Dame Jolie

13 Casamento


Notas iniciais
Quero agradecer do fundo do coração o lindo apoio que têm dado a esta fic que muito amo escrever. E obrigada principalmente a quem comentou, é de grande importância a consideração de vocês para comigo, agradeço muuuito mesmo. Créditos da fanart que é capa: Pixiv ID: 56663518 Member: ○ Link para o tema do capítulo e explicações nas notas finais. Boa leitura!

O primeiro chilrear de um rouxinol solitário ecoou antes que nuances mais claras começassem a macular o profundo anil do céu. A ele juntaram-se cantos de outros pássaros, despertando em Teobald II a nostalgia em meio a preocupação. Insone, encontrava-se perdido em pensamentos difusos, sentado à cadeira dourada estofada de veludo verde escuro. Ouviu uma fraca batida à porta de carvalho. Sendo do raro tipo de fidalgo que dispensava a presença de criados em seu quarto de dormir, ele mesmo foi atender.

— Henri – falou, não exatamente surpreso com aquela aparição.

— Eu imaginei que estivesses desperto.

— Entra, peço-te – e deu caminho para que o conde adentrasse o apartamento. Passou o trinco no ferrolho de ferro maciço.

— Conheço-te suficientemente para acreditar que não cedeste ao sono nem por um instante sequer.

— Se ao menos ele tivesse dado o ar de sua graça, talvez eu tivesse me rendido. Entretanto... – deu um sorriso cansado. O amigo, adivinhando o resto da frase, completou:

— Estás atormentado pela presença insidiosa de teu irmão.

Balançando a cabeça, o duque confirmou, nitidamente incomodado:

— Ele sempre me causa este efeito! Sempre! Escapa ileso de seus crimes, de seus pérfidos estratagemas... e sempre volta para me atormentar...

— Teobald...

— Vê-lo no casamento que deveria ser da criança que ELE ASSASSINOU... ouvi-lo proferir o nome da criança que ELE MATOU!...

— Nunca pudemos prová-lo. Se nem mesmo a morte de TEU PAI foi creditada a ele... embora tenhamos fortes indícios... que podemos fazer? Sei que é muito sofrido para ti, contudo, tens de suportar... pelos filhos que vivem – argumentou Henri, comovido com o estado do amigo.

Teobald II caminhou em curtos círculos sobre o tapete ricamente bordado com cenas bucólicas. Deteve-se defronte à janela.

— Eu sei. Eu suportei até agora, não? Por meus filhos... por Camus! Ele quer ver a ruína da minha Casa, do meu Ducado...

— Proteger-te-ei. Nada temas.

Àquela declaração, o nobre estacou, atônito. Com os olhos turquesas fitos nele, Henri aproximou-se.

— Estás em minha propriedade. De teu genro. Agora, de teu filho. Durval cairá morto antes mesmo que erga um dedo contra ti ou contra os teus. Tenho-o sob vigilância incansável. Um só ato suspeito e eu mesmo o aniquilarei.

— Henri... – sentiu que enrubescia e se constrangeu com aquilo. Percebendo-o, o conde desviou dele o olhar e caminhou para a varanda. Ali parou e comentou, distraidamente:

— Traz-me tantas lembranças, este lugar... a ti não?

Estremecendo, o outro assentiu:

— É claro que sim. Nem por um minuto, desde que cá cheguei, deixo de pensar em como fomos felizes aqui.

— Achei que tivesses te esquecido – Henri sorriu, melancólico.

— Como poderia ter-me esquecido? – sorriu do mesmo jeito – fazes mau juízo de mim.

— Não podes negar que dás essa impressão de forma deveras convincente.

O pai de Camus suspirou:

— Por favor. Não me acuses. Eu já me recrimino o bastante.

Henri sentiu um doce calor ao ouvi-lo falar de tal maneira. Então... lamentava-se, de alguma forma? Sempre achara que Teobald II apenas renegara o passado, em prol da importante posição que galgara... posição essa que suplantara à do próprio rei!

— Às vezes, sonho com os dias em que passamos aqui. Cumprimos nosso papel de defender esta terra dos sarracenos mas – riu o conde, divertido – éramos jovens e “sabíamos viver”.

Teobald rendeu-se ao riso também, timidamente.

— Mesmo em plena campanha militar, e com tantos cavaleiros por perto, nós... não poderia ser diferente. A base de operação, afinal, era propriedade TUA... tu tinhas o mapa da fortificação e conhecias cada recôndito oculto, cada passagem secreta... conhecias o interior dessas paredes como o escorpião que trazem teus brasões...

— Valemo-nos bem daquilo, não? – sussurrou Henri, fazendo o outro suspirar, completamente envolvido por aquelas deliciosas lembranças.

— Foram os melhores anos de minha vida – confessou – e pensar que mesmo findas as batalhas, e retirado o exército, tivemos que aqui permanecer por mais nove longos meses... como torres de vigília...

— Eu não mudei nada desde aquela época – disse o conde, caindo em curta gargalhada a seguir – bem, é verdade que agora tenho rugas, cabelos brancos e...

— Tu continuas belo como sempre foste, Henri.

O pai de Milo parou, encantado com o que acabara de ouvir. Emocionado, sentenciou:

-Tu igualmente te manténs belo, meu amigo.

— Faz-me rir... estás bem mais conservado e esbelto que eu! Não tens estas grotescas papadas nem este olhar mortiço a coroar esta cara branca de fantasma que...

— Amo-te. Amo-te ainda, Teobald.

Foi um inesperado golpe no já perturbado duque de Borgonha. Por mais que soubesse daquilo, pelo que lhe dizia seu íntimo, e por algumas palavras eventualmente lançadas por Henri, nunca ouvira-o se manifestar de modo tão aberto acerca do sentimento que entre eles florescera na juventude.

Obviamente, proibido.

E sendo assim, sufocado. Arrancado de suas vidas, tais quais as ervas daninhas daquele terreno foram arrancadas pelos servos de Auvergne.

— Não te perturbas enunciar semelhante coisa enquanto Sophie agoniza por sobre uma cama? Ela agoniza, mas vive ainda...

— Sophie e eu nunca tivemos uma relação baseada em mentiras. Sempre estivemos conscientes de que nossos corações a outros pertenciam.

— Sophie...? Ela também?...

— Pelo menos, ela foi mais feliz que eu. Seu amante foi dedicado e serviu-lhe de modo que nunca pude fazê-lo, até o fim de seus dias na Terra. Morreu de peste branca (1) há um ano. Sophie nunca me disse isso, mas em meu coração, sei que foi a partida dele que lhe subtraiu a saúde e o desejo de viver.

Teobald II mirava-o, abismado.

— Como?... e tu… tu sabias de tudo?

— Não seria o maior general da França se eu fosse algum néscio – brincou, apoiando o rosto na bancada de pedra, atento ao horizonte violeta – de mais a mais, eu e ela somos bons amigos... foi mãe exemplar e excelente administradora do lar (2).

— Assombra-me que narres a traição de que foste vítima com tamanha naturalidade!

Riu da ingenuidade do outro.

— O que vivi com Sophie é muito mais comum do que imaginas, meu caro. E bem mais salutar, devo acrescentar. Não tenho do que reclamar da vida que com ela partilhei. Traição? Nós NÃO nos amávamos. E eu antes traí a mim mesmo, por não ter lutado por aquele que realmente amei... por aquele que realmente amo.

A garganta de Teobald II constringiu-se de tal forma que lágrimas lhe vieram aos olhos. Virou-se de costas para o conde.

— Que pensas fazer quando... – o duque buscou coragem para perguntar – quando Sophie se for?

— Deixarei a França.

— O... o quê?

Com as mãos para trás, Henri aspirou o ar fresco da alvorada, e prosseguiu:

— Auvergne começa a afrouxar os grilhões que a ela me prendiam: Milo casar-se-á e viverá em Saint-Doulchard. E Aiolia deve se casar em breve também.

— Eu não sabia que Aiolia estava noivo – deixou escapar certa irritação, ao se lembrar das atitudes coquetes entre o jovem e Marin.

— Ele não está noivo. Não AINDA. Dependerá de TUA permissão.

— Minha...? Então ele e...

— Correto, meu amigo. Aiolia veio falar comigo antes de se recolher, após o banquete.

— Marin...

— Está apaixonado pela menina – riu – Sei que não é o usual em nossa sociedade... mas deve ser agradável, não? Unir-se a alguém por quem se nutre algum sentimento. De minha parte, aprovo a escolha dele.

Piscando seguidas vezes, ainda surpreso com a repentina proposta, o duque considerou, hesitante:

— Bom, eu... eu confesso que não esperava por isso... e... com a questão de Camus... nunca pude cuidar adequadamente dos esponsais (3) de minhas filhas, mas...

Pôs a mão no ombro do conde e concluiu, firmando a voz:

— ...mas não poderia escolher melhor família para entregar minha querida menina. Eles têm a minha benção.

— Não imaginas como fico-te agradecido.

Teobald II tirou a mão do ombro do amigo, dele se afastou. Em discreto acento de mágoa, questionou:

— Por eu entregar a mão de minha filha ao teu filho ou por abrir a chaves os grilhões que te prendem à França?

Aquela reação não passou despercebida ao conde, deixando-o levemente lisonjeado.

— Ambas coisas.

— E... deixando Auvergne nas mãos de Aiolia, para onde tu irás?

— Há 5 anos, quando estive em uma breve missão no Oriente, adquiri uma pequena ilha em Bizâncio, em paga de meu apoio ao rei Isaac II na batalha contra os normandos (4). Penso que seria um aprazível sítio para passar meus últimos dias.

— Eu não sabia disso. Nunca me contaste.

— Não era nada tão importante assim que me fizesse te contar – sorriu, jovial – É uma propriedade modesta, porém deliciosa, desde então a cargo de um competente administrador que contratei em Constantinopla. Até me rende alguns lucros, imagina, já que na ilha produz-se magnífico azeite e um vinho sensacional, os quais comercializo com sucesso, tanto lá quanto cá.

— Por Cristo Nosso Senhor! O audaz cavaleiro Henri d’Auvergne, detentor dos maiores exércitos de França... um comerciante às escondidas! – riu-se Teobald II.

Enleado, Henri observou-o: fazia tanto tempo que não via aquela expressão no rosto do amigo, que parecia quase sempre sob pressão, ora tenso ora acabrunhado, e por algumas poucas vezes, dominado pela cólera.

— Pareces remoçar quando te ris. Posso ver diante de mim o fascinante e espirituoso cavaleiro por quem eu me... – fechou os olhos, controlando a própria fala. Abriu-os e sorriu novamente – Bem, é isso que farei. Ao que parece, são findos os tempos de guerra. Meus filhos logo estarão casados e senhores de seus próprios condados. Quando Sophie partir, também eu partirei.

— Compreendo – murmurou o duque, sem conseguir disfarçar a decepção. Tantos anos longe de Henri, e agora que ele retornara... partiria, enfim, para sempre.

— Bem, peço-te licença. Faz-se mister verificar como vão os preparativos para a celebração. Deleguei funções a alguns vassalos, claro, porém assim mesmo eu...

— Henri – chamou-o, antes que abrisse a porta – Eu... sentirei tua falta.

— Deveras? Então vem comigo.

— Ir contigo? Para onde?

— Para onde mais? Para a Grécia.

Boquiaberto, o duque considerou o outro. Em meio a um riso nervoso, retorquiu:

— Só podes estar a gracejar.

— Não. Não estou a gracejar. Vem comigo para a Grécia. Viveremos, finalmente, uma vida plena e feliz. A vida que nos foi negada. Nem que seja em nossos últimos anos, Teobald.

Ainda que o semblante de Henri estivesse sério, Teobald II custava a acreditar que falasse a valer.

— Como eu poderia? O que estás a propor-me é... é uma sandice sem tamanho!

— Oras, que te prenderia agora? Camus e Marin casar-se-ão. Seika logo a eles seguirá, uma vez que já não te restam empecilhos para que lhe arranjes um marido. Tuas cunhadas podem casar-se de novo, ou permanecerem como damas de companhia de tuas filhas.

— E quanto às minhas terras? O ducado de Borgonha?

— Elege representantes. Delega funções. Farei o mesmo, posso ajudar-te. Assim como a ilha de Trínia (5) tem sido administrada de longe, Borgonha também pode ser. De qualquer maneira, não ficarás vivo eternamente para fazê-lo.

— Henri...

— Não precisas responder-me agora. Nem Sophie é morta, nem Seika é casada. Temos tempo.

Eles se encararam longamente. Teobald II encontrava-se sob singular emoção. Sequer pôde se mover, mesmo sentindo a irradiação cálida do corpo que se aproximava, mesmo sentindo sobre sua face o roçar daquela pele.

Tão macia como se lembrava.

Não suportou o peso das pálpebras trêmulas quando seus lábios foram sutilmente tocados pelos lábios de Henri. Foi como experimentar supremas venturas celestiais sonhadas por um penitente contumaz. Aquele suave beijo foi o bálsamo das feridas causadas por décadas de saudades.

— Nunca deixei de te amar – sussurrou-lhe o conde, antes de apartar-se – Nunca. Lembra-te disso.

Vendo-o sem ação, como que enfeitiçado, o pai de Milo voltou a se dirigir para a porta. Parando à frente da mesma, antes de abri-la, disse ainda:

— É curioso saber que meu filho viverá o amor no mesmo local onde eu o descobri.

— Henri... eu também... nunca deixei de...

— Esperei por ti até hoje. Posso esperar mais um pouco. Mais um pouco – sorriu, com tristeza. E saiu dos aposentos, deixando um Teobald II quase sem libertar o fôlego.

*************

Eram dez horas da manhã. Na varanda do apartamento mais alto, Afrodite penteava os longos cabelos de Camus, acelerando-lhes a secagem sob o sol. Haviam sido lavados com esmero e perfumados com água de violetas e rosas brancas. Tão logo acordara, de jejum ainda, o ruivo banhara-se, desta vez utilizando além dos produtos feitos pelo sueco, um sabonete egípcio à base de mel e canela, superior aos franceses. Certamente deixado para uso lá pelos Auvergnes. Eram dados àqueles orientalismos!

— Vejo algumas caravanas ao longe. Mais convidados que se aproximam – comentou o camareiro-mor – vem, hora de pôr o vestido.

Ambos voltaram para o interior da cela. Afrodite tirou a túnica castanha de Camus, deixando-o apenas com o que era a roupa íntima da época: uma espécie de camisola branca não muito comprida, que ficava por baixo das vestimentas simplesmente para evitar o atrito da pele com os tecidos. Algumas damas sequer a usavam, no entanto, como Camus precisava de ocultar bem seus “artifícios”, não costumava dela abrir mão. O loiro já havia previamente colocado tudo de que Camus precisava para ser tomado por uma dama: corpete, enchimentos, moldes. Percebeu a expressão de desconforto do amo.

— Ainda sentes incômodo?

— Não sei por que tiveste que me depilar. Minha carne ainda lateja!

— Creio que a decisão da Igreja de condenar a depilação seja a que mais agrada às mulheres – riu o ex-pajem – Contudo, ela abre exceção no dia das núpcias da dama, a fim de que o marido conheça bem o corpo da esposa.

— Se ficarei coberto o tempo todo, não sei por que foi necessária – resmungou, lembrando-se do horror de ter as tiras de linho empapadas com uma mistura quente de argila, cal, mel e rosas grudando-se em suas pernas e braços... para, em seguida, serem brutalmente puxadas pelo camareiro!

— Por sorte és praticamente imberbe. Mas não queres que vejam que tu não seguiste a tradição, suponho. Afinal... sabe que VERÃO um pouco de tuas pernas e braços quando...

— Não quero nem pensar nisso, Afrodite – interrompeu, irritado – Não sei onde estou com a cabeça que não me atiro aqui de cima e escapo de todo esse horror...

— Está em seu pai, em suas irmãs, em todos que ama. És forte, passarás por isso. Embora... – fez-se sombrio – Preocupa-me o que fará o senhor Milo.

— Não te preocupes. Ele preferiria se jogar daqui de cima também a me tocar – riu, de leve.

No entanto, não tinha coragem de mencionar o assunto do sangue.

— O senhor Milo é um estrategista. Ele certamente já tem tudo preparado. Não te preocupes – o sueco afirmou, amarrando os laços do belo vestido azul claro, até o início da Renascença a cor mais utilizada pelas damas, por simbolizar a pureza. Acinturado, trazia pendente um cinto com discos de ouro, cada um com uma esmeralda no centro. Sobre o colo, nos cotovelos e barras das compridas mangas e da longa saia, detalhes em placas de ouro. Fios dourados compunham relevos nas extremidades do tecido leve, como o adequado àquela estação.

Após ser vestido, o ruivo recebeu no rosto purificado com vinagre de maçã um pó finíssimo, feito com pérolas trituradas misturadas ao amido de trigo. A bem dizer, sua pele era tão alva e imaculadamente perfeita que sequer precisaria de maquiagem. Entretanto, seria um longo dia, e aquele composto conservaria a cútis sempre opaca. Afinal de contas, não estava exatamente um dia fresco, para preocupação dos dois. Nos lábios, recebeu um cosmético preparado com cera de abelha e extrato vegetal à base de beterraba e amora. Afrodite contemplou-o, como um artista contempla a obra-prima recém concebida.

— Desnecessário dizer como estás perfeito.

— Graças a teus esforços, obviamente.

— És belo mesmo sem todos esses aparatos – deu uma risadinha para disfarçar o súbito mal estar que o acometeu por ter dito aquilo.

Logo Camus estaria casado. Sendo uma farsa ou não, estaria legalmente casado. Para que o amo esquecesse logo o que ouvira, o sueco arrematou:

— E eu, como estou?

O filho do duque contemplou o ex-pajem; com efeito, fazia-se estupendo em uma túnica até os joelhos, dourada com frisos em azul marinho, e botões de lápis lázuli; usava uma calça justa amarelo mostarda, com botas de couro marrom. Os cabelos longos e soltos maravilhosamente ondulados, de um loiro mais claro do que o de Milo.

— Desnecessário dizer que ÉS perfeito, Afrodite.

“Mas não para TI, decerto... não comparado ao senhor Milo”, pensou, com amargura, o rapaz, que, malgrado aquele desgosto na alma, sorria, faceiro.

— Afrodite... poderias casar-te também.

— Como? – surpreendeu-se o jovem.

— És belo, culto, inteligente, nobre de estirpe... por que não te casas com Seika?

O sueco afastou-se, entre surpreso e indignado.

— Nem bem casaste e já queres te livrar de mim? – indagou, perplexo.

— Não precisa ser agora. Espera que ela faça quinze ou dezesseis anos, e então, toma-a como esposa. Eu ficaria feliz de te ter em nossa família.

“Achei que me considerasses TUA família, já”, pensava, o gosto amargo em sua boca acentuando-se.

— Não pensavas em contrair matrimônio? – perguntou o ruivo, sinceramente confuso com aquela reação.

— Eu... bem, falemos disso outra hora, que tal? Espera, precisas colocar tuas jóias...

O costume exigia que as noivas de boa condição social usassem o máximo possível de jóias na ocasião.

— Verdade. Prometes que vais pensar? Seika pode ser bem criancinha agora, mas seguirá a herança de minha mãe, que só teve filhas bonitas.

— E um filho igualmente belo, não te excluas disso – acrescentou, fechando ao pescoço do amo inúmeras gargantilhas de ouro incrustadas de esmeraldas e topázios azuis para combinar com o vestido.

*************

Servos, nobres e clero. Três camadas distintas no apogeu da Idade Média. À nobreza, duas missões na Terra: dominar e ostentar. Não por acaso, em se tratando de um casamento aristocrata, festejava-se de maneira nababesca, podendo ter sua duração estendida em até uma semana. Sendo duas famílias tão importantes, não se furtariam à regra.

Havia etapas mais ou menos fixas, dependendo da região: naquela parte da França, a parte litúrgica era realizada após as núpcias. Perante o direito vigente, a parte crucial configurava na constatação da virgindade da moça. A cerimônia na igreja não passava de um dever religioso prestado pelo fiel no intuito de reforçar, perante Deus e os homens, a união consumada. Era o “tornar público”, e como os templos católicos eram os lugares mais públicos de então, símbolo da vida em sociedade, foi natural a transferência de um ritual familiar para o ambiente clerical. Em algumas partes da Europa, essa ordem começava a mudar, pois que a Igreja almejava inserir-se cada vez mais na vida dos poderosos. Assim, demonstrando plena confiança “na noiva”, os pais dos nubentes optaram por iniciar o casório na Catedral de Saint-Doulchard, a cerca de uma hora dali. Ficava no centro do vilarejo visitado por Milo na noite anterior (ele chegara em menos tempo pois para lá se dirigira a galope veloz...).

Destarte, para lá se puseram a caminho os noivos, suas famílias, vassalos, e demais convidados que haviam com eles pernoitado. Conforme preconizava a tradição, Camus ia montado em um cavalo branco, conduzido por um criado vestido com roupa pomposa e cheia de brilhos. Ao lado “da noiva” ia o conde Milo, montado em seu déstrier negro, a expressão dura tomada por seriedade. Vestia uma túnica longa de cor verde água, com inúmeros colares a rivalizarem-se com o dourado de seus cabelos soltos, que refulgiam sob o sol. Já o ruivo trazia sobre si um véu a presentear seu delicado rosto com uma benfazeja proteção. Atrás deles, carruagens que jamais poderiam ultrapassá-los, bem como fidalgos em corcéis paramentados. Os noivos não se olharam durante todo o percurso. Cada um deles, porém, era assaltado por miríades de pensamentos... Milo tentava neutralizar os efeitos deles sobre si, minimizando todo aquele circo que em breve teria o seu fim; logo arrumaria a tal concubina para construir sua famíla e libertar-se daquelas ideias tão absurdas quanto pecaminosas.

Já Camus apertava as rédeas franjadas que segurava, tomado por uma ansiedade inédita... seu coração palpitava fora do normal, e não era de todo desagradável... algo como uma indefinida euforia. Sabia-se homem! Sempre o soubera! E, em grande parte graças a seu pai, mantivera grande parte das características inerentes a um varão. Então por que sentia-se tremer ante doce expectativa? Ora, o jovem fora criado como mulher e em meio a mulheres. A emoção que experimentaria uma noiva apaixonada não deixou de visitá-lo por ser ele um rapaz... não podia negar, malgrado seu exterior estampasse a costumeira placidez…

A procissão chegava à catedral. O sol atingira seu fastígio, e já se via a horda de desvalidos que se avolumavam próximos às escadarias da igreja. Acotovelavam-se na esperança de obterem boas esmolas daquele enxame de aristocratas. Não era algo que acontecesse amiúde na pacata região! Mesmo assim, faziam-se ordeiros, de acordo com que lhes instruíra Leopold, o líder comunitário dos camponeses, homem de cerca de seus 40 anos, um dos poucos não analfabetos da aldeia, o que, aliado ao seu carisma e liderança natural, fizeram-no ocupar aquele posto. A eles juntavam-se mendigos, viajantes e goliardos (6), que enxergaram ali uma boa oportunidade de ganhos. Com sorte, seriam contratados para a festa!

Da mais suntuosa carruagem dentre as que já ali se encontravam, saiu uma figura que Milo, de longe, logo identificou como Filipe Augusto, ou Filipe II, como também era conhecido o monarca. Não pôde deixar de franzir as sobrancelhas, subitamente revoltado. Se não fosse pela ordem DELE!...

Deixando suas carruagens, apeando dos cavalos, os fidalgos foram se dirigindo para o interior da igreja, um a um curvando-se perante o rei antes de entrarem. Assessores reais entregaram a Leopold uma bolsa de veludo repleta de moedas de ouro; os demais convidados aquele exemplo seguiram, embora com somas não tão polpudas. Exigência da caridade cristã, que os mais abastados fizessem tais doações aos mais carentes em dias de nascimento, batismo e casamento. Isso explicava o afluxo dos camponeses e demais nativos para a catedral. Também os noivos curvaram-se perante Filipe Augusto, que os saudou, alegremente:

— Que as bênçãos de Nosso Senhor Todo Misericordioso recaiam sobre vossa Casa e vossa parentela, Milo d’Auvergne... Camille de Turenne...

—Majestade – emitiu Milo, rouco de ódio.

— Majestade – Camus sentiu arrepios na espinha.

—Milo d’Auvergne, é bom ver-vos novamente. Encontro-vos em excelente forma, não o negarei eu!

— Lisonjeais-me, Majestade. Eis que vivo tão somente para servir-vos...e por isto aqui encontro-me eu.

Quem sabia da ordem real assombrou-se com a audácia do cavaleiro, claramente uma indireta ácida! Filipe II, entretanto, não era um rei déspota. Pelo contrário, gozava mesmo de positiva popularidade, potencializada por sua ida às Cruzadas. Nada mais inspirador na formação de uma consciência nacional do que um monarca que recebera “Augusto” em seu nome por ter sido pelo antigo rei esperado por longos 30 anos... e que fora guerrear em nome de Deus em terras tão distantes e inóspitas! Não obstante, Milo sabia que muito daquela fama era romanceada: além de Augusto ter ficado pouco tempo no Oriente, os mais atuantes na luta haviam sido Ricardo, rei de Inglaterra (o famoso Ricardo Coração de Leão), ele mesmo e seu amigo Shura.

— Senhorita Camille – o rei postou-se diante “da noiva” – Permiti-me...

— Vós me honrais, Majestade – respondeu o jovem, oferecendo a mão para que o soberano a beijasse.

Ele pousou no dorso branco seus lábios, mais demoradamente do que deveria, mas apenas porque se distraiu tentando adivinhar o rosto “da donzela” por baixo do véu diáfano.

Feito o cumprimento, saudou os pais dos nubentes e os familiares próximos de ambos. Seus olhos azuis cintilaram vivamente ao ver Andreas de Turenne. No entanto, não falou com ele além do necessário naquele momento. Foi conduzido para o lugar de honra, na galeria da catedral.

Camus e Teobald II aguardaram que todos tomassem seus lugares. Quando estavam finalmente a sós, o duque tomou o braço do filho e disse, bem baixo:

— Perdoa-me...

— Não pedi perdão, meu pai. Tudo que fizestes foi por minha vida – respondeu, sereno, o jovem, olhando adiante.

— Sim, assim o foi... mesmo assim...

Camus virou-se para ele, os olhos castanho-avermelhados luziram mais que as gemas das jóias que o adornavam:

— Eu o amo.

O duque suspirou profundamente. Seu peito doeu. Umedeceu os lábios e, após hesitar, responder:

— Eu já sabia disso

— Não me odiais?

— Odiar-te-ei se não tomares cuidado – disse, as pálpebras pesando de lágrimas que ele heroicamente retinha.

As córneas do ruivo arderam. Mordeu o lábio inferior, presa de forte comoção.

— Tomarei, senhor meu pai.

— Ele também te ama.

Estremecendo violentamente, Camus chegou a perder o ar por uns segundos. Balbuciou, constrangido:

—Co…como sabeis…?

— Henri contou-me.

Apertando os olhos, o rapaz teve ganas de contestar o pai. NUNCA que Milo o amava... ODIAVA-O, isso sim. E não teria sido um beijo a mudar aquela impressão... ODIAVA-O até mesmo por aquilo! PRINCIPALMENTE por aquilo! Milo formaria uma família clandestina, e ele seria relegado aos cantos de um castelo feérico... porém, não se fazia necessário que o dissesse a seu pai. Só iria deixá-lo preocupado. O velho nobre merecia paz, enfim... conservou-se em silêncio dorido.

A mão do patriarca dos Turenne apertou-se sobre a do filho. Este proferiu, em um fio de voz:

— Obrigado por tudo... eu vos amo.

— Também te amo – apertou mais forte – meu filho...

Foi custoso para Camus não derramar as lágrimas que prendia. Os instrumentos de música ecoaram pela paróquia. Era chegado o momento...

Pai e filho olharam-se uma última vez antes de marcharem rumo ao altar, em cujo pé esperavam o noivo e o padre. Lentamente, sob as luzes coloridas dos vitrais banhados pelo sol, eles avançavam, sob olhares admirativos e até chorosos... como os das pequenas Marin e Seika e das tias Agnes e Emilie.

Milo via-o se aproximando, sem definir-lhe os traços. Engoliu em seco, desviando o olhar, desejando mais que nunca uma compassiva morte fulminante... os sons dos instrumentos de corda vibravam dentro de si, sentia-se dentro de um pesadelo.

Ele não tinha culpa!

Camus não tinha culpa!

Ninguém tinha culpa!

Mas isso não limpava o ressentimento que o corroía por dentro...

Ousou mirar o noivo, cada vez mais perto, conduzido pelo pai, segundo a convenção ritualística.

Reviu-se dançando “Dame Jolie” com aquela que julgou ter amado desde o instante em que nela pôs os olhos claros.

““Fico feliz em saber que sereis minha esposa, Camille”

Estreitou os olhos, cerrou o punho...

Pai e filho pararam diante dele.

“Alegrai-vos com nosso matrimônio, Camille?”

As palavras por ele proferidas há semanas reverberavam, lúgubres, a despeito da maviosa melodia que ecoava pela cúpula.

E então, finalmente, Camus removeu o véu de seu rosto. Milo sufocou uma exclamação.

“O que é mais belo que a natureza? Nunca havia achado a resposta...”

Não havia visto Camus daquela forma. Não ainda.

Nunca o vira mais belo.

A pele translúcida sob a claridade que a nave refletia... os lábios úmidos e vermelhos, firmemente comprimidos, dando-lhe feição rígida que contrastava com o fulgor dos olhos quase escarlates... olhos tão fixos nele... diretos e altivos que davam a impressão de uma estátua que ganhara vida diante de si.

“ Podeis simular o amor?”

Por sua vez, o ruivo pensava exatamente o mesmo. Jamais Milo lhe parecera tão lindo. Era quase irreal! Havia de estar sonhando! Seus olhos tão azuis quanto um obelisco de água marinha que certa vez vira nas mãos de sua mãe, presente de seu pai... os cabelos reluzentes a confundir-se com o primor do ouro que trazia sobre suas vestes, que revelavam um pouco das formas perfeitas sob o tecido um tanto justo...

— Vinde ao vosso noivo, serva de Deus – ordenou o padre, erguendo as mãos.

Teobald II segurou a mão direita do filho e entregou-a à mão de Milo, simbolizando que o domínio do pai era transferido para o do marido.

A partir daquele momento, Camus pertenceria a Milo, e a ele tão somente.

O loiro tomou-lhe a mão, achando-a terrivelmente gelada.

— Altissime, omnipotens, bone Domine,
tuae sunt laudes, gloria et honor et omnis benedictio.

Tibi soli, Altissime, conveniunt,
et nullus homo est dignus te nominare.

Laudatus sis, mi Domine, cum universa creatura tua,
principaliter cum domino fratre sole,

qui est dies, et illuminas nos per ipsum

Et ipse est pulcher et irradians magno splendore;
de te, Altissime, profert significationem.
– após dar início à cerimônia com aquela oração em latim, o padre orou em langue d’oil, o proto-francês que falavam:

— Altíssimo, onipotente, bom Senhor, a ti o louvor, a glória, a honra e toda a bênção. A ti só, Altíssimo, se hão de prestar e nenhum homem é digno de te nomear. Louvado sejas, ó meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente o meu senhor irmão Sol, o qual faz o dia e por ele nos alumias. E ele é belo e radiante, com grande esplendor: de ti, Altíssimo, nos dá ele a imagem.

Quando terminou de falar, dois clérigos trouxeram um véu branco para o ritual do velatio: sobre o véu, os noivos se ajoelharam, agora com as mãos unidas, em atitude contrita.

— Milo d`Auvergne, Camille de Turenne. É pela autêntica vontade de vossas almas que encontrai-vos na presença de Deus e de Sua Santa Igreja para contrair o Santo Matrimônio?

— Sim, senhor padre – assentiu Milo.

— Sim, senhor, padre – Camus também assentiu.

— Milo d’Auvergne, prometeis amar e respeitar Camille de Turenne, e a ela ser fiel, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, até que a morte vos separe? – indagou o sacerdote.

Com um nó na garganta, o jovem respondeu:

— Eu prometo.

Dito isto, pegou o anel de ouro com diamantes incrustados, estendido pelo padre em uma almofadinha púrpura.

— Camille de Turenne, prometeis amar e respeitar Milo d’Auvergne, e a ele ser fiel, na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, até que a morte vos separe?

— Eu prometo – confirmou, retraído.

Milo passou o anel em cada dedo da mão direita de Camus, até chegar no anelar. Pôs ali a valiosa aliança, terminando por trocar um enigmático olhar com o ruivo. (7)

— Pelos poderes a mim investidos pelo Altíssimo, eu vos declaro, conde e condessa de Saint-Doulchard, marido e mulher. Podeis selar o pacto.

De igual forma que a maioria dos ritos realizados durante o enlace então foram estipulados, também o beijo entre os noivos perante os presentes na cerimônia o foi, com clara inspiração entre os acordos firmados entre suserano e vassalo. Erguendo-se os dois após removido o véu de cima de suas cabeças, viraram-se para que todos pudessem testemunhar o momento. Naquele tempo, consistia em um gesto de consideração para com suas famílias, e não manifestação de afeto. Isso fez Milo se inclinar para tomar os lábios de Camus sem maiores hesitações.

Em comparação aos dois beijos anteriores (principalmente o último) aquele foi breve e comedido. O que não impediu que ambos se arrepiassem por baixo das luxuosas vestes, tampouco o calor que emergiu de seus peitos... ao se separarem, fitaram-se de modo significativo. Camus torceu os lábios para dentro, sinalizando ao loiro que os tinha manchados... Milo prontamente passou a língua sobre os lábios, sentindo além do gosto das amoras, o sabor da boca de Camus. O que foi uma visão deveras sedutora para o pobre ruivo. Abaixou o olhar, ruborizado.

— A irmã Camille não é a noiva mais bela que já vistes? – sussurrou Marin.

— Parece um verdadeiro anjo que desceu do céu – comentou Agnes, maravilhada.

— Calai-vos... estão na Casa do Senhor – ralhou Emilie.

— São sejas rabugenta, tia – riu Seika, baixinho

— Ela está ansiosa para que acabe logo e possamos partir para o faustoso banquete que nos espera – troçou Agnes, piscando um olho.

Afrodite riu das damas com as meninas, e pôs-se a contemplar, extasiado, o amo que realmente parecia um anjo... não se deu conta de que naquele exato instante, em que seu semblante perdia-se em “Camille”, era disfarçadamente observado por Shura.

Do outro lado dos bancos, também Andreas admirava a sublime figura “da prima”.

“Maldito velhote carola! Eu não reclamaria se fosse eu no lugar desse parvo do Milo d’Auvergne... além de dispor do que é da primogênita do Teobald, terá ao seu dispor uma pequena mui jeitosa, com efeito! Bem queria eu arremeter-me dentro dela, e tirar daquele lindo rostinho plácido de madona uma deliciosa expressão de dor e sofrimento...”, pensava, sorrindo discretamente.

Os recém casados puseram-se a caminhar, braços dados, para fora da igreja. Chegando à porta, Camus tomou uma bolsa de veludo vermelho que trazia presa a seu cinto, e começou a distribuir seu conteúdo aos pedintes. Foi dando as esmolas à medida que se dirigiam para o déstrier negro do filho do conde, guardado pelo escudeiro. Milo ajudou Camus a subir, e em seguida, montou ele também o mesmo animal. Tratava-se de uma antiga tradição: a noiva chegava à igreja só, em seu cavalo, e a esposa partia montada no cavalo do marido, unida a este, uma simbologia da nova vida...

Milo conduzia o cavalo, sentindo o inebriante cheiro que emanava da pele branca tão próxima a ele... o cheiro dos cabelos ruivos... sentindo o contato daquele corpo entre suas pernas abertas... de sua parte, por mais que tentasse evitá-lo, o balanço da cavalgada por vezes fazia com que se encostasse mais ao loiro, e, àquele tocamento, sua respiração suspendia-se. Um sutil aroma amadeirado desprendia-se do belo cavaleiro... agora seu marido.

“Meu marido”, pensou, enlevado.

O cavalo avançava pelas pradarias verdejantes de Saint-Doulchard, o horizonte pincelado pelas silhuetas das florestas não tão distantes. Tão envolvidos estavam nas sensações que procuravam a todo custo não demonstrar só ao se verem cruzando os limites da fortificação se deram conta do que viria a seguir.

A etapa MAIS IMPORTANTE do casamento.

Quando chegaram ao pórtico principal, notaram que mais convidados haviam chegado à propriedade. Aproveitando a distância dos outros e a proximidade do filho do duque, Milo inquiriu:

— Sabes o que teremos que fazer agora, não?

A indagação, bem como o tom nela empregado, pôs o ruivo em alerta.

— Sei o que teremos que fazer – respondeu, tranquilo – Não COMO o faremos.

— Cuidarei de tudo. Tomou o devido cuidado com tua roupa de baixo?

— Como assim? – estranhou aquela pergunta, e não o dissimulou.

— Não sabes que teremos que nos despir na frente das testemunhas?

Camus paralisou de pavor.

— Eu não sabia que precisaríamos fazer isso... minhas tias nada disseram-me a esse respeito!

— Na certa, não quiseram assustar-te – resmungou o filho do conde, consciente de que para as duas senhoras, o rapaz era “uma moça” – Não ficaremos nus de todo. Basta que fiquemos com as roupas de baixo e nos deitemos no leito e... arre!, diz-me, o tecido do que trajas por baixo do vestido é fino?

— N-não... temeis que percebam...?

Milo revirou os olhos, um suspiro de enfado expirado por entre os lábios modelados.

— Veremos se teu “perfeito” Afrodite possui um cérebro embaixo daquela cabeleira... que ele não tenha te vestido com algo fino demais. Afinal, ele deveria saber que...

— Por favor, senhor Milo – reclamou, avexado – Se ele o faz, é porque disto necessito...

— Tanto se me dá. Não sendo o tecido fino, nada perceberão.

Quando quase todos chegaram ao castelo foram levados pelos servos a seus lugares nas mesas distribuídas pelo jardim. Por cima delas, centenas e centenas de baixelas de ouro e prata, algumas fumegantes. O banquete teria início, simultaneamente às núpcias do casal.

Sob os olhares dos convidados, Milo tomou Camus nos braços. Aquele gesto, assim como o beijo na igreja, não se tratava de um ato amoroso, e sim um rito tão antigo que sua origem exata faz-se desconhecida: acreditava-se que antes de entrar em casa pela primeira vez como esposa, a mulher deveria ser carregada pelo marido até o interior, para que maus espíritos não lhe penetrassem pelos pés e não lhe ameaçassem a fertilidade.

E como o beijo, malgrado a suposta ausência de sentimento naquele gesto, Camus sentiu como se fosse carregado por um anjo, um anjo que finalmente viera resgatá-lo de uma vida sem sentido. Reteve a respiração, sob intensa emoção. Nele cravaram-se os olhos de Milo, em cujo fundo distinguia-se uma flama que o ruivo julgou tratar-se de natural inquietude pela farsa prestes a ser por eles realizada...

Adentraram a fortaleza. Milo pôs o esposo no chão. O padre que realizara a cerimônia matrimonial tomou a dianteira deles, segurando um defumador no qual queimava um suave incenso de mirra. Atrás deles, as testemunhas que acompanhá-los-iam até o quarto nupcial: o rei Filipe II, cuja esposa Isabel falecera dois anos antes; o duque de Aquitânia, pai de Michel, o rapaz que teria se noivado com Hilda, acompanhado de sua esposa; o conde e a condessa d’Anjou; Shura e dois dos amigos de Milo, marquês Armand e conde Maurice, que com ele estiveram na taberna semanas antes, acompanhados das respectivas esposas; Surt e Andreas.

Subiram até o andar do que passaria a ser o quarto do casal; o maior aposento do castelo, limpo e decorado às pressas para a ocasião, já que estivera décadas fechado. Círios iluminavam o ambiente, fazendo tremular sombras misteriosas no teto alto e abobadado. A lareira não fora acesa pois não estava frio. Mas a temperatura ali era bem abaixo da que fazia lá fora, devido às paredes de pedra. Os adornos eram um antigo oratório de ouro e tapetes orientais que combinavam com o brilhoso veludo das cortinas nas janelas e do dossel da cama. Um imenso espelho retangular emoldurado de puro ouro refletiu as imagens do padre e do casal, que adentraram o lugar. O sacerdote entoava preces em latim, enquanto andava pelo quarto, seguido pelos demais. Milo e Camus pararam diante da imensa cama, levemente tensos, aguardando a inspeção das testemunhas. Sim, era exatamente disso que se tratava aquela tradição, cujas origens remontavam à Antiguidade: verificar que não havia ninguém escondido nos aposentos e confirmar que os recém casados iriam realmente partilhar da comunhão no leito.

E para que isso? Alguns motivos: evitar o nascimento de bastardos (nobres que se sabiam estéreis poderiam manter às escondidas um servo para fecundar a mulher na ocasião) e evitar a fraude de noivas não mais donzelas (pois sabendo-se disso, providenciava-se uma criada virgem para ser deflorada pelo senhor). Em séculos passados, as testemunhas chegavam a assistir à relação sexual em sua totalidade – até porque a impotência do homem também era passível de levar à anulação do casamento! Entretanto, os séculos XI e XII viram o florescer de uma noção de “privado” que, embora ainda em formação, havia sido o bastante para resumir o ritual à “visita” no quarto, ver os esposos se despirem e se deitarem no leito. Então saíam para que o casal prosseguisse o intercurso.

Em alguns lugares, homem e mulher ficavam totalmente nus diante da pequena plateia, antes de ocuparem a cama. Em outros, ficavam apenas de roupa íntima. Poderia ser questão de escolha ou de demanda dos clãs ou ainda, da região que ocupassem.

Por sorte, àquela época, o mais comum era manter-se com a roupa de baixo.

O padre balançou o defumador por sobre a cama, rogando que Santa Maria abençoasse o ventre de “Camille”. Os presentes disseram “amém”. Camus engoliu em seco, esforçando-se por manter sereno. Milo fazia o mesmo, de quando em quando olhando para o ruivo, em cujo rosto podia ver sutil rubor.

Era chegada a hora: as doze testemunhas posicionaram ao redor do leito nupcial. O padre, no centro do quarto, continuava a rezar. Uma última troca de olhares e os dois jovens começaram a se despir. Duas das mulheres presentes se adiantaram para segurarem suas vestimentas, ajudando-os quando necessário. Finalmente, os dois estavam diante de todos apenas de roupas de baixo, que assemelhavam-se a camisolas, com comprimento até um pouco abaixo dos joelhos, bem soltas. As mangas iam-lhes até os cotovelos, ajustando-se bem ali. A fraca iluminação foi de grande ajuda para o “casal”: nada se percebia por baixo do tecido branco da camisola de Camus. Mentalmente, Milo clamava a Deus para que NINGUÉM tivesse a ideia de abrir as janelas.

Entretanto, o olhar fixo das testemunhas “na bela Camille” só de roupa íntima deixava o loiro apreensivo. Por mais que o vestido fosse razoavelmente largo... os colares e gargantilhas trespassados no pescoço cuidaram de ocultar-lhe o pomo de adão. Temia que alguma das mulheres quisesse tirá-los.

Para isso, precisava AGIR.

Sem qualquer aviso, tomou a mão do ruivo e puxou-o gentilmente para a cama. Camus se deixou levar, seu coração disparando.

Milo sentou-se e conduziu a que “a esposa” fizesse o mesmo. E nem bem Camus assim o fez, Milo achegou-se a ele, cingindo-o pela cintura. Olhando fundo em seus olhos vermelhos, tomou-lhe os lábios sem maiores delicadezas. Suprimindo uma exclamação de surpresa, o filho do duque correspondeu, sabendo tratar-se de estratégia do outro; ninguém iria querer interromper o que principiaram a fazer para tirar as jóias “da noiva”, nem poderia mais reparar tanto em seu corpo... com o cavaleiro sobrepondo-se a ele. Cobrindo-o com seu corpo largo e forte, Milo deitou Camus na cama, beijando-o com aparente ardor. Os volumosos cabelos dourados cobriram-no mais ainda. Atordoado, o ruivo nem se dera conta de que permanecia de olhos abertos. Abrindo a boca para buscar ar, recebeu a língua quente do loiro, a devorar-lhe vorazmente a boca.

— Huumm! – gemeu, sufocado.

— Não há dúvidas de que o senhor Milo possui grande ardor... – comentou Isabelle, a mulher de Armand, abanando-se com aquela cena.

— Isso é bom. Homens ardorosos costumam gerar filhos machos logo de primeira – concordou o marido, embevecido com a visão “da bela Camille” subjugada.

— Por isso só na minha sexta gravidez veio um varão...

— Cala-te, mulher! – o pobre nobre enrubesceu, irritado – Vê, ali tem um espelho... olha-te diante dele e saberás a razão!

— Oras, cala-te tu, desalmado!...

Os fidalgos riram-se, divertidos. Camus encheu-se de ódio. Estava mortificado de vergonha e aquelas pessoas se divertiam! Cerrou os olhos, o que foi tomado por um início de entrega...

Milo continuou a beijá-lo, tanto pelo disfarce quanto por algo nele que o movia imperiosamente para tal...

Uma vez que provara a boca de Camus, era-lhe tão forçoso abandoná-la!

— Bem, meus irmãos, urge que deixemos o casal – anunciou gravemente o padre, abaixando o incensário.

— De minha parte, continuaria aqui – gracejou Surt, a malícia no olhar que deveria ser reverente.

— Concordo contigo, meu irmão. Possivelmente, é AQUI o melhor lugar da festa... – Andreas não conseguia desviar o olhar cobiçoso do rosto “da prima”.

“Como não deve ser fodê-la, amarrada e totalmente dominada... parece ter sido feita para isso, para ter seu orgulho quebrado... adoraria ser eu a fazer isso, minha prima” fantasiava, a excitação invadindo-o de imediato.

Shura encarou-os, enojado. Mesmo que as testemunhas se deleitassem com o que viam, não era de bom tom demonstrá-lo! E aqueles dois estavam a quebrar as normas de conduta, com expressões tão desonradamente ávidas. Andreas chegava a lamber os lábios, sem o menor pudor!

— Obedecer o sacerdote é obedecer à Santa Madre Igreja – sentenciou o moreno, colocando-se na frente dos dois. Afetando desdém por aquela reprimenda, Surt deu de ombros e virou-se para sair. Andreas sorriu, cínico, e acompanhou o irmão.

A duquesa de Aquitânia cobriu os dois amantes, conforme pedia o costume. E dirigiu-se à saída.

Conscientes de que, ao que parecia, o casal teria de fato sua lua de mel livre de qualquer empecilho, as testemunhas deixaram aquele aposento.

Mesmo após ter ouvido o barulho da porta se fechando, Milo continuou beijando Camus, segurando-o pelos antebraços. Entre suas coxas, as pernas imobilizadas do esposo eram algo muito bom de se sentir... e de mais a mais, melhor dar tempo para se levantar e trancar a chave. Interrompeu o beijo, e fitou o ruivo; ambos ofegantes, ambos tensos… escolhendo não pensar sobre aquilo, de um salto o loiro pôs-se de pé e correu até a porta. Trancou-a rapidamente, sem fazer barulho.

Virou-se para Camus, desfeito na cama. Os cabelos vermelhos em desalinho... o rosto afogueado, os lábios entreabertos a recuperar o fôlego... o olhar ardente cravado nele...

Balançou a cabeça. Carecia de ações, não de tolas ponderações. Não de torpes dilemas.

— Se... senhor Milo – murmurou, fracamente.

— Foi necessário – cortou-o, voltando a sentar no leito – Assim, partiriam logo. E não ficariam a reparar tanto em ti.

— Eu compreendo... – respondeu, num fio de voz. Os lábios latejavam. Levou uma das mãos até eles. Desviando dali o olhar, Milo falou:

— Devemos proceder à segunda parte do plano.

Ante a expressão interrogativa do outro, esclareceu, e seu tom um tanto rude causou frêmitos no ruivo.

Só que agora não mais de prazer:

— Atestar que TU ERAS virgem. Eles querem ver o sangue no lençol... – e arrancou, bruscamente, a sedosa peça de cima de um atônito Camus – pois muito que bem: VERÃO o sangue no lençol...

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Notas finais
(1) Peste branca - Tuberculose. Lembrando que a "peste negra", que vai assolar a Europa entre 1347 e 1353, é a peste bubônica, doença transmitida pelas pulgas dos ratos. (2) Esposa = administradora do lar; sobre isso já falaram as tias de Camus, mas relembrando: nesta época, mesmo sendo nobre, a esposa cuida da administração do castelo, principalmente na ausência do marido, realizando tarefas como coordenar os criados, a compra de mantimentos e artigos dos mais variados, realizar negócios com comerciantes locais, zelar pela educação dos filhos e dos filhos dos servos que para ela trabalham, dentre outras. (3) Esponsais - noivado, contrato de casamento (4) Bizâncio, rei Isaac - nome antigo de Constantinopla, cidade da Grécia, capital do glorioso Império Bizantino, que veio a cair em 1453, com sua tomada pelos turcos (considerado um dos marcos do fim da Idade Média). Atual Istambul, ainda hoje pertencente {a Turquia. O rei Isaac existiu mesmo, bem na época da fic, e realmente lutou contra os normandos, vencendo-os. Fiz o Henri ter um dedinho nisso ;) Aliás, fiz os personagens falarem "Grécia", mas em 1192 certamente chamariam tão somente Bizâncio, termo que meio englobava tudo relacionado ao império. (5) Ilha fictícia. (6) Goliardos - estudantes pobres que passavam os dias a compor poemas e canções, daí tentando tirar seu sustento, apresentando-se em praças e tabernas. Como eram mal vistos pela Igreja e pela sociedade em geral, suas obras raramente eram assinadas, permanecendo até hoje anônimas. (7) Nesta época ainda não existe a troca de aliança. Apenas a mulher recebe o anel, da maneira que aqui é descrita. O ritual do "velatio" também é real. (Essa cena do quarto foi composta mesclando fatos reais e um pouco de "licença poética".) ************* Enfim, casados! E... quanto às núpcias? O que Milo tem em mente? Link para o tema do capítulo, a música "Gloria", da banda sueca Vox Vulgaris https://www.youtube.com/watch?v=kPwHWKSmIbY Muito obrigada por prestigiarem... até o próximo capítulo o/