Dame Jolie

33 Confiança e Rendição


Notas iniciais
Olá a todos! Vamos a este que é, sem dúvidas, um dos capítulos mais esperados da fic... Milo pagará a aposta, sim ou não? É o que já já você confere, hehehe. Quem participa do grupo "Fics da Amelinda" no Facebook já está a par de dois personagens históricos que aparecem neste capítulo, o já conhecido Filipe II, rei de França à época, e a estreante Inês de Merânia. Nas notas finais reforço acerca deles. Ah, e por falar no grupinho, chegou a 200 membros o/ nada melhor que uma atualizaçãozinha para comemorar, não? ^^ Agradeço pelo carinho e pelo apoio de vocês... obrigada também pelos lindos comentários, termino de respondê-los todos ainda este final de semana. A arte da capa é de TheLiquidBoy Boa leitura!

A primeira manhã de novembro irrompera tão fria que mesmo o sol parecia tímido, escondendo-se por entre as brumas que se desmanchavam das alturas até as profundas colinas.

Os trabalhadores da terra há muito labutavam nos campos enevoados; era mister que aproveitassem o máximo possível do dia. Em poucas semanas a produção tornar-se-ia escassa pelos caprichos da mais temida das estações, logo, estocar o que pudessem da terra extrair fazia-se imperioso. Regozijavam-se das novidades trazidas pelo Conde de Saint-Doulchard; o aproveitamento do solo fora substancialmente potencializado pelo uso da charrua, do arado de ferro, da grade enterroar, dentre outros, que facilitavam o trabalho de lavrar a terra. Especialistas oriundos da Ibéria ensinaram-nos técnicas como o afolheamento trienal, que protegia a terra dos desgastes, ao adotar a rotação de cultura; um terreno permanecia em “repouso”, enquanto outros dois eram semeados e explorados. Canais de irrigação e novas formas de adubagem também fizeram sensível diferença. Tudo isso aliado às melhorias climáticas verificadas nos últimos anos levava a crer que aquele inverno não demandaria grandes privações, ao menos não comparáveis às vividas pelos pais dos pais daqueles camponeses. Com efeito, seus filhos já se alimentavam melhor do que eles quando jovens.

Não obstante, pela Europa tais melhorias agrícolas significavam invariavelmente vantagens menos para os camponeses do que para os nobres; estes, com o excedente de produção, lucravam como nunca. Para a gente da terra garantida estava apenas uma maior sobrevida para trabalhar por mais anos pelos poderosos… felizmente para os habitantes de Saint-Doulchard, o novo governante fazia parte de um diminuto grupo de senhores de terra com um mínimo de compaixão para com seus súditos, raros aristocratas que ofereciam certa dignidade àqueles que os serviam. Ao contrário dos que arrebatavam quase tudo dos camponeses, deixando-lhes o mínimo para que sobrevivessem, esses seletos nobres cobravam o considerado justo pelas terras ocupadas, além de pagar em moeda local pelos produtos a mais que desejassem adquirir. O resultado era um aumento na satisfação e na qualidade de vida dos que na terra labutavam e, consequentemente, na produção. Com a graça de Deus, experimentariam mesmo fartura! ( 1 )

E ainda havia a festa de aniversário do Conde Milo.

Em seis dias, inaugurar-se-iam os festejos dos quais toda a gente participaria, se não nos salões nobres, nos campos e arredores do castelo. Em um dos três dias de celebração, ser-lhes-ia permitido festear nos pátios da fortificação, e assistir aos tão esperados números mambembes! Truões, mágicos, acrobatas, malabares, dançarinos... afora a almejada comilança, farta em carne... evocando esses prazeres vindouros, lançavam-se à labuta com ânimo renovado. Deus fosse louvado por ter-lhes enviado um governante tão bom quanto o jovem Milo D’Auvergne!

Enquanto o trabalho no campo seguia incontinenti, no castelo pouco diferia o cenário, no afã de que tudo estivesse devidamente preparado para a comemoração dos 23 anos do senhor conde: verdadeiros mutirões de limpeza em todos cômodos e recintos, agilização nas obras externas, movimentações incessantes nas cozinhas, padarias e olarias, reabastecimento de víveres, preparações nos açougues e charcutarias, tudo se orquestrava harmonicamente para o sucesso da solenidade na qual até o rei Filipe II estaria presente!

De fato, nunca se vira nada semelhante na província!

No grande salão, a mesa fora posta para a refeição matinal dos nobres, do capelão e dos funcionários. Ocupavam-na, como era de praxe, o castelão Pierre e sua esposa, o barbeiro-cirurgião Riquelme, o capitão da guarda Edvanis, Leopold, líder comunitário dos camponeses e um dos secretários de Milo, o secretário geral Odélio, o capitão da guarda Neville, o capelão Antoine e, naquela manhã, dois nobres que ali se hospedavam, o marquês e a marquesa de Abeillard. Serviam-se de leite com especiarias e vinho com parcimônia, pois que os senhores da casa ainda não haviam chegado. Um quarto de hora depois “Camille” e seu camareiro-mor Afrodite adentraram a sala. “A condessa” trajava um vestido azul turquesa com bordado de pérolas e ametistas, mesmas pedras em torno de seu pescoço sempre com lenço, desta vez de puro veludo púrpura. Os cabelos rubros estavam trançados, apenas duas longas mechas frontais quedavam-se livres rumo ao torso elegante. Seu camareiro trajava-se como para uma festa, o que era usual, aliás; uma túnica dourada, com figuras em motivos florais, incrustadas de rubis. Após os cumprimentos, tomaram seus assentos. Antes que fosse interpelado, pois que pelos semblantes curiosos adivinhou que o seria, Camus anunciou, tão plácido quanto altivo:

— O senhor meu marido encontra-se indisposto nesta manhã. Vossas preocupações de ontem não eram infundadas, pois – a voz feminina e monocórdia – ele permanecerá em repouso até que se restabeleça por completo. Rogo aos senhores que tratem comigo o que tiver que ser resolvido, por ora.

— Oh, mas que um infortúnio! Senhora condessa, eu posso examinar o excelentíssimo conde agora mesmo, se assim o desejardes...

— Agradeço vosso oferecimento, senhor Riquelme. Afrodite já prestou-lhe a devida assistência.

Àquelas palavras “da condessa”, o barbeiro-cirurgião franziu o cenho. Recostou-se mais na cadeira, visivelmente ultrajado. Não se conteve:

— Perdoai-me a inconveniente intromissão, caríssima senhora. Por vezes, esqueço-me de que para todos no castelo e circunvizinhanças apenas o senhor Afrodite está apto a cuidar dos enfermos...

Sorrindo afetadamente, o sueco disse ao aborrecido homem:

— Não hei de molestar-vos por muito mais tempo com minha presença, senhor Riquelme. Após os festejos pelo aniversário do senhor Milo, partirei para a Universidade de Paris, lembrais-vos?

— É verdade, o senhor Afrodite aceitou a proposta de nosso senhor. Como folgamos em sabê-lo! O senhor conde tem tantos planos para o hospital de Saint-Doulchard! – declarou o castelão Pierre, fechando os olhos claros ao sorrir largamente.

— Hunf. No final das contas, o estimadíssimo camareiro-mor faz parte desta geração que precisa aprender nos livros o que homens como eu aprenderam na tradição e na experiência... em suma, na vida. – disparou o barbeiro-cirurgião, com mal disfarçada inveja.

Nem de leve Afrodite abalou-se com aquele desprezo cênico:

— Acredito que tudo tem a sua devida importância, senhor Riquelme. Ademais, a Universidade de Paris conta com mestres vindos do Oriente, sabidamente os mais versados do mundo em Medicina.

— E essa agora, comprazeis-vos em serdes doutrinado por mouros?!? É o fim dos tempos!!!

Alheio àquela discussão, a qual o camareiro tomava como mero divertimento, Camus revisitava em sua mente cenas passadas na alcova durante a madrugada...

Mentira sobre Afrodite ter examinado o conde. Como poderia? Milo teria preferido se atirar da mais alta torre do castelo a contar com a ajuda do sueco NAQUELE MOMENTO... e por AQUELA razão.

Não estivessem os convivas ocupados com o cômico embate entre Afrodite e Riquelme, talvez teriam percebido um singelo sorriso nos rubros lábios “da condessa”. Ou, se tivessem-no percebido, creditá-lo-iam à hilaridade despertada pela contenda ali instaurada.

No entanto, o sorriso devia-se a deliciosas lembranças...

Lembranças de Milo enfim subjugado a ele.

Lembranças de Milo gemendo de dor... e depois... de prazer...

Chegou a pensar que não iriam até o fim com aquilo!

Na noite anterior, Camus despira-se por completo e ficara a contemplar o esposo, igualmente nu. Poucos archotes ardiam nos aposentos senhoriais, o que conferia ao momento uma atmosfera tão intimista quanto misteriosa. Fitaram-se por um bom tempo, o ruivo de pé e o loiro a aguardá-lo no leito. Admiravam mutuamente a beleza dos corpos, cada qual com suas peculiaridades tão amadas pelo parceiro: Camus, magro e pouco tonificado, a brancura da pele a contrastar com os cabelos quase escuros, tão vermelhos e luzidios. Milo, cujos músculos definidos traíam o rigor de tantos exercícios marciais, os cabelos dourados em desalinho formando um exótico conjunto com a tez dourada pelos sóis de tantas jornadas e aventuras. Os olhos azuis deste percorriam o corpo do amado, fixando-se no avantajado membro, o que fazia-o engolir em seco. O dilatar ritmado das narinas afiladas traía-lhe o esforço em aparentar tranquilidade. Umedecendo os finos lábios, Camus proferiu, também ele esforçando-se em parecer sereno:

— Não precisamos ir adiante com isto se não o quiseres.

Após uma breve surpresa, Milo encarou-o e respondeu, com firmeza:

— Não sou homem de quebrar acordos, Camus. O combinado SERÁ mantido. A menos que TU não o queiras.

Sobressaltado, o ruivo balançou a cabeça em uma enérgica negativa.

— Não, eu não falo por mim! Eu... eu o quero. – Admitiu, quase envergonhado.

— Tu queres e eu devo cumprir minha palavra. Andemos com isso.

Embora o tom dessa fala fosse neutro, a mesma não deixou de atingir dolorosamente o jovem de pé. Este replicou, em voz baixa:

—Eu mudei de ideia.

— Posso saber por quê? – surpreendeu-se vivamente o conde.

— Não me agrada que tu te ofereças a mim de má vontade... ou... pior ainda... contra a tua vontade – abaixou o olhar ao esclarecer.

Estupefato, Milo não encontrou o que dizer por alguns instantes. Ficou a observar o esposo, e neste processo, enternecia-se pouco a pouco, a ponto de sentir abrandarem suas amarras. Ajoelhou-se na cama e, carinhosamente, trouxe o marido para junto de si.

— Camus. Eu NUNCA me deitaria contigo de má vontade. Tampouco faria algo contra a minha vontade. E não há como ela não existir se é tu quem estás junto a mim... – falava, acariciando a face do amado.

Inseguro, Camus voltou a mirá-lo, e então foi por ele beijado nos lábios, suavemente. Intensificando o beijo, recrudescia seu ânimo para prosseguir no que considerava “uma odisseia”. Enquanto emergia nas inebriantes sensações provocadas pelo calor de Milo, pelo toque de Milo, de sua boca, sua pele, daquele corpo tão desejado, recapitulava caminhos a serem seguidos. Tanto ele como o loiro estavam nervosos... não obstante, sabia que nada havia a temer. Descobriram tanto juntos! Descobririam mais territórios recônditos... sim, a “odisseia”... sua “odisseia”... a odisseia deles prosseguiria!

Findo o longo e quase sufocante beijo, prepararam-se para aquela inédita jornada.

Os longos e alvos dedos dançaram sinuosamente pelo peitoral moreno. Àquelas carícias juntou-se a boca de Camus, provocando um suspiro em Milo; este recostou-se aos travesseiros macios e perfumados, no afã de regalar-se mais. Não queria que o parceiro percebesse sobremodo seu nervosismo. Os arrepios semeados pelos lábios umedecidos em torno de seu umbigo intensificaram as batidas descompassadas de seu coração. Suspirou discretamente, permitindo-se fechar os olhos.

O que estava para acontecer!...

Malgrado o visse relaxado, Camus discernia-lhe o dilema travado no âmago. Além de temidas questões fisiológicas havia as morais... convicções há muito arraigadas, pois que as únicas sob as quais Milo vivera por tantos e tantos anos.

Fazia-se mister o melhor empenho possível... mas como obtê-lo se sua prática naquele ato específico era inexistente?

— Oooh... isso... é tão delicioso... – o conde murmurou, quando a língua quente do ruivo deslizou-lhe pelo órgão a turgescer.

Animado ao comprovar o crescente deleitamento do amado, Camus pôs-se a massagear-lhe os testículos, com uma delicadeza simultaneamente gentil e provocadora. Passados alguns minutos, tomou fôlego e iniciou uma felação que tencionou desarmar o consorte de vez.

— Aaahh! Ahn...

Bom, se não de vez, de maneira a sinalizar para que seguisse em frente.

E Camus o faria.

Já despertava algo novo em si, algo que apenas inconscientemente sabia se tratar de nada mais, nada menos que o instinto, um instinto que sempre habitara seu corpo de homem, mas que agora, finalmente, eclodiria e seguiria seu curso primo.

De sua parte, Milo admirava-se em como o jovem tornara-se hábil em lhe dar prazer daquele jeito. O ruivo transfigurava-se em uma força ávida, faminta, abarcando tudo em sua deliciosa boca com técnica e volúpia ímpares.

“Se ele foi capaz de ter aprendido a fazer ISSO com tanta propriedade, quem sabe o que...”

Não ousou concluir a reflexão. A súbita consciência do que estava para acontecer assaltou-lhe em um clarão e ele retesou um pouco.

Não deveria... ele lá era homem de desistir? De voltar atrás em seus compromissos?

Um tanto a contragosto, Camus abandonou o falo bastante umedecido do marido já ofegante. Conquanto fosse agradabilíssimo saboreá-lo, e também ver o marido em tão excitante estado de prazer, não queria extrair-lhe o ápice daquele jeito. Tomou de um vidrinho que providencialmente deixara próximo, disposto sobre a bancada de marfim da mesinha junto à cama. Abriu-o e untou os dedos com o precioso óleo de rosas e alfazema. O perfume exalado despertou novamente em Milo a apreensão que a boca de Camus havia afastado. Inconscientemente, o Milo virou a cabeça para o lado, abrindo muito os olhos ao respirar acelerado.

Ele seria possuído.

O poderoso Conde de Saint-Doulchard, lendário Guerreiro Cruzado que tivera sob seu bravo comando milhares de homens... seria possuído por outro HOMEM.

— Ca... Camus... – involuntariamente vocalizou, tenso.

O dedo melado que se insinuava entre as fartas nádegas deteve-se.

— Sim? – fez o ruivo, receoso de que o outro desistisse.

Arrependendo-se de deixar transparecer aquela renitente insegurança, Milo sorriu-lhe.

— E-eu confio em ti. – Declarou, sem muita convicção.

Camus até tentou segurar o riso. Sem sucesso. Longe de se constranger, o loiro seguiu-o, acabando por ambos rirem como crianças prestes a descobrir uma nova brincadeira.

— Estás mais amedrontado do que eu em minha primeira vez, ó grandioso Conde de Saint-Doulchard. – Provocou Camus, beijando-o na coxa.

— Sim, reconheço-o, e encho-me de pejo por tal. Não é todo dia que me deparo com a expectativa de invadirem-me as partes pudentas.

— É teu marido quem o fará – ao afirmá-lo, pôs-se a acariciar o interior das nádegas, agora mais separadas.

A carícia, a textura do óleo, os movimentos sutis e constantes em sua rósea entrada fizeram Milo suspirar, apreciando verdadeiramente aquela preparação. Tal como o esposo procedia em seus intercursos, Camus ocupava-se de chupar e lamber ora lânguida ora avidamente o falo endurecido diante de si. Sentiu Milo crescer mais e mais em sua boca, a ponto de quase dificultar-lhe a prazerosa distração. E o era para ambos, uma vez que Camus tinha verdadeira adoração pelo “mastro” do amado. Sem contar os lamentosos gemidos, baixinhos, emitidos pelo conde, extasiado:

— Huumm... Camus... oooh... o-ooh... como és hábil em... ahh... és um devasso, como me chamas...

Sentindo que era hora, o ruivo começou a introduzir-lhe um dedo... tão quente... ah, a natural resistência corporal. Percebeu que Milo suprimiu um gemido enquanto retesou um pouco. Olhou-o, como a aguardar autorização para que continuasse. O esposo apenas mordeu o lábio inferior e permaneceu à espera... assim, Camus foi sutilmente encorajado. Estimulou a região, com todo o cuidado e carinho de que recordava receber. Ainda assim, Milo parecia incomodado. Tempos depois, dir-se-ia um acordo mútuo, seus grunhidos voltaram a soar deleitosos e Camus viu-se motivado a tentar inserir um segundo dedo... aprendera que daquela forma alargava o estreitíssimo canal que abrigaria sua masculinidade. Recordava-se do tempo, das pausas, dos movimentos até então NELE empregados.

— E-eu não sei como... mas está... isso está bom – falou Milo, com dificuldade.

— Parece que suga meus dedos – observou Camus, fascinado. Seu pênis pulsava e ele quase salivava. – Como preferes ficar? Assim mesmo, de bruços ou...

O outro sequer respondeu; virou-se um pouco de lado, achando que daquela forma talvez facilitasse para o amante, inexperiente na ação. Estranho como agora, ao invés de essa óbvia constatação lhe aterrorizar, dava-lhe insólito prazer... sabia que o início havia de ser dolorido, mas ele experimentara tantas dores na vida! E nenhuma delas lhe garantiria o galardão que seria a visão de Camus tomado de luxúria, dominando-o... sim, a ideia, a julgar pelo latejar de seu membro, pelo delicioso estímulo em seu interior, já suplantava o temor, e com larga vantagem... cedia à ansiedade de provar da tal “plenitude” mencionada por seu marido. Oras, não passara Camus por aquilo, tantas e tantas vezes? Ele não era nenhum bibelô frágil, lograria passar pelo mesmo, e havia de ser bem sucedido.

— AAH! – deu um grito súbito, de dor e surpresa. Nunca havia sentido nada igual.

Camus sabia que precisava ir aos poucos, mas sempre mantendo-se “ali”, a fim de fazer com que o amado se acostumasse ao órgão. Cerrou os olhos, puxando o ar para se controlar, tamanha delícia era sentir o interior do esposo. Tinha ganas de gritar de alegria, porém se conteve, e se concentrou no que fazia.

— Nngg... – Uma fina dor trespassou Milo, levando-o a trincar os dentes.

— Aaah... p-por todos os santos do Paraíso... – Estar dentro de Milo! Galgava o supra-sumo!

— Huung!! – o conde virou a cabeça, sentindo grandemente aquela lenta invasão. Camus bem que procurou não se impressionar demasiado com o padecimento do amado, sabendo-o inevitável até certo ponto. Entretanto, após mais algumas exclamações sofridas do loiro, acabou por lhe perguntar, em meio a ofegos e tremores:

— Tu sofres... que-queres que... queres que eu pare?

Milo tomou-lhe os braços, como a incentivar que se aproximasse mais.

— Também tu sofreste... e hoje és feliz... estou errado? – o rubro rosto iluminou-se em um sorriso.

Sorrindo-lhe de volta, Camus volveu, excitado:

— Não. Não estás errado, absolutamente!

— Pois bem... C-Camus... f-faz-me feliz... tu... dentro de mim!...

Aquelas palavras teriam exterminado todo o controle do ruivo, que já queimava em ânsia por estocar mais vigorosamente aquele canal intocado. Seu amor e seu cuidado, não obstante, sobrepuseram-se à sanha primitiva que apossava-se dele.

Com muito custo, admitia-o.

Por um bom tempo, Camus pôs em prática exatamente o que aprendera com seu companheiro. Era como se o seu corpo, mais que sua memória, o guiasse por aquelas sendas; intercalava as estocadas, as pausas, arremetia-se ora suavemente ora imprimindo mais pressão... talvez errasse em alguns momentos, entretanto, Milo sempre dissera que ele era um excelente aprendiz! Precisava acreditar nisso!

— A-aaah... a-aí... AÍ... meu Deus, aí...

A julgar pela fala entrecortada, pelo semblante quase desfeito pelo prazer, o que o esposo dizia não se tratava de galanteios de alcova... ainda assim, o ruivo, efetuando compassadamente as estocadas, indagou:

— Continuas a sentir dor?

— Mentiria se dissesse que não... m-mas... há algo... ALGO MAIS... e eu não sei... meu Deus... aaah... – parecia à beira de um frenesi. Passava seguidamente a língua pelos lábios carnudos.

Consciente de que encontrara o ponto certo, Camus fez o marido se virar um pouco mais para baixo, a fim de posicionar-se bem entre suas pernas; segurou-o com um misto de carinho e possessividade, beijando-lhe o pescoço com volúpia. Ser puxado para dentro do amado estilhaçava seu autodomínio: ao ouvido do loiro dava longos gemidos, deliciado com a incessante pressão em seu membro.

— Aaahh... Camus! E-eu... ohh... eu nunca imaginaria...

— Milo... é... é tão bom... humm... sentes-te bem?

— Bem? Estou com medo de me despedaçar quando... quando...

Mais força foi imprimida nas estocadas. As investidas, incessantes e quase brutais, conduziam-nos a um crescente enlouquecedor. Grunhiam, em uma lascívia mútua, inacreditavelmente arrebatadora.

— AAAH!

— Mi... Milo... Milo! E-eu...

Seus lábios uniram-se, violentamente, o som dos seguidos impactos entre seus corpos em ritmo harmonizado com os gemidos engolfados por aquele tórrido beijo. Um agarrou-se ao outro quase com fúria, no crescente daquela cópula frenética. O clímax atingiu-os, alucinante e simultaneamente; Camus quase anunciou que iria gozar, porém temeu gritar em meio ao pronunciamento. Levou a mão ao sexo do amado, quase não abrigando-o na palma; massageou-lhe na mesma cadência de suas bombadas vertiginosas. Grunhiu sofregamente quando sentiu seu pênis como que torcido pelas contrações que sentenciavam o orgasmo de Milo. Vocalizaram mais alto do que puderam controlar, benditas fossem eternamente as centenárias e espessas paredes de pedra... o conde agarrou-se ao esposo, quase machucando-o, desmanchando-se em sua mão. Era um gozo vívido, inédito... as níveas mãos de Camus, amparando-o, e amparando-se nele, crisparam-se na pele dourada, e ao esposo uniu-se naquele inimaginável orgasmo, pois que diferente de todos que havia experimentado até então.

Custoso foi o restabelecimento de tão intenso zênite. Permaneceram por muito tempo naquela posição, lado a lado, Camus dentro de Milo, suas mãos suadas unidas, suas respirações irregulares, tão sublime comunhão... a mesma que unia suas almas, já interdependentes. Ainda ofegantes, miraram-se mutuamente nos olhos nublados pelo êxtase e beijaram-se com profunda paixão.

Tão logo lhe foi possível, o ruivo balbuciou:

— Eu te amo, Milo.

— Eu também te amo, Camus... meu Camus... então... – suspirou, tomando mais fôlego – então era disso que falavas!...

— Sim... era disso. – murmurou, também em meio a longa inspiração.

Nada mais conseguiram enunciar.

Perdidos em seus olhares, em suas palpitações, com as mãos entrelaçadas eles adormeceram, como se levados ao Antigo Éden fossem...

A manhã veio, tímida e cinzenta, tal qual a superfície encrespada dos lagos; os passos claudicantes do conde fizeram-no decidir ficar um pouco mais na cama. A bem dizer, ele mal conseguia se mover. Acusou Camus de ter sido excessivo para com ele; o ruivo, contudo, explicou-lhe que nas primeiras vezes aquela sensação era normal...

— E estás a usar o plural para acalmar-me? Nunca mais sujeitar-me-ei a isto, fica sabendo – resmungava, remexendo-se e fazendo caretas excessivamente dramáticas. Rindo, Camus beijou-lhe na testa. Observou, apoiando o queixo com uma das mãos, a outra acariciava os ombros do esposo emburrado:

— Na hora, deu-me a impressão de que te comprazias imenso, senhor meu marido...

— Hunf... vai-te daqui, dá qualquer desculpa a todos. É-me dificultoso caminhar, quanto mais descer e subir escadas, cavalgar, e o resto, diabo.

— Hás de te acostumares, juro-te.

— Não hei de me acostumar porque não repetirei o feito.

— Ademais, os unguentos preparados por Afrodite sempre...

— CAMUS! NEM UMA PALAVRA DO QUE SE PASSOU AQUI A AFRODITE! AAH! – Gemeu, pois que sentara-se repentinamente para vociferar a ordem.

Camus ergueu-se do leito, indo verificar o disfarce diário ao espelho. Talvez ametistas combinassem melhor com o tom cerúleo do longo vestido azul claro com detalhes em veludo índigo.

— Insistes em considerar degradante a posição em que tu tão ardentemente te deleitaste?

— Não... – Ciciou o loiro, ajeitando-se, ruborizado – Não considero degradante. Apenas... apenas preciso... acostumar-me...

— Porque há de querer adotá-la outras vezes, decerto?

— NÃO! Não me referia a... aah...!

Voltando para a alcova, o ruivo estendeu-lhe um pequeno frasco dourado.

— Toma, usa isto, é um dos unguentos de que falei, que...

— Já entendi. – Quase arrancou-o da mão do companheiro. – Pelo menos, consegui ajudar-te a vestir-te. Estás absurdamente lindo, parece até que fazer-me sofrer deu-te mais frescor e louçania.

Baixando os olhos escarlates, Camus indagou, neutro:

— Milo... não apreciaste o que se sucedeu?

O conde encarou-o, hesitando alguns segundos. Até que, sorrindo, admitiu:

—Tolo. Apreciei sobremaneira.

Incrédulo, o ruivo tornou a fitá-lo.

— A sério?!?

— Hunf. Ainda és mui inocente para alguém que logrou subjugar o herdeiro dos maiores exércitos de França. Oras, não viste o quanto de minha semente verti? O quanto de prazeres contigo partilhei?

A expressão ressabiada de Camus desfez-se e ele atirou-se ao leito para tomar nos seus os lábios do esposo, em um ímpeto tão raro que o conde ficou de olhos arregalados durante o início do beijo.

Ao se separarem, Milo considerou-o com ternura, acariciando-lhe os contornos do rosto levemente empoado:

— Tornaste-te um amante espetacular, Camus, senhor meu marido... ah! Não cores tanto, Virgem Santa, estás vermelho até as orelhas agora!...

— Não posso evitar. – Sorriu, grácil. E, com uma mirada marota, acrescentou – Tu igualmente procedeste com eficiência em tua “primeira vez”, meu senhor... apenas...

— ... “apenas”...?

— … move-te um pouco mais DA PRÓXIMA VEZ, sim?

— Que te faz pensar que haverá uma “próxima vez”? – gracejou, fingindo estupefação.

Ambos riram, conscientes de que haveria SIM, uma próxima vez.

Ou melhor... inúmeras delas. Afrodite alertara Camus de que o relacionamento entre dois varões demandava permutas e concessões quando dos atos carnais. Na verdade, bom que assim o fosse em todos demais relacionamentos saudáveis...

Agora ali estava Camus, à mesa, diante da refeição matinal, em meio àquelas pessoas barulhentas e efusivas, rememorando cada átimo daquela noite... e secretamente ansiando por mais...

“É bem verdade que tampouco teria sido lamentável ter perdido a aposta... um dia inteiro à mercê de Milo, causa-me calores só em imaginá-lo... contudo, tê-lo à MINHA mercê foi assaz fascinante!”, pensava, divertido, saboreando o vinho com frutas que lhe fora servido.

— Mostrais-vos insatisfeito com minha ida a Paris, e isso surpreende-me, senhor Riquelme. Julguei que vos alegraríeis com minha ausência... voltareis a ficar responsável por TODOS os enfermos.

— TODOS os enfermos...?

— Perdoai-me, expressei-me mal: TODOS os enfermos, os acidentados, os feridos, as parturientes… do castelo e das imediações, quiçá das aldeias de camponeses nas circunvizinhanças, caso sejam graves seus estados... – concluiu Afrodite, brandindo a taça cheia na direção do barbeiro-cirurgião, antes de sorvê-la com elegância.

O gentil-homem engoliu a seco, dando-se conta de que NÃO seria algo tão bom assim. Afinal de contas, não estavam sendo nada desagradáveis os últimos tempos em que ele, munido do excelente soldo e dos privilégios que possuía por viver no castelo, gozava de benfazeja ociosidade enquanto o camareiro-mor cuidava de atender toda aquela gente...

Riu amarelo para o sueco:

— He, he, he, dei-vos tal impressão? Equivocai-vos, caríssimo senhor Afrodite... escutai-me, será mesmo uma boa ideia partirdes? Ouvi dizer que a Universidade é lugar inóspito para cavalheiros finos e delicados como vós... ambiente competitivo, quase nenhum repouso, afazeres intermináveis e extenuantes... sem contar com a própria Paris, um verdadeiro tumbeiro! Cidadezinha insalubre, tão apinhada de gente quanto pulgas em um cão danado ao léu...

Gargalhadas histriônicas rebentaram-se, arrancando Camus de suas lúbricas lembranças.

— Agora o grande Riquelme deseja que seu “concorrente” permaneça em Saint-Doulchard! Ele pretexta preocupação para com o senhor Afrodite, mas...

Interrompido pelo próprio riso, teve a fala continuada pelo barão de Sandiers, que chegava a bater na mesa de tanto que ria:

— Mas pensamos que talvez tratar-se-á do receio de perder o privilégio de uma vida nababesca que exime-vos de exercer o ofício, do qual apenas o senhor Afrodite tem se ocupado!

Revoltado com as zombarias, o cirurgião ergueu-se, rubro de cólera.

— Dobrai vossas línguas ao vos referirdes à minha honrada pessoa!!! – demandou, iracundo – A maior parte de vós já esteve sob meus agora achincalhados cuidados médicos! E é com calúnias e pilhérias que me retribuístes?!?

— Já não tivestes suficientes retribuições em ouro, prata, terras e demais itens de valor, o que estais a cobrar? – argumentou o capitão Edvanis, risonho.

— RESPEITO, senhores, RESPEITO!

— Ora, respeito! Pois sim, há tempos vos servis da solicitude do senhor Afrodite, que atende a todos com a gentileza e a eficiência das quais jamais dispensastes, e muitas vezes ele sequer cobra por seus serviços. – Ajuntou a esposa do castelão, com desdém.

— Muito que bem! Já que sou TÃO DESNECESSÁRIO e tão mercenário para vós outros, retirar-me-ei do castelo para as...

— Cessai de parolices – Camus ordenou, severamente, ao que todos se calaram.

Angariando a atenção dos presentes, retomou o tom sereno, mantendo-se firme ainda, e dirigiu-se ao barbeiro-cirurgião:

— Senhor Riquelme, apenas o senhor meu marido pode decidir vosso destino. Afrodite ausentar-se-á da propriedade por um longo período, e não creio que é da vontade do conde se desfazer de seu médico oficial.

O homem teve ganas de mostrar a língua para os que dele escarneceram.

— Peço-vos que vos ocupeis da festa de aniversário do senhor Milo, que será daqui a seis dias.

— Sim, senhora condessa!!! – Em uníssono, os comensais assentiram, em servil concordância.

Destarte, encontrou a discussão o seu fim; a refeição transcorreu tranquilamente e pôde-se dar início a mais um dia.

A semana passou célere e atarefada para todos. Os camponeses adiantaram o quanto puderam de seu árduo trabalho, pelos visados dias de festa, e o mesmo fizeram os demais empregados no castelo: os artífices que efetuavam as obras de restauração, avançadas finalmente, fornecedores que vinham provir a fortaleza de todo necessário para o grande evento, cozinheiros, padeiros, servos, alfaiates, ferreiros, vidraceiros, um sem número de pessoas circulavam para lá e para cá, harmoniosamente orquestradas sob seus deveres.

À véspera da celebração, auxiliado por Afrodite, Camus experimentava o vestido feito especialmente para a ocasião; de um vermelho vivo como o mais reluzente rubi, compunham-no materiais nobres, notadamente os detalhes espiralados bordados em puro ouro no busto e nas compridas mangas. Um cinto de ouro incrustado por gemas de cores similares magnífico tecido acentuava-lhe a esbeltez, fonte de recentes preocupações por parte do jovem.

— Palavra de honra, Camus. É o mais belo vestido que já vi!

— De fato é bonito. – concordou, sem qualquer entusiasmo. Àquela opulência preferia a nudez permitida pela intimidade da alcova, os únicos momentos realmente livres de sua existência, na comunhão com seu amado esposo. Este encontrava-se resolvendo negócios em seu gabinete. Quanto ao “incômodo” que lhe impedira de retirar-se do quarto após a inesquecível “noite da aposta”, dele recuperou-se no dia seguinte, graças ao medicamento ofertado pelo consorte. O ruivo achara-o “um bom perdedor”, ao contrário do que poderia se supor ao rememorar-lhe a resistência inicial: Milo não se ressentira do ocorrido, tampouco deixara de ser cortês e carinhoso. Camus não se surpreenderia se pudessem “fazer daquele jeito” mais vezes... afinal, as duas formas de amar faziam-se igualmente maravilhosas...

— Penso que seria adequado trançar apenas essas tuas duas mechas frontais, unindo-as acima da nuca, então teus cabelos quedar-se-iam soltos, seguros apenas por esse adorno natural. Ah, espera... um diadema com rubis não cairia nada mal.

— Deixemos para decidir isso amanhã, meu amigo, ajuda-me a trocar de roupa. Os primeiros convidados começam a chegar, pelo que soube.

— Tens razão. – o loiro começou a desamarrar as fitas de cetim dourado.

— Será que Shura está entre essa primeira leva de convivas?

O coração de Afrodite fremiu ante a mera menção daquele nome.

— Shura e Isabel, tu queres dizer.

— Não estão casados ainda, ele não teria obrigação de trazê-la... se bem que Milo convidou o duque de Benacantil... mas, ao que me lembre, este encontra-se no Oriente. Bem, teu novo amante sim estará presente...

— O senhor Giuseppe não é meu “novo amante”! – rebateu, irritado.

Erguendo as sobrancelhas, Camus pareceu confuso.

— Tu me contaste que vós vos beijastes.

— Isso foi tudo. Caí em mim que não procedia com retidão e refreei meus anelos.

O ruivo observou-o pelo reflexo do espelho emoldurado por delfins de prata. Questionou:

— Recusaste uma pessoa pela qual nutriste desejo, em prol de Shura, que sequer conhece teus sentimentos. Eu não o repreendo. Acima de qualquer um, conheço o valor insuperável do verdadeiro amor. Contudo... pretendes proceder dessa maneira PARA SEMPRE?

— Eu não sei. – Admitiu, removendo a parte de cima das vestes do amigo. – Mas por ora considerei a única forma de proceder.

— Espero que a presença do senhor Giuseppe não te deixe constrangido. Sendo o artífice mestre de obras do futuro hospital de Saint-Doulchard, não haveria como não ser convidado por Milo...

Sorrindo amavelmente, o sueco respondeu:

— Não te preocupes comigo. Não houve desavenças entre nós. Apesar de não ter ocultado a insatisfação com minha negativa naquela noite, ele foi compreensivo.

— Dizem que ele “coleciona” idílios pela cidade. Sabê-lo fez diferença em tua recusa?

— Não. Não fez. Devo envergonhar-me disso?

— Não deves te envergonhar de cousa alguma, Afrodite. Nada fizeste de errado.

O camareiro-mor fitou o amo com ternura e gratidão.

— Tu és um bom amigo, Camus. Sem dúvida, mereces toda a ventura que estás a experimentar.

— Também tu mereces experimentar o que é ser feliz...

— Sabendo que Shura casar-se-á... dificilmente lograrei fazê-lo.

— Mesmo que ele permanecesse solteiro tu não te declararias a ele. Sê-lo-ia inviável. Entendo que a notícia de seu matrimônio apunhalou tua alma, mas... perdoa-me se incorro em alguma inépcia, porém, efetivamente, não vejo muita diferença.

Despiu-se finalmente, ficando apenas com a túnica branca. Afrodite pegou o vestido verde-oliva que o nobre trajava antes de experimentar a roupa da festa.

— Diferença há. E conquanto sobre esta já tenha elucidado, repito: bastavam-me sua presença, sua amizade, as elevadas conversas com ele travadas, as doces horas com ele partilhadas em nossas cavalgadas pelos campos, em nossos saraus, em nossas divagações diante da lareira à noite, cercados de odres de vinho... – o sueco relembrava, ajudando o amigo a se vestir. – Eu não precisava de concretizar as loucuras de meu coração... precisava tão somente ter de novo aqueles momentos!

Uma genuína tristeza apossou-se de Camus. Declarou, compassivo:

— Preocupa-me tua resignação. Confesso que preferia que tivesses aceitado a corte de Giuseppe. Se bem que, pelo que dizem por aí, ele é um promíscuo, e isso também não queria para ti. Vejo-me confuso, e nada impelido a dar-te um conselho sóbrio...

O sueco sorriu e alegou, bem-disposto:

— Não te atormentes por minha causa, não estou triste nem nada! Ao contrário, sabes que começo a me animar para ir à Universidade? É como se a consciência do agora inevitável porvir revivesse meu sonho adormecido!

— A sério? – Uma sobrancelha ruiva ergueu-se, um sinal de que Camus custava um pouco a acreditar.

— Juro-te! Estudar para ser um médico era meu ideal desde tenra idade, e eis que não só hei de realizá-lo, como tornar-me-ei diretor de um hospital, o qual, pude comprovar pessoalmente, será grandioso! – Pôs-se a escovar as rubras melenas.

— Espero que estejas sendo sincero comigo.

— E quando é que não o fui? Estás aprendendo com teu adorado maridinho a ofender-me?

— Desde quando Milo te ofende? Vós vos divertis, com vossas trocas de farpas habituais, pensais que não o percebo? – Deu de ombros, simulando pouco caso.

Divertido, Afrodite disse-lhe quase ao ouvido:

— Fico a imaginar o que ele diria se soubesse que o melhor amigo é alvo da afeição romântica deste “camareirozinho”!

Camus mordeu o lábio inferior. Ainda não havia encontrado uma brecha para revelar que Milo tinha planejado enviar junto com o sueco ninguém menos que Shura Aguillar, como guarda pessoal do futuro diretor do Hospital de Saint-Doulchard. Melhor dizendo... não havia encontrado coragem. Desconfiava de que a decepção do jovem sueco aumentaria caso viesse a sabê-lo. Algo como a percepção de que se esteve a um passo de alcançar uma graça única, injustamente perdida por um acontecimento tão impensável que convertia-se em injusto.

E este acontecimento era o casamento de Shura. Afinal, casado, jamais aceitaria a missão. Não acreditava sequer que Shura e a esposa ficassem em Saint-Doulchard. Se o duque de Benacantil escolhera Shura para consorte da filha, havia de ter planos para ele que certamente diferiam do cargo de braço-direito de um conde na França. Imaginava que o casal ficasse por um tempo, até que Shura e Milo terminassem de resolver tudo que tinham para resolver. Mesmo esse curto período seria um infindável suplício para Afrodite, e ao receio de sofrê-lo Camus creditava a decisão do amigo em partir do castelo, muito mais do que o retorno ao sonho interrompido.

“Nem mesmo uma missiva de Shura chegou a Milo... não lhe respondeu nem sobre Paris nem sobre o convite da celebração que inaugurar-se-á amanhã...”

— No que estás a pensar? – Quis saber Afrodite, finalizando o penteado “da condessa”.

— Nada de relevante. – Mentiu, desviando o olhar. Ao loiro tal fuga não passou despercebida, contudo respeitou-lhe a esquiva. Falou, batendo-lhe nos ombros:

— Agora vem, precisamos provar algumas das iguarias que serão servidas no banquete.

Camus paralisou de horror.

— Qual! De modo algum poderei prestar-me a tal papel! Afrodite, eu estou engordando! Temo pelo meu disfarce e...

— Oh, sim! O senhor Milo falou-me acerca disso...

— Milo?!? Então ele se inquieta por eu estar tornando-me rotundo?

— Rotundo, tu? És tão rotundo como o cabo desta escova, não fales bobagens – Deu uma sonora gargalhada – Claro que ele não se inquieta com nada a respeito de tua aparência, Camus, apenas veio a mim pedir que providenciasse uma dieta adequada para que tu não te aflijas em excesso, como estás a fazê-lo!

— Não te rias.

— É verdade que tuas faces já não se encovam como dantes, mas enfim tens um aspecto viçoso e saudável, e isso torna-te mais atraente.

Enfadado, Camus revirou os olhos ao resmungar:

— Sois tão parecidos no pensamento, tu e Milo! O que me importa é manter o “bendito” disfarce, e estar roliço em nada facilita-o.

— Não estás roliço, pela Virgem Santíssima! – Mal havia conseguido parar de rir, recomeçou, agora mais comedido. – Bem, sossega-te, agora que te restabeleceste por completo dos ferimentos, podemos suspender parte dos alimentos fortificantes de que dependeste quando da convalescência, dentre os quais alguns são indubitavelmente engordativos...

— Agradeço-te. Peço que o faças com a máxima presteza.

O sueco assentiu, solícito. Guardou os itens de toalete e perfumaria em seus devidos lugares, e, após verificar a si próprio ao espelho, propôs:

— Bem, já que te recusas a provar as comidas da festa, gostarias de ir até o salão para averiguar o andamento dos preparativos?

— Prefiro continuar a treinar o saltério, se não te importas. Mais à tarde, irei até lá.

— Tu já o tocas com maestria! Tens praticado-o sem parar! – Admirou-se o camareiro, observando o amigo se dirigir até um baú de cedro e ouro, onde guardava o instrumento.

— Não basta tocar com maestria. Necessito da perfeição. Será um de meus presentes para Milo. – Explicou, com um doce sorriso.

— Compreendo tua dedicação. O rei e grande parte da corte estarão aqui.

— Pouco se me dá suas presenças – retrucou, afinando as cordas – Almejo unicamente agradar ao meu marido.

— Não está óbvio que ele agradar-se-ia se tão somente tu assobiasses?

Eles riram, e, em seguida, Camus assentou-se, dispondo o saltério sobre as coxas. O instrumento, uma caixa de ressonância em forma de trapézio, possuía dez cordas, as quais o ruivo pôs-se ora a pulsá-las, ora a beliscá-las, gerando um mavioso som. Enlevado, Afrodite sentou-se em um banco estofado, comprovando os progressos do amigo.

E assim foi até a data da festiva solenidade. Desde a véspera, convidados já se encontravam na propriedade. Houve música, dança, jograis, recitais. Uma alegre e elaborada ceia atravessou a noite, amainando a expectativa para o grande dia. Os shows mais elaborados, com mágicos, acrobatas e demais artistas ficaram para os festejos que iniciar-se-iam dia 8 de novembro.

A manhã cinzenta e fria não obscureceu a empolgação dos que chegavam. Todavia, a festa só poderia ser oficialmente inaugurada com a presença do rei de França. Ricardo Coração de França, rei da Inglaterra e amigo pessoal de Milo preferiu não comparecer, e justificou-o com uma recente contenda entre ele e Filipe II. Prometeu visitar o conde de Saint-Doulchard em outra ocasião, quem sabe “no batizado do filho do amigo”, eram as palavras na carta, para a qual Milo olhou com um inédito desconforto. Bem, ainda não parara para pensar naquilo, e não seria agora que o começaria.

Por volta das 11 horas a comitiva real adentrava os pavilhões do castelo. Um atraso pouco considerável, para alegria dos que ansiavam pelos divertimentos. Encarando-se brevemente antes de até o monarca se dirigirem, Milo e Camus sentiram aquele incômodo receio que sempre os acometia quando tinham que se apresentar diante de uma autoridade. Malgrado estivessem acostumados à farsa de “marido e mulher”, postar-se diante de quem poderia condená-los caso a verdade fosse descoberta nunca era algo tão simples.

Filipe II desceu da carruagem, convertendo-se no sol que a manhã não apresentara, tão coberta de ouro sua figura imponente se mostrava. Tão logo ele desceu, os criados ajudaram uma jovem dama a deixar o mesmo veículo. Murmúrios correram entre as testemunhas: sabiam tratar-se da amante do rei. Chamava-se Inês de Merânia, e contava com apenas 13 anos, embora pudessem tomá-la por uma moça de 18 ou 19. Era pequena, um tanto robusta, de uma palidez olivácea, morbidamente reforçada pelo negror dos bastos cabelos negros. Trajava um vestido de veludo púrpura pontilhado de diamantes, notadamente no decote do colo, de onde emergiam médios seios quase cobertos pelos inúmeros colares de brilhantes e esmeraldas. Se ninguém contestar-lhe-ia a beleza, haviam de admitir que a mesma era algo feérica. Filipe II não a ocultava, a despeito de a Igreja não consentir naquela ostentação. A bem dizer, sequer concordava com o relacionamento... os anfitriões fizeram-lhes respeitosas reverências, e conduziram-nos até o interior do palácio, onde o melhor lugar fora reservado para o monarca.

Enfim declararam abertos os festejos. Os músicos puseram-se a executar notáveis peças, estimulando a que convivas já tocados pelo vinho se aventurassem a dar seus passos pelo salão. Os olhos dos convivas brilharam quase tanto quanto os manjares assados e regados com molhos saborosos dispostos nas mesas fartamente guarnecidas. As taças sequer se esvaziavam, prontamente preenchidas pelos sempre atentos criados do castelo. As jóias dos aristocratas reluziam-se ante os círios ardentes, bem como seus sorrisos de quem espera por pelo menos dois dias de puro aprazimento... em todas formas possíveis. Música, dança, espetáculo, bebida, comida, poesia, corte, encontros furtivos pelos pomares e jardins, tais eventos atestavam a mais efetiva função da nobreza sobre a terra: obter da vida o que de melhor ela tinha a oferecer.

— Como tende passado, velho amigo? Vejo-vos disposto e álacre ao lado da formosa Camille de Turenne... – Filipe II bateu na própria testa, rindo – Oh, perdão! Tanto tempo tal nome circulou nas bocas que parece ter se cristalizado nos imaginários!

— Com efeito, Majestade, devo agradecer-vos eternamente por haverdes possibilitado que eu me unisse a tão virtuosa dama.

— Virtuosa e bela! Nunca olvide de elogiar-lhe a faceirice, não sede insensível... mas eu nada fiz, por que me agradecer? – deu um risinho afetado, metendo na boca um naco de javali assado.

— Não é que eu olvide de enaltecer os predicados de minha amada esposa – Explicou-se Milo – Camille é modesta demais para que eu elogie efusivamente sua beleza, quanto mais diante de outras pessoas... com o devido respeito, Majestade.

— Que bobagem! – Augusto dirigiu-se a Camus, sentado ao lado do conde, servindo-se do alimento com gestos distintos – Senhora, vossa beleza suplanta a imagem angélica que de vós guardei na mente. Dir-se-ia que o matrimônio fez desabrochar a flor a qual já esperávamos surgir donairosa, e tal superou-nos a expectativa...

— Excelsa Majestade, sois assaz magnânimo para com esta humilde serva, que não faz jus a tal deferência. – Com a voz modulada, o ruivo abaixou a cabeça, agradecendo os galantes comentários do rei. Percebeu nos lábios pintados da adolescente que o acompanhava um misterioso sorriso.

A um sinal, Filipe II ordenou que fossem trazidos os presentes do aniversariante e de sua esposa. Murmúrios admirados correram o vasto recinto à medida que os mais ricos agrados eram-lhes ofertados: jóias, arcas com veludos e sedas púrpuras, selas de ouro cravejadas de gemas preciosas, coroas para o conde e “sua consorte”, cântaros de jaspe contendo vinho de renomada qualidade, oratórios e caixas valiosos... os anfitriões agradeceram a generosidade do rei, já notória entre seu povo.

Passadas algumas horas de celebração, “Camille” pediu licença para se retirar; o belo rapaz de rosto feminil à sua esquerda também se levantou, e para os dois Filipe II e Inês de Merânia lançaram olhares curiosos.

— Camille irá tocar seu saltério – Esclareceu Milo, antes de qualquer pergunta.

— Oh, mal posso esperar, amo o som do saltério! – Inês uniu as mãos, empolgada.

Camus dirigiu-se ao centro do salão, do qual os convidados já haviam se afastado, pois que uma banqueta de estofado aveludado fora colocada para que nela se instalasse “a condessa”. Recebeu de seu camareiro-mor o instrumento dourado, respirou fundo e mirou apenas seu amado esposo, a fim de extrair coragem do âmago de seu temperamento: não lhe agradava ser o centro das atenções, malgrado involuntariamente o fosse, tantas e tantas vezes, pela mítica suscitada por sua singular pessoa. Um belo sorriso de Milo, repleto de confiança e de doce expectativa, encorajou-o vivamente. Cerrando os olhos avermelhados, pôs-se a tocar, concentrado.

A harmoniosa melodia encheu o lugar, mantendo os convivas extáticos. Absorvidos pela suavidade da música, sentiram-se em um festim celestial, ciceroneado pelos próprios anjos. Milo aquele arrebatamento, conduzido pela visão de tão “bela dama” executando com perfeição sublime peça, não deixava de fruir. Porém, àquele gáudio unia-se a percepção de como era afortunado. Chegara aos 23 anos, consciente de que alcançara o ápice de sua existência terrena.

Guerreiro destemido e honrado, gozara de inúmeros momentos de glória e prestígio, de esbórnias regadas a vinho, canções e mulheres... tudo um pálido borrão frente ao que vivia então. Ter ao seu lado alguém especial e amado como Camus, e por ele ser amado... uma flor rubra colhida de um jardim gelado por um inverno que outrora pareceu infindo. Unido a ele, ser agora um governante influente e bem quisto por um povo que agora chamava de “seu”, e pelo qual dispenderia todo empenho possível.

“Deus. Amo-o tanto que meu coração estremece”, pensava, extasiado, perdido na contemplação daquele que para ele convertera-se na razão de viver. E, conforme assertiam as Sagradas Escrituras, "viver em abundância".

— Vede com que olhos o senhor Milo observa a esposa – Inês disse a Filipe II, para que apenas ele ouvisse. – Oxalá pudesse eu ser um dia alvo de tais olhos!

— Tu já o és, tolinha, não estou eu aqui?

— Não és meu esposo... refiro-me a um olhar oriundo de um marido.

— Questão de tempo, minha bela, questão de tempo. Agora calemo-nos, ouçamos essa maravilha.

— Eu sou mais bonita que essa Camille, não sou, Augusto? – indagou-lhe ao ouvido, voluntariosa.

— Claro que é, sabes muito bem disso! Por Deus, silêncio... quero ouvir... tomar-nos-ão por descorteses. – sussurrou, impaciente.

Ao final da apresentação “da condessa” aplausos ensurdecedores eclodiram. A elegante figura ergueu-se e, em seguida, curvou-se em profundo agradecimento, repetindo-o em todas direções.

Enquanto batia palmas, o rei curvou-se para o conde e questionou-lhe:

— A prenhez de vossa senhora faz-se imperceptível ou ainda não lograste nela semear um herdeiro?

O sorriso de Milo não se rendeu à surpresa causada por aquele questionamento. Os aplausos apenas começaram a escassear quando ele pôde responder:

— Não, Majestade. Minha esposa não se encontra grávida.

— Oh, já faz oito meses que vos casastes. Decerto há algum motivo. Nunca vos enxerguei como um desses gentios que preterem a missão dada por Nosso Senhor, “Crescei e multiplicai-vos”, em detrimento de prazeres egoístas... malgrado vos tenha conhecido como um quase devasso. – Riu Filipe II, como se estivesse fazendo gracejos a um amigo íntimo e não sendo totalmente inconveniente... que é como Milo interpretava a situação.

Vendo o outro tornar-se sério, Augusto emendou, ainda risonho:

— Não que vossos hábitos passados maculassem vosso senso de cristandade, aliás, um dos mais altos que já verifiquei...

Sem deixar transparecer seu desagrado, o conde respondeu, polido:

— Em verdade, quis o Nosso Senhor Deus que não vingasse no ventre de minha esposa o primeiro de nossos filhos: Camille caiu gravemente enferma, poucos meses após nossas bodas. Em consequência de uma hemorragia insistente, sua maternidade infelizmente foi adiada.

— Ah, sim, recordo-me de que a doença da senhora condessa inclusive foi o motivo de vossa ausência no casamento de Andreas, segundo o próprio informou-me. – Chegou a estalar os dedos, fingindo se lembrar de repente – Palavra de honra, meu amigo, sois o mais dedicado dos maridos! Não conheço muitos que se abstivessem de seus compromissos e convites devido a uma simples enfermidade de suas esposas.

— Tratava-se da vida de meu herdeiro. – Argumentou o loiro, seco. – De qualquer modo, vê-se que foi debalde minha dedicação.

— Bem, ânimo! Estou certo de que em breve serei convidado para o batizado de vosso herdeiro! Algumas mulheres demoram um pouco para cumprir efetivamente o papel que lhes foi delegado.

Afrontar o rei seria uma imprudência tola e perigosa. Todavia, Milo não aceitaria ser coagido, nem mesmo sutilmente, e em seu próprio lar! De forma que, munido de um luminoso sorriso, falou, em tom ameno:

— De fato, Majestade. O maior exemplo de espera por um herdeiro pode ser vislumbrado em Vossa própria história, o qual justifica o título “Augusto”...

Filipe II, Inês e os poucos nobres por perto atentos ao colóquio ficaram impactados pela ousada réplica do conde.

Ousada, mas verdadeira. E louvada, aliás... pois que tal história cobrira o rei de uma mítica muito conveniente.

— Milo D’Auvergne... tão implacável com a espada quanto com as palavras. Com efeito, meu pobre pai teve que esperar incríveis 30 anos para conceber um filho varão. – Reconheceu, sorvendo o vinho, sem perder o bom humor – Meu nascimento foi considerado um milagre, e graças a isso recebi a alcunha de “Augusto”.

— Verdade! Trinta anos para ter um filho homem! E aí estais vós, cobrando do senhor Milo que ele tenha em 8 meses o que vosso pai não teve em 30 anos... – riu Inês, tomando do vinho com desenvoltura rara em uma menina.

Milo impressionou-se com a audácia da jovem. Para seu espanto, e dos demais que a tudo assistiam, o rei gargalhou e retorquiu, de maneira surpreendentemente servil:

— Eu não estava a cobrar, minha florzinha, apenas fazia inocentes observações...

Inês sorriu de volta, irônica:

— Se há uma palavra que não cabe no vernáculo destinado a descrever-vos, ó Magnânimo, é “inocente”...

Eles riram um para o outro, atestando diante de todos a intimidade de que partilhavam. Milo conhecia Filipe II há anos e jamais o vira tão à vontade com uma mulher. Sabia-o amante dos belos mancebos também, tanto que houvera rumores sobre Andreas e o rei, nas últimas campanhas no Oriente. O conde nunca pudera comprovar nada, e nem era de seu interesse fazê-lo, contudo despertava suspeitas sua captura pelos sarracenos em uma missão de paz, logo após certos embates acalorados que tivera com o detestável primo de Camus... Milo, e apenas Milo, fora feito prisioneiro, justo quando acordos eram assinados entre Ricardo e Saladino (2).

Aquela história nunca fora plenamente esclarecida. Ficaram apenas dúvidas, cicatrizes e rancores duramente abafados...

— Vede, a senhora Camille retorna! Ah, estou ansiosa por cumprimentá-la! – disse Inês, levantando-se da mesa, ao ver que “a dama” finalmente se livrara das dezenas de pessoas que “a” cercaram para as quase que intermináveis felicitações. Os músicos retornaram aos seus postos e novamente a música preencheu o festivo ambiente. Inês abriu os braços, indo de encontro ao ruivo.

— Senhora Camille, foi um imenso prazer ouvir vosso saltério! Fui alçada aos altos céus, tanto pela divinal melodia que produzistes quanto pela singela visão oferecida por vossa adorável figura. Dir-se-ia que éreis uma divindade que descendeu do Paraíso unicamente para enlear-nos com magistral execução!

Camus quase ficou tonto com aquela torrente de palavrório. Agradeceu à jovem, cordialmente:

— Vossos cumprimentos excedem a simplicidade de meu número, que, outrossim, foi executado com a maior boa vontade desta que vos fala.

— Contam-se muitas coisas a vosso respeito na corte, e, diante de vós, percebo que não fazem jus à vossa pessoa... sois um verdadeiro encanto!

Sem saber como interpretar aqueles dizeres, Camus limitou-se a agradecer, respeitoso. Via algo de afetado e artificial em Inês, a despeito da pouca idade. Ocorre que Camus associava-a à idade de suas irmãs, quando na verdade devia-se ao fato de serem estas preservadas das maledicências e futilidades cortesãs; viver na Borgonha diferia tanto de viver em Paris quanto o dia da noite. Além do que, aquela menina praticamente coabitava com o monarca, ao passo que Marin e Seika continuavam brincando de bonecas sob a vigilância das sempre atentas tias, protegidas pelo rigoroso Teobald II.

Inês já assimilara os trejeitos de damas experientes e vividas, o que, na condição de amante do rei, Camus não saberia precisar se era bom ou não, considerando-se o ambiente por ela frequentado.

— A impressão é recíproca, senhora Inês. Sois bela e arguta, receber de vós tais considerações conduz-me a uma lisonja tal que sinto-me quase soberba.

— Qual, não vejo como poderíeis vós ser soberba. Sois tão diferente de todas estas matronas e coquetes da nossa aristocracia – segredou, olhando ao redor. Tomou as mãos de Camus, efusiva – Tomar-vos-ei como exemplo! Se bem que sou um tanto espevitada, reconheço-o, enquanto vós sois comedida e econômica nas palavras, já o percebi. Potencializa vosso fascínio, sabei-lo, não? Quem sabe posso aprender convosco?

Um tanto perdido pela velocidade com que falava a adolescente, Camus sorriu, assentindo. Não atinava como “Camille”, “modesta e pacata”, poderia ser “exemplo” para alguém como Inês. Certamente, arroubos etílicos...

Levado pela menina, acompanhou-a até um reservado cercado pelas colunetas, guarnecido de divãs cobertos de mantas franjadas. Ali sentaram-se, prontamente servidos pelos servos sempre atentos. A amante do rei não parava de tagarelar, e bebia tal qual um homem adulto. Invariavelmente, Camus respondia a tudo com sorrisos tímidos e monossílabos, o que mal percebe uma pessoa ávida por palrear...

— Querida Camille, já estivestes em Paris? Há muito tempo? Oh, então, pelo visto, em breve haveis de retornardes. Prevejo que meu casamento com Filipe sairá em breve. Ele tem negociado com o Papa, que tem se mantido irredutível quanto ao rei se unir à filha de um insurgente. O senhor meu pai andou se indispondo com Inocêncio III, coisa de tão pouca importância! Mas já é o suficiente para que queiram impedir nossa união. Entretanto, Augusto não é homem de desistir, ama-me, sabeis? Tende que ver como o controlo... vira uma marionete em minhas mãos! Ah, por favor, minha amiga, não espalheis por aí o que vos confidencio – ria sempre, em meio ao que mais parecia um monólogo.

— Não vos preocupeis. Tudo ficará entre nós. – Assegurou Camus, serenamente.

— Oh, sim – Inês tomou um demorado gole de vinho antes de prosseguir – Permiti que eu preste meus profundos sentimentos à vossa dolorosa perda, senhora Camille.

Ante o olhar interrogativo “da condessa”, a jovem esclareceu, pretensamente condoída:

— A perda do fruto que trazíeis no ventre... o senhor Milo contou-nos acerca de tão lastimoso infortúnio.

Camus meneou a cabeça, em concordância: todas a história fora previamente combinada com o conde e com o camareiro-mor.

— Aprecio grandemente vossa compaixão, senhora. Já se vão meses desde que tal adversidade atingiu-nos. Foi a vontade de Deus.

Inês sorriu-lhe, amistosa. Arrematou, sem mudar de expressão:

— Sim, foi a vontade de Deus. E Ele tudo sabe... essa criança... talvez ela estivesse predestinada a ser ruiva como vós, e Deus tenha preferido agraciar-vos com um querubim loiro como o senhor vosso marido. Quem sabe, não era até mesmo uma menina, que desdita não seria? Deus sabe o que faz. Sim, certamente sereis muito mais felizes com o próximo enviado!

Se até ali Camus mantivera-se quase inexpressivo, agora estampava-lhe o semblante expressão de vivo estupor!

Controlando o tom, que por um triz não saiu agressivo, rebateu, frio e orgulhoso:

— Desde o primeiro instante de nossas vidas, eu e minhas irmãs, duas delas ruivas como nossa falecida mãe, fomos amadas por nosso pai, Teobald II, o Duque de Borgonha. Assim como o foi conosco, também o filho que vingar de minha união com o Conde de Saint-Doulchard será amado e bem recebido, independentemente de seu gênero e da cor de seus cabelos.

Como que pega em falta, Inês gesticulou, buscando justificar-se:

— Oh, não, não falei por mal, senhora, perdoai-me o descuido em meus apontamentos! Vede bem a cor de meus cabelos, a cor azeitonada de minha pele, as trevas em meus olhos... sei bem como podem ser menosprezados aqueles que destoam dos padrões vigentes em nossa sociedade. Já fui chamada de feiticeira, de cigana... até de moura!

Distinguindo sinceridade naquele desabafo, Camus suavizou a expressão. Com voz baixa e impessoal, disse:

—Sinto muitíssimo por isso, senhora. É lamentável que tencionem atingir-vos em razão de fatores tão insignificantes como cor de cabelo, cor de pele ou de olhos... soa-me ilógico ao ponto de dar-me pena, e não raiva, dos que assim pensam. Sois tão bela que nem mesmo Sua Majestade pôde ficar indiferente...

Pela primeira vez Inês calou-se, mirando as próprias mãos, unidas sobre os joelhos, segurando um cálice vazio. E pela primeira vez Camus teve simpatia pela menina, vendo através daquele silêncio a insegurança que a verborragia e os modos arroubados tencionavam ocultar. Quando ia continuar a manifestar sua solidariedade, viu-a erguer o rosto e perguntar, com o olhar faiscante:

— Oh! Ali está ele!

— Ele...?

— O deus grego que vos serve… vosso camareiro-mor!

O ruivo buscou o que havia na direção daquele olhar embasbacado e viu o amigo valsando com uma alegre dama, ambos rindo bastante.

— Sei que não carecia de que nos apresentásseis, visto ele ser um simples servo vosso, no entanto, far-me-ia gosto imenso saber como se chama tão belo rapaz... tão belo deus!

— É Afrodite.

— Afrodite? Uma deusa, então? Senhora, estais a confudir-me – riu a moça.

Camus coçou o queixo.

— É um apelido. Seu nome verdadeiro é Solveig... é sueco e...

— Urgh, deixemos “Afrodite”, um nome bárbaro quebra-lhe o encanto... se é que algo o consiga – Inês sorria, maravilhada com a visão do jovem loiro muito bem vestido em suas calças justas marfim, que denunciavam-lhe as másculas formas – Que cútis! Que olhos! Que cabelos! Parecem nuvens de ouro branco... vosso marido não se opõe que tão garboso homem vos sirva de forma tão próxima?

— Não. – Camus resistiu ao impulso de revirar os olhos. – Milo confia em mim, e confia em Afrodite, de quem é amigo, aliás.

— O senhor conde, amigo de um reles camareiro? – Inês arregalou os olhos, surpresa.

— Afrodite é nobre como nós. Seu pai é um duque, e quando...

— Sois a mais afortunada das mulheres! – Declarou a menina, sem nem ao menos se dar conta de que interrompera “a anfitriã”. Chegou a rodopiar de euforia. – Não bastassem vossa beleza, vossa origem, riqueza, inteligência e demais atributos, tende como marido e camareiro-mor dois dos mais lindos homens sobre a Terra! Oh, fico a imaginar-me em vosso lugar, como vos invejo... eu teria os dois como amantes, ha, ha, ha, ha, ha, ha!

— Senhora Inês, não creio que Sua Majestade agradar-se-ia se ouvisse de vós semelhantes coisas...

Inês deu-lhe um beijo estalado no rosto. Cochicou-lhe ao ouvido, peralta:

— Ele não tem como ouvir-nos de onde está, e alta faz-se a música. E sei que vós não sereis indiscreta...

— Não serei porque NÃO o sou. – frisou Camus, gravemente.

— Oh, sois tão séria! Escutai-me... por quanto cederíeis-me vosso camareiro-mor?

— Perdoai-me, não compreendo...

— Quero levá-lo comigo.

Camus ficou boquiaberto. Em seguida, sem disfarçar a reprimenda no olhar gélido, respondeu, simplesmente:

— Afrodite não está à venda.

Abanando-se risonha, a adolescente retrucou:

— Por Deus, tomais vossa amiga aqui por alguma bárbara? Não me refiro a comprá-lo como um escravo, oras, tanto mais agora que sei que pertence à nobreza sueca! Quero contratá-lo, e dar-vos-ei o que pedirdes para que o permitis. Obviamente, pagarei muito bem ao senhor Afrodite, de modo algum estará ele desamparado, muito pelo contrário...

— Lamento, senhora Inês – o ruivo fez menção de se retirar, indignado. – O que me propondes está fora de cogitação.

A menina adiantou-se, impedindo-o de sair dali. Ficou de frente para “a condessa”, fitando-a desafiadoramente. Que importava que “Camille” fosse tão mais alta e severa? Intimidante até? Ela havia de se casar com o rei… seria RAINHA de França!

Estufou o peito e levantou o queixo, petulante, embora um sorriso pretensamente pueril não se lhe abandonasse os lábios moldados.

— Refiro-me a terras. Propriedades mais extensas que muitos reinos de Europa. Ouro. Jóias aos montes. Carregamentos de artefatos e produtos de todas partes do mundo. O que quiserdes. – Reforçou, estreitando os olhos como quem faz uma proposta irrecusável.

Revestindo-se de toda paciência que podia, tanto por se sentir ultrajado, quanto por já haver se cansado das infantilidades da nobre, Camus elucidou:

— O que quero eu já detenho, senhora. É a paz que possuo, vivendo em harmonia com meu amado esposo e meu fiel amigo de longa data, Afrodite. Sim, ele não é apenas meu camareiro-mor, tenho-o como a um irmão, desde os meus oito anos, quando foi por meu pai levado a Turenne.

— Huum, então eu estava certa... ele é “mais que um camareiro-mor” – fez a morena, maliciosa.

— Não no sentido que vossos olhar e tom sugerem.

Inês pôs-se a abanar o leque, conquanto o local não estivesse nada quente. Adquiriu expressão entediada.

— Por que não o dissestes logo?

— Não tive a chance de fazê-lo – o ruivo sorriu levemente, quase levantando os ombros.

— Está certo! Não se pode ter tudo... pelo menos por enquanto... talvez quando EU for a rainha, as coisas mudem. Todavia... – Voltou a mirar o foco da conversa, desta vez dançando com a baronesa de Poitou. – Eu posso ao menos ter com ele uma dança?

— Naturalmente, senhora. Estou certa de que Afrodite não se recusará.

Com ar desdenhoso, a adolescente aprumou-se e deu as costas “à condessa”, caminhando decidida até o camareiro-mor. Lançando um olhar para a mesa principal, onde seu marido e o rei conversavam ininterruptamente, Camus franziu o cenho refletindo: “Algo me diz que esse relacionamento há de trazer-lhes problemas futuramente...”.

Anos depois, sua predição confirmar-se-ia. ( 3 )

Curiosamente, este era exatamente o tópico do colóquio entre os dois homens:

— Estais a dizer-me que não tomais Inês como esposa por causa do pai dela?

— O diabo do Duque de Merânia foi inventar de se indispor com Inocêncio... o estúpido não é a pessoa mais devota do mundo, mas nem por isso carecia de demonstrá-lo tão abertamente, não? – Filipe II fez-se sombrio, o que era assaz raro.

— Soube que incorreu em algumas heresias até... algo como contestar a origem divina de Jesus Cristo... onde está com a cabeça?

— Venho livrando-o todo este tempo em troca da corte a Inês, que, para ele, não tem lá muito valor, uma vez que é a caçula. Somente agora, que estou eu aqui por ela embeiçado o velho viu-lhe serventia na vida. No entanto, mesmo eu tenho que me curvar aos desígnios do representande de Deus sobre a Terra.

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Um criado reabasteceu-lhes as taças de vinho. Milo observou, pensativo:

— Imagino que nem tanto por temer-lhe ou algo parecido, e sim porque vos ressentis dos efeitos de uma insubordinação aberta e pública.

Suspirando, Augusto assentiu, continuando em tom de confissão:

— Se é verdade que a Igreja tem perdido seu espectro de influência, em comparação a anos anteriores, é verdade também que NÃO posso ir abertamente contra Ela. E Ela não aceita que Inês seja minha consorte. Melhor dizendo... não aceita que Inês de Merânia seja rainha de França. – Suspirou novamente, ainda mais desamparado. – O Papa já fala em uma noiva para mim... a irmã do rei da Dinamarca é a aposta de Inocêncio. Ingeborg, seu nome...

— Cristo. A senhora Inês está a par disso?

— Não... e nunca estará! Eu lutarei até o fim para que esse matrimônio não ocorra jamais – respondeu, entre dentes, obstinado.

Compadecido, Milo considerou-o; o altivo e sempre vivaz Filipe II parecia sinceramente desolado.

— Vós a amais de verdade... – Murmurou, cúmplice.

— Sei que isto vos parece absurdo. Testemunhou tantas aventuras minhas no Oriente! Inclusive... aventuras não tão naturais em se tratando de um varão... deveis ter considerado-me um pérfido, tanto mais porque Isabel era viva, mas, com os diabos, eu nunca a amei, nem ela a mim...

— As pessoas mudam, nada parece-me absurdo, se houver amor envolvido. – Sentenciou o conde, pensando em sua própria condição.

— Ao menos Isabel deixou-me um filho, ainda que doentio... nem sei se vingará.

— Mais uma razão por que a Igreja deseja ver-vos casado logo. Quanto ao pequeno, tende fé. Deus sempre há de nos prover, se mister Lhe for.

Virando com vontade o cálice de vinho, o monarca agradeceu com o olhar melancólico. Buscou a amada com o olhar e viu-a falando com um garboso cavalheiro.

— E aquele, quem é mesmo? Esteve o tempo todo assentado ao lado de vossa consorte...

— É Afrodite, camareiro-mor de Camille.

— Curioso pseudônimo... creio que seja um pseudônimo, pois sim? Bem bonito o rapaz! Não vos preocupais em deixá-la a sós com semelhante efebo? Um camareiro fica demasiado próximo da dama a quem serve.

— Na verdade, poder-se-ia dizer que somos amigos, eu e ele...

— Vós? Amigo de um camareiro?!?

— Não há motivo para espanto, Afrodite é proveniente de uma Casa Nobre da Suécia...

— Mas... sim, ouvi algo semelhante! Caiu nas graças de Teobald II. Lembro-me agora dele, claramente. Estou a ficar senil, como poderia esquecer-me de alguém como o célebre “camareiro nobre” de Turenne? – Deu um sonoro tapa na testa, chegando a assustar o seu interlocutor. E rebentou num riso exaltado.

Para alegria de Inês, “o deus grego” aceitou dançar com ela. Após uma respeitosa mesura, o jovem abrigou na palma de sua mão a pequena mão da morena, e teve início a vagarosa valsa ao som das cítaras, flautas e harpas. A adolescente encantou-se com a beleza e a cordialidade do sueco. Poderia ficar dançando com ele até o retorno da primavera!

— Gentil senhor Afrodite, permiti que vos arrebate a bela companheira de dança?

Era o rei, que, enciumado, não pudera tolerar mais que duas valsas dos dois. Notara o exacerbado entusiasmo da menina, e para o centro do salão rumara, ocultando os ciúmes com um largo sorriso.

— Perfeitamente, Majestade. Senhora, foi um prazer. – Curvou-se perante ambos, secretamente aliviado por se livrar daquela mocinha tão tagarela. Cansativa! Quando ia se afastar de vez dali, antes que outra empertigada senhora viesse requestar-lhe a parceria, ouviu detrás de si:

— Só mesmo a personificação da beleza poderia fazer o rei temer ser abandonado por uma dama...

Reconhecendo-lhe a voz e o acento, o loiro voltou-se, sorrindo:

— Senhor Giuseppe! Tardastes em demasia, julguei que não viésseis ao evento.

Notou-lhe as ricas vestes, à altura de qualquer aristocrata ali presente. Uma sobrecasaca carmesim repleta de botões de ouro por sobre a túnica amadeirada e aveludada, calças claras como seus chamativos cabelos prateados. Sim, os burgueses bem sucedidos podiam até mesmo sobrepujá-los, em distinção e elegância!

— Tive problemas na obra. Acabei atrasando-me, entretanto, já o expliquei ao senhor conde.

— Problemas na obra? Algo sério? – Quis saber, tornando-se apreensivo.

— Um andaime despencou... o trabalho de cinco dias inteiros foi perdido. Demorará pelo menos o triplo para recuperá-lo.

— Santo Deus! Alguém caiu de lá? Feriu-se?

O toscano encarou-o, como se não esperasse aquele tipo de preocupação.

— Apenas um operário.

— Havia alguém embaixo?

— Alguns homens, mas…

— Céus, estão machucados? Irei até lá, deixai-me apenas avisar...

— Ei, acalmai-vos. Não há necessidade. Dois vieram a óbito. Os demais não se feriram com gravidade, já foram socorridos e...

— Oh, Deus. Morreram... – o loiro levou a mão à boca, cobrindo a boca aberta em incrédulo horror.

— Não deveis ficar desse jeito. Sempre se espera que algo assim aconteça, vez ou outra. Uma grande obra é como ir para a guerra ou para o mar, guardadas as devidas proporções, claro. – Tentou demover o camareiro da tristeza causada pela notícia.

— Pobres homens...

— Então somente porque cheguei heis de tornar-vos choroso e macambúzio? Há pouco aparentáveis ar de contentamento. – apontou com o polegar na direção em que dançavam o rei e sua amante.

— Estáveis a ver-me dançar com ela?

— Em total estado de graça. Foi-me custoso ouvir o que dizia o conde Milo.

— De fato, a senhora Inês é uma beldade, não?

— E quem disse que foi ela o motivo de meu estado de graça?

— Giuseppe!... – Afrodite fingiu repreendê-lo, sorrindo em seguida.

O toscano findou o sorriso com uma provocante mordida nos próprios lábios, enquanto apreciava o outro de cima a baixo:

— Sequer encontro adjetivos para expressar o quão lindo estais.

— Detém-vos de galantear, aqui não é lugar para tal... – Arrependeu-se daquela fala, que poderia ser erroneamente interpretada como uma prerrogativa. – que tal servir-vos de algum alimento? Um vinho?

— Eu tenho uma vontade mais urgente. De conhecer os jardins do castelo.

Como o loiro pareceu não entender, o recém-chegado esclareceu:

— A esta época do ano escurece muito rápido... gostaria de conhecer os jardins da propriedade, pelos quais sei que sois responsável, enquanto ainda há sol que mo permita. O senhor Milo contou-me que efetuastes um verdadeiro milagre cá nesta habitação, outrora despida de encantos e assaz tristonha.

— Com efeito! Mais parecia um cemitério abandonado quando comecei a trabalhar nos jardins e nos pomares. Entretanto, muito há o que se fazer. Certas coisas levam tempo.

— Sim, disso bem o sei eu. Sou bem paciente, a despeito de meus modos aparentemente intempestivos.

Afrodite esperava que aquilo não se tratasse de nenhuma mensagem com duplo sentido. Sinalizou para que o rapaz o acompanhasse.

— De acordo, senhor Giuseppe, vinde, por favor.

Deixaram o salão fervilhante de música e dança. O banquete prosseguia, suntuoso, nunca cessando de serem repostas as finas baixelas e travessas repletas de fumegantes acepipes. Ganharam os corredores iluminados por archotes, os risos e as melodias ficando cada vez mais distantes. Quando acessaram a área externa, o vento frio fustigou-lhes as faces de tal forma que tornaram-se subitamente pálidos. Não se furtaram a fazer um “brrrr”, erguendo tanto quanto podiam as golas de pele e veludo. Caminharam em silêncio até a escadaria descendente para o primeiro pavimento dos jardins. Desceram-na, ambos considerando ora o céu sombrio, ora as flores que resistiam por entre as pedras dos degraus nivelados.

— Receio que já não haja muito a ver. Há uns meses, estava gracioso, contudo, já se ressente a flora da chegada da triste estação. – Comentou Afrodite, como que constrangido por não poder fazer jus à expectativa do toscano. Este, porém, sorriu, animador:

— O que não me impede de admirar o arrojo do retiro. Mas... eis que vejo ali... rosas? Bastantes delas. Fremosas!

— As rosas são amigas de temperaturas amenas. Sua exuberância emerge da delicadeza que a compõe. – O sueco rejubilou-se por ter, afinal, algo a mostrar. Apontou um canteiro à esquerda do roseiral – Vede, acompanham-nas flores-de-lis!

— Que mocinhas valentes – brincou Giuseppe, parando diante das graciosas flores irisadas. Outras chamaram sua atenção – E aquelas mimosas plantas, que são?

— São narcisos, não os conheceis?

— Como Narciso do mito? ( 4 )

— Este as batizou, por certo. Eles também apreciam climas amenos. Oh... – De repente pareceu ter uma ideia. – O narciso é a flor do senhor Milo!

— Como? Poderíeis explicar-vos?

— O senhor conde aniversaria hoje... dia 8 de novembro... é do signo de Escorpião! Narcisos, por serem da família Amarilis, pertencem ao grupo das flores de Escorpião! (4)

— Existe isso? – O artífice coçou a cabeça, cada vez compreendendo menos.

Empolgado, o loiro rumou até o canteiro das níveas flores. O toscano seguiu-o, curioso.

— Como não pensei nisso antes? Que insensibilidade! Estava tão atarefado com os preparativos dos festejos que sequer pude vir até aqui estes dias... – o sueco mais falava consigo do que com o companheiro. Ficou de cócoras, observando os narcisos. Tocou-lhes de leve as pétalas suaves. Animado, virou-se para Giuseppe e anunciou:

— Levarei alguns para o senhor Milo. Ele há de apreciá-los sobre a mesa... farei um estupendo buquê!

— Oh, sim? – Giuseppe fingiu entender a importância que aquele gesto demonstraria. Não era lá dado a flores, talvez exceto quando com estas pudesse produzir licores... o licor de flor de sabugueiro era-lhe particularmente fantástico! Vendo o camareiro-mor agachado, feliz, colhendo-as cuidadosamente, ofereceu-se, já abaixando também:

— Permiti que vos auxilie...

Resistindo ao impulso de negar ajuda, Afrodite acabou por assentir: não queria parecer arredio em demasia... diabos, ele não era nenhuma moçoila indefesa. Sorriu, agradecido, e para Giuseppe aquele sorriso bastaria para alumiar o mais escuro dos ocasos. Encantado, o toscano pôs-se a colher, com similar esmero, os belos narcisos... intensa emoção dominou-o.

— Senhor Afrodite...

— Eu colheria alguns lírios para a senhora Camille também. São as flores de seu signo, Aquário. Não vejo nenhum desabrochado, contudo...

— Senhor Afrodite.

— Pois não? – O loiro não interrompeu o trabalho e não olhou para o seu interlocutor, de forma que não percebeu-lhe a aproximação.

— Devo dizer que é instigante demais para meus simplórios sentidos contemplar a verdadeira encarnação de Narciso, colhendo as flores assim batizadas por seu amor infundado... infundado e solitário...

O teor do discurso, bem como a quente irradiação a pairar sobre sua face, fez o camareiro-mor virar-se para o artífice: Giuseppe estava tão perto que quase lhe tocava os lábios.

Afrodite suspendeu a respiração, alarmado. O impulso de recuar disparou, em uma pronta defensiva. Em meio a esse processo, ouviu uma voz conhecida, grave e profunda como nunca deixara de escutá-la em seus sonhos:

— Afrodite?

Não se distinguia propriamente uma surpresa, dir-se-ia mais uma dúvida.

O coração do sueco bateu com tal violência que o ar escasseou-lhe nas vias. Levantou-se em um mal disfarçado sobressalto, as pernas tão trêmulas que admirou-se em conseguir se erguer. Seus olhos límpidos e esgazeados chocaram-se com a imponente figura trajada de branco e preto, fincada imóvel do alto da pequena escadaria florida. A capa escura de fundo carmesim movia-se sob capricho do vento, acompanhando-a naquela pequena revolta os negros cabelos, tão escuros como seus olhos rasgados, enigmaticamente atentos.

Soltando o fôlego que inconscientemente retivera, Afrodite balbuciou, atônito:

— Shura...!

*************

Notas finais
(1) segundo minhas pesquisas, "nobres que tencionaram dar maior dignidade aos seus servos" não é algo tão fantasioso como se possa imaginar, tanto mais o período invariavelmente visto como uma era de trevas e sofrimentos simplesmente. No entanto, mesmo os historiadores que apontam essa discreta tendência na Baixa Idade Média parecem ser unânimes em acreditar que isso se devia mais a algo que poderíamos considerar "uma nova visão empresarial" do que bondade pura e simples - não que não houvesse pessoas boas, mas... - afinal, gente com tino de negócios sabe que "trabalhador alimentado e satisfeito produz mais e rende mais lucro para o empregador". Algo que AINDA precisa ser aprendido pelos empresários deste nosso Brasilzão, não é mesmo? (2) Saladino - Como era conhecido o sultão árabe Salah al-Din Yusuf ibn Ayub (1137 - 1193) lutou contra os invasores europeus na Cruzada da qual, na fic, Milo, Shura, Andreas e os reis da França e da Inglaterra participaram (A Terceira Cruzada. Considerado um oponente notável por seu carisma e diplomacia, é dito que sempre procurava resolver as questões por meio de acordos, antes de optar pelo combate. Dizem que Saladino era tão humilde e sábio que vários cruzados se converteram ao islamismo, e os que não se converteram, certamente passaram a respeitar mais os aspectos daquela terra, como é o caso do próprio Milo, e também de Shura, que valorizam os elementos daquela cultura. Ele angariou até mesmo respeito por parte dos reis Filipe II e Ricardo Coração de Leão, por ele derrotados. Seus prisioneiros relatavam ser bem tratados no cárcere, e alguns sequer retornaram à Europa, mesmo com o fim da Cruzada, por livre e espontânea vontade. Não sei o quanto disso pode ser romantizado, ainda mais porque não sou especialista em História, mas se os próprios europeus permitiram que a história chegasse até nós desse jeito, é para se considerar, não? (3) Quem está no grupo "Fics da Amelinda" no Facebook ficou a par da história (real) de Filipe II e Inês de Merânia. Resumidamente, Filipe II casou-se em 1193 com a irmã do rei da Dinamarca, Ingeborg, mas a repeliu no dia seguinte às núpcias e a isolou num mosteiro. Quis casar-se com Inês de Merânia, no que o Papa não consentiu, e ambos tiveram vários problemas, até que se casaram, apoiados por alguns bispos. Os problemas apenas se agravaram, pressões e mais pressões. Inês morreu com a idade de 20 anos. Dizem que o rei chorou amargamente a perda "daquela a quem muito amava". Tempos depois, pressionado pela Igreja, Filipe II trouxe Ingeborg de volta ao trono. A história do pai de Inês, contudo, é fictícia, prestando-se apenas para a fic. Assim como o fato de Filipe e Inês se conhecerem antes do casamento do rei com Ingeborg. ( 4 ) Mito de Narciso - Na mitologia grega, Narciso era um jovem tão belo que tanto homens quanto mulheres perdiam-se de amores por ele. Mas ele não amava a ninguém. Narciso nunca havia mirado um espelho, em função de uma predição de um oráculo, que dizia que, caso ele olhasse para um espelho, seria vítima de uma terrível maldição. Certo dia, ao olhar para a superfície de um lago, apaixonou-se pela própria imagem, sem se dar conta de que era ele mesmo. Ali ficou para sempre, contemplando "a pessoa amada". Eco, uma ninfa por ele rejeitada, transformou-o em flor, a flor narciso. Vem deste mito o termo "narcisismo". (5) Sobre Afrodite mencionar signos do horóscopo: nesta época, a Astrologia não era tão dissociada da Astronomia, sendo objeto de estudos até mesmo em centros acadêmicos. Em outras palavras, falar em signos nesta época não era ainda algo contra as crenças cristãs, nem condenável. A Igreja só passará a repudiar a Astrologia após o século XVI, notadamente XVII. Quanto à menção de Afrodite acerca da ligação entre os signos e as flores, não sei se nesta época era algo abordado, sendo esta parte "licença poética". ************ É isso aí, my people lindja, Milo perdeu a invencibilidade (alguém acha que ele NÃO gostou?) e Shura está de volta! Até que enfim, né? Mas pelo visto ele não chegou em uma hora muito boa... ain T.T Muitas surpresas na continuação da festa de aniversário do Conde, que será postada, provavelmente, bem no aniversário do nosso querido Miluxo :v Aguardo-vos... link para o tema do capítulo, que é uma outra versão, cantada, para a música que foi tema do capítulo 5, "A Chegada do Sol" (Quando Milo chega a Turenne para o seu casamento): https://www.youtube.com/watch?v=8frAmkVXiwI Muito obrigada por prestigiarem Até a próxima o/