Dame Jolie

58 Dívidas entre Irmãos


Notas iniciais
Nhae gentchiii Demorei, mas cheguei! Sempre assim, né? Ô vergonha kkk Obrigada pelo apoio, pelos comentários, e vamos logo ao que tanto tardou, né? Boa leitura!

Era a sexta ronda pela Gemini; começava sempre pelos compartimentos internos – catres, depósitos, cozinha, sala de armamentos, despensa, dentre outros – e terminava pelo convés, pelo tombadilho, pelas galés. À frente ia Kanon, vestido com esmero apenas recentemente adotado, e, logo atrás, Camus, que também passara a se vestir de modo diferente de semanas antes. Ambos trajavam túnicas feitas de linho marroquino, que iam até a altura da panturrilha, sendo a de Camus azul turquesa e a de Kanon, vermelho sangue; nas extremidades das mangas, fios de ouro tão brilhantes quanto os broches que lhes atavam capas aos ombros. Por baixo, vestiam calças justas de couro marrom. Botas de cano alto de couro negro, quase alcançando-lhes os joelhos.

Como toda aquela indumentária fizesse parte dos despojos do capitão deposto, foram necessários ajustes no comprimento das roupas agora usadas por Camus, pois que os gêmeos lhe excediam em altura cerca de 10cm. Quanto aos calçados, nada poderia ser feito até que chegassem à Sicília e lá providenciasse novos. Contudo, seguramente era melhor do que se fossem apertados.

Balançando o rosto para se livrar de mechas negras que por capricho do vento cobriram-lhe brevemente os olhos, Kanon recostou-se à balaustrada do navio.

− Tudo tranquilo e em absoluta ordem. – Comentou sereno, esperando que o ruivo apenas assentisse, como de costume.

− Da mesma forma que em todas as oito rondas diárias que temos feito.

− Estás a contá-las? Com que intuito, Laurent?

Camus virou-se na direção do horizonte dourado. Em vez de responder ao que o capitão questionara, observou:

− Estas rondas assemelham-se ao ato de um homem que retorna de uma caçada e almeja mostrar a todos o que caçou.

Longe de se incomodar com o que seguramente seria considerada uma total audácia, Kanon deu uma risada bem humorada.

− Cuido que compunhas canções ou poemas em tua pregressa vida de nobre, Laurent. És tão hábil com palavras e figurações!...

− Não cheguei a viver como nobre tempo suficiente para isso. – Volveu, despreocupado se parecia enfastiado.

Fitando-o curioso, Kanon apoiou o queixo com uma das mãos enquanto pontuou:

− Ah, sim, continuas a sustentar essa história... Saga acreditava, deveras, nela? Não que isso fizesse diferença para ele, afinal, só estava interessado em teu corpo. Tanto se lhe dava se tua versão era verdadeira ou não, por certo.

− Por falar nele – Corando, o francês buscou mudar de assunto. – Qual o motivo de tantas rondas? Acaso temeis um novo motim?

− Talvez eu queira, com efeito, mostrar a todos o que granjeei em uma caçada – Kanon respondeu, com um olhar penetrante sobre o nobre, que não pôde deixar de ter um frêmito de apreensão.

− Devo entender, com tal declaração, que a resposta ao meu questionamento é afirmativa?

− Não é que eu tema um novo motim. Considero, todavia, sensato mostrar à tripulação que, ao contrário de meu finado irmão – que o Diabo o tenha! – possuo como segurança pessoal um verdadeiro guerreiro. O melhor do navio. E a pessoa que lhe pôs fim à vida.

Ao proferir tais dizeres, percebeu que “Laurent” se calara e tornara-se sombrio.

− Não me digas que AINDA carregas culpa por havê-lo matado.

O tom do capitão enfim fazia-se sério. Após um breve suspiro, Camus expôs:

− Saga não fazia tantas rondas por dia. Acabareis por demonstrar que, ao contrário do que tão bravamente apregoais, temeis um novo levante.

− Ele foi, pois, negligente. Se o tivesse feito, teria percebido as intenções que afloravam.

− Por vós semeadas.

Um sorriso petulante foi a resposta do capitão, que caminhou rumo à cadeira estofada que ocupava no alto do convés. Durante o trajeto, homens ora faziam mesuras curtas, ora abaixavam os olhos, em sinal de subserviência. Tomando assento, Kanon fez um sinal para que Camus o acompanhasse à mesa. Consciente de que não tinha escolha, o ruivo obedeceu. Prontamente, Orfeu surgiu ali, ciente do dever que lhe cabia: tomou a jarra ao centro e depositou vinho no cálice que o capitão, sem dar qualquer ordem verbal, segurava. Orfeu fez menção de se retirar, ao que Kanon falou:

− Não vais servir Laurent?

Hesitante, Orfeu virou-se para Camus, que ergueu as mãos ao recusar:

− Não é necessário.

− Pretendes declinar de um convite de teu capitão, Laurent? – Disse Kanon, encarando um renitente Orfeu.

− Posso muito bem me servir, senhor ca...

− Teu dever aqui é OUTRO – Rebateu o capitão, com firmeza. E ergueu as sobrancelhas de modo jocoso para Orfeu. – Assim como o TEU é este.

A raiva de Orfeu fazia-se tão perceptível que era impossível para Camus com aquilo não se incomodar, conquanto simulasse indiferença.

− Perfeitamente, senhor capitão. – Foi mais um murmúrio que uma concordância legitimamente servil, mas disso não fez caso o risonho Kanon, ciente do quão difícil era para Orfeu servir “Laurent”, a quem detestava por ter sido por ele preterido nos desejos de Saga. Ademais, a raiva deixava ainda mais atraente seu tolo “concubino”...

Dali retirou-se Orfeu, fumegando de ira e despeito.

− Sabeis que vossa conduta o atormenta.

− E de que forma poderia ser isso problema meu?

− Bem... sois amantes, ao menos... é o que me parece – Elucidou Camus, um tanto constrangido. Na qualidade do principal segurança do novo capitão, mais do que qualquer outro dos guardas, acabava por ver e ouvir certas coisas...

− Hunf. Não me confundas com o néscio do meu irmão. Não possuo intenção de converter um varão em uma “esposinha” – Disse com desdém.

Vendo que o ruivo o encarava com indisfarçável reprovação, Kanon continuou:

− Ele não está sendo ludibriado. Eu já disse a ele: não importa se é um homem ou uma mulher a saciar nossas inevitáveis vontades. Acumulá-las tira nosso juízo e mesmo a saúde do corpo. Embora, via de regra, eu prefiro, sim, uma mulher. Por mais belo que seja um homem, há atributos que apenas as mulheres detêm. O aroma, a textura da pele, a candura, a melodia da voz e dos gemidos, a luz do olhar... não se compara!!!

Encheu o copo que rapidamente havia esvaziado.

− Sim, preferia a companhia de uma bela mulher. Entretanto, como vês – Abriu os braços em um gesto que mostrava o navio. – vemo-nos obrigados a capitular, em função dos anseios que nos inflamam em tanto tempo no mar.

− Mas tínheis que escolher aquele que um dia foi parceiro de Saga?

− Acaso estás com ciúmes?

Camus quase se engasgou com a bebida. Por mais que Kanon se agradasse sobremaneira de pilhérias, aquela foi inesperada por demais.

− Cuidas que a cor de teus cabelos espalhou-se para tuas faces! – Riu-se o capitão.

− Eu...! Eu falo isso porque imagino que seja custoso para Orfeu deitar-se com aquele que tramou a derrocada do homem que ele amou...

− Ele não despende qualquer queixume quando está em minha alcova, sendo fodido de todas as maneiras possíveis...

− Preferia não partilhar de vossos arroubos, se me permitis.

− Como estão teus ferimentos?

− Melhores a cada dia – Admitiu, aliviado pela mudança de tópicos. – Dohko tem cuidado muito bem deles. Percebeis como foi providencial não executá-lo?

− Só o fiz porque constava de teu preço para matar Saga.

O cálice do nobre bateu na mesa com força desmedida. Camus retrucou entre dentes:

− Dohko é mais útil vivo que morto. E poupá-lo NÃO foi meu “preço para matar Saga”. Nunca foi minha intenção matar Saga!

− Garantiste que dar-me-ias o domínio da Gemini.

− Não que iria matá-lo – Insistiu, atormentado.

− De que forma cumpririas tua palavra para comigo?

Camus sabia que seria tomado por ingênuo ao responder, mas tratava-se da verdade:

− Esperava que, uma vez rendido, ele pudesse ser vosso prisioneiro...

O acesso de riso de Kanon foi tal que atraiu a atenção dos demais guardas, que acompanhavam a cena à média distância, pois que não dispunham da proximidade que o “novato” desfrutava (exigida pelo novo capitão, evidentemente).

− Não conviveste tempo suficiente com ele, é o que te leva a proferir estultícias. Saga JAMAIS se entregaria sem morrer. – Afirmou, a expressão cômica cedendo lugar a uma mais séria. – A derrota fá-lo-ia querer perecer de qualquer maneira. Saga... sempre teve todas suas vontades satisfeitas. Por TODOS. Tudo SEMPRE foi como ele quis.

Pela primeira vez, Camus viu uma sombra toldar o semblante comumente álacre de Kanon. A despeito do vinho, sinistro palor cobriu-lhe o rosto e os olhos, faiscando de rancor, perderam-se em alguma recordação ao francês alheia.

− Tudo sempre foi como ele quis – Repetiu, e então voltou a encarar seu subalterno. – Até que TU apareceste. A inédita frustração a que tu o conduziste consumiu-lhe o senso, o qual, de acordo com TODOS, suplantava o meu. Hah!

Virou o cálice com sofreguidão, um filete rubro a deslizar pela linha do queixo.

− Apenas... não me eram dadas oportunidades bastantes para mostrar o MEU senso em ação. Nem pelo meu pai... nem pelo próprio Saga.

− Sinto-me impelido a inferir que previstes o desfecho quando da possível derrota de vosso irmão.

− Bem, não sou nenhum oráculo, mas...

− Em verdade, foi tudo uma eficiente maquinação vossa.

− E em função dessa “maquinação” tu e teu estimado Isaak tornar-se-ão homens livres, não?

Com um “hunf” satisfeito, Kanon depositou mais vinho nos copos, ignorando o gesto de recusa de Camus. Levou o cálice até os lábios contraídos e pareceu mergulhar em pensamentos inquietantes antes de inquirir:

− Tens tu irmãos, Laurent?

Surpreso, o ruivo reteve a respiração momentaneamente. Cuidou para que sua hesitação em responder não passasse por simulação:

− Tenho cinco irmãos mais velhos. Eu sou o sexto.

− Não eram tantos assim para que seja justificada a entrega de um filho.

− Talvez não entre as famílias da plebe, nas quais filhos significam pessoas para lograr seu sustento. Mas em uma família nobre empobrecida não é incomum, ao contrário.

− Durante o tempo em que conviveste com os que te viraram as costas, havia algum irmão que parecia ser o preferido de teus pais?

− O primogênito, por certo. – Respondeu, evocando o que Hilda sempre protestava.

− Como de praxe, deveras? – Sorriu Kanon, sem a animação ou o sarcasmo típicos.

− Sobre o primogênito pairam deveres dos quais isentos estão os mais novos. É natural que detenham mais atenção dos pais. – Camus observou, ciente de que falava por si.

− Não é preciso que me consoles.

− Não é, em absoluto, minha intenção. Então... tudo isso que houve entre vós... tratava-se de uma emulação de Jacó e Esaú? (1)

Apesar de Kanon tentar rir com espontaneidade, deu um mero resfolegar impaciente.

− Se vais citar as Escrituras, não te esqueças da história de José, vendido pelos próprios irmãos. Assenta-se com justeza à tua. Eu diria... à nossa. – Brandiu o cálice, em um brinde o qual Camus fingiu não perceber.

O ódio de um irmão, nascido da predileção dos pais por um outro... ao contrário dos gêmeos, que até renderam o nome da outrora embarcação do progenitor de ambos, ele não cedera àquele embate imposto pelas forças do destino; antes, o lamentara. Jamais gozou júbilo com o infortúnio de Hilda.

Melancólico, abaixou o olhar, perdido nas lembranças da irmã. Como estaria ela agora, no convento? Seu ódio, alimentado pela revolta por sua cruel punição, teria influenciado todos os dissabores pelos quais vinha passando desde a união com Milo?

− Vejo que toquei em um ponto sensível a ti.

No intuito de recuperar a aura fria e serena de costume, apressou-se em mirar o capitão e perguntar:

− Havemos, com efeito, de chegar à Sicília por estes dias?

− Se o mar e o céu continuarem a colaborar, e creio que assim há de ser, acredito que amanhã mesmo havemos de adormecer não sobre o balanço das vagas, mas sobre rijas e róseas carnes de mulher... oh, cuido que empalideces novamente, caro Laurent, toma, bebe mais vinho... há de ser a ansiedade pelas venturas que te aguardam em terra firme!

*************

A parada da Gemini na Sicília para fins de abastecimento de mantimentos, aquisição e escoamento de mercadorias mostrar-se-ia providencial para que o conde de Saint-Doulchard, o Marquês de Aguilar e o ex-camareiro Afrodite ganhassem tempo para avançar pelo Mediterrâneo, empreendendo à Antioquia uma chegada anterior à da embarcação em cujo encalço seguiam.

Em uma clara manhã de julho, Milo e seus companheiros de viagem, tão necessários quanto detestados, desembarcaram no porto de Antioquia, célebre desde a Antiguidade. Antes mesmo de reaver sua bagagem, trazida por tripulantes do navio no qual passara quase dois meses de sua vida, Milo olhou em torno, nitidamente angustiado. Sabia que devia procurar, antes de mais nada, o responsável pelo controle das chegadas e partidas das embarcações, mas o instinto fazia-o buscar com o olhar ansioso uma figura esguia e ruiva entre aqueles que circulavam pelo cais. Percebendo aquela inquietação, Afrodite tratou de contatar o capitão do barco em que haviam viajado, com a finalidade de solicitar a identificação do tal funcionário.

Cerca de uma hora depois, um homem corpulento de cerrada barba negra foi ter com eles, vestido à maneira dos mouros. Tão logo elucidou sua instância, o nobre loiro não se furtou a oferecer uma sacola de veludo vermelho, que continha centenas de moedas de ouro. Erguendo as fartas sobrancelhas escuras, o chefe do cais enunciou com deferência:

− Por que razão ofereceis recompensa por prestar-vos eu o que tão somente é meu ofício? A menos que vossa demanda oculte algum anseio ilegal, o que cuido não ser o caso...

Um tanto desconcertado, Milo ditou:

− Eu ficaria mais satisfeito se o aceitásseis, uma vez que estamos a tomar de seu precioso tempo.

− É meu ofício, repito-o. Quanto à vossa questão, a Gemini ainda não chegou a este porto.

− Não? Mas o barco deixou a França bem antes de nós nos lançarmos ao mar! O que pode ter acontecido?!?

Surpreso com aquela reação, o homem explicou:

− É comum que os navios mercantes que partam de terras mais ao oeste façam paradas no meio do caminho com fins de abastecimento e troca ou venda de mercadorias. Pelo que me lembre, o capitão Saga iria parar na Sicília. Chegastes antes dele porque viestes em um barco menor e não tão carregado.

− Uma... parada na Sicília? – Murmurou Milo, ao mesmo tempo confuso e aliviado.

− Por vezes, servem-se dessas paradas para adiantar negócios e se entregarem a distrações. É muito tempo no oceano, o senhor entende.

Não estava certo de entender, tampouco era de seu interesse.

− Destarte, há de chegar aqui em breve – Sintetizou um esperançoso Afrodite.

− Sim, estamos em uma época boa de navegação, eles não devem tardar mediante empecilhos climáticos ou coisa que o valha. – Shura ousou completar, ciente do desagrado do conde. Este insistiu para que o chefe do cais aceitasse a “recompensa” de uma vez, ao que não houve mais resistência. Dotado de grande senso, o homem considerou que o pagamento excedia demasiado às meras informações que prestara:

− Podereis aguardar pela chegada da Gemini em minha casa, se não vos ressentirdes da modéstia de suas instalações – Apontou na direção de uma edificação antiga, porém sólida, pintada de branco como as demais construções que se avizinhavam. – Vede, há um terraço do qual se avista facilmente tudo que entra e sai pela baía. E podereis vir comigo quando eu for ao encontro do capitão Saga.

Exultante como há muito não ficava, Milo fez uma profunda reverência ao agradecer:

− É muitíssimo generoso de vossa parte, gentil senhor...

− Chamo-me Ihab. Não vos curveis como se me fizésseis algum favor, o que me pagais é mais que suficiente para o meu humilde oferecimento. Hei de desagradar o meu Deus se não honrar tamanha dádiva.

Com um largo sorriso, Milo assentiu em feliz concordância; apresentou-se e, em seguida, apresentou as companhias que partilhariam com ele a cortês hospedagem de Ihab. Aquilo lhe saía melhor que presumira! Em breve, resgataria seu amado Camus, o dia não tardaria, e isso o enchia de uma euforia que há tempos não experimentava. Afrodite e Shura entreolharam-se, com discretos sorrisos em seus rostos entusiasmados. Conduzidos por Ihab, os três dirigiram-se para a referida morada. Milo retardou o passo para ficar bem perto de Afrodite e demandou, com voz baixa e autoritária:

− Não ouses envergonhar-me com tuas vis incursões noturnas travestidas de intenções curandeiras. Não se trata, agora, de camarotes de um navio e sim da casa de um homem respeitável!

Ultrajado, Afrodite levou a mão ao peito, como que fisicamente atingido.

− Por quem me tomas? Acaso sou eu algum cão, que não se furta ao intercurso diante de transeuntes??

O conde ignorou-o e virou-se para Shura:

− Caso vos inflameis a ponto de não mais vos conterdes, sugiro que vos retireis para alguma das ruínas que abundam estas paragens. Embora temo que, além de cães no cio, tornai-vos cães fujões.

− Não pretendo fugir, Milo, tampouco ceder novamente a tais arroubos com Afrodite.

Seria impossível ao sueco não se render a uma expressão de desalento, e a Milo, a uma de desprezo.

*************

A sinuosa costa já era avistada pela tripulação da Gemini. Os homens, empolgados, ansiavam por desembarcar após 38 dias de viagem. À parte de resolverem negócios e abastecerem o navio para mais várias semanas de viagem rumo à Antioquia, esperavam se divertir bastante na vibrante Sicília.

No convés, próximo ao mastro, alguns marujos em círculo presenciavam uma cena que seria corriqueira, não fosse seu protagonista o homem mais admirado e temido da Gemini.

− Palavra de honra, Laurent, nem nas cabeças das mais finas damas vi cabelos tão magníficos como os teus! – Admirava-se Isaak, enquanto trançava cuidadosamente as longas melenas do francês.

− Tudo que viste nas cabeças de damas foram piolhos, pequeno, admite! – Pilheriou um dos que assistiam ao processo, o que provocou risos nos demais espectadores.

Nem mesmo Camus, instalado em um assento de madeira enquanto esperava pacientemente pelo término do serviço, pôde conter um leve sorriso.

− E onde é que viste tais damas finas, amigo Isaak? Para comparar seus mais importantes adornos naturais aos meus tão descuidados cabelos?

− Eu discordo de que os mais importantes adornos das mulheres sejam seus cabelos, caro Laurent – Disse um homem de tez escura como os olhos que arregalaram jocosamente quando fez gestos lúbricos apontando para a própria virilha.

Em meio à nova explosão de risadas, Camus, também sorridente, demandou:

− Basta, que não consigo ouvir a resposta do meu jovem amigo!

− Vede, homens, a cor dos cabelos de Laurent transferiu-se para o rosto do saliente petiz!

− Calai-vos, como posso responder com tais matracas?? – Bradou o adolescente, de fato enrubescido com as provocações. Quando os outros conseguiram conter a hilaridade, ele pôs-se a explicar: − Já estive em residências apinhadas de finas damas, acompanhando ora meus amos, ora estes abutres do mar, quando de nossas paradas em terra firme. Eles costumam visitá-las para saciar suas voracidades de machos, que crescem como pão, após tanto tempo no mar!

Camus sorriu de tal maneira que semicerrou os olhos ao falar:

− Então são elas as “finas damas” a quem te referes. És, com efeito, galante e assaz lisonjeiro, Isaak.

Terminado o penteado, o ruivo pôs-se de pé, satisfeito. Gaivotas assomavam no céu, à aproximação da baía. Orfeu aproximou-se do eleito braço-direito de Kanon; trazia um tecido branco nas mãos. Estendeu-o para o nobre.

− Aqui está o que solicitaste. Não entendo o motivo, contudo, não me cabe entender, penso eu.

− Eis que finalmente pensas de modo sensato. – Retrucou Camus, o que causou risos nos marujos e irritação em Orfeu. Manuseou o tecido de modo interrogativo.

− Sabes como devo usá-lo?

− És tão sensato, deverias sabê-lo antes de pedir! – Respondeu Orfeu, dando de ombros e afastando-se dali.

Também Camus deu de ombros àquela reação; lançou um olhar impetrante para Isaak, que, por sua vez, parecia entender tanto quanto ele o modo de vestir aquela peça. Desdobrou-a e levou-a à cabeça, cobrindo-a de um jeito claramente desajeitado.

− Dá cá isso, de que forma entenderias como trajá-lo?!?

Todos ao redor de Camus afastaram-se para dar espaço ao capitão, que tomou-lhe das mãos o tal tecido. Estendeu-o com vigor, fazendo um barulho no ar. Alisou o pano, de formato triangular, e começou a efetuar dobras, sob olhares atentos. Por fim, colocou a peça sobre a cabeça do francês.

− Por que Laurent vai usar um véu para desembarcarmos em Cefalu?

− Isto não é um véu, pequeno Isaak, conquanto o aspecto possa remontar a um. Trata-se de uma ghutra, uma proteção para o sol que os árabes e sauditas criaram há muitos anos. E isto – Kanon mostrou uma espécie de cordão preto, antes de atá-lo ao pano que cobriu totalmente os cabelos de Camus. – chama-se igal: prende à ghutra à cabeça do usuário. Sem ele, o tecido seria levado pelo vento ou escorregaria mediante movimentos diversos.

Com uma mesura polida, Camus agradeceu ao capitão, que lhe sorriu amigavelmente.

− Também desconheço a razão, mas Laurent manifestou desejo de utilizá-la durante nossas paradas. Para mim é um mistério, uma vez que o sol em terra firme é menos inclemente que em alto mar. Todavia, não faço objeções, se é um desejo que em nada me desagrada.

Curvou-se sobre o rosto de Camus, depositando-lhe perto dos lábios um rápido beijo estalado, para estupefação do aristocrata.

− Ao contrário, assenta-lhe muito bem...

O pobre ruivo corou incrivelmente, o que aumentou o volume das risadas que já retumbavam entre os marujos. Mesmo Isaak não pôde conter o riso. Apenas Orfeu não achou a menor graça; cruzou os braços, virou o rosto e fez um muxoxo tal que provocou gargalhadas aos que aquilo não passou despercebido. Camus deu um suspiro resignado. Não podia revelar a ninguém o motivo de sua decisão em usar a ghutra: considerava que Sicília e Antioquia seriam lugares de intensa circulação de gentes de todos os cantos, dentre as quais bem poderiam estar pessoas que viessem a reconhecê-lo. Malgrado não estivesse vestido como “Camille”, tinha consciência de que sua aparência destoante daqueles marujos e tão próxima à notória condessa, agora desaparecida da França, haveria de despertar uma atenção que ele veementemente dispensava. Estava perto da libertação, precisava afastar de si risco de qualquer contratempo.

A Gemini atracou no porto de Cefalu, e os seus tripulantes puderam, enfim, desembarcar, munidos de boa dose de euforia. Após 6 semanas de confinamento, almejavam ardentemente desfrutar do que lhes faltava em alto-mar, e mulheres encontravam-se em alta prioridade para eles. Ciente de que sem resolverem de vez aquele anseio não teriam cabeça para todo o resto, Kanon exortou-os a gozarem de um dia e uma noite como quisessem, antes de seguirem para as obrigações que os levaram até a Sicília, depois das quais, teriam direito a desfrutar de mais um pouco. Homens satisfeitos trabalhavam melhor e mantinham-se mais leais e fiéis, Saga comprovara, com seu fatídico destino, aquele grande mandamento.

Obviamente Camus deveria, assim como Dohko e os demais guardas do capitão, entre eles Thor, cujo tamanho garantira-lhe a ascensão, manter-se sempre perto de Kanon. Isaak quis acompanhar seu amigo “Laurent”, ao que o capitão não se opôs. Os outros tripulantes principiaram a se evadir, separando-se em grupos que seguiam em variadas direções. Vendo que Orfeu não se decidia a se juntar a nenhum dos que se afastavam, Kanon falou:

− Vai logo aproveitar o tempo livre, rapaz. Com tão formosa figura, cuido que sequer terás de gastar tuas moedas de cobre...

− Eu... – Enrubesceu ao retorquir. – prefiro continuar com o senhor... se, claro, não vos agastardes de minha presença.

Kanon ergueu as mãos para o céu e bramiu jocoso:

− Eis que todos deram para ter vontades! Cuido que pensais vós que sou menos rigoroso que meu irmão. Enganai-vos, asseguro-vos! – E completou, piscando um olho, malicioso, para Orfeu. – O que quero hoje não podes me oferecer, gracioso menino. Vai-te daqui, que hoje quero é uma boa e macia mulherzinha.

− Talvez eu queira também! Afinal, sou tão varão como qualquer um de vós! – Orfeu bateu o pé, como uma criança que desafia seu pajem.

− Deveras? Ha, ha, ha, ha, ha! Pois muito que bem, acompanha-nos!

Disfarçando a preocupação que o assolava, Camus inquiriu:

− Iremos a um alcouce, é isso? Achei que antes de mais nada faríamos uma refeição, com um bom vinho.

− Parece que nunca estiveste num bordel. Poderemos ter lá todos os tipos de refeição – Riu-se Dohko.

− Meu bom Laurent, verás que o que nos espera serve além de boas mulheres mui decentes acepipes – Kanon bateu-lhe amistosamente no ombro ao elucidar. – Os outros dirigem-se a ninhos de ratos, nós, porém, iremos a um lugar bem mais distinto. Teu apetite será satisfeito em dobro, não te apoquentes.

De forma alguma a informação trazia alívio ao nobre. A despeito do sol, como bem dissera o capitão, inclemente, um suor frio despontava-lhe na fronte e nas palmas das mãos.

*************

A localização geográfica da Sicília no meio do Mediterrâneo, no extremo sul da Europa e próxima à África, fez com que a ilha recebesse a alcunha de “esquina do mundo”. Povos diversos conquistaram-na e ali fincaram bases, bem como disseminaram influências: cartagineses, romanos, aragoneses, sarracenos, bizantinos e normandos, sendo esses últimos os que a dominavam quando nela atracou a Gemini.

Na Sicília, esses povos deixaram marcas perenes na arquitetura, a exemplo dos templos antigos, posteriormente transformados em igrejas católicas. A vida do siciliano ligava-se intimamente ao campo e às atividades marítimas. A lava do vulcão ativo no Monte Etna fertilizou os solos da ilha, conferindo à sua agricultura notável potencialidade. Todos esses aspectos favoreceram o florescimento da Sicília.

Construções dentre as quais algumas remontavam aos primeiros séculos da era cristã despontavam ora brancas, ora em tons terrosos e arenosos, contrastando com o céu de profundo azul, o qual, para um embevecido Camus, remetia aos olhos de Milo.

“Em breve, estaremos juntos novamente, Milo. Imagino o quão angustiado deves estar com meu desaparecimento. É provável que penses que pereci. Hei de suportar por mais algum tempo, até que retornemos à França e eu encontre um meio de chegar a Saint-Doulchard. Por favor, espera mais um pouco.”, declamava em pensamento, os olhos avelã voltados para o firmamento, tão vasto como seu amor.

Kanon reparou-lhe o ar distante, julgando-o sonhador.

− Estás tão ansioso assim por te deitares com uma mulher? Não nos encontramos demasiadamente longe de nosso destino.

Aparentemente imperturbável, o ruivo replicou:

− Anseio menos por um par de coxas de mulher do que por um par de coxas de ganso com mel e ervas.

− Falas como se a bordo da Gemini ainda tivesses que se contentar com a mesma ração da época em que te encontravas nas galés: desde que te tornei meu guarda pessoal, serves-te do mesmo alimento que eu. – Redarguiu Kanon, que caminhava ao seu lado.

− Estou com fome, meu senhor, é tudo.

− Depois de tanto tempo no mar, devias estar com outro tipo de fome.

“Em verdade, estou”, considerou mentalmente, macambúzio. “todavia, não há como eu me saciar...”

Passados 20 minutos de caminhada, chegaram a uma edificação cuja fachada de granito em tom arenoso deixava entrever detrás de si o mar esmeraldino. Como adentrassem o palacete sem qualquer cerimônia, Camus percebeu que eles conheciam bem o lugar. Seguiram por um caminho de pedras redondas e alaranjadas, que cortava um aprazível jardim a céu aberto. Das galerias superiores, moças se debruçavam para acenar, aos risinhos, saudando-os. Subiram por uma pequena escada de mármore até acessarem o salão principal da bela, ainda que rústica, construção. Mesas com alguns homens bebendo e conversando com as meretrizes espalhavam-se pelo recinto. À noite deveria ficar bem mais movimentado que aquilo, pensou Camus.

Uma mulher robusta, de pele em tom caramelo e cabelos castanhos, de cerca de 40 anos, foi ter com os recém-chegados. Trajava um diáfano vestido púrpura, vestimenta, aliás, similar à que as jovens que se encontravam no salão usavam. Ela abriu os braços um tanto roliços, cheios de pulseiras e braceletes reluzentes como seus olhos verdes:

− Capitão Saga! Seja muito bem-vindo! Folgo em ver o senhor bem, e, como sempre, mui garboso, após tanto tempo!

− Rosalba, minha bela! Decerto estás de posse de algum segredo milenar, a cada ano que passa, torna-te mais formosa! Reparte-o, pois, com este teu admirado servo... – Sem dar importância ao fato de ser confundido com o finado irmão, Kanon beijou-lhe a mão brilhante pelo óleo de rosas e pelas gemas dos ricos anéis.

− Sois vós que olvidastes de seguir o fluxo do tempo, distintíssimo capitão. Conquanto sejais mais jovem que esta que vos fala, sei que vos aproximais do fim das 30 idades do vigor e, ainda assim, excedeis com galhardia os jovens nas artes do amor e da cortesia...

− E a essas 30 idades juntar-se-ão mais 30, estejas certa disso!

Camus logo inferiu que Rosalba fosse a dona do prostíbulo, que, até o momento, assemelhava-se mais a uma confortável hospedaria. Ela considerou os homens da Gemini, com o cuidado de umedecer os lábios carnudos com a língua, antes de indagar:

− Não estou a ver vosso irmão gêmeo. Espero que não tenhais más notícias para mim e minhas meninas, todas nós o apreciamos sobremaneira, tanto quanto a vós, naturalmente.

Com um sorriso efusivo, o capitão revelou:

− Folgo em sabê-lo, cara amiga, afinal, é com vosso apreciado Kanon que estás a falar.

− Oh... compreendo. – Foi a resposta em um murmúrio não muito surpreso. A Camus pareceu que Rosalba entendera no mesmo instante o que havia se passado.

− Sou eu quem comanda a Gemini agora. E não poderia haver melhor lugar para comemorá-lo com meus fiéis homens, penso eu.

− Sois sábio como vosso irmão era, que o Nosso Senhor o tenha em um bom lugar. – O tom de Rosalba soara menos caloroso, Camus não sabia se por comoção ou por desagrado. – Vinde comigo. Hei de instalar-vos no melhor lugar.

Sentaram-se todos à uma mesa retangular próxima a uma grande e alta janela pela qual entrava uma deliciosa brisa marinha. Entardecia. Dali se aproximaram moças trajando vestidos leves como o de Rosalba, com cinturões de rosas e os cabelos soltos como seus sorrisos, alguns não tão bem cuidados quanto as atraentes figuras poderiam sugerir que fossem; traziam nos braços odres de vinho e nas mãos, cálices que dispuseram sobre a mesa. Serviram-nos e dividiram-se entre as que se sentavam junto deles e as que tocavam instrumentos e que dançavam.

Camus e Isaak se entreolharam e sorriram, entre encabulados e aliviados. Embora estivessem em uma zona de meretrício de cidade portuária, a atmosfera fazia-se bem menos decadente e inóspita do que inevitavelmente supuseram. Kanon não faltara com a verdade quando lhes assegurara que iriam a um estabelecimento superior àqueles para os quais os demais tripulantes da Gemini haviam se dirigido, o que era confirmado também pela aparência, maneiras e vestimentas dos outros clientes. Decerto eram burgueses, comerciantes e mercadores enriquecidos e, como eles, os que pertenciam à parte mais alta da hierarquia náutica.

Uma a uma, as iguarias foram dispostas diante dos homens da Gemini: lebres recheadas com chouriço e rabanetes, esturjão, pernil de porco com laranjas e damascos, pão branco e pão de centeio, cabrito com alcachofras, peras cozidas com vinho e, ainda, figos secos. Com medo de ser julgado por Deus como o pior dos ingratos, Camus podia jurar que aquela comida era melhor que a preparada em seu próprio castelo! Ante aquele pensamento, sorriu, divertido: quem ali seria capaz de imaginar que ELE tivesse um castelo? Pois bem, em alguns poucos meses, estaria de volta...

− Ei-lo mais uma vez imerso em pensamentos que o levam para longe – Disse Kanon, deliciado com o vinho de maçãs, tão caros à gente do sul.

Percebendo que era a ele que o Capitão se referia, Camus pigarreou e sorveu a goles generosos sua parte da bebida.

− Estará a tramar alguma perfídia, por certo – Opinou Orfeu, desdenhoso.

− O que é que Laurent poderia estar a tramar? – Isaak manifestou-se em viva defesa do amigo. – Ele mostrou ser leal ao capitão Kanon, antes mesmo desse galgar o posto ora ocupado, e em breve deixará a Gemini, conforme acordado.

Com ar de desdém, Orfeu apoiou o rosto com uma das mãos e volveu, com os olhos fechados, quase musical:

− Saibas que eu aguardo avidamente por esse dia, que não tarde ele a chegar.

− Pois eu lamento deveras – Interveio Kanon, mirando com insistência o jovem ruivo, que se fazia alheio. – Há de ser um duro golpe à tripulação, um desfalque lamentável! Trata-se do melhor guerreiro que já esteve entre nós, o mais hábil espadachim. Não possuo a menor pressa de que esse dia chegue logo.

Agastado, o francês suspirou distraidamente. Nunca se sentia confortável quando Kanon demonstrava insatisfação quanto ao acordo que haviam selado.

− O senhor Dohko, Thor e os outros guardas são, de igual modo, guerreiros habilidosos, bem o sei, e creio que o senhor Kanon também o saiba. Ele não há de se encontrar desamparado, de forma alguma. – Ponderou tranquilo, sem evitar o olhar dúbio do capitão.

Seguiram daquele jeito por horas, comendo, bebendo, conversando animadamente. Jogaram alguns jogos, rindo e praguejando na mesma proporção. Camus sentia-se estúpido enquanto admitia que não estava nem um pouco desconfortável... não, não era nada mau ser, enfim, um “homem de verdade” perante o mundo, poder ser “ele mesmo”, e, mais ainda, ser respeitado como um guerreiro, um bravo, como o HOMEM que ele era. Ser um homem, e com outros homens viver e agir de igual para igual, viajar pelo mundo, ser respeitado, admirado. Temido, até.

Não fosse por Milo, por Afrodite, por sua família, pelo dever que tinha para com os Turenne e os d’Auvergne, talvez pudesse, um dia, caso não fosse liberto, acostumar-se àquela vida, afinal...

“Que tolices estou eu a pensar? Há de ser obra dos vapores destas estranhas beberagens”, pensou, sorrindo de um jeito ébrio que atraiu o olhar de Kanon. Orfeu percebeu algo de admirativo naquele olhar e trincou os dentes. Nesse exato momento, incentivadas pelo riso mais solto dos varões – que, em geral, significava que suas algibeiras também se tornariam mais soltas para deixar ir o dinheiro – as moças aproximaram-se, sorrindo convidativas. Rosalba a elas se juntou, anunciando:

− Caso estejais satisfeitos do álacre festim do qual partilhastes, talvez considerais deleitar-vos com outros prazeres agora.

Para não destoar do grupo, que sorria de auspiciosa expectativa, Camus também sorriu, intimamente receoso do que viria a seguir.

− Custosa é a incumbência de escolher entre tão formosas damas, bela Rosalba – Declarou Kanon, cortês, ao que as meretrizes suspiraram, cada uma torcendo com ardor para ser escolhida por ele. O imenso Thor, já de pé, como para demonstrar seu porte fenomenal, também foi considerado com esperança. Consideraram também que o marujo com ghurta na cabeça possuía um rosto assaz atraente, havia de ser um garboso varão...

− Vai, pequeno, escolhe tu a que desejas. – Ordenou o capitão, dando tapinhas no ombro do boquiaberto adolescente.

− E-eu? M-mas... deveis ser vós a deter a primazia de...

− Cuido que és virgem de mulher, por isso, dar-te-ei a primeira escolha como um presente.

− M-mas... mas por que concedeis semelhante privilégio a um reles servo como...

− Ora, vai-te logo daqui, ou hei de pensar que és um mal agradecido!

Rindo sem jeito, o norueguês levantou-se e parou diante da que parecia ser a mais nova dentre as mulheres, uma bela garota de seus 14 ou 15 anos, de longos e anelados cabelos castanhos claros e brilhantes olhos da cor de mel. Ela assentiu com ar satisfeito, tomou-o pela mão e o conduziu até os fundos do salão, por onde acessaram uma escada de pedra.

− Maldito seja o fedelho, era justamente a que eu ia escolher! – Resmungou um indignado Dohko. Camus suspirou aliviado por Isaak ter tirado a menina dali. Que lastimável, uma criança, praticamente, naquela vida... embora fosse degradante a obrigação de ter de se deitar mesmo com alguém próximo à sua idade, considerava que seria ainda mais aviltante se sujeitar a um homem que passava dos 40 anos, como o capataz.

Os que escolheram em seguida foram justamente Dohko e Thor, retirando-se com suas companhias. Dois dos guardas do capitão obtiveram permissão para igualmente proceder. De braços cruzados, Rosalba afetou perplexidade ao dizer:

− O senhor capitão declina de seu privilégio em favor de subalternos. Que homem singular e magnânimo!

Ele ergueu as mãos em uma afetada defensiva.

− Todas são formosas, prefiro laurear meus fiéis homens, como prêmio por seus serviços prestados até então.

− Sendo assim... – Uma jovem esbelta de cabelos loiros compridos até a cintura encarou Camus com tentadora gravidade. – talvez esse cavalheiro soturno e de tão belo semblante aceite a mim como companhia?...

− Vai com ela, Orfeu.

− Mas, capitão! Ela escolheu Laurent, não a mim!!!

− E desde quando é dado à refeição o direito de escolher qual comensal dela fartar-se-á?

Instintivamente, a meretriz retraiu-se, temerosa de algum castigo por sua ousadia. Ao menos, o tal Orfeu era bem bonito também, pensou. Não como o capitão ou o misterioso sarraceno, mas...

Antes de partir, Orfeu inclinou-se para Camus e sussurrou-lhe ao ouvido:

− Escapaste de um, porém, não há de escapar do outro. Espero que SOFRAS.

Por muito que quisesse ter disfarçado, o nobre ficou arrepiado com aquele augúrio. O pavor estampado em seu rosto foi recompensa suficiente para Orfeu, que sorriu satisfeito ao se retirar dali. Apreensivo com o que escutara, Camus manifestou-se:

− Posso ser eu a escolher agora?

− À vontade, caro Laurent. Pensei que não estivesses interessado... enganei-me?

Engolindo em seco, o ruivo absteve-se de responder ao capitão. Virou o cálice, esvaziando-o completamente. Apertou os olhos, sob uma súbita vertigem. Perdia a conta de quanto bebera. Não saberia afirmar se seu entorpecimento se devia, de fato, à bebida ou à ansiedade.

− Eu... escolho essa senhorita. – Apontou uma jovem de seus vinte anos, de faces rosadas e cabelos ondulados negros como seus olhos, que reluziram de alegria por ter sido escolhida pelo que considerara o mais bem apessoado daqueles homens rudes e barulhentos. Ele parecia até um aristocrata!, pensou, seus lábios pintados de carmesim incapazes de ocultar seu júbilo.

− Pois muito que bem, vai, diverte-te! Depois de te saciares, tem uma boa noite de sono. Partiremos pela manhã, após o desjejum, para a feira de Cefalu, onde encontraremos compradores e fornecedores.

Camus assentiu e deixou-se ser levado pela mulher; esforçou-se em andar em linha reta, a fim de não deixar transparecer demasiado sua embriaguez. Subiram a mesma escada pela qual seus companheiros de então haviam acessado o pavimento dos quartos, destinados tanto a pernoites quanto a atividades das quais o francês esperava escapar, embora ainda não soubesse como!

O recinto era diminuto, contudo, mais digno do que ele havia imaginado. Dispunha de uma cama com lençóis aparentemente limpos, de linho claro, uma mesa de cabeceira de boa madeira, sobre a qual dispunham-se uma jarra de vinho e dois cálices de cerâmica, um aparador em cima do qual havia castiçais, mais jarras e uma cesta com uvas, pêssegos e maçãs. Nenhum adorno no chão de pedra cinzenta ou nas paredes de mesmo material, a não ser a bela vista da janela aberta, que dava para o mar ao entardecer.

Incerto de como proceder, Camus ficou estático no meio do quarto. A meretriz adiantou-se para o leito, nele deitando-se com prontidão. Indagou, provocante:

− O senhor prefere me despir ou que eu mesma o faça?

− Eu... eu hei de despir-vos. – Mentiu, uma vez que não tinha qualquer intenção além de ganhar tempo. – Servi-me, antes, um pouco de vinho, peço-vos.

Ela estranhou tal cerimônia. Um cliente tratando-a por “vós”! Não desgostou, naturalmente. Obedeceu-o com sincera amabilidade. Os modos de cavalheiro pararam naquele ponto, pois que ele virou a taça com incivilidade típica dos fregueses daquele antro. Assustou-se com o acesso de tosse do marujo, temeu que se engasgasse.

− É forte!... – Balbuciou ele, quase sufocado.

− Será melhor que o senhor beba com mais calma...

− Considero que estais certa. – Falou, sentando-se na cama; sentia-se tonto.

− Cuidei que estivésseis acostumado a beber.

“Não bebidas de tão baixa qualidade”, foi a resposta mental de Camus, que não reconhecia que, com efeito, ele estava bebendo rápido demais.

− Qual é o vosso nome? – Perguntou, com a voz mais firme, conquanto baixa.

Novamente, a jovem ficou surpresa.

− Justine, meu senhor.

− Qual a vossa idade?

− Vinte e um, meu senhor.

− E aquela menina que foi a primeira a ser escolhida pelo meu grupo?

− Quinze, meu senhor.

Compadecido, o francês murmurou:

− Tão jovem...

Justine entendeu de outra forma. Com desalento no tom, indagou:

− Preferis que ela vos sirva em meu lugar? Posso chamá-la para que...

− Não, não! − Imediatamente e um tanto aflito, Camus balançou a cabeça em uma enfática negativa. − Não foi o que tencionei dizer!

Um sorriso aliviado despontou no airoso rosto de Justine.

− Folgo em sabê-lo. Temo proceder com ousadia em confessar que muito me apraz servir a um cavalheiro tão garboso e cortês como vós...

À aproximação da moça, Camus teve um sobressalto e quase deixou cair o cálice de vinho. Gotas escuras mancharam o tecido claro do sofá.

− Ah!... e-eu... pagarei por isto – Apressou-se em afirmar.

− Parece-me que estais nervoso. É por estar há tanto tempo sem desfrutar de uma companhia feminina, devido à vossa jornada marítima? Ou, por acaso, sois...?

− Escutai-me – Ele procurou baixar ainda mais a voz. – Proponho-vos um negócio assaz compensatório.

Tirou do dedo anelar esquerdo um anel dourado de espessa largura, adornado com uma impressionante gema verde.

− É ouro puro, com uma legítima e valiosíssima esmeralda incrustada. – O nobre estendeu a joia, outrora de Saga, à boquiaberta Justine. – Dar-vos-ei se me fizerdes um favor.

− Que quereis de mim?

− Que não reveleis a ninguém que me abstive de manter relação carnal convosco.

− Não me quereis? Rejeitais-me, pois?

− Não a vós, em específico. Não pretendo me deitar com ninguém que seja. – Argumentou, resoluto.

Após breve hesitação, Justine pegou o anel. Considerou-o primeiramente com admiração e, depois, com euforia. Agradar-se-ia de se deitar com tão formoso e gentil rapaz, todavia, conseguir aquele pequeno tesouro suplantava com larga vantagem qualquer prazer que obtivesse ali. Assentiu e prontificou-se em cumprir o acordo.

A bem de manter as aparências, ela somente deixou o quarto cerca de quarenta minutos mais tarde. Dando um profundo e aliviado suspiro, Camus deixou-se tombar sobre a cama. Parecia flutuar, fatigado pela tensão e pelos vapores etílicos.

Verdadeiro torpor apoderava-se dele; sentiu-se boiar na superfície de um lago. Fechou os olhos e a sensação intensificou-se, a ponto de experimentar suaves oscilações em seu corpo cansado.

− És verdadeiramente encantador, desfeito desse jeito, caro Laurent.

“Saga?!?”

O coração saltou-lhe no peito. Camus abriu os olhos de imediato e ergueu-se em um movimento brusco ao ouvir a voz de Saga.

Diante de si, sentado no leito, o capitão o encarava, sorrindo levemente.

Não. Saga estava MORTO.

Fora morto por SUAS mãos. Mãos que empunharam a espada que dera o golpe fatal no irmão de...

− Kanon? – Balbuciou, confuso. – Que fazeis aqui?

− Vim averiguar teu estado. Estavas ébrio como um monge libertino ao deixar nossa mesa. E, apesar disso, não te comportaste como um.

− De que estais a falar...?

− Por que não tomaste a messalina?

− O... o quê? – Gaguejou Camus, surpreso.

− Foste, deveras, generoso para com ela. Entretanto, eu fui MAIS, meu amigo...

Compreendendo o que se sucedera, o ruivo resignou-se a dizer:

− Não possuo a intenção de me deitar com ninguém. Creio que ela vos relatou.

− Achei que tivesses resistido às investidas de meu irmão por se tratar de virem de um homem. Percebo agora, no entanto, que não te agradas de mulheres.

O nobre enrubesceu; por puro instinto, procurou afastar-se do capitão.

− Arre, que sandice...!

− Laurent, afora isso, eu imaginava que tamanha resistência também se devesse o amor que devotas a alguém.

− Pois, é exatamente isso – Admitiu com assertividade.

Kanon ergueu as mãos afetando perplexidade.

− Sujeitaste-te a tantos sofrimentos por acreditar que teu amado saberias de algo a respeito daquilo?

− Por que dizeis “amado”? Meu coração pertence a uma mulher!

− Por todos caranguejos, nunca soube de homem que rejeitasse outras mulheres meramente por ter uma escolhida.

Ao invés de prosseguir com argumentações, Camus deu-lhe as costas e pegou a jarra de vinho da mesa de cabeceira. Encheu um cálice e pôs-se a sorver a bebida.

− Não sejas impolido, não és assim. Dá-me de beber, também, anda.

− Podeis beber em vossos aposentos com...

− Não sejas covarde – Kanon interrompeu-o, condescendente. – Acompanha-me. Não vim como teu inimigo.

Dando de ombros, Camus acabou por fazer conforme o capitão lhe ordenara. Beberam em silêncio por uns instantes, até que Kanon começou a contar:

− Nasci apenas dois minutos depois de Saga. Apenas. Mas foi como se, por isso, Saga conquistasse duas vidas, a dele e a minha, pois que nada tive enquanto vivo ele foi. Nosso pai só tinha olhos para seu primogênito, e não era diferente com nossa mãe, com a qual convivemos até sua morte, quando tínhamos nove anos de idade. Passamos a viver praticamente o tempo todo embarcados no navio herdado de nosso avô. Desde a meninice, já era sabido que Saga seria o substituto natural e por direito de nosso pai. Mas isso não era suficiente para Saga. Ele tinha que arrebatar TUDO de mim. Sempre. Sempre...

Pela primeira vez desde que o conhecera, Camus distinguiu no rosto de Kanon seriedade e amargura. Até a voz vibrava de ressentimento.

− Descobri o amor aos vinte e cinco anos, após possuir dezenas de mulheres em terra firme e homens em alto-mar. Seu nome era Tétis, era filha de um comerciante grego, amigo de meu pai. Ela também se enamorou de mim, de modo que acreditei que tudo seria mais fácil para nós. Seu pai não hesitou em entregá-la a meu pai, que acreditou que se a casasse comigo, eu me tornaria mais submisso a ele e a Saga, ao qual nunca me dobrei, não importasse quantos castigos eu recebesse.

− Vós a desposastes? E a levastes para viver convosco no barco?

− Sim. Já ouviste a respeito da inconveniência de se manter mulheres em embarcações como a Gemini, logo, podes inferir quão grave foi meu erro. Eu deveria tê-la deixado instalada em uma confortável casa próxima à zona portuária de Marelha ou Piraeus, ou, ainda, Ankara...

Ouviu-se o pipilar das gaivotas; Camus deteve-se naquele som, incapaz de tecer qualquer comentário, e, ao mesmo tempo, receoso pela sorte da personagem da história, tanto pelo tom de seu interlocutor quanto pela então ausência de Tétis.

− A presença de mulheres em navios que realizam jornadas muito longas, como rotas mercantes, de exploração ou mesmo de guerra, frequentemente ocasiona disputas que descambam para beligerâncias. Não é incomum que tais querelas acabem em morte. Por isso, são raras, hoje em dia, as tentativas de se manter mulheres a bordo de barcos do tipo que mencionei.

Nada surpreso em ver que já esvaziara seu cálice, Kanon encheu-o novamente, antes que o francês o fizesse. Fez menção de encher a taça do nobre, que, apesar de sinalizar que não queria mais beber, foi ignorado.

− Insatisfeito por ver que eu, finalmente, tinha algo que ele não tinha, Saga emboscou Tétis e a violou. Ele foi tão brutal que ela... – Cerrou os punhos e os olhos com firmeza sentida, sua voz tornou-se quase sufoca, tremida. − ... Tétis esperava um filho meu. O odioso ato causou-lhe ferimentos e hemorragia tal que ela... não resistiu. Morreu e levou nosso filho em seu ventre.

− Por todos os santos – Balbuciou Camus, tocado, levando a mão à boca. – Eu sinto muito.

− Obviamente, Saga não foi punido. Não recebeu sequer uma reprimenda de nosso pai. O velho, ao contrário, ralhou COMIGO, por ter ousado levar uma mulher a bordo, e, pior, ter desenvolvido por ela, sentimentos tolos que obliteravam os laços fraternos com seu “preferido”. Desde então, jurei que um dia eu venceria o destino e tomaria a Gemini de Saga, custasse o que custasse!

A última frase foi proferida em um brado revoltoso. Com os olhos verdes subitamente baixos nas mãos que seguravam a bebida, continuou, mais contido:

− Infelizmente, nunca detive as habilidades de luta dele e muito menos as tuas. Só pude contar com minha paciência, sagacidade e, no fim, com a sorte de teu aparecimento no navio; primeiro como a pessoa que extraiu do maldito a razão e a sabedoria que o mantinham onde estava e, depois, como formidável aliado e executor do crápula.

− Eu já disse... não foi minha intenção matá-lo – Retrucou Camus, debilmente.

Com o avançar do crepúsculo, o cinza das paredes do recinto tingia-se de tons cálidos por sobre os quais sombras de copas de oliveiras, balouçantes pela brisa marinha, moviam-se lentamente. Gaivotas despediam-se ruidosamente daquele dia, como a entoar cânticos de saudade prematura e, ainda assim, dorida.

Aquele som encontrou eco no coração de Camus.

Saudade.

Tinha tanta saudade de Milo!

Saudade se sua vida com seu amado.

Contudo, tinha, outrossim, uma imensa e inexplicável saudade do que NÃO vivera. Antes que inquirisse a si mesmo o significado daquele insólito pensamento, Kanon revelou, em tom confessional:

− Presumo que passarás a odiar-me por te revelar isto, mas... fato é que cogitei tomar-te de Saga.

Dir-se-ia que o nobre se tornara subitamente sóbrio, pois cravou no capitão os olhos estupefatos.

− Permite que me explique: nunca tencionei fazer-te mal algum, tampouco molestar-te, como fez meu desprezível irmão. – Abaixou as mãos que erguera em uma instintiva defensiva. – Ocorria-me o raciocínio vil que... se Saga arrebatara de mim a única pessoa que amei de verdade... não seria injusto que tirasse dele a única pessoa por quem ele verdadeiramente teve fascínio. Seria a única vingança ao meu alcance.

Voltou a encarar o outro, que se mantinha calado.

− Não obstante, admirei-te desde o início. Pela tua tenacidade em resistir à nova realidade que se assomava diante de ti, em seguida, ao capitão, não importassem as consequências de tua obstinada recusa a ele. Pela tua fibra de homem. Pelo teu valor como guerreiro. Não, de modo algum eu poderia ter conspirado contra ti, uma vez que te tornaste o homem que mais respeitei nesta vida...

Calou-se ao dar-se conta do olhar fixo e intenso de “Laurent” sobre si. Achou que receberia uma saraivada de impropérios, no entanto...

Camus removeu de si a ghutra. Os longos cabelos rubros e brilhantes caíram livres por cima de seu torso, prontamente convertendo-se no mais deslumbrante daquele homem, emoldurando-lhe o rosto mirífico.

− Se ainda vos aprouver obter a vingança que tanto almejastes um dia, conquanto póstuma, contra o irmão que tão mal vos fez... deitar-me-ei convosco.

Foi a vez dos olhos esverdeados do capitão se arregalarem.

− Sob uma condição – Prosseguiu Camus, engolindo mais vinho, nitidamente embriagado.

− Uma condição?...

− Que EU vos possua.

− Queres... queres me possuir?!?

Revirando os olhos, o ruivo serviu-se outra vez. Não se importou em servir o capitão. Preferia que ele parasse de repetir as palavras. Apenas queria fazê-lo. Sem mais delongas. Sem mais conversas. Sem mais negociações. Mas Kanon encontrava-se sinceramente abismado.

− Estás bêbado, Laurent.

− Talvez.

− Não sabes o que dizes.

− Não sei, é? – Não havia sarcasmo na réplica do francês, e sim, súbita e legítima dúvida.

− Então era como tu procedias com teu inesquecível amante? Tu o possuías, como se fosse ele uma mulher?

− Uma mulher? – O olhar de “Laurent” acendeu-se sinistramente. Viu-o morder o lábio inferior, entendendo que refreava alguma ira secreta. – Uma... mulher... – Ele recostou-se, aparentemente recobrando a apatia ébria.

− Uma mulher. − Repetiu, o ardor de lágrimas intrusas ameaçando-o. − Era o que eu... eu...

Talvez aquilo sempre o havia ferido. Ele apenas aprendera a conviver com a dor. A dor de não poder ser quem era. A dor de não poder ser e viver como um HOMEM.

− Mas eu SOU um homem – Murmurou, em aparente aflição. O capitão creditou-a à embriaguez do ruivo:

− Não há dúvidas quanto a isso. Contudo, no momento, és um homem BÊBADO.

Sob crescente angústia, Camus apertou os punhos.

Um dia, voltaria para Saint-Doulchard. Para seu grande amor. Para sua vida.

Para sua vida como a condessa Camille.

Não que não desejasse sua vida de volta, qual!, desejava-a com todas as fibras de seu ser.

Por outro lado, ter vivido todo aquele tempo como homem imprimira em seu âmago algo indecifrável.

Agira como homem, entre homens, por ser homem sobrevivera àquelas provações, como homem guerreara, fora respeitado, temido.

Enquanto experimentava aquelas torturantes reflexões, Kanon pôs as mãos cálidas em seu rosto gelado.

− Por muito tentador que seja, não tenciono servir-me de tua embriaguez para deitar-me contigo.

− Eu... – Camus queria calar-se, mas um impulso nublava-lhe o entendimento tanto quanto a bebida que excessivamente ingerira. – encontro-me plenamente cônscio de minhas ações. Quero possuir-vos.

Suspirando, o grego desceu as mãos para o peito do jovem; pôs-se a desamarrar a gola da túnica, em um sinal de que principiara a capitular.

− Não me acuses depois de ter me aproveitado de teu estado, rapaz. Procedes com insensatez repetindo tais palavras.

Adiantou-se para “Laurent” em busca dos lábios que acolheram o contato com inesperada volúpia.

− Vingar-me-ei de Saga, que roubou-me a amada Tétis e a meu filho que sequer pude conhecer. E ajudar-te-ei a saciar a saudade que tens de teu amado misterioso.

− Nunca disse que se tratava de um varão...

− Falamos demasiado. Vem, pois, Laurent, toma-me como o homem que és.

Uma onda quente invadiu o corpo de Camus, e ele sentiu como se tivesse se tornado outra pessoa. Entre vertigem, torpor, fúria e desejo, arrancou as vestes de si e, logo após, de Kanon, que sequer tivera tempo de fazê-lo. A força física do magro francês chegou mesmo a espantar Kanon, embora o capitão não sentisse qualquer temor. Estava curioso, divertido e, agora, excitado. E, ao julgar pela urgência dos toques e investidas do ruivo, não era o único excitado naquela alcova.

Como Saga fora tolo em tentar subjugar “Laurent”: o ruivo mostrava-se destemido nas artes de combate e, conforme comprovava naquele leito de bordel, na arte de dominar a seu bel prazer. Um homem como aquele jamais teria sido vencido por Saga, não da maneira que o tolo primogênito intentara.

Kanon sorriu, entre deliciado e maravilhado.

Vencia Saga de uma vez por todas, enfim.

*************

Acordou com o chilrear dos pássaros e a luminosidade que vinha aquecer-lhe a face. Estava deitado de lado para uma parede rústica de pedra. Demorou a entender onde se encontrava. Já não se equivocava pensando ser o querido castelo de Saint-Doulchard, no leito amado, ao lado do amado...

Fato que se tratava de um leito.

Uma cama.

Não um catre. Então... não estava no navio? Onde estava?

O simples e natural ato de buscar respostas mentalmente provocou-lhe dores agudas na cabeça. Cristo, atingiam-lhe com uma espada, por acaso? Que dor excruciante era aquela? Fechou os olhos com força, em meio a uma prece para que dela ficasse livre. Só experimentara dor de cabeça similar quando se recuperava da queda sofrida quando ao escapar dos torpes bandidos na floresta de Auvergne.

− Unng... – Gemeu, um intenso enjoo a piorar todo o tormento. Temeu vomitar deitado e se sufocar, de modo que ergueu o corpo dolorido... e nu... viu o que parecia sêmen ressequido em partes inferiores...

− Mas o que... – Murmurou, desnorteado. Assustou-se quase ao ponto de gritar quando viu que havia ALGUÉM deitado ao seu lado.

Cabelos muito compridos espalhavam-se por sobre a pele olivácea crivada de cicatrizes.

Cabelos negros como o breu do firmamento noturno.

A prostituta?

Sim, seus cabelos eram pretos, lembrava-se, o que conferia-lhe incômodo detestável. Todavia, não era uma mulher ali...

Um homem!

E, como ele, completamente desnudo!

Não, seria possível que...

Violenta ânsia de vomito fê-lo levantar em um salto, devido ao qual se desequilibrou e veio a cair no chão. Acabou por regurgitar ruidosamente no piso. O barulho acordou o capitão, que correu para ajudá-lo antes que se afogasse no próprio lanço.

− Pelos grandes mares, estás mal! – Disse, enquanto segurava-o pelo braço e pela cintura.

− K-Kanon...?

A expressão atônita do ruivo fez o capitão comentar calmamente:

− Cuido que te esqueceste do que se passou nesta alcova. Vem, ajudar-te-ei a voltar para a cama.

Incapaz de articular qualquer resposta, Camus mordeu os lábios, imerso em dor, enjoo e incredulidade.

Não.

Ele não se esquecera.

Não se lembrava de maneira integral, contínua, entretanto, estava ciente do que fizera. O que potencializou seu mal-estar. Quase desfaleceu, tragado por aquele turbilhão de sensações e emoções. Kanon viu-se obrigado a carregá-lo para o leito. Depositou-o sobre o colchão. Empertigou-se, cruzou os braços enquanto mirava-o com certo escárnio.

− Como esperado do nobre e pudico Laurent. A bebida instigou-o a comportamentos inimagináveis, hã? O que me surpreende é que um homem tão forte seja tão fraco para bebida, há, há, há!

Autoacusações crivaram o coração de Camus. No entanto, não cederia a elas. Preferiu acreditar que a crença do capitão traduzia a verdade.

Com efeito, não estava tão longe do que ocorrera, e seu mal-estar comprovava-o. A embriaguez conduzira-o àquele ato inominável, condenável.

“Não obstante”, constatou tristemente, “eu me lembro!”

Por que procedera de maneira tão torpe, túrpida... BÁRBARA, até?, foi o que se figurou em suas conjecturas, a julgar pelas marcas frescas nas costas, nádegas e coxas de Kanon. Até seus braços tinham hematomas. Estremeceu de puro horror e arrependimento.

− Eu... vos machuquei? – Inquiriu, constrangido.

− Laurent – Disse o capitão, enquanto se vestia. – És insigne guerreiro. Contudo, ainda podes ser surpreendido pela lâmina de uma espada quando, como os demais homens adormeceres.

Camus sufocou uma exclamação; Kanon mirou-o, sorridente como sempre.

− Isso somente ocorreria se relatasses o que neste recinto se sucedeu. – Jogou sobre as costas a capa vermelha, e a prendeu com um broche de ouro e lápis-lázuli. – Mandarei que Isaak venha cuidar de ti. Fica aqui até que te recuperes.

Sem mais se pronunciar, o capitão dirigiu-se até a porta, e por ela evadiu-se.

Sentindo-se mal como nunca se sentira antes, o ruivo quis dormir novamente, e para sempre.

“Eu TRAÍ Milo... mas por quê? Como? Por que fiz isso?”

Mergulhou no sono outra vez, lágrimas a umedecer o travesseiro no qual afundara o rosto contorcido de amargor.

*************

Já era noite quando ele acordou.

− Laurent? Até que enfim!

Isaak surgiu diante dele. Parecia preocupado. Camus viu-se coberto com o lençol. Envergonhou-se em ver o adolescente ali.

− Estava com medo de que não voltasses a acordar. Dormiste o dia todo! Como te sentes?

− Melhor – Admitiu, em voz débil, a dor de cabeça ali, conquanto misericordiosamente menos implacável.

O amigo deu-lhe água, que bebeu com sofreguidão.

− Consegues levantar-te?

Incerto sobre a real vontade de fazê-lo, Camus assentiu.

− Preparar-te-ei um banho.

“Dizes isso porque sabe que estou sujo”, pensou o nobre, desanimado.

− Posso cuidar de mim, Isaak.

− Decerto te encontras enfraquecido, passaste mal e não comeste nada o dia inteiro.

Sentando-se na cama, Camus quis saber:

− Kanon... onde ele está?

Pareceu-lhe que Isaak estranhou a pergunta.

− Lá embaixo. Esteve fora, resolvendo negócios, e, agora, bebe com os outros.

O norueguês estendeu-lhe uma gamela com cozido de carne e nabos.

− Antes de procederes à higiene, come, deves estar fraco e faminto.

Sem qualquer hesitação, Camus alimentou-se com voracidade diante de um calado Isaak. Só depois de haver se saciado propriamente, ousou indagar:

− Por certo, tens asco de mim.

− Asco? – Fez o adolescente, sem entender. – Por que teria asco de ti? És meu amigo! O único que tenho! Que tanto fez por minha vida e segurança!

− Isaak – Murmurou, quase sem forças, a despeito da refeição. – Em breve, serás livre como eu. Virás, pois, para a terra onde sou esperado?

− Laurent... hei de ir contigo até onde quiseres que eu vá – Assegurou. – Diz-me, entretanto... quem espera por ti? Uma esposa? Filhos?

O ruivo mirou-o de modo febril, ansioso.

− Alguém que amo. E que me ama. E... apesar disso... eu... e-eu...

Segurou a cabeça com as mãos. Lágrimas ardentes vieram-lhe aos olhos.

− Ama-a, deveras! – Observou Isaak, tocado com a emoção do outro. – Quem é tua esposa? Como se chama?

− No tempo certo, sabê-lo-ás.

− Quanto mistério – O norueguês resmungou. Fez-se logo animado: − Se assim te aprouver, que seja feita tua vontade. Não importa para onde vás, com quem vives. Hei de ser sempre tua fiel sombra!

*************

Um mês se passou.

Para alívio de Camus, mas não para sua surpresa propriamente dita, Kanon nunca mencionara a noite no bordel da Sicília. Tratava-o exatamente do mesmo jeito que antes da noite em que fora possuído por “Laurent”. Seria a posição em que copularam a responsável pelo silêncio do grego? Camus tinha ciência de que mesmo entre os homens que praticavam coito com seus iguais, grande parte deles, se não a maioria, execrava a “posição de mulher”, mantendo segredo total se a ela se sujeitassem.

Posicionado na balaustrada da Gemini, contemplava a vastidão prateada do mar, que refletia um céu de semelhante cor, salpicado pelas negras silhuetas que adejavam ao longe.

− Gaivotas – Comentou Dohko, parando ao seu lado. – Sinal de que nos aproximamos de terra firme.

− Antioquia, enfim?

− Sim, Laurent. Antioquia!

O chinês espreguiçou-se prazenteiramente.

− Se consideraste a Sicília terra interessante, hás de ficar maravilhado pela Antioquia.

− Confesso que tão somente anseio pelo dia de retornar à França.

− Hehehehe, se levamos quase três meses de lá para cá, contes tu com mais três meses até te veres livres de nós, caro amigo – Brincou Thor, chegando por trás deles.

− Eis um dia pelo qual anseio com o mesmo anelo, Laurent – Chasqueou Orfeu, parando perto deles, em uma vã tentativa de provocar Camus.

− Por que segues com tua implicância com o nobre Laurent? Alçaste a condição com a qual sempre sonhaste, Orfeu. Deixa-o em paz – Dohko ralhou com ele, e Camus achou graça daquilo. Há meses, o atormentava, a mando de Saga, e agora, defendia-o! Sabia que o capataz se referia ao fato de Orfeu ter logrado, enfim, tornar-se “o concubino” do capitão.

Com o passar do tempo, Camus deixou de se atormentar com a visão ou a proximidade de Kanon, pois esse parecia alheio à lembrança da noite em que fora possuído por um mero guarda seu. Obtivera ele a vingança contra o odiado irmão.

Enquanto isso, no terraço da casa em que se hospedava havia cerca de 40 dias, Milo observa distraidamente o mar no qual barcos deslizavam lentamente rumo à costa. Sempre ficava ali imaginando o momento em que seu anfitrião finalmente irromperia o lugar afobado, anunciando:

− Meu senhor, a Gemini... a embarcação pela qual vós esperais ansiosamente há tanto, aproxima-se do porto!

O loiro virou-se para ele, o coração aos saltos no peito.

− Tendes a certeza, meu bom Ihab?

− Sim, excelência, certifiquei-me há pouco. Vinde comigo, pois? Para recepcioná-los, como quereis?

Prontamente, o conde bradou a plenos pulmões:

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− Afrodite! Shura! A Gemini se aproxima! Vai atracar em breve! Partamos!!!

Do jardim onde conversavam, os dois ouviram-no e correram para a frente da residência, onde encontrariam com o conde e o chefe do cais, que para lá os levaria. Ihab conduziu-os sob o tímido sol que escapava por entre aquelas nuvens cinzentas.

Na Gemini, os homens se preparavam para desembarcar. Camus pôs sua ghurta sem ajuda, uma vez que aprendera a colocá-la. Isaak franziu o cenho ao comentar:

− Não está tão ensolarado para que precises lançar mão de tal artifício.

− É necessário – Volveu o ruivo, sempre a considerar de suma importância se ocultar em lugares frequentados por tantas pessoas de tantas partes.

**************

A âncora fora lançada.

Antioquia, enfim!

Os tripulantes da Gemini desciam, seguindo seu capitão. Ao vê-lo, da comitiva que viera com Ihab para ter com ele, Shura apontou:

− Ei-lo! O capitão Saga!

− Andemos, pois, ao seu encontro – Disse Milo, adiantando-se ansioso.

Atrás de Kanon, seu mais fiel e valioso guarda, que trazia uma espada em punho, sempre alerta a qualquer ameaça que pudesse rondar seu capitão. Distinguiu quatro figuras vindo em sua direção. Segurou com mais força a bainha da arma ao perceber que, de fato, caminhavam rumo a Kanon.

− Saudações, capitão Saga! – Bradou Ihab, à frente dos outros três.

Por entre as nuvens, o sol se libertava aos poucos, seus raios certeiramente incidindo sobre um dos homens, que tomava a dianteira do chefe do cais.

Os longos cabelos loiros agitaram-se na cadência do vento marinho e, sob o liberto astro-rei, brilharam mais intensamente. Todo aquele ser brilhava.

Como o sol.

Ele era o sol.

As pernas de Camus fraquejaram miseravelmente.

O Sol de sua vida.

− Não pode ser... – Um fio de voz. Um tremor. Uma lágrima que cintilou.

− Ora, mas é o Marquês de Aguilar que ali vem com Ihab – Supreendeu-se Kanon, erguendo as negras sobrancelhas.

− Como? Por que ele está aqui?

Cedendo a um irresistível impulso, Camus arrancou de si a ghurta, deixando livre a cabeleira ruiva que serpenteou ao sabor do vento. Àquela visão, Milo temeu fenecer.

“Camus!!!”, pensou, apenas, visto que não podia chama-lo por aquele nome.

“Milo!!!”, Camus fez o mesmo, sua boca entreaberta, o chamado suspenso no ar e no silêncio.

Encontravam-se, enfim!!!

*************

Notas finais
(1) História bíblica contada no livro de Gênesis, sobre a luta de dois irmãos pelo direito de primogenitura, que, por direito, cabia a Esaú, e foi usurpada por artimanha de Jacó, que enganou seu pai em leito de morte, se fazendo passar pelo irmão mais velho. ****** Milo e Camus encontram-se, enfim! Depois de tanto tempo! Mas... conseguirão, enfim, se unir como pretendem? Que há de acontecer na Antioquia? Muito obrigada por prestigiarem! até o próximo capítulo!!!