, lânguida:
—Sois assaz (4) gentil, senhor Milo. Espero que não te importes, minha irmã...
Fazendo ar de pouco caso, o ruivo respondeu:
— De forma alguma, Hilda. Não queremos que outra parte de teu corpo ALÉM DA TUA CABEÇA fique com sequelas, não é verdade? – e pôs-se a caminhar adiante deles.
— Ora, sua... – a loira, a custo, segurou o impropério. Não obstante, riu, debochada, sempre achegando-se ao loiro que a carregava – possivelmente, Camille, se fosses tu, o senhor Milo não teria tanta facilidade em levar no colo. És tão alta, grande... quase bruta, eu diria!
Estranhamente, Milo não se agradou da forma com a qual Hilda descrevera Camus. Fosse mais impulsivo, atirava a moça à relva. Conteve-se, contudo.
Não. Seu desagrado NADA tinha a ver com o que fora proferido sobre Camus. E sim sobre SI MESMO... sobre SUA força... não era assim?
— Enganai-vos, bela Hilda. Possuo vigor suficiente para erguer em meus braços pessoa de qualquer compleição física. Esqueceis de que sou um guerreiro, decerto – por mais que tivesse se esforçado por parecer amistoso, percebeu que a réplica soara um tanto irritada.
“NÃO é por essa ABERRAÇÃO, não é!”, bradava em sua mente.
— Oh, meu senhor, queirais me perdoar! Não tive intenção de pôr vossa inegável força em dúvida, de forma alguma... – a loira mostrou-se mais provocante do que arrependida.
— Compreendo-vos.
Milo levantou os olhos para o rapaz que ia adiante deles, o inconfundível caminhar resoluto, quase duro. A tarde morria por trás das montanhas, e o ar refrescava à medida que nuances alaranjadas tingiam o horizonte. Andaram por entre os carvalhos e os ciprestes, afugentando pequenos pássaros. Passaram pelo riacho que rumorejava docemente sob as frondosas copas iluminadas pelo poente.
De volta ao castelo, foi aquele rebuliço quando avistaram o cavaleiro de Auvergne trazendo a jovem Hilda no colo. Pensaram que a filha do duque estivesse ferida, e os criados acorreram tão logo os três adentraram o pavilhão principal.
— Senhorita Hilda! Senhorita Hilda!!! – vieram logo esbaforidos, rodeando os recém chegados – Por Deus, que houve com a senhorita Hilda, senhor Milo?
— Ao que parece, lesionou o pé... não sabemos ao certo...
— Levem a senhorita para o barbeiro-cirurgião! (5) – instruiu o castelão, preocupado com integridade da nobre.
— Não, não – refutou a loira, ainda nos braços do cavaleiro, sem fazer a menor menção dele largar – O barbeiro-cirurgião não...
NUNCA que ela se deixaria ser examinada por aquele velho amarelo asqueroso, com cara de fuinha obesa, recendendo a toucinho e óleos nauseabundos. Tinha ideia melhor. MUITO melhor.
— ...chamem Afrodite – ordenou ela.
Ora, se era para ser “atendida” por alguém... melhor que fosse por um homem belo como o ex-pajem!
Mas antes que os serviçais partissem para cumprir a ordem, “Camille” os deteve.
— De nada adiantará chamar meu camareiro-mor. Afrodite não é especialista nesse tipo de lesão. O barbeiro-cirurgião tem muito mais experiência em traumas do tipo que parece ter sido sofrido por minha irmã – falou, decidido.
Todos miraram o ruivo, considerando-lhes as palavras.
— E se Hilda tiver quebrado o pé? Unguentos e emplastros de nada servirão. Levem-na a um profissional – completou Camus, vendo pairar ali a dúvida sobre como proceder..
— Não! Que estás a fazer? Eu não quero que aquele bolo de banha encoste em mim! – exasperou-se Hilda, sendo colocada por Milo em uma cadeira de veludo trazida pelos servos. Ela balançou os pés, furiosa.
— Cuidado para não piorar a LESÃO, minha irmã – sorriu Camus, sarcasticamente. Em geral tolerava a irmã mais nova com condescendência louvável, no entanto aquela farsa infantil deu-lhe vontades por ele mesmo reprovadas.
Ele e seu noivo viram os criados levarem a queixosa moça para o outro lado da torre, onde ficava a residência do barbeiro-cirurgião. Vendo-se a sós no meio do pátio, olharam-se brevemente.
— Bem – começou Milo, mais para não deixar cair o silêncio entre eles – Não creio que tenha sido algo sério...
— Eu tampouco.
— Não pareces preocupado.
— É porque não estou.
— Não te preocupas com tua própria irmã?
O ruivo semicerrou os olhos, contendo-se para não suspirar. Poderia ofender o noivo. Preferiu dar meia volta e caminhar para sair das vistas dos trabalhadores que os admiravam de longe. Percebendo, o loiro fez o mesmo.
— Eu te julgavas frio, mas não a ponto de não te importares com o ferimento da senhorita Hilda – comentou, um tanto cínico.
Virando-se, Camus o encarou brevemente. Não podia condenar aquele homem. Fazia parte de seu código proteger os desvalidos, os fracos, as donzelas. Não podia nem mesmo tachá-lo de ingênuo; ele não conhecia a ardilosa Hilda.
E... quanto a tachá-lo de ingênuo... como fazê-lo, após testemunhar aquela série de flertes... antes de vê-lo carregar, com o cuidado de quem transporta a mais preciosa carga, a loira dissimulada?
A loira frágil, mimosa, delicada... a mulher que ele jamais seria... que jamais agradaria Milo...?
“Que estou eu a pensar?”, perguntou-se, odiando-se tanto por aquilo que temeu chorar de raiva, “Desde quando QUIS ser mulher? Eu NUNCA quis isto... NUNCA!”
Então... o que fora aquele pensamento?
Confuso... estava tão confuso... Milo fazia aquilo com ele!
Queria odiá-lo. Mas... só odiava A SI MESMO.
Cansado daquela comédia patética, pôs-se a descer as escadas de mármore rumo ao pátio inferior, onde se localizava uma outra capela, menor e mais singela que aquela pela qual passaram ao deixar os jardins palacianos.
— Tu tens um camareiro-mor? – indagou o cavaleiro, descendo atrás dele.
— Sim.
Milo riu.
— Não é o serviçal que cuida das vestes e das toaletes das grandes matronas (4) da alta nobreza? Eu poderia jurar que, não sendo casadas, apenas princesas pudessem dispor de tal luxo.
— Assim o é – respondeu o ruivo, sem aparentar o menor desconforto com o tom jocoso do outro.
Chegaram a uma espécie de solar, de frente para a capela. Pelas colunas marmóreas enroscavam-se belíssimas rosas brancas e rosas. Verificando os arredores e certificando-se de plena privacidade, o filho do conde continuou:
—Mas se o camareiro-mor é responsável por assessorar as grandes damas em tudo, até mesmo em vesti-las... como consegues tu esconder dele teu segredo se...
— Ele sabe.
Piscando incrédulo, o loiro chegou a balbuciar:
— Ele... ele sabe? Sabe que tu…
O ruivo assentiu. Parou junto a uma das colunas, contemplando as estátuas de santos que pareciam se compadecer de sua situação. Em voz ainda mais baixa, esclareceu:
—Afrodite tornou-se meu pajem depois que... que passei a ter de viver ASSIM. Oito anos depois, ao descobrir meu segredo, ele se tornou meu camareiro-mor e...
— Como ele descobriu?
— Bem – Camus se perturbou um pouco. Não contava com aquele interesse de Milo sobre ele – Eu... passei mal. Desmaiei no pátio, quando brincava com minhas irmãs e outras crianças... fazia muito sol e...
Tomou fôlego e prosseguiu, sob o olhar desdenhoso do outro:
— Para obter compleição de moça, eu me alimentava muito mal. Era comum ter síncopes por má nutrição, agravada pela pressão dos espartilhos e corpetes demasiadamente apertados por meu pai. Naquele dia, o calor exauriu-me e perdi os sentidos. Afrodite socorreu-me e, assim, acabou por descobrir...
— Ele te despiu?
“Mas POR QUE é que perguntei isso?”, indagou Milo a si mesmo, sem entender o que fizera. Após breve surpresa, Camus continuou:
—Não... em verdade, fui descuidado e... deixei cair um dos enchimentos de peito...
Inesperadamente, o loiro deixou escapar uma risada. Camus não sabia se ficava ofendido. Na verdade, nem tinha costume de se ofender de qualquer forma.
— Desculpa-me – falou Milo, aumentando a surpresa do mais jovem.
Milo pedindo desculpas?
Talvez… mero traquejo social por tê-lo interrompido. O cavaleiro raciocinou, coçando o queixo liso.
— Então ele descobriu teu segredo... e o duque comprou-lhe o silêncio tornando-o “camareiro-mor”... afinal, há homens com essa função que chegam a aceitar serem castrados para exercê-la, de tão bem que ganham! Suplantam numerosos nobres de sangue.
— Afrodite não foi comprado – retrucou Camus.
— Afrodite, hum? Esse é o nome dele? Não é um nome feminino? A deusa grega do amor…
— Perfeitamente, meu senhor.
— Um homem com nome de mulher cuidando de um homem que vive como mulher – chasqueou – Não me diga que também ele se veste como mulher!
— É um codinome, para ser sincero – pacientemente, escolheu não cair na provocação do noivo – Respondendo-vos por partes; ele não se veste como mulher, o desventurado aqui sou apenas eu.
O loiro fechou o sorriso ante aquela fala. Manteve-se quieto, para que o ruivo prosseguisse:
— Afrodite, como disse, é um codinome. O antigo mestre, em cuja casa Afrodite foi escudeiro antes de vir para cá, apelidou-o assim. Dizia que por ele ser extremamente bonito, teria o poder de despertar o amor em quem quer que fosse...
“... por ele ser extremamente bonito, teria o poder de despertar o amor em quem quer que fosse...”. Esse fragmento da fala do ruivo ecoava no entendimento de Milo. Ergueu uma sobrancelha ao perguntar:
—E tu… permites que ele te veja? Digo... que te vista... e...
— Ele me ajuda em tudo. É graças a ele que hoje possuo certa qualidade de vida. Cuida de minha dieta, confecciona cosméticos, unguentos e tudo o mais com seu conhecimento de ervas, e até mesmo da “naturalidade” de minhas formas – abriu os braços exibindo delicadas curvas obtidas com os moldes, a cinta, enchimento pelo ex-pajem trabalhados.
— Hum – o loiro grunhiu em resposta, pondo as mãos para trás e caminhando para fora da varanda. Um tanto contente por finalmente estar sustentando com ele uma conversa, Camus o acompanhou por sobre uma pequena ponte que levava a um terraço. O filho do conde parou por sobre uma reentrância abobadada, que dava para uma bela vista do pomar. Ao fundo, avistavam-se, pequeninos, trabalhadores nos distantes e verdejantes campos de Turenne.
— Ele irá comigo. Espero que não vos incomodeis – anunciou o ruivo, distraidamente.
— Ele quem?
— Afrodite. Levarei-o para Saint-Doulchard.
Um riso trocista antecedeu a alfinetada do noivo:
— Não queres ficar longe de teu camareiro “extremamente bonito”?
Os olhos castanho-avermelhados cintilaram. Abaixou-os na direção dos nenúfares por sobre as águas escuras de uma fonte.
— Se vós vos ocupardes de ajudar-me a vestir-me... a apertar meus corpetes e ajustar meus moldes sob estas vestimentas elaboradas, de modo a não comprometer meu disfarce... posso dispensar os serviços de Afrodite – respondeu, segurando uma súbita vontade de rir ao ver o cavaleiro enrubescendo.
— Eu prefiro ir para o Inferno ajudar o Diabo a polir seu caldeirão para as almas danadas a fazer semelhantes coisas – bufou o loiro, mirando-o da cabeça aos pés com desprezo, antes de dar-lhe as costas.
Camus teve que levar a mão à boca para esconder um risinho que quase saiu. Franzindo o cenho, o cavaleiro virou-se para ele; foi o necessário para se recompor.
— Então posso levá-lo?
— Se te é assim tão indispensável – Milo deu de ombros, simulando desinteresse.
— Agradeço-vos. Ele será de imensa serventia para vós também. Afrodite é especialista em plantas e ervas, sabe fazer vários tipos de remédios, tônicos, unguentos, tinturas... cosméticos – riu de lado, irônico, ao proferir esta última palavra. E tomou uma das rosas que adornavam o terraço, cultivadas em vasos dourados nas mãos, mostrando-a ao outro.
— Também sabe cultivar rosas lindas como estas... além de outras flores, como ninguém. Teu castelo de contos fantasmagóricos pode se valer muito de tal habilidade – ironizou.
Em tom ácido, Milo observou, apertando os olhos:
— Realmente tens esse Afrodite em alta conta, não?
— Eu o tenho – maquinalmente levou a rosa ao nariz, aspirando-lhe o sutil aroma – talvez não seja exagero dizer que é o único amigo que possuo.
Milo não se agradou daquela admiração. Nem um pouco. Sim, pois que malgrado a inabalável, constante frieza no modo de se expressar, farejava admiração ali, tal qual um cão fareja perdizes que se escondem. Bom, nada que tinha a ver com aquilo, claro... declarou, mal humorado:
— É sempre bom dispor de alguém tão eficiente... TÃO PERFEITO a nosso serviço.
Incerto acerca do real significado do timbre sarcástico do loiro, Camus preferiu se calar. Tornou para a murada de pedra, postando-se ali e observando o lago, distraidamente. O azul do céu agora convertera-se em profundo anil.
— Escuta-me.
Ante a ordem de Milo, dada de forma seca, o ruivo retesou. Sentiu-o aproximar-se por trás de si.
— Aquilo NUNCA ACONTECEU, ouviste bem? – murmurou-lhe ao ouvido, enviando arrepios à espinha de Camus.
— “Aquilo”...?
— Não te faças de tonto. Entendes-me.
— Oh. Falais do...
— NÃO aconteceu. Tenhas apenas isto em mente.
— Não foi o que pareceu-me – retrucou o ruivo, sem se virar para o homem quase junto a si, que prosseguiu, em voz baixa:
— AQUILO foi um mero disfarce para que enganássemos tua irmãzinha intrometida.
O ruivo deixou escapar um breve riso de desdém:
— E o que vos faz pensar que eu julgaria tratar-se de outra coisa?
O cavaleiro queria responder. Mas teve vergonha de fazê-lo. E se em uma contra-resposta aquele detestável embuste lhe atirasse à cara algo de que pudesse se envergonhar AINDA MAIS? Por isso, sem que ele mesmo pudesse controlar aquele cortante comentário, soltou-o:
— É lamentável que o destino tenha me atirado a ti e não à tua deliciosa irmã. É seguramente a donzela mais formosa que já vi. Se eu fosse a ela desposar, não necessitaria de concubina alguma. Teria o meu anjo, e não uma criatura abominável como tu ao meu lado.
Sem mover um músculo, Camus continuou olhando para lago: dentro de si, algo tremulou como os reflexos da superfície onde flutuavam lírios d’água.
— Com tua licença, retirar-me-ei – anunciou o cavaleiro, secamente.
Apenas os passos que se afastavam foram o indício de que Milo saíra dali. Demorou muito para que o filho do duque conseguisse virar para trás. Quando o fez, viu-se só. Mordeu o lábio inferior até doer. Apressadamente, dirigiu-se para seu quarto.
Ao chegar lá, bateu a porta com força. Caminhou até o leito, resistindo ao impulso de ali se jogar: apenas sentou-se, esforçando-se por controlar a tempestade interna. Sentia as bochechas arderem. Pôs as mãos sobre os joelhos, apertando-os com raiva contida.
Ouviu batidas à porta que separava seus aposentos dos de seu camareiro-mor.
— Podes entrar, Afrodite.
Obedecendo, o sueco surgiu em seu quarto. Trajava uma túnica castanha por sobre malha azul e botas de couro trançado. Parou diante do amo, estudando-o.
— Ouvi a porta bater com força e teus passos desmedidos. Não és adepto de semelhantes rompantes, portanto, resolvi vir saber o que te ocorreu – falou, solícito.
— Não é nada.
— Não acredito. Tens fogo no olhar e nas maçãs do rosto. Respiras tão rápido que temo que arrebentes esse corpete. Que se sucedeu, meu amigo?
Camus esfregou o rosto, fatigado.
— É que... esquece, Afrodite. Não é nada que valha a pena qualquer colóquio – resmungou, nitidamente irritado.
O sueco franziu o cenho. Era bem incomum Camus demonstrar insatisfação por algo... quase raro, até.
— Foi o senhor Milo, não foi?
— C-como sabes?
— Ora, tu te retiraste com ele para um passeio pelos arredores do castelo... e eis que retornas nesse estado... que mais poderia ser?
— Pareço... pareço alterado?
Sentando-se em um banco de carvalho ao pé do leito, o loiro curvou-se para o mais novo, respondendo:
— Eu não diria “alterado”, é deveras forte; entretanto, vê-se que, sim, há algo de diferente em ti.
— Isso não é bom, preciso recompor-me...
— Acalma-te. Estás em teus aposentos. Vamos, o que ele te fez? – o ex-pajem ficou ainda mais sério – Eu SABIA que ele te faria sofrer, só não sabia que seria tão RÁPIDO! Nem esperou as bodas para isso! O que ele te fez? Te insultou? Te ofendeu? Te injuriou? Te...
— ...me beijou.
O sueco, que gesticulava no calor de sua indignação contra o forasteiro, parou com o dedo em riste no ar e adquiriu uma expressão atônita.
— Ele... ele o quê? – indagou, sem crer no que ouvira.
— Bem... melhor dizendo, NÓS nos beijamos.
— Isso é verdade? Mas como foi que isso se deu?
Suspirando profundamente, Camus buscou coragem para rememorar:
— Hilda estava a nos espiar no bosque. Escondia-se no meio dos arbustos para nos bisbilhotar bem na hora em que ele tentou me agredir e...
— Ele TENTOU TE AGREDIR?
— Sim. Bem, não sei se o faria, realmente. Em um momento de fúria, empurrou-me contra uma árvore e...
— Tu “não sabes se ele o faria realmente”? – Afrodite não escondia a revolta com o que escutara.
— Por favor, ouve, e não me interrompe... – sussurrou o ruivo – para que Hilda não corresse por toda Turenne contando o que viu, inventamos de confundi-la...
— ...beijando-se...
— ...era tudo que podíamos fazer.
Perplexo, o camareiro-mor encarou o amo por uns segundos. Estreitou os belos olhos azuis-piscina antes de questionar:
— E tu... gostaste do beijo?
O ruivo ficou boquiaberto com tal indagação. Alegou, um tanto incomodado:
—Eu já te disse. Foi um mero disfarce.
— E tu gostaste do “disfarce”?
Agora visivelmente impaciente, Camus ergueu-se da cama.
— Afrodite, que estás a insinuar?
Cruzando as pernas com displicência, o loiro apoiou o queixo na palma da mão. Mirou o nobre francês e sorriu, enigmático.
—Eu não insinuo nada, meu senhor... pergunto. E se consideras que em minha pergunta reside alguma insinuação, já me respondeste – sentenciou, divertido.
— O que foi que eu “respondi”? – indagou o ruivo, confuso.
— Estás apaixonado pelo cavaleiro de Auvergne.
Fitando-o com frieza, Camus rebateu:
— Não digas bobagens.
— Bobagens? Então conta-me. Como foi esse beijo?
— Foi um beijo.
— Sim, mas como foi dado? Como te sentiste?
Caminhando pelo quarto, o nobre cogitou não responder. Afrodite ia longe demais! Como ousava...? Sem perceber, buscava palavras em meio a esse embate mental. Deu uma volta curta por sobre as ricas tapeçarias, voltando-se para o ex-pajem; por fim, confidenciou-lhe, pensativo:
— A princípio... normal. Era uma simulação. Porém, quando ele se aproximou... e quando começou... senti-me mal...
— Mal? “Mal” como?
— Meu coração começou a bater muito forte, muito rápido e minha respiração ficou difícil...
“Por Deus”, pensou o sueco, resistindo ao impulso de levar a mão à boca.
— ...e... de repente ficou muito quente. Algo queimava dentro do meu peito e... Afrodite! Sempre que se beijam, as pessoas se sentem assim?
Afrodite sorriu, encantado com a ingenuidade de seu imponente e austero senhor. Meneou a cabeça antes de responder, os cachos dourados a dançar nas espáduas:
— Apenas quando sentem algo por aqueles a quem beijam.
Ante o olhar apavorado, ergueu-se do banco e foi até ele.
— Não te preocupes, Camus. Essas sensações tanto podem ser oriundas do amor quanto da lascívia – esclareceu.
— Que queres dizer?
— Não o amas, por certo?
— Mas é claro que não! – respondeu prontamente, girando sobre os calcanhares. Postou-se junto à janela – Creio mesmo que eu... o odeie.
— Então é lascívia.
— La... lascívia? Mas eu nunca... nunca...
— Se não é amor ou paixão, meu caro, é tão somente desejo de teu corpo intocado e puro, despertado ao ser subjugado pelo senhor Milo.
Camus enrubesceu, esforçando-se por conservar o semblante neutro. Afrodite não deixou passar nenhuma das reações que se desenhavam à sua frente.
— Estamos resolvidos, então. Foi apenas reação óbvia de teu corpo. Nada mais natural. És um ser humano, afinal... não uma “estátua de gelo”, como alguns dizem, e como pareces querer acreditar.
— Mas, Afrodite... isso quer dizer que... eu gosto de... de homens?
O loiro riu.
— Se gostasses, já terias manifestado alguma satisfação que fosse ao ser cortejado por tantos fidalgos belos ao longo de tua vida. Não “gosta de homens”. Apenas o toque de teu noivo te despertou. És jovem, e certamente estás impressionado com a proximidade de te unires a tão garboso cavaleiro.
— Não creio. Eu detesto a ideia de unir-me a ele. Odeia-me.
— Deveras?
Ouviram uma batida à porta.
— Perdoai-me, senhores. Vossa Alteza, o Duque de Borgonha, exige vossas presenças no Grande Salão para o banquete em honra aos convidados.
— Diz a meu pai que estaremos logo com eles – ordenou Camus, a voz suavizada de “Camille”. Ao retirar-se a criada, dirigiu-se ao espelho. Ao vê-lo mirar-se, como a esperar que lhe ajeitasse os longos cabelos, Afrodite pensou, tristemente:
“Não. Tu não foste feito para mover-se tão somente por luxúria ou lascívia. Teu espírito não comporta isso. Sempre foste elevado demais. Camus... não o percebes, ou talvez não o aceites... mas tu JÁ AMAS Milo de Auvergne.”
*************
No apartamento em que se encontrava hospedado com o pai, Milo, estirado no largo leito, tinha as mãos sob a cabeça e os olhos perdidos no teto iluminado pelos círios. Assim, cedia à tentação de levar os dedos à boca, a fim de sentir resquícios do beijo de algumas horas antes. Não entendia por que queria fazer aquilo... deveria, sim, era lavar a boca com bastante alecrim e sálvia... ora, seria pouco... tinha era que bochechar com bastante arak ( 7 ) para uma melhor assepsia!
Todavia, ali permaneceu o jovem, como quem tenta escapar das brumas e adentra o nevoeiro... revia à sua frente o rosto do ruivo, os olhos semicerrados, os rubros lábios entreabertos... úmidos... entregue, mas nem assim... verdadeiramente submisso; pois que chamas escapavam-lhe das íris intrigantes... o que eram? Asco? Revolta? Vergonha?
Se fossem… como explicar o sutil gemido que recebera em sua boca quando, fatidicamente, o maldito movera o rosto e ele acabara, por mero instinto, decerto!, movendo para dentro daqueles pútridos domínios, sua língua que só provara, até então, lábios e corpos das mais belas mulheres?
Súbito, recriminou-se por ficar cogitando sobre o que o outro sentia. Que lhe importava?
E… e quanto a ELE MESMO?
Grunhiu, irritado, cerrando as sobrancelhas.
Não deveria pensar naquilo.
Lábios eram lábios. Simples reação condicionada a sucessivas experiências através dos anos. Distraiu-se. Confundiu-se.
O diabo tinha nos lábios maciez e doçura assombrosas! Superiores a de tantas e tantas damas da mais alta estirpe. Havia de ser isso. Com certeza fora isso.
Ah, deveria ter apertado aqueles braços até magoá-los! Sim, era o que deveria ter feito. Apertado tal qual um impiedoso garrote, até que Camus gemesse de dor... em sua boca... e envergasse mais o corpo, até imprensá-lo ali na árvore, como uma força punitiva, sentindo no seu cada pedaço daquele corpo oculto por vestes finas de...
...por Deus.
NÃO estava pensando em uma mulher!
Ergueu-se de pronto do colchão coberto por lençóis de puro linho. Um inacreditável latejar entre suas pernas semeou pavor em seu coração revolto.
Tentou pensar em Hilda.
Sim, Hilda...
... ela seria a esposa ideal! Feminina, bela, delicada, rosada e loira como os anjos. Como geraria seus lindos filhos. Lembrou-se de quando a tivera em seus braços, de como pôde sentir neles a quentura de seu corpo delgado, de como viu em seus lindos olhos violetas a predisposição para a luxúria envolta naquela aparência inocente, quase infantil ainda...
Por que o ardor, despertado há pouco pela lembrança do ruivo, diminuía de intensidade?
Diminuía não.
Dissipara-se por completo.
POR COMPLETO.
“Oh, Deus Todo Poderoso! Deus Todo Poderoso!”, clamou no âmago de sua alma, incapaz, porém, de articular um pedido.
Esfregou o rosto com as palmas suadas. Ouviu os passos do pai que adentrara o quarto. Procurou aparentar serenidade. O conde, no entanto, conhecia bem o filho. Percebeu-lhe a perturbação.
— Que tens? Pareces aflito – indagou.
— Nada, apenas um tanto sonolento. Este lugar é tedioso – respondeu, sentando-se na cama.
— Bom, daqui a pouco haverá um banquete, hás de divertir-te, penso eu.
— Um banquete – repetiu, quase temeroso.
“Essa não, quer dizer que... vê-lo-ei OUTRA VEZ ainda hoje!”, Milo pensou, irritado.
— O que é isso em tua boca?
— O quê? – o jovem loiro chegou a se sobressaltar.
O conde apontou a própria boca, sinalizando para o filho de que falava:
— Tens algo vermelho aí.
— Aah! Deve... deve ser... deve ter sido umas framboesas que comi no bosque. V-vou já lavar-me...
— Então, acertaste as coisas com Camus?
— C-como...?
— Te tornaste amigo dele?
Milo respirou fundo. Respondeu, constrangido:
—Eu… bem… em parte… algo parecido.
— Melhor seria que fossem amigos, mas que pelo menos sejam aliados. Fico feliz que tenhas controlado teu gênio impetuoso. O rapaz não é culpado de cousa alguma.
— Sim... eu o compreendo, agora.
— Bem, vamos ao banquete. Os Turenne nos esperam.
*************
Na grande sala térrea, três grandes mesas foram dispostas de forma a cercear a quarta, a principal, onde sentavam os mais importantes comensais do festim, a saber o duque de Borgonha, o conde de Auvergne, Milo de Auvergne, o castelão (8) Pierre e sua esposa, dois nobres vassalos que visitavam Turenne também aquele dia, e mais alguns nobres fornecedores que haviam ficado para o jantar. Faltavam Camus e seu camareiro mor, Afrodite. Nas demais mesas distribuíam-se as outras filhas do duque, as tias Agnes e Emilie, fornecedores da baixa nobreza ou vilões (9), os filhos do castelão, três simpáticas meninas com quem Marin e Seika brincavam, e dois meninos ainda bem novos, cujos olhinhos perdiam-se nas reluzentes armas penduradas pelas paredes de pedra: espadas, sabres, adagas, ornamentavam o recinto, ainda guarnecido por raras e trabalhadas tapeçarias orientais, e algumas magníficas armaduras posicionadas em nichos escavados nos blocos cuidadosamente trabalhados. No alto, um lustre de ouro maciço no qual ardiam centenas de velas.
Criados não paravam de trazer os mais variados acepipes para as mesas forradas de fino tecido púrpura: perdizes recheadas com pinhões, gansos assados com especiarias e toucinho, cabrito assado fatiado e entremeado com trufas, javali assado com molho de cebolas e vinho, cozido de gamo com amêndoas, faisões recheados com patê de porco aromatizado, tortas salgadas com recheios como queijos, carne de cervo desfiada, e as sobremesas... peras cozidas em vinho, bolos de nozes com açúcar e folhas de rosas, compotas de frutas, bolos de queijo, pudins caramelizados de frutas, de leite, queijos com frutas secas. Comia-se fartamente em Turenne, não apenas os donos da terra, como os camponeses e os servos que a ela davam seu suor, com a diferença de que na mesa dos ricos e poderosos abundavam carnes, vinho e a mais fina doçaria, e na mesa dos pobres havia legumes, cereais e peixes. Pode-se ver que, paradoxalmente, foi um tempo em que as classes baixas tinham uma alimentação de qualidade superior à das classes abastadas... o problema era a quantidade, invariavelmente módica.
Enquanto se deliciavam, ouviam as suaves melodias executadas pelos habilidosos músicos de Turenne. Vinho, cerveja, hidromel, água fresca e leite de amêndoas eram servidos a todos por serviçais atentos ao menor sinal de copo vazio.
— Por que Camille se demora? Todos já cá estão. Que menina – resmungou a tia Emilie, mergulhando uma fatia de pão no molho do javali.
— Não está tão atrasada, mal começou o banquete. É porque do jeito que comes parece que já se passou muito tempo – observou Agnes, provocando risos nas crianças.
— Olha lá como fala – retrucou, a boca cheia fazendo os pequenos rirem mais ainda – É pecado desperdiçar tão grandes dádivas do Senhor como estas. Temos que aproveitar tudo.
— Falas como se a comida fosse criar pernas e sair correndo – espetou Hilda, sem achar a menor graça. Encontrava-se bem mal humorada, depois do que “Camille” lhe fizera. Imagine, negara-lhe os préstimos do lindo camareiro-mor e a enviara para ser atendida pelo horrível barbeiro-cirurgião! Ele inclusive estava na mesa à frente e lhe acenava.
— Oh, que asco – murmurou, lembrando-se do horror causado ante o toque daquelas mãos engorduradas em seus alvos e mimosos pés. Horror! Quase confessara-lhe tudo, só para que não a tocasse mais! Contudo, fora necessário sustentar a mentira... horror!
— Por falar em “sair correndo”, Hilda, não machucaste mesmo teu pé, não é? – quis saber Marin, preferindo começar pelas sobremesas: aquele pudim de gemas e nozes com calda de caramelo estava de suspirar!
— Se eu tivesse machucado, estaria aqui?
— Como és malcriada – reprovou-a a tia Agnes, balançando a cabeça – Tua irmã está preocupada contigo.
— Até parece, essas cabeças de abóbora aí só se preocupam com “a perfeita Camille”. Se fosse EU a atrasar-me, certeza de que meu pai me repreenderia! MAS NÃO, a filhinha preferida pode fazer o que quiser!
— O noivo da irmã Camille está aqui, ela deve estar se enfeitando – deduziu Seika, seguindo a Marin, que optara pelos doces. Eram duas formiguinhas, sempre dizia a ruiva mais velha.
— Que perda de tempo – riu a loira, molhando os dedos na água de rosas para limpá-los da gordura das perdizes.
— Por que dizes isso?
— Porque, Marin tontinha, EU estou aqui. Com minha presença, como pode o senhor Milo prestar atenção em Camille?
— Cuidado com que falas, menina, é ao noivo de TUA irmã que te referes – ralhou Emilie, que engolira rapidamente um queijo defumado para fazê-lo.
Ela fez ar de pouco caso. E olhou sorridente na direção do loiro. Ele, percebendo, sorriu-lhe de volta.
— Para com isso, pareces flertar com o cavaleiro! – indignou-se Marin.
— Apenas faço-me gentil com quem foi gentil para comigo.
— Conhecendo-te, aposto que fingiste ter machucado o pé só para acabar com o passeio da irmã Camille, fazendo o cavaleiro te carregar até aqui.
— Tens a mente tão cheia de ideias idiotas quanto a cara dessas molestas sardas.
A pobre Marin cobriu-as com as mãos. Hilda tocara-lhe o ponto fraco. Era a mais sardenta “das três irmãs ruivas”, e tinha complexo daquelas manchinhas.
— Não ligues para ela, sabes que é maldosa – consolou-a Agnes, acariciando-lhe os cabelos cacheados – És linda como uma fadinha do bosque. Hilda fez uma careta antes de troçar:
— Decerto comeste algum cogumelo envenenado para sair-te com essa.
— Vede, a senhorita Camille chegou – disse um dos meninos, admirado com o que via.
“A primogênita” do duque trajava um vestido branco bordado com fios dourados e corpete de mesma cor, desta vez com gargantilhas largas de pérolas entrelaçadas no pescoço. As longas mangas, como de costume, iam quase até o chão. Os cabelos vermelhos soltos refulgiam sob a iluminação da sala, assim como os olhos avermelhados, fitos no noivo. Este engoliu em seco, pensando:
“Parece um anjo”.
Teve ganas de meter a faca na própria mão por tal acinte. Riu-se internamente: desde quando anjos tinham aqueles olhos e cabelos de demônio? Sim, era isso que era. Um filho da mentira, e quem era o Pai da Mentira, segundo as Sagradas Escrituras?
Oras.
Foi quando se deu conta de que um homem vinha atrás de Camus.
Bem, sabia se tratar de um homem unicamente pelas roupas que usava, pois que tinha semblante feminino e gracioso como de mulher. E de mulher atraente. Trajava uma túnica azul que combinava com os olhos claros como água cristalina. Os cabelos loiros, surpreendentemente compridos, estavam presos em um rabo de cavalo baixo, deixando duas mechas ondeadas na frente, a descer-lhe pelo peito largo. A calça justa marrom por sobre a veste superior sugeria que o rapaz possuía pernas rijas e musculosas. A forte compleição formava um curioso conjunto com seu rosto delicado, quase andrógino.
“Então... esse aí é o tal Afrodite!”, pensou, surpreso. Bem, não havia real motivo para tal; Camus havia mencionado a fantástica beleza do ex-pajem, agora assessor direto. Os dois aproximaram-se da mesa. Milo pegou um cálice de vinho e aspirou-o, distraído.
“De fato, é BEM bonito. Por Deus, se não é o homem mais bonito que já vi!”, analisou, franzindo as sobrancelhas. Algo espetou-o vivamente. Não que ele soubesse do que se tratava. Mas fosse o que fosse... era inegável como a contrariedade que dele se apossou.
Camus e Afrodite fizeram menção de se desculpar, sendo impedidos logo pelo conde:
— Nada tendes que vos desculpar. Vamos, sentai-vos, está tudo soberbo.
O duque olhou-os sem nada dizer. Ainda que fosse um tanto descortês que se atrasassem, conhecia as dificuldades em tornar feminino um rapaz como o filho.
Os recém chegados ocuparam seus lugares, próximos aos três mais importantes. Milo lançou um olhar ao ruivo, que devolveu-lhe sem qualquer sentimento. O jantar prosseguiu, conversas amenas e, ao fundo, a música tocada de forma a harmonizar aquele momento.
Naquele tempo o garfo ainda não havia sido inventado: os talheres usados eram tão somente colheres e facas. A parte curiosa é que os convidados costumavam levar suas próprias facas para os banquetes. E era comum o comensal cortar as carnes, servir-se, e servir a quem estivesse do seu lado, notadamente caso se tratasse de uma dama. Assim, Milo viu Afrodite partir um grande naco de rosbife e oferecê-lo a Camus. Este balançou suavemente a cabeça, sendo entendido pelo camareiro-mor; o loiro partiu o naco em duas fatias e ofereceu a menor ao amo, que enfim aceitou, tomando-a com a mão e levando-a à boca. Entreolharam-se; Camus sorriu de leve, como que agradecido e aprovando o sabor. Afrodite sorriu-lhe de volta.
Milo franziu o cenho, considerando inadequada o que na verdade não passava de uma cena corriqueira.
— Senhor duque, os camponeses e demais servos pediram-me que participasse à Vossa Alteza o desejo de realizar uma grande festa amanhã em homenagem à senhorita Camille – disse Pierre, o castelão, simpático homem de seus quarenta anos, roliço como somente os bem nascidos ou bem relacionados , como ele, logravam ser naquela época.
— Oh, sim? – fez Teobald, olhando para o filho, que prontamente demonstrou incômodo – E por que motivo querem homenagear minha filha?
— Bem, alegam que a senhorita casar-se-á em uma terra distante, e gostariam de participar de alguma forma de tão maravilhoso evento na vida de vossa primogênita, uma vez que adoram-na.
— “Adoram-na”? – Milo não conseguiu impedir que o pensamento saísse alto pelos lábios.
— Sim, senhor Milo – disse Seika, alegremente – Todos adoram a irmã Camille! Por isso querem se despedir dela!
— Exatamente, pequena – sorriu o castelão.
— De fato, a irmã Camille é sempre boa e gentil com o povo e a criadagem, não é como CERTAS LOIRAS AGUADAS que pensam ter o rei na barriga! – completou Marin, gesticulando comicamente.
— Hunf – resmungou Hilda, erguendo o queixo – a ralé tem que saber seu lugar, oras.
Milo voltou-se para Camus, que abaixou o olhar, visivelmente desconfortável. Pousou o cálice – que mal conseguia abandonar – sobre a mesa e se pronunciou, forçando amabilidade:
— Então o povo local gosta de minha noiva? Que curioso, ela não me parece expansiva o suficiente para angariar tal admiração por parte da plebe que vos serve...espero que não me entendais mal, minha amada – fitou o ruivo, que o encarou, sério.
— O senhor vos engana, senhor Milo, porque a irmã Camille...
— Cala-te, impertinente, como ousas contestar o senhor Milo? – ralhou Hilda, com ar de desdém.
— Eu NÃO o estou contestando, só ia contar como ela...
— Por favor, cessemos esta conversa – Camus solicitou, elevando sua voz modulada. Virou-se para o pai – Eu não acho que isso seja necessário. Não devem gastar o que têm, nem desperdiçar seu dia de folga com preparativos de festa, por minha causa.
A esposa do castelão, uma jovem senhora de cabelos castanhos e olhos de igual cor, argumentou:
— Eles ficarão felizes em fazê-lo, minha querida senhorita. Sois como uma santa para eles.
“Como ‘uma santa’... ELE?”, pensava Milo, sem acreditar no que ouvia. Queria MUITO entender o que se passava ali. Como alguém tão frio, dissimulado, duro e insensível poderia ser querido pela gente simples da terra?
Hilda deixou escapar uma risada de deboche.
— “Despedir-se da senhorita Camille”, pois sim! A ralé quer é bajular-te, minha irmã. Assim agradarão nosso pai...
— Falas isso porque jamais farão o MESMO POR TI – retrucou Seika, atrevidamente.
Marin ajuntou, tranquila, cravando seus olhos mel na irmã :
—Sim, Seika tem razão. És cruel com eles. Sempre os trata pior do que trataria os mais abjetos insetos. Outro dia, atiraste à cara da pobre Margot a escudela de sopa porque estava quente demais, e queimaste tua língua comprida.
Estarrecido, Teobald olhou para a filha.
— Tu fizeste isso, Hilda?!? – perguntou, em tom reprovador.
— Calai-vos, malditas fofoqueirinhas – rosnou para as menores, tentando acertá-las com broas e pães.
— Comportai-vos, demônias! – a tia Emilie tentava controlar as brigonas.
— Hilda, não tolero esse tipo de desmando. Sabes bem disso! Não é comportamento de cristão! – o duque bronqueou.
— Senhor meu pai – chamou Seika, por baixo das saias da tia Agnes — outro dia Camille que impediu que ela espancasse o pequeno Serge, que ajuda na cozinha; só porque ele tratou Hilda por “tu”, ela quase lhe bateu. Mas Camille a segurou pelo pulso e...
— Já chega – a voz do duque não deixava margem a réplicas. Todos se calaram. Hilda sentiu até a alma congelar ao ouvir o pai dizer:
— Hei de averiguar tudo que ouvi aqui. Todos sabem que não me agrado de excessos para com os desvalidos, ainda que sejam nossos serviçais. Se eu comprovar a veracidade, Hilda será castigada como se deve. Por ora, continuemos nossa refeição na santa paz de Deus.
Impressionado com tudo que ouvira e presenciara – então Hilda não era o “anjo” que achava que fosse... e Camus... — Milo pôs-se a observar o ruivo. Este, sentindo-se observado, acabou por deixar seu olhar se encontrar com o do noivo. Ambos se puseram constrangidos por aquilo.
— Eu não tenho objeções a que festejem, Pierre. Que achas, Henri? – o duque quis saber a opinião do fiel amigo.
— Sim, meu caro Teobald, a gente da terra tem direito de festejar em seu dia de folga, e de se despedir propriamente de tua primogênita, que partirá em breve para casar-se em uma terra distante.
— Penso o mesmo.
Camus deu um suspiro. Fazendo força para não olhá-lo novamente, Milo só pensava em como seria tolerar mais um dia naquele lugar... depois de tudo que ocorrera... e com essa agora... uma festa de camponeses... uma festa do populacho... uma despedida para “sua noiva”!
Sem perceber, suspirou como o noivo desolado.
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