Dame Jolie
57 Batalhas no Mediterrâneo
Notas iniciais
Sob olhares fixos e respirações suspensas, Camus e Saga, empunhando suas espadas opacas pelo sangue de suas lâminas apressadamente enxugado, miravam-se banhados pelo sol abrasador do Mediterrâneo. Ainda que a tarde se aproximasse do fim, o ar denso pouco se minimizava com o tímido vento, que soprava quente e hesitante.
O primeiro a romper a posição estática foi o capitão da Gemini, que, sem dar quaisquer mostras de incerteza da vitória, lançou-se com ímpeto feroz sobre o oponente. De modo ágil, o ruivo desviou-se em um rodopio que logo o fez assumir a dianteira do rival. O código de honra de um cavaleiro desaprovaria um golpe pelas costas, de forma que ele limitou-se a sorrir, como que orgulhoso de sua capacidade.
Entretanto, Saga não se equivocara ao pontuar que, em detrimento à já assumida técnica superior de “Laurent”, ele dispunha de muito mais experiência em combate que o ruivo. Tal manobra não era novidade para o grego; esse voltou-se com presteza, fazendo uma das duas espadas que segurava traçar perigoso caminho rumo ao coração do novato. Todavia, a lâmina ofensiva encontrou ruidosamente a espada brandida com assombrosa habilidade por Camus. Uma sequência que se assemelhava a uma dança entre os dois adversários deixou toda tripulação boquiaberta.
Se por um lado a adrenalina e o instinto de preservação do nobre conferiam-lhe atuação impressionante naquele duelo, por outro, seu próprio corpo, exaurido pelas condições adversas que vinha padecendo há semanas, impossibilitava um desfecho célere como gostaria.
Já a Saga não faltava vigor, potencializado pela ardente ira que inflamava seus olhos esverdeados.
− Eles parecem igualar-se em habilidade e espírito de luta – Observou Thor, quase sem piscar.
− O novato seguramente não era um simples servo, isso agora é claro como o dia que se vai – Dohko comentou, atento e apreensivo.
Sem desviar os olhares esgazeados da feroz luta para se dirigir ao capataz, Orfeu relembrou intrigado:
− Mas ele foi entregue às galés sob alegação de que se tratava de um criado punido por alguma falta assaz grave, cometida contra seu senhor, o Marquês de Aguilar! Considerai, deveras, que ele NÃO é um mero serviçal?...
− Transbordas de estultícia, parvo! Cuidas que um “mero serviçal” haveria de lutar dessa maneira? – Sorrindo empolgado, Kanon respondeu no lugar do chinês.
Orfeu arregalou os olhos, genuinamente preocupado com o homem que, a despeito da rejeição sofrida, ainda amava.
− Capitão Saga... – Deixou escapar baixinho, em tom de súplica.
− Laurent, arrepender-te-ás de te voltares contra mim!!!
− Em momento algum estive do vosso lado! – Volveu Camus, investindo agilmente contra Saga, que lhe repeliu o ataque sem grandes dificuldades. Face a face com o ruivo, rosnou:
− E hás de lamentar amargamente por isso...
Lançou mão de atacar com a segunda espada. Para não ser atingido, Camus saltou para trás, no que Saga avançou com tudo, logrando uma aparente vantagem: o fio da arma quase provou do sangue do jovem francês, que se esquivou pelo que ele mesmo considerou um verdadeiro milagre. Quando ia recompor a postura, a outra espada do inimigo cortou mais que o ar: atingiu o braço esquerdo de Camus, na altura do bíceps. Gritos da plateia ecoaram, abafando o gemido de dor do novato. Contudo, não havia tempo para dor, pois que um novo ataque seguiu-se, implacável.
− Ha, ha, ha, ha, ha, ha! Agora que minha lâmina sorveu teu sangue – Riu Saga, colhendo-o com a própria língua, zombeteiro. – ela não há de descansar enquanto não estiveres em PEDAÇOS aos meus pés!!!
Com fúria desmedida, tentou acertar Camus novamente, que, a custo, pôde bloquear o que poderia ter sido um golpe mortal. Malgrado fosse destro, o ferimento do braço direito afetava-lhe o equilíbrio, percebia-o. Camus tentou não voltar àquele pensamento, porém, o peso do sangue na manga da túnica não auxiliava em nada tal distanciamento. Os dois homens digladiavam-se com impetuosidade tal que o cálice de Kanon permanecia cheio, tamanha sua atenção no combate. Seria, de fato, “Laurent” capaz de vencer Saga? A luta estendia-se, e o único homem ferido NÃO era o seu irmão. À medida que a batalha se desenrolava, o sorriso de Kanon se desvanecia. Enquanto isso, o francês pensava, começando a entrar em desespero:
“Não posso morrer aqui! Já não é somente por minha liberdade, por Milo... é por Isaak!”. Não obstante, em vez dessa convicção lhe dar força, causou-lhe uma perigosa distração, do que ele se conscientizou ao receber novo golpe, desta vez no peito. O grito curto e rouco de dor provocou frêmitos de deleite em seu adversário. Salpicos de sangue espargiram-se por sobre o convés.
− Ha, ha, ha, ha, ha, há, isso é só o começo, hei de arrancar teu coração da próxima vez, traidor imundo!!!
Instintivamente, Camus levou uma das mãos à região atingida, como que para se certificar de que seu coração ainda estava realmente ali. Sequer se dera conta de que sua espantosa agilidade evitara maiores danos. O ferimento não havia sido grave. No entanto, havia sido o bastante para atordoá-lo; perder sangue nas condições em que se encontrava por si só já configurava um caminho para o fenecimento.
− Não... NÃO há de terminar assim... – Murmurou, as pálpebras pesadas... lágrimas? Exaustão? Desistência?
Por entre os cílios frementes, réstias cintilavam por entre silhuetas altas e esguias das árvores.
Não mais a maresia, e sim o cheiro da terra, da grama, de um lugar há muito distante, invadiu-lhe as narinas dilatadas por sua respiração ofegante.
“Vais desistir, Camille?”
“Não há jeito de sobrepujar-vos, meu pai...”
“Diz um antigo ditado que ‘apenas para a morte não há jeito’.”
Caído na relva, tais palavras evocaram a imagem da irmã, trajando suas roupas, sorrindo-lhe de modo travesso, antes de se virar e irromper eufórica pela porta, enquanto ele permaneceu ali, imóvel, a observá-la atônito, vestindo-se como se vestiria para o resto de seus dias... enquanto ela...
Camille...
“Precisas aprender a lutar, ou hás de sucumbir quando a luta de ti se aproximar!”
O brado do duque, que à época fizera algumas aves levantarem voo em meio à floresta onde treinavam, ecoou na mente de Camus.
Refletindo o brilho derradeiro do sol, a lâmina assassina descendia sobre seu corpo quando a voz do Duque de Borgonha se fez ouvir novamente em suas lembranças:
“Camille! Ergue-te, luta... por Camus! Tu me entendes! Precisas lutar pela vida que se foi, pela vida que tens!”
Subitamente desperto, Camus rolou pelo assoalho sujo de sangue, tomou impulso e, para a surpresa de Saga e de todos, pôs-se de pé, ao mesmo tempo em que, com a espada ligeira, desarmava uma das mãos do rival.
Mais que isso; cortara a mão direita do capitão Saga!
Antes pelo estupor do que pela dor, Saga berrou a plenos pulmões, seguido pelos urros eufóricos da tripulação. Ao baixar a guarda, permitiu que o ruivo, em um volteio misterioso, lhe arrancasse a espada restante da outra mão. A arma tombou pesadamente sobre o tombadilho.
Momentos de total silêncio precederam o desmoronar do capitão, que segurava o pulso direito, de onde o sangue esguichava abundante; quando este quedou-se de joelhos ao joelho, finalmente foram libertos os gritos das gargantas de toda audiência.
− VENCESTE, LAURENT! – Bradou Kanon, imensamente satisfeito.
Sob forte vertigem, Camus considerou Saga dobrado sobre o próprio corpo, entregue à dor e à mortificação da derrota. Cerrou os olhos lentamente, atordoado pelo calor, pelo barulho, pela dor, pela hemorragia. Notando-o, o capitão esticou com surpreendente presteza a mão esquerda e tomou a espada mais próxima de si.
− Laurent!! – Thor bradou inadvertidamente, pois que percebera a intenção traiçoeira do homem subjugado.
O que Saga pretendera jamais viria a se realizar, pois que Camus abriu os olhos e, rápido como um raio que corta os céus cinzentos em uma tempestade fugaz, cravou sua espada na base do pescoço do capitão. Os gritos de euforia deram lugar a gritos de surpresa. Mesmo Kanon levantara de um salto de sua cadeira.
Mais uma vez, e pela última, Saga tombou ao convés, mergulhado em seu próprio sangue.
Trêmulo, Camus só conseguiu balbuciar “Eu não queria...”, antes de ver as nuances avermelhadas do firmamento se misturarem no turbilhão rumo à escuridão.
*************
Acima do horizonte, o firmamento tingia-se de ouro, prenúncio de outro dia ensolarado no Mediterrâneo. As estrelas que pouco a pouco se ocultavam no manto da aurora foram testemunhas da vigília daquele homem, cabelos loiros agitando-se ao vento cálido, olhar fixo na distância por ora inalcançável.
Por mais que soubesse que mais útil ter-lhe-ia sido o repouso do que a sua privação, não havia como Milo dormir. Não agora, a caminho de Antioquia. Temia tantas coisas!
Temia não chegar a tempo.
Temia não encontrar a Gemini.
Temia encontrar a Gemini e não encontrar Camus.
Temia encontrar Camus... e esse NÃO ser mais o SEU Camus.
Assustou-se ante o próprio pensamento.
“Que quer isso dizer?”
Nem ele mesmo entendia.
Respirou fundo, curvando-se sobre a balaustrada do navio, em cujo casco sólido e escuro batiam sequencialmente as ondas do mar prateado.
Achava que temia não encontrar Camus. Mas a verdade é que além daquele medo, havia outros que ele sequer compreendia.
“O importante é encontrá-lo. Apenas isso.”
De uma porta que interligava o interior ao convés, um jovem loiro observava-o melancólico. Sem querer ser descoberto, permanecia na penumbra do interior. Por fim, deixou escapar um suspiro ressentido e voltou-se para a escada estreita, que conduzia até as diminutas cabines ocupadas pelos viajantes menos abastados. Levava consigo uma caixa de prata cujo conteúdo seria utilizado para uma árdua tarefa.
Cuidar do homem que amava, mas que deveria odiar.
Não se incomodou em bater à porta; antes, adentrou o pequeno recinto sem qualquer cerimônia. À pouca luz existente, pôde distinguir os contornos de um corpo que demandava seus cuidados. Conquanto estivesse mais emagrecido, conservava certo vigor, patenteado em suas formas rijas e lisas.
“Felizmente está a dormir”, observou, involuntariamente aliviado. Aproximou-se do leito, tentando não fixar demasiado o olhar nas curvas, na pele, nos músculos relaxados e desnudos... como deveria ser, a julgar pelas bandagens que continham preciosos unguentos. Procurou desvendar algum ressonar; apenas o distante som das vagas fazia-se ouvir.
Não, nem um ressonar, sequer qualquer respiração era percebido pelos ouvidos do rapaz, que arregalou os olhos ante uma funesta ponderação.
“Terá ele perecido durante a noite?”
Ajoelhou-se aflito diante do homem que jazia de lado, os olhos cerrados quase ocultos pelas mechas negras que lhe pendiam da fronte. Analisou-lhe as feições contundidas, ainda que bem menos inchaços e edemas se pronunciassem na pele pálida.
Os olhos azuis muito claros pousaram, temerosos, sobre os lábios finos e entreabertos. Também eles estavam menos inchados. Quis acreditar que sua alegria ao constatá-lo devia-se tão somente a saber eficaz seu trabalho, e não a verificar que o homem que lhe causara tanta dor, que causara tantos problemas àqueles que amava, estava se recuperando.
Mas... estaria, de fato, se recuperando?
A despeito da evidente melhora dos ferimentos, ele não parecia nem mesmo vivo!
“Preciso verificar se ele respira...”, pensava, cativo do magnetismo dos lábios entreabertos, de tal forma que sequer se dera conta de que as írises verde escuro não mais se ocultavam sob as pálpebras lívidas. A visão de seu amado foi capturada diante de si, tão perto de sua boca...
Foi então que Afrodite descobriu-se observado. Um breve sobressalto foi a única reação cabível, pois que ser-lhe-ia impossível desviar do olhar fixo, da boca que avançava lentamente para a sua... do toque que, malgrado sutil, fê-lo estremecer dos pés à cabeça.
Não entendia o que se sucedia. Um delírio febril? Não, Shura não tinha febre. Sendo assim... por que era por ele BEIJADO?
A faculdade de raciocínio abandonou-o de vez quando sentiu o toque da língua do outro de encontro à sua; correspondeu, trêmulo como nunca. Sequer desvendaria o momento em que, aprofundado o longo beijo, deitou-se ao lado do espanhol, que, por sua vez, trouxe-o, imperioso, para junto de si. As mentes de ambos esvaziaram-se ao calor daquele amplexo. Nada mais poderia existir, fosse isso certo ou não, tão somente acontecia, inevitável como o desabrochar das flores à chegada da primavera após um longo e sombrio inverno...
Não saberiam se minutos ou horas haviam se passado. Fato é que haviam consumado o ato, outrora impensado por ambos. Agora, repousavam um nos braços do outro, ainda ofegantes, cobertos de suor e fluidos do que outrora era proibido.
Levou ainda um bom tempo para que Afrodite se desvencilhasse do marquês; quando o fez, murmurou, entorpecido pelo desatino corporal ministrado pela consumação daquele amor insano:
− Não deveríamos ter feito isso.
− Todavia, fizemos. Arrependes-te?
− Sim... e não – Admitiu, esfregando com a mão direita o rosto úmido, sem saber se era de suor ou de lágrimas.
− Arrependimentos não hão de apagar o que fizemos.
− Tua fala leva-me a inferir que te arrependeste.
Inesperadamente, Shura sorriu ao retrucar:
− Voltaste a tratar-me por “tu”.
− Oh. Bem, foste tu quem mo proibiu, em primeiro lugar, cuido que te olvidas disso – Sussurrou Afrodite, corando. Alargando o sorriso, o espanhol tomou longas mechas loiras entre as mãos e as beijou com reverência.
− N-não é certo. Portar-nos como dois amantes despreocupados enquanto...
− Shhh – O espanhol pôs um indicador sobre os lábios do sueco. – Como eu disse, arrependimentos não hão de apagar o que fizemos.
− Curiosas palavras para alguém tão devoto como tu.
Shura volveu, cabeça baixa e tom sumido:
− Bem, vê aonde minha devoção irrestrita trouxe a todos nós.
Ruborizado, Afrodite puxou para cobrir seu corpo a manta puída ao indagar:
− Por que razão me tomaste como amante se meu sentimento anteriormente causou a ti tanta repulsa?
− Não te é óbvio? – Encarou-o com ardente seriedade. – Descobri que te amo.
− Que tolice! – O ex-camareiro riu, jogando para trás a basta cabeleira desgrenhada.
− Milo está a par de meus sentimentos para contigo.
Surpreso, Afrodite replicou:
− Milo? Contaste a ele que... o quê, por Deus, contaste a ele?!?
− A verdade. Que tu tocaste meu coração. Creio que... – Acariciou a face na qual se vislumbrava, conquanto tênue, uma cicatriz – desde que sacrificaste teu excelso rosto por mim.
Resoluto, o ex-camareiro levantou-se de supetão. Apressou-se em pegar suas roupas, um tanto atabalhoadamente.
− Não devíamos ter feito isso! – Repetiu, aflito.
− Quando haveríamos de nos amar? Afrodite – Ergueu-se também e segurou o outro pelos braços – havemos de nos separar em breve. Sabes que em breve hei de desaparecer de tua vida.
Afrodite estremeceu.
− Milo insiste em que há de te aniquilar tão logo resgatemos Camus. Contudo, sei que o próprio Camus não há de permitir isso. Eu o conheço. Eu SEI disso.
Shura soltou-o e caminhou vagarosamente de volta ao leito, no qual sentou.
− Ele... é mesmo um homem assaz honrado. E puro de coração. Quando o levei, não fez qualquer objeção, contanto que eu não comprometesse Milo.
− Exatamente. Portanto... não creio que há de desaparecer... de minha vida.
− Não ouso confiar nisso. Sequer teria direito. Mas... poderias, tu, ainda, viver esse amor comigo? Depois de TUDO que houve? Depois de tudo que FIZ...
Hesitante, Afrodite mirou o assoalho, desistindo de vestir a última peça, a túnica verde com detalhes dourados. O espanhol, ao perceber que a resposta não viria, atalhou:
− Não importa. De qualquer forma, não dependerá de ti, a decisão do destino.
− Pois diz-me, se não for morrer pela espada de Milo, ou ser perdoado por Camus, qual seria?
− Além de entregar ao capitão Saga os títulos de propriedades que me restam, entregar-me-ei em troca de Camus. Ficarei em seu lugar na Gemini.
− Que dizes? Tencionas, pois, ficar nas galés às quais condenaste Camus?
O espanhol encarou-o firmemente. Conquanto imensa tristeza residisse em seu semblante, assegurou:
− Mesmo que eu seja poupado por Milo, não poderia mais viver em paz neste mundo. Se Milo não der cabo de minha vida... oferecer-me-ei para servir pelo que dela resta ao capitão da Gemini.
− Neste caso, hei de me entregar contigo às referidas galés.
− Deliras!! E quanto a Camus? Que seria de vossa amizade?
Afrodite sorriu tristemente.
− Há de sobreviver, a amizade que um dia me devotou, ao saber que escolhi perpetuar o amor daquele que contra ele conspirou?
− Tu mesmo disseste que Camus não permitiria que Milo me executasse. Se ele for capaz de interceder por minha vida, porque não seria capaz de perdoar-te pelo que crês, com razão, ser um delito?
− É diferente... preservar uma vida é algo crucial, inerente à sua misericórdia. Prosseguir com uma amizade que há de ter se mostrado traiçoeira...
− Tu não o traíste. EU o traí!
Sob torturante emoção, o sueco cerrou as pálpebras por sobre cintilantes lágrimas.
− Quisera eu fechar meus olhos – Sussurrou – e, ao abri-los, ver a todos nós de volta a Saint-Doulchard... defronte à lareira... tomando vinho, jogando, chilreando alegremente, ouvindo o saltério tocado por Camus...
− Deus é testemunha de que partilho de semelhante anseio.
− Shura...
− Afrodite – Diminuiu a distância entre ambos. – Amo-te. Leva gravado em teu nobre coração a lembrança deste dia, pois trata-se de tudo que teremos.
− Não fales assim... não irás...
Batidas impacientes à porta fizeram os dois terem um sobressalto. Ciente de quem era, Afrodite tratou de vestir a túnica apressadamente, e Shura, de se cobrir com a manta de lã de carneiro gasta e amarelecida. As batidas repetiram-se enquanto o sueco abria a caixa de medicamentos sobre uma ordinária mesinha de madeira. Dirigiu-se até a porta, aprumando-se tanto quanto podia. Puxou o trinco, ao que a porta se abriu revelando o recém-chegado. Esse fitou longamente Afrodite, sem disfarçar o ar desconfiado, e disse, secamente:
− Imaginei que estivesses aqui, ao não te encontrar em teu camarote.
− Vim verificar os ferimentos de Shura e trocar-lhe os curativos.
O Conde de Saint-Doulchard lançou um olhar abertamente hostil ao homem que um dia chamara “amigo”. Em seguida, considerou o ex-camareiro de seu esposo:
− Pelo visto, ainda não o fizeste. Que te impediu?
− Eu... cheguei há pouco.
− Decerto vieste correndo, não? Tens as faces afogueadas e os cabelos assaz bagunçados para o impecável “impertinente” que conheço – Comentou, entre acusador e sarcástico.
Optando por não responder, Afrodite pôs-se a pegar seus apetrechos e fazer o que o levara até ali. Sempre sob o olhar perscrutador de Milo, limpou as feridas de Shura, aplicou sobre elas medicamentos cuidadosamente preparados e pôs bandagens limpas.
− Pronto. Terminei. – Anunciou. E, sem mais nada dizer, retirou-se.
A sós, Milo e Shura encararam-se por alguns instantes, até que o conde suspendeu o silêncio:
− Parece-me que hás de te recuperar plenamente até chegarmos a Antioquia. Em outras palavras, de estar em condições suficientes para desfazeres o mal que causaste.
− Pois se tenciono restabelecer-me, é tão somente com esse fim. Tendo o mesmo sido enfim consumado, poderás servir-te de minha vida. Ou... entregar-me à Gemini, caso te aprouveres.
− Entregar-te à Gemini?
− Saga há de se dispor o... – Limpou a garganta, constrangido pela expressão da qual urgia se servir. – negócio que fizemos, mediante meus títulos, fortuna e apelo. Ainda assim, é o anelo de uma alma que caiu na pior das desgraças, a de trair aqueles a quem se ama, que move essa resolução. Não basta que liberte Camus, é mister que padeça EU em seu lugar, e pelo resto dos meus dias. Isto é, se não levares a cabo a TUA resolução primordial.
Com um riso sarcástico, Milo replicou:
− Enfim, negocias por tua miserável vida.
− Engana-te. A decisão segue em tuas mãos.
− Não sou homem de mudar de ideia, Shura, tua traição causou-te algum tipo de esquecimento acerca de meu caráter?
O espanhol absteve-se de responder, talvez por cansaço.
− Faz o que te aprouver, repito-o.
− Não tenhas dúvida de que o farei! – Bradou o conde, subitamente exasperado. Afastou-se do marquês, passando a mão pelo rosto suado. A pequena acomodação fazia-se abafada, opressiva. – Ocorre que... da mesma forma que não sou homem de mudar de ideia... não sou homem dado a esquecimentos de qualquer tipo.
Ante a expressão interrogativa do outro, elucidou, em tom de contida mágoa:
− Não esqueço de que tu me salvaste a vida, quando contra ela Andreas conspirou.
− Não, não deves...
− Cala-te! Deixa-me prosseguir... – Sentou-se em um banco de madeira ordinário. – Duelaste com o próprio Saladino em troca de minha liberdade, que, por certo, não seria a única coisa a ter sido tirada de mim.
Lampejos de memórias fizeram Milo cerrar os punhos. Fora torturado por dias a fio, quase tanto quanto infligira a Shura, que dos suplícios então o livrara. Claro que tivera razão de o fazer, e de jeito algum se arrependia! Faria mais, muito mais, por Camus... todavia...
− Mesmo não possuindo teu grau de devoção cristã, tenho a consciência de que lançar-te à penitência em vida por teus atos, em vez de simplesmente executar-te, é o justo. Tanto mais por que devo-te a vida.
− Nada me deves, Milo. O que fiz é imperdoável! – Disse o espanhol, contrito.
− Ademais... Camus não haveria de se agradar do fato de eu haver tirado a vida de quem me salvou no passado. É por ti que pude conhecer aquele que é a luz de minha vida.
Todo o corpo do marquês estremeceu. Tais palavras faziam eco às enunciadas por seu amado. “Camille” sempre se lhe afigurara personalidade notável; sabedoria, honra, graça, altivez e, ao mesmo tempo, humildade e temperança. Com efeito, um ser especial.
Salvá-lo-ia, à custa de sua vida. De sua própria salvação, se necessário fosse. Com um grito abafado, caiu de joelhos diante de Milo.
− Eu juro por minha alma que hei de expiar meu erro!
Incapaz de suportar mais, o conde levantou-se de súbito e dirigiu-se até a porta. Após hesitar um pouco, saiu, por fim.
Foi até a cabine de Afrodite, lá o encontrando como supusera. Sentindo-se pego em falta, o ex-camareiro apressou-se a falar, afoito:
− Milo, eu posso explicar! E-eu... eu não esperava, tampouco planejei o que...
− Cala-te. Não é preciso que me expliques nada.
− Mas...
Sem pedir licença, adentrou a acomodação em prol da privacidade que exigia aquele colóquio. O sueco fechou a porta, à espera de uma explosão do conde. Em tom menos agressivo que o esperado, ouviu:
− Embora muito me revolte a relação que floresceu entre vós... não posso te punir, tampouco recriminar, por muito que queira.
− Milo? – Estranhou-lhe o discurso.
− Eu conheço Camus. Há menos de dois anos, mas é como se o conhecesse por toda a vida. Porque desvendo-lhe o coração e o espírito. Camus jamais iria querer que eu te ferisse.
− Eu... eu não escolhi amar Shura. Entretanto...
Milo fez um gesto sinalizando que não queria ouvir.
− Eu creio que havemos de salvar Camus. – Decretou, simplesmente.
− Sim... sim! Havemos de salvá-lo! Eu tenho fé!
− E o que hás de fazer tu, em seguida, com teus sentimentos?
− Com meus...?
Após um profundo suspiro, o conde revelou:
− Não serei o veículo do aniquilamento de Shura; antes, hei de irrogar-lhe a penitência de servir às galés, por toda sua mísera existência. Tenho pendências para com ele, das quais é testemunha Nosso Senhor, e Ele abster-se-ia de me honrar nesta empreitada se eu me rendesse à impiedade. – Implacável, fitou seu interlocutor ao concluir: − portanto, vossos ideais jamais haverão de se concretizar, desejo que o saibas.
Em grande esforço para não deixar transparecer demasiado sua dor, Afrodite assentiu.
− Eu o sei muito bem. Hei de encontrar um meio de me conformar. Shura deve pagar pelo que fez. Ele próprio tem disso plena consciência.
− Bem, chegaremos à Antioquia em três semanas ou pouco mais. Crês que estará ele plenamente recuperado?
− Creio que sim. Tu viste o quão melhor está seu aspecto.
− Um homem cujos prazeres da carne têm a ventura de serem plenamente saciados melhora sobremaneira de aspecto e de espírito, não importa de que padeça.
O ex-camareiro corou de tal forma que, muito a contragosto, Milo não pôde suprimir um sorriso.
*************
Isaak não saía de perto do leito em que dormia seu amigo “Laurent” para nada além de suas necessidades. Ali ele se alimentava, com refeições trazidas por ninguém menos que um desdenhoso Orfeu. E ali mesmo, como um cãozinho dos mais fiéis, estirado sobre um tapete persa ao lado da cama. A bem dizer, mais confortável que o catre que ocupara anteriormente. Sabia que era um dos melhores camarotes da Gemini, pois que pertencera ao pai de Saga e Kanon. Contavam três dias e três noites que os dois rapazes o ocupavam; Thor carregara “Laurent”, inconsciente em seus braços, a mando de Kanon para a rica acomodação. Ali, Camus havia sido despido e lavado por Isaak, com cuidado e quase reverência. Em seguida, Dohko, entendido de ervas medicinais, cuidara dos ferimentos do ruivo, voltando de tempos em tempos para limpá-los e renovar as ministrações.
Entoando uma prece, Isaak retirara de seu pescoço o colar apreendido por Jamian e a si devolvido por Kanon, e colocara próximo a “Laurent”, movido pela fé de que a relíquia de família trouxesse o amigo amado de volta. Segurava-lhe as mãos por vezes, para se certificar de que elas ainda preservavam o calor da vida. No entanto, era sempre assustador como as mãos de “Laurent” invariavelmente mantinham-se tão frias! Isso obrigava o alarmado adolescente a conferir a respiração do jovem desacordado; só então se acalmava.
− Laurent, meu bom amigo Laurent, por que é que não acordas? Desperta, pois, abandona esse sono! – Pedia baixinho, aflito, segurando-lhe as mãos. – Acaso tencionas abandonar-me?
− Ele está a recuperar-se, pequeno. É mister munir-te de paciência.
− Capitão Kanon! – O norueguês ergueu-se de um salto.
Era como se o próprio Saga ali estivesse, a julgar pelos ricos trajes do novo líder da Gemini, que não costumava deles se servir. Trazia sobre o amplo peitoral um gibão de veludo negro, bem como joias do falecido irmão arrebatadas, uma túnica de pura seda marroquina de cor semelhante às pérolas que a adornavam. Também os cabelos, comumente soltos e revoltos ao sabor dos ventos que se abatiam sobre o tombadilho, viam-se presos com uma fita vermelho-sangue, da mesma forma que Saga por vezes usava. Apenas algo em seu sorriso demonstrava que se tratava do caçula e não do primogênito.
− Vim ver como estava Laurent. Apesar de ainda desacordado, tem melhor aspecto, vês? Decerto precisava deveras desse descanso.
− O que temo, meu senhor, é que ele, que já padecia pelos jejuns prolongados, se enfraqueça ainda mais, por não estar desperto para se nutrir com propriedade – Isaak ousou pontuar.
− Tolice! O sono é o melhor remédio para todas mazelas, pequeno! Depois, é claro, do calor do corpo de uma bela mulher... ou de um belo homem, tanto se me dá – Riu, antes com deboche do que com cumplicidade. – Por vezes, não nos é possível escolher. Crucial é saciar os anseios da carne!
O rapazinho nada respondeu. Tratava-se de um assunto que, longe de o atrair, evocava-lhe apenas lembranças de dor e humilhação... tudo isso mudara com a chegada de Laurent em sua vida.
Amava-o como a um irmão mais velho. Queria-lhe tão bem que poderia, facilmente, sacrificar-se por ele. Como que desvendando-lhe os pensamentos, Kanon pousou sobre o ombro de Isaak a mão repleta de anéis preciosos.
− Ele há de ficar bem, se tivesse de morrer, já teria morrido. – Enunciou com incomum gravidade. − Cessa, pois, de te preocupares.
− Sim, senhor – Murmurou o adolescente, mais por não encontrar o que dizer do que por autêntica concordância.
Com um grunhido anasalado, Kanon sinalizou que aquela conversa chegar ao seu fim. Retornou para o convés, onde os homens ainda festejavam a derrocada de Saga, já considerado por muitos um déspota. Bebiam, cantavam, bailavam e praguejavam contra a alma do destronado irmão do homem que a tudo considerava com um sorriso de satisfação. Complacente, Kanon tomou assento em uma cadeira estofada de veludo, aceitando um cálice de bebida. Comida, como era de se esperar, já não havia muita, porém, esperavam abastecer o navio com provisões na Sicília, a caminho do destino final, Antioquia. Dohko aproximou-se dele para indagar:
− Como está Laurent, senhor capitão?
Irônico, Kanon retrucou:
− Acaso preocupas-te com o executor daquele a quem servias com fidelidade canina, chinês?
− Laurent nunca foi meu inimigo, tampouco o é agora.
− Hunf. Para onde foi toda aquela severidade com a qual tratava o pobre diabo?
− Minha severidade por todos aqui é notória, senhor, bem como a justiça de meu proceder. Se fui excessivo com o francês, foi apenas para obedecer às ordens daquele que então estava no comando. − Embora encolhesse instintivamente os ombros, o capataz não parecia de fato intimidado, o que a Kanon indicou sinceridade. Ainda assim, o novo capitão insistiu, esvaziando o copo de que se servia:
− O que cumpriste com particular eficiência, o estado do rapaz confirma-o.
− Sou eficiente em seguir à risca toda e qualquer ordem de meus superiores, senhor capitão.
− Hum... é o que espero. – Murmurou, arrancando uma enorme coxa do ganso assado à sua frente depositado por um dos marujos. Mastigando a carne tenra e suculenta com inconteste gosto, apontou a coxa mordida para o capataz.
− Em um primeiro momento, pensei em atirar-vos, sectários do meu irmão néscio, ao mar. Contudo, fostes testemunhas do exigido por Laurent no trato comigo. Sede gratos a ele...
Deu nova mordida na carne, limpando a seguir os lábios engordurados com aguardente. E completou:
− Não me apraz ser um capitão que descumpre sua palavra perante seus tripulantes.
− “Perante seus tripulantes”... e fora do alcance de seus olhos?
− Como é? – Arqueou as sobrancelhas negras, surpreso com a questão.
Foi a vez de Dohko apertar os olhos inquisitivos.
− Tencionais, com efeito, libertar Laurent e Isaak, conforme o “trato” de que vos valeu o posto que agora orgulhosamente ocupais?
A ousadia de Dohko deixou o boquiaberto Kanon a princípio sem ação. Não apenas a ousadia... a aguda perspicácia. Quase uma clarividência.
Kanon recuperou o ar sanguíneo e sorriu ao responder:
− Naturalmente. Não te esqueças, entretanto, que o francês foi entregue à Gemini pelo Marquês de Aguilar para a ela servir às vésperas de nossa partida para Antioquia. Tão logo nossa missão seja cumprida e à Marselha retornemos, libertá-lo-ei.
− Se me permitis... não acredito que ides libertá-lo.
Subitamente sério, o capitão mirou-o.
− Começo a achar que fiz mal em não me livrar de ti. És assaz atrevido, capataz.
− Não o faríeis pelo mesmo motivo que não vos apartareis de Laurent: somos mais úteis a vós na Gemini do que fora dela.
− Hehehe, eis o porquê do mentecapto do Saga ter conservado a ti como braço-direito dele; além de eficientíssimo lacaio, és sagaz como poucos. Talvez, como ninguém.
Perto deles, Orfeu, que para a mesa posta diante de Kanon se dirigiu, sob ordens do chefe de cozinha, deixara ali uma travessa com um grande peixe assado; sem perceber, o jovem acabara por junto deles permanecer, pois que a menção do nome de “Laurent” o paralisara por completo. Havia cerrado os dentes, repleto de raiva. Quer dizer que além de “Laurent” não ter morrido, a despeito de sua petulante demanda, o usurpador o queria na embarcação?
Sem dar qualquer importância à presença do imóvel Orfeu, Kanon ergueu as mãos ao argumentar:
− Que capitão seria eu se me desfizesse do melhor espadachim no qual já pus estes belos olhos?
− Ele poderia voltar-se contra vós, com toda habilidade que vos impressionou, se soubesse que intentais quebrar vossa promessa de libertar a ele e o fedelho norueguês.
− Não pretendo convencê-lo à força, não sou néscio como teu antigo mestre, que agora é a refeição principal das bestas marinhas – Riu-se o novo capitão; voltou-se para Orfeu, finalmente: − E quanto a ti, belo mancebo? Não te decides também tu a me agradar? Achei que o rosto de teu antigo amado convencê-lo-ia a te mostrares mais amigável.
Um tanto nervoso, Orfeu fez uma desajeitada mesura.
− Perdoai este humilíssimo servo. Confesso que me encontro, ainda, sim, como que enlutado pelo meu... antigo mestre. Não obstante, asseguro-vos que saberei mostrar-me solícito tão logo seja necessário, meu senhor.
Apoiando o queixo com a mão repleta de anéis que outrora pertenceram a Saga, Kanon considerou-o de alto a baixo, com olhar e sorriso maliciosos.
− Pois muito que bem, por que não começas agora mesmo?
− Senhor...? – Balbuciou Orfeu.
− Despoja-te desse ar inóxio de donzela, já tivemos certos arranjos antes de teu “antigo mestre” cair morto neste mesmo convés em que pisam teus pés. – Falou Kanon, ao se erguer e segurar, despudoradamente, o que havia entre as próprias pernas. – Saciado meu estômago, devo, agora, saciar-me de outra maneira. Vem comigo.
− Ir com... com o senhor...?
− À minha alcova, me servir como serviste ao meu ignóbil e finado irmão.
Conquanto não fosse nenhuma “inóxia donzela” como chasqueara Kanon, Orfeu corou. O capitão Saga não se fazia tão ostensivo em suas propostas, decerto... contudo, a ideia de deitar-se com o novo capitão de forma alguma lhe desagradava, ao contrário. E por várias razões, dentre as quais não excluía a atração física. Aliás, era apenas o primeiro fator...
Dohko seguiu-os com o olhar. Resolveu, enfim, se servir dos manjares abandonados pelo capitão, entregue à reflexão sobre o futuro da Gemini... e de “Laurent”.
*************
Dois dias e duas noites mais escorreram-se no oceano até que Camus abrisse os olhos cor de avelã. Perdeu-se no teto de madeira luzidia, tão diferente do rústico que pairava sobre seu humilde catre, por longos minutos, envolto em uma névoa difusa de confusão. Surgiu diante de si o rosto álacre de Isaak.
− LAURENT! Por todos os santos, meu amigo, finalmente estás acordado!
Antes que pudesse esboçar qualquer reação, o ruivo sentiu sobre seu corpo o peso do rapaz, que o envolvia num abraço tão amistoso quanto desconfortável.
− Graças a Deus! Eu rezei dia e noite por ti! Estás a salvo! Estás a salvo!!!
− Não sei por quanto tempo mais, se segues a sufocar-me com tua alegria...
− Quê? E ei-lo a pilheriar! Deixa-me ver se tens febre, isso não é de teu feitio... bem... febre, com efeito, não tens.
Rindo fracamente, Camus esforçou-se por se levantar até ficar sentado no leito, tão mais macio e perfumado do que se lembrava...
Não reconheceu o aposento em que se encontrava. Saint-Doulchard...?
Não.
Não estava em Saint-Doulchard...
− Onde estou? Por quanto tempo eu...
− Este camarote pertenceu ao pai do capitão Saga. Quero dizer... – Isaak coçou a cabeça, incerto sobre como contar. – O novo capitão ordenou que te trouxessem para cá, a bem de teu completo restabelecimento.
− O... novo capitão? – Camus apertou os olhos com força, ante as lembranças que vinham.
− Sim, o novo capitão... Kanon, o irmão do... falecido capitão Saga.
Àquelas palavras, um arrepio percorreu o corpo dormente do jovem nobre.
− Falecido? Saga... por acaso... eu... e-eu... – Não ousou concluir.
Com expressão compungida, Isaak pôs suas mãos sobre as trêmulas e entrelaçadas do amigo.
− Não tiveste escolha. Ele não aceitou a derrota e investiu, traiçoeiramente, contra ti.
− Não... e-eu... eu não queria...
Cobriu o rosto com as mãos, impactado com as cenas que lhe vinham à mente.
De fato, não tivera escolha.
Ou melhor, entre morrer e sobreviver, ele ESCOLHERA sobreviver.
Matar foi o preço.
A bem dizer, sequer fora a primeira vez que matara um homem. Quantos, antes de Saga, ele abatera, quando do levante que se assomou? Que invadiu o quarto em que estava com o grego?
“No que é que me tornei?”
Tudo ao seu redor escureceu, Suspendeu a respiração, aturdido. Então, diante de si, um rosto alvo como as nuvens do céu, lábios rubros como os longos cabelos trançados por sobre as bastas madeixas que cascateavam por sobre o níveo colo arfante...
“Camille!”
ELA o encarou, em enigmático silêncio. Julgava-o?
Mas por quê?
Se ela e ele eram a MESMA pessoa?...
Estendeu, hesitante, a mão trêmula para tocar-lhe a face aveludada pelo pó de pérolas. Sentiu-se por sua vez tocado no rosto contundido, úmido pelo emplastro cujo aroma impregnava o ambiente.
− Laurent? Que tens? Acaso deliras?
Camus permaneceu emudecido, os lábios entreabertos, enquanto o adolescente novamente aferia-lhe a temperatura pela fronte.
− Não tens febre, creio eu. Contudo, pareceu-me que deliravas... que vias algo além do que aqui está.
Afastando a mão de Isaak com a sua já firme, Camus garantiu:
− Foi apenas uma impressão que tive.
− Não me assustes mais, peço-te!
Foi então que o nobre notou equimoses e hematomas pelos braços e pescoço do mais novo.
− Isaak! Por Deus! – Horrorizou-se, tomado pela lembrança de que Saga mandara o pobre rapazola para a “jaula”, não sem antes ordenar que lhe aplicassem castigos físicos...
Percebendo o olhar atemorizado do ruivo, Isaak apressou-se em dizer, forçando um tom despreocupado:
− Não te aflijas demasiado! O mesmo remédio em ti ministrado em minhas feridas foi habilmente aplicado.
− Maldito Saga...! Tu... foste punido unicamente por me ajudar!
− Já é passado, Laurent, meu bom amigo! O capitão Saga agora alimenta as bestas marinhas, e eu logo hei de ficar bom, assim como tu, com este bálsamo preparado por Dohko.
− Dohko? O capataz Dohko preparou o medicamento que tu aplicaste em nós? – Surpreendeu-se Camus. Passou a mão pelos curativos no peito e no braço.
− Ele é versado em habilidades curativas, imagina tu... conhece ervas medicinais como ninguém! Diz que são segredos passados de geração a geração na terra da qual veio, a China!
− China... bem que ele possui traços orientais assaz rasgados... por que ele nos ajudou?
O norueguês deu de ombros ao responder:
− Creio que ele não seja um homem mau. Rígido, por certo. Porém, uma vez que aquele a quem ele servia sucumbiu, possivelmente achou por bem mitigar nosso sofrimento, afinal, depois de tantas baixas na Gemini, o novo capitão não haveria de se agradar de mais perdas.
− Decerto que não – Murmurou Camus, recostando-se na cabeceira da rica cama, ao experimentar leve vertigem. Rememorou o acordo com Kanon, de repente.
− Ele prometeu nos libertar, Isaak. Fiz um acordo com ele.
− Sim, todos ouvimos. Mas... Laurent... para ONDE haveríamos de ir, tu e eu? Não passamos de dois párias... tu, entregue pelo teu antigo mestre... eu, rejeitado pela minha família... diz-me, para onde haveríamos de ir?!?
− É o que eu gostaria de saber, pequeno.
Ambos voltaram-se, em um sobressalto, para a porta aberta a revelar o recém-chegado.
− Capitão Kanon! – Murmurou Isaak, atônito.
− Alegra-me que tenhas recobrado a consciência, meu bravo Laurent. – Enunciou, postando-se diante do leito no qual o ruivo mantinha-se sentado.
Sem demonstrar qualquer sinal de intimidação, Camus forçou a garganta seca para falar, o que lhe valeu um acesso de tosse. Isaak prontamente acorreu, com um jarro de água. O novo capitão inclinou a cabeça, mirando-o de um jeito que não se saberia complacente ou sarcástico. Tão logo se recompôs, Camus não perdeu tempo:
− Capitão Kanon, já que estais aqui, rogo-vos que confirmeis, perante meu cético amigo, o trato que engendramos no momento que precedeu a morte de vosso irmão.
− Com muito gosto – Fez questão de encarar um pasmado Isaak. – Prometi a Laurent que se ele derrotasse Saga, eu conceder-lhe-ia a liberdade. Laurent exigiu que minha dádiva a ti se estendesse. Portanto, tu e ele já podeis considerar-vos homens livres.
− Pela Santa Mãe de Deus... – Murmurou o rapaz, unindo as palmas em volta do crucifixo dado pela mãe. – Laurent...
− Sim, ele é um amigo virtuoso e fidelíssimo a ti – Kanon fez de conta que adivinhava as palavras não enunciadas de Isaak.
− Heis de cumprir vossa palavra, deveras? – Inquiriu Camus.
− Naturalmente! Por quem me tomas?
− Cuido que, destarte, Isaak e eu podemos nos considerar... homens livres, não?
Kanon deu uma sonora gargalhada, ao que o nobre teve um frêmito de susto.
− Ora, aonde iríeis no meio do Mediterrâneo, podes dizer? És um formidável espadachim, todavia, careces de argúcia, garoto – Apontou para a própria cabeça, debochado. E o indicador tornou-se para Isaak. – Precisamos findar nossa jornada para que eu, enfim, deixe-vos partir, como passarinhos soltos de uma gaiola. Em outras palavras, tão logo regressemos à Marselha, podeis ir aonde vos aprouver. Agora, que tal responderes à questão, essa, sim, pertinente, de teu amiguinho?
Vendo a dúvida estampada na face de “Laurent”, Kanon bufou fingindo impaciência e esclareceu:
− Para onde haveríeis vós de ir?
Imperturbável, Camus respondeu:
− Creio que isso não seja de vossa conta.
− LAURENT! – Isaak quase caiu para trás com a audácia do ruivo. Não obstante, aquilo pareceu apenas divertir o capitão ainda mais.
− Hehehehehe, és realmente incauto, novato, dir-se-ia mesmo insolente. Com efeito, Saga jamais haveria de dobrar um homem como tu. Aconselhar-te-ia, entretanto, cautela; até alçares voo de tua gaiola, passarinho, estás em MINHA embarcação, lembra-te.
Ao perceber que a seriedade do convalescente não se arrefeceu, Kanon fez um muxoxo antes de resmungar:
− Não sei como meu parvo irmão enamorou-se de ti. És azedo como um limão. Sequer sustentas uns inocentes chistes.
Virou-se para Isaak:
− Vai já buscar de comer para Laurent, que deve estar esfaimado como os tubarões que se fartaram de meu irmão.
Com os olhos arregalados, o adolescente engoliu em seco e prontamente pôs-se, apressado, a caminho para obedecer. Tão logo se viu a sós com o novo capitão, Camus falou:
− Não importa que tenha sido um homem déspota e cruel, ele era vosso irmão; tal desrespeito aos mortos faz-se abominável. Que lucrais com tamanha leviandade?
− Oooh, perdoai-me, ALTEZA. Eis que olvido estar na magnânima presença de um nobre da corte francesa...
Esforçando-se por ignorar o disparo ensandecido de seu coração causado por aquela fala, Camus redarguiu, fleumático:
− É um novo chiste do qual devo rir?
− Não se trata de chiste, “alteza”. Bem o sabeis.
Todo poder de observação de Kanon era empregado para ler a expressão facial do jovem acamado: este mostrava-se impávido como quem triunfa em uma batalha, a despeito da tensão que emanava dos olhos cor de avelã.
− Sei que não eras um simples servo em teu país. Eras, antes, um NOBRE. Melhor dizendo, ÉS um nobre.
− Como haveria o Marquês de Aguilar entregar um nobre às galés, se nem em guerras estamos?
− Entendo que seria a única forma de um nobre entregar a outro a tão malfadado destino, tendo o segundo subjugado ao primeiro em uma guerra ou disputa legal. Estando a França em tempos de paz... posso inferir que o Marquês de Aguilar sequestrou um nobre, por motivos que obviamente desconheço e o entregou à Gemini.
Foi a vez de Camus rir, jogando a cabeça para trás.
− Que sandice! Não compreendo por que julgas que sou nobre. Por dominar a arte da espada? Pelos meus modos? Vocabulário? Oratória?
− Por isso e muito mais. É algo que EMANA de ti. Estou certo que Saga percebeu. Tens, ademais, o físico de quem jamais conheceu qualquer tipo de trabalho físico, braçal... até vir para cá.
Aprumando-se bem ereto, o francês alegou:
− Sim, ele percebeu. E a ele revelei que tenho, sim, como origem uma família nobre que, empobrecida após ações desafortunadas de nosso patriarca, entregou-me para ser criado pessoal do Marquês de Aguilar, com quem tinha negócios. A natureza de meus encargos no castelo de meu antigo senhor era francamente doméstica. Burocrática, se quiserdes entender assim.
− Hum... servos que trabalham tão próximos de seus senhores em geral conhecem-lhe segredos. De fato, na hora de te entregar a Saga, Shura contou que o fazia para te punir do crime de espionagem e posterior chantagem...
− Se ouvistes, ouvistes, pois.
− Pois eu NÃO acredito em nada do que ele disse. Tampouco no que a mim intentas reforçar.
Revirando os olhos em uma aberta demonstração de descaso, Camus permitiu-se recostar-se novamente na cabeceira da cama.
− Vosso ceticismo afetaria a palavra que empenhastes diante de Deus e de vossos homens?
− É claro que não...
− Ou, permiti que me coloque desta forma – Cravou em Kanon um olhar duro e frio como o metal das lâminas que sentenciaram o destino da Gemini – porventura minha procedência influencia no cumprimento de nosso trato?
− Deuses, não! – Disse o capitão, impaciente, o que era incomum. – Tão somente quis tecer algumas conjecturas, nada mais... faltam uns bons dez dias até que cheguemos à Sicília. Até lá, o tédio levar-me-á a tais caprichos, perdoai-me... “alteza”.
− Sicília? – Estranhou o nobre. – Achei que estivéssemos a caminho da Antioquia.
− É mister uma parada para reabastecimento de víveres e insumos. A jornada à Antioquia é demasiadamente longa para que seja feita em uma única etapa, tanto mais porque Saga racionou exageradamente a comida e a bebida da tripulação, em proveito próprio. E ainda queres que eu “respeite” a memória de semelhante ímprobo...
Sem encontrar inconstância naquele raciocínio, Camus viu-se obrigado a assentir em concordância.
− Folgo em aferir que nos entendemos – Declarou o capitão, triunfante.
− Sim, meu senhor.
Kanon levantou-se da cadeira e bateu as palmas, esfregando-as animado.
− Bem, come, bebe, descansa mais este dia e esta noite. Amanhã, hás de retornar ao trabalho.
− Sim, meu senhor – Repetiu Camus, fazendo o possível por se mostrar servil, embora já estivesse fatigado daquela conversa. – Agradeço-vos pela munificência em permitir a mim um pouco mais de repouso antes de eu voltar às galés.
Parado defronte à porta, para a qual se dirigira, Kanon virou-se com as sobrancelhas arqueadas e um ar divertido para o seu interlocutor.
− Às galés? Quem falou de voltares às galés?
− ...?
− A partir de amanhã, nobre Laurent, serás meu guarda principal, responsável pela minha segurança pessoal.
− Perdão?!?
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